sábado, 28 de maio de 2011

Os mandamentos de Jesus

No Evangelho deste domingo (Jo 14,15-21) será lido um trecho do longo discurso de despedida de Jesus na última ceia, onde é retomado o tema dos mandamentos de Jesus e sua observância. 

Ambiente – Estamos na noite de 6 de abril do ano 30, quinta-feira, na véspera da morte de Jesus na cruz, durante a “Ultima Ceia”, com todos os apóstolos. A decisão de matar Jesus já está tomada pelas autoridades judaicas e Jesus sabe-o. A morte na cruz é mais do que uma probabilidade: é o cenário imediato.

Discurso – Durante a Ceia, Jesus despediu-Se dos discípulos e fez-lhes as últimas recomendações. As palavras de Jesus soam a um “testamento final”: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo. Jesus fala-lhes, então, do caminho que percorreu (e que ainda tem de percorrer, até à consumação da sua missão e até chegar ao Pai); e convida os discípulos a seguir o mesmo caminho de entrega a Deus e de amor radical aos irmãos. 
 

Caminho – É seguindo esse “caminho” que eles se tornarão Homens Novos e que chegarão a ser “família de Deus”. Os discípulos, no entanto, estão inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como receberão d’Ele a força para doar, dia a dia, a própria vida?

Presente – No entanto, Jesus garante aos discípulos que não os deixará sós no mundo. Ele vai para o Pai; mas vai encontrar forma de continuar presente e de acompanhar, a par e passo, a caminhada dos seus discípulos. É preciso, no entanto, que os discípulos continuem a seguir Jesus, a manifestar a sua adesão a Ele, a amá-l’O. A consequência desse amor é o cumprir os mandamentos que Jesus deixou.
 

Paráclito – Como é que Jesus vai estar presente ao lado dos discípulos, dando-lhes a coragem para percorrer “o caminho” do amor e do dom da vida? Jesus fala no envio do “Paráclito”, que estará sempre com os discípulos. A palavra grega “paráklêtos”, utilizada por João, pertence ao vocabulário jurídico e designa, nesse contexto, aquele que ajuda ou defende o acusado. Pode, portanto, traduzir-se como “advogado”, “auxiliar”, “defensor”. A partir daqui, pode deduzir-se, também, quer o sentido de “consolador”, quer o sentido de “intercessor”.  

Espírito – No Novo Testamento, a palavra só aparece em João, onde é usada quer para designar o Espírito (Jo 14,26; 15,26; 16,7), quer o próprio Jesus (que no céu, cumpre uma missão de intercessão - cf. 1 Jo 2,1). O “Paráclito” que Jesus vai enviar é o Espírito Santo. Enquanto esteve com os discípulos, Jesus ensinou-os, protegeu-os, defendeu-os; mas, a partir de agora, será o Espírito que ensinará e cuidará da comunidade de Jesus.  

Duplo papel – O Espírito desempenhará um duplo papel: em termos internos, conservará a memória da pessoa e dos ensinamentos de Jesus, ajudando os discípulos a interpretar esses ensinamentos à luz dos novos desafios; por outro, dará segurança aos discípulos, guiá-los-á e defendê-los-á quando eles tiverem de enfrentar a oposição e a hostilidade do mundo.  

Órfãos – Depois de garantir aos discípulos o envio do “Paráclito”, Jesus reafirma aos discípulos que não os deixará “órfãos” no mundo. A palavra utilizada (“órfãos”) é muito significativa: no Antigo Testamento, o “órfão” é o protótipo do desvalido, do desamparado, do que está totalmente à mercê dos poderosos e que é a vítima de todas as injustiças. Jesus é claro: os seus discípulos não vão ficar indefesos, pois Ele vai estar ao lado deles.  

Comunhão – No dia em que Jesus for para o Pai e os discípulos receberem o Espírito, a comunidade descobrirá que faz parte da família de Deus (v. 20-21). Jesus identifica-Se com o Pai, por ter o mesmo Espírito; os discípulos identificam-se com Jesus, por ação do Espírito. A comunidade cristã está unida com o Pai, através de Jesus, numa experiência de unidade e de comunhão de vida entre Deus e o homem. Nesse dia, a comunidade será a presença de Deus no mundo: ela e cada membro dela convertem-se em morada de Deus, o espaço onde Deus vem ao encontro dos homens. Na comunidade dos discípulos e através dela, realiza-se a ação salvadora de Deus no mundo.

sábado, 21 de maio de 2011

As Aparições de Cristo Ressuscitado

Após os acontecimentos da Paixão, Jesus apareceu inúmeras vezes para os apóstolos, discípulos e todo o povo. Depois de 40 dias, aconteceu a ascensão aos céus, não havendo mais relatos de aparições. 

Quantas foram as aparições – Vamos enumerar as aparições de Jesus citadas na Bíblia. Pegue sua Bíblia e confira. 

O que é aparição? – Inicialmente devemos definir claramente o que é aparição. Esta resposta pode ser orientada pela afirmação de Lucas em At 1,3: "É a eles que Jesus se apresentava vivo após a sua Paixão; tiveram mais de uma prova disto, enquanto, durante quarenta dias, Ele lhes aparecera e mantivera conversação com eles sobre o Reino de Deus". Portanto são consideradas aparições apenas as situações em que Jesus conversou, respondeu perguntas, comeu, instruiu, foi tocado; estas aparições aconteceram nos 40 dias seguintes a sua Paixão, ou seja, entre os dias 7 de abril e 17 de maio do ano 30. Após a ascensão aos céus ocorreram apenas visões, expressadas de diversas formas (clarão de luz, em sonho, etc.). 

Quantas foram? A Bíblia descreve um total de 11 aparições: nove citadas nos Evangelhos e duas nas Cartas de São Paulo.


Aparições descritas nos Evangelhos:

1 – a Madalena e às mulheres no túmulo - Mt 28,9-11; Jo 20,13-18; Mc 16,9-11;

2 – aos 11 na montanha da Galiléia - Mt 28,16-20; Mc 16,15 (talvez 1Cor 15,5);

3 – aos discípulos de Emaús - Lc 24,13-35; Mc 16,12;

4 – aos 11 apóstolos durante uma refeição – Lc 24,36-43; Mc 16,14; At 1,4-5; At 10,41 (talvez 1Cor 15,5);

5 – aos discípulos sem Tomé - Jo 20,19-23 (talvez 1Cor 15,5);

6 – aos discípulos com Tomé - Jo 20,24-29; (talvez 1Cor 15,5);

7 – à beira do lago - Jo 21,1-23 (talvez At 10,41);

8 – a Simão - Lc 24,34; 1 Cor 15,5;

9 – na ascensão aos céus, em Betânia - Lc 24,50-53; Mc 16,19; At 1,8


Aparições descritas nas cartas de Paulo:

10 – a mais de quinhentas pessoas - 1Cor 15,6;

11 – a Tiago - 1Cor 15,7;


Algumas Visões (não consideradas como aparições):

1 – Visão de Paulo no caminho para Damasco no ano 37 – At 9,3; At 22,6; At 26, 12; 1Cor 15,8; 1Cor 9,1; Gal 1,12;

2 – A visão de Ananias no ano 37 – At 9, 10-16;

3 – A visão de Paulo no Templo em Jerusalém em abril do ano 58 – At 22,18;

4 – Outra visão de Paulo em Jerusalém em abril do ano 58 – At 23, 11;

5 – A visão de João citada em Ap 1,9s, escrito entre os anos 95 e 100. 

Algumas observações – As citações em Mt 28,5; Mc 16,5; Lc 24,4 são apenas aparições de anjos.

sábado, 14 de maio de 2011

O Bom Pastor

O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do “Bom Pastor”. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.

Símbolo – A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do 4º Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente Ez 34 (onde se encontra a chave para compreender a metáfora do “pastor” e do “rebanho”). Falando aos exilados da Babilónia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”, que conduziram o Povo por caminhos de morte e de desgraça; mas – diz Ezequiel – o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo; Ele porá à frente do seu Povo um “Bom Pastor” (o “Messias”), que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida.

Partes – O texto do Evangelho, que hoje nos é proposto, está dividido em duas partes, ou em duas parábolas. Na primeira parábola (Jo 10,1-6), Jesus apresenta-se preferencialmente como “o Pastor”, cuja ação se contrapõe a esses dirigentes judeus que se arrogam o direito de pastorear o “rebanho” do Povo de Deus, mas sem serem “pastores”.

Judeus – Jesus não usa meias palavras: os dirigentes judeus são ladrões e bandidos, que se servem das suas prerrogativas para explorar o Povo (ladrões) e usam a violência para o manter sob a sua escravidão (bandidos). Aproximam-se do Povo de Deus de forma abusiva e ilegítima, porque Deus não lhes confiou essa missão (“não entram pela porta”): foram eles que a usurparam. O seu objetivo não é o bem das “ovelhas”, mas o seu próprio interesse.

Jesus – Ao contrário, Jesus é “o Pastor” que entra pela porta: ele tem um mandato de Deus e a sua missão foi-Lhe confiada pelo Pai. Em Ezequiel, o papel do “pastor” correspondia, em primeiro lugar, a Deus e ao enviado de Deus, o “Messias” descendente de David. Ao apresentar-se como Aquele “que entra pela porta”, com autoridade legítima, Jesus declara-Se o “Messias” enviado por Deus para conduzir o seu Povo e para guiá-lo para as pastagens onde há vida em plenitude. Ele entra no redil das “ovelhas” para cuidar delas, não para explorá-las.

Pastor – Como é que Jesus exercerá a sua missão de “pastor”? Em primeiro lugar, irá chamar as “ovelhas”. “Chama-as pelo seu nome”, porque conhece cada uma e com cada uma quer ter uma relação pessoal. Não obrigará ninguém a responder-Lhe; mas os que responderem ao seu chamamento farão parte do seu “rebanho”. Depois, o “pastor” caminhará “diante das ovelhas” e estas  lhe seguirão. Ele indica-lhes o caminho, pois Ele próprio é “o caminho” (Jo 14,6) que leva à vida plena.

Porta – Na segunda parábola (Jo 10,7-9), Jesus apresenta-Se como “a porta”. Aqui, Ele já não é o pastor legítimo que passa pela porta, mas “a porta”. Significa que Jesus é o único lugar de acesso para que as “ovelhas” possam encontrar as pastagens que dão vida. “Passar pela porta” que é Jesus significa aderir a Ele, segui-lo, acolher as suas propostas. As “ovelhas” que passam pela porta que é Jesus (isto é, que aderem a Ele) podem passar para a terra da liberdade (onde não mandam os dirigentes que exploram e roubam), onde encontrarão “pastos” (vida em plenitude).

Vida – O nosso texto termina com a reafirmação do contraste entre Jesus e os dirigentes: os líderes religiosos judaicos utilizam o “rebanho” para satisfazer os seus próprios interesses egoístas, despojam e exploram o povo; mas Jesus só procura que o seu “rebanho” encontre vida em plenitude.

sábado, 7 de maio de 2011

A CAMINHO DE EMAÚS...

No Evangelho das missas deste domingo será lido o trecho da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús.  Vamos examinar a descrição de Lucas. 

A Aparição – Era o domingo da ressurreição. Dois discípulos caminhavam de Jerusalém para a aldeia de Emaús, distante 12 quilômetros. Durante as duas horas de caminhada, comentavam os fatos ocorridos naquele dia. Jesus se aproxima, passa a caminhar com eles e, puxando a conversa, pergunta sobre o que discutem.  Eles não reconhecem Jesus. Cléofas, admirado, lhe diz que ele deve ser a única pessoa em Jerusalém que não sabe o que aconteceu com Jesus Nazareno. Jesus lhes descreve toda a história da salvação, começando por Moisés, passando por toda a Escritura. Ao chegar à casa de um deles, Jesus distribuiu o pão, sendo reconhecido por eles. Os discípulos voltaram para Jerusalém para contar aos apóstolos o que tinha acontecido. 

Jerusalém – O relato vai da Jerusalém do desalento e, percorrendo um caminho de diálogo, termina na Jerusalém da alegria. O momento negativo do episódio não é a ausência de Jesus, mas a impossibilidade de reconhecê-lo. O companheiro desconhecido de viagem havia provocado nos dois caminhantes uma reflexão que tinha como base a experiência da convivência com Jesus. Essa reflexão levara-os a constatar duas contradições: Jesus fora profeta poderoso, mas isso não impedira que fosse julgado, condenado e crucificado; além do mais, como ele demonstrara ser tão poderoso, os dois discípulos confiaram na redenção de Israel, mas, transcorridos três dias desde a morte do Mestre sem que nada acontecesse, sepultaram suas esperanças.  

Jesus ensina – Jesus lembra os desanimados; por sua pouca perspicácia e pela lerdeza de seus corações, não souberam interpretar os acontecimentos à luz dos Profetas, razão pela qual empenha-se ele próprio em evocar as profecias e interpretá-las. Aquele que os discípulos chamavam “profeta” agora é “o Cristo”, e quem fora condenado à morte pela cruz agora entra em sua glória. Os discípulos, entretanto, pedem àquele que lhes parecera ser um “forasteiro” em Jerusalém, que “fique” com eles quando chegam ao final da jornada.  

Ritual Eucarístico – O último ato dessa longa passagem é uma acurada descrição do comportamento de Jesus: como se senta à mesa, toma o pão, abençoa-o, parte-o e o distribui. Por fim os discípulos reconhecem Jesus, que desaparece repentinamente. E o momento positivo daquela experiência, cuja conclusão não é a presença visível de Jesus, mas uma ação que tem todas as características de um ritual, é acompanhada pelo fervor do coração e pela revelação do sentido das Escrituras, tendo um epílogo em Jerusalém, onde vão prestar testemunho aqueles que haviam visto Jesus ressuscitado. 

Jesus Presente – O episódio de Emaús é uma grandiosa síntese de ausência e presença, morte e vida, cruz e glória, solidão e encontro, fuga renunciadora e retorno anuncia­dor. Emaús é uma cena de presença de Jesus. Não tem como resultado nenhuma missão específica, porque, logo depois, ocorre outra grande aparição a todos os apóstolos reunidos (Lc 24,36-49). O episódio de Emaús tem implícito, porém, um grande ensinamento: os dois discípulos simbolizam, para Lucas, toda a comunidade cristã. Tal como os discípulos, a comunidade experimenta a ausência de Jesus — uma ausência misteriosa, porque na realidade Jesus caminha ao lado de seus discípulos, embora se mantenha incógnito. As Escrituras — interpretadas pelo próprio Jesus — e a Igreja prestam testemunho de sua existência. 

Escrituras e Eucaristia – As Escrituras não são, entretanto, o elemento conclusivo: reconfortam o coração, mas o reconhecimento só se dá quando o pão é parti­do. O encontro no rito não restabelece a presença física como durante a vida terrena de Jesus porque se resolve com uma nova ausência. É exatamente o que acontece na Igreja, beneficiada pela Comunhão no mistério e afligida por uma ausência que só se resolve na Eucaristia.

sábado, 30 de abril de 2011

JESUS APARECE AOS DISCÍPULOS

No Evangelho deste domingo (Jo 20, 19-31) Jesus aparece aos discípulos reunidos no domingo da ressurreição. É a comunidade de homens novos, que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus: a Igreja. A sua missão consiste em revelar aos homens a vida nova que brota da ressurreição. 

Jesus é o centro – O texto que nos é proposto divide-se em duas partes bem distintas. Na primeira parte (v. 19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Depois de sugerir a situação de insegurança e de fragilidade em que a comunidade estava (o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”), o autor deste texto apresenta Jesus “no centro” da comunidade (v. 19b).  

Jesus é a referência – Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto de referência, fator de unidade, videira à volta da qual se enxertam os ramos. A comunidade está reunida à Sua volta, pois Ele é o centro onde todos vão beber essa vida que lhes permite vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.  

Jesus Vencedor – A esta comunidade fechada, com medo, mergulhada nas trevas de um mundo hostil, Jesus transmite duplamente a paz (“shalom” hebraico, no sentido de harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança, vida plena). Assegura-se, assim, aos discípulos que Jesus venceu aquilo que os assustava (a morte, a opressão, a hostilidade do mundo) e que, doravante, eles não tinham qualquer razão para ter medo.

Jesus Vivo – Depois (v. 20a), Jesus revela a sua “identidade”: nas mãos e no lado trespassado estão os sinais do seu amor e da sua entrega. Nesses sinais de amor e de doação é que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele será sempre o Messias que ama e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade.

Jesus dá vida nova – Em seguida (v. 22), Jesus “soprou” sobre os discípulos reunidos à sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7 (quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o “sopro” de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem – como Jesus – dar-se generosamente aos outros. É este Espírito que constitui e anima a comunidade de Jesus.

Experiência de fé – Como é que se chega à fé em Cristo ressuscitado? Na segunda parte do texto, o evangelista João responde, contando o episódio de Tomé.

Tomé – Tomé representa aqueles que vivem fechados em si próprios (ele está fora) e que não faz caso do testemunho da comunidade, nem percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam. Em lugar de se integrar e participar da mesma experiência, pretende obter (apenas para si próprio) uma demonstração particular de Deus.
Tomé acaba, no entanto, por fazer a experiência de Cristo vivo no interior da comunidade. Por quê? Porque no “Dia do Senhor” volta a estar com a sua comunidade.
 

Domingo – É uma alusão clara ao Domingo, ao dia em que a comunidade é convocada para celebrar a Eucaristia: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre Jesus ressuscitado. A experiência de Tomé não é exclusiva das primeiras testemunhas; todos os cristãos de todos os tempos podem fazer esta mesma experiência.

sábado, 23 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO E VIDA ETERNA

Felicidade a todo custo - Hoje em dia existe, mesmo entre os cristãos, uma forte tendência a esquecer de que a nossa realização definitiva não pode acontecer nesta vida. Todo mundo quer ser feliz aqui e agora. A promessa da vida eterna, depois da morte, não diz nada à maioria das pessoas. Para muitos, na prática, não existe outra vida e, por isso, entendem que é preciso aproveitar esta o mais possível. São até pessoas ‘religiosas’ e pedem favores a Deus, para serem felizes, sem perceber que Deus mesmo é a nossa felicidade: sentem falta de tudo, menos de Deus. Procuram com muito esforço subir na vida, melhorar sua situação, garantir o futuro, coisas, aliás, que não são erradas. Mas não buscam em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça. Por isso, sempre estão insatisfeitos, porque só Ele pode saciar o coração humano. 

Felicidade autêntica - Justamente por causa dessa mentalidade materialista é que a mensagem da ressurreição de Jesus é plenamente atual. É muito triste contentar-se com ser bem sucedido aqui na terra, ter uma vida próspera e sossegada. Mesmo os gestos de solidariedade, a luta por uma sociedade mais justa, se não são envolvidos pela esperança da vida eterna, não são capazes de dar sentido à nossa existência. A morte destrói todos os sonhos ou realizações humanas. É preciso abrir os olhos das pessoas para um horizonte mais largo, para o horizonte infinito das promessas de Deus. No fundo, todos aspiramos por uma felicidade sem limites, mas ela é inatingível nas condições da vida presente. É impossível transformar esse mundo num paraíso. 

Ressurreição - A fé na ressurreição de Jesus nos orienta para o mundo novo. Mostra que a vida não acaba com a morte. É apenas o caminho para chegar a nosso destino eterno. Quem crê na ressurreição compreende que Deus é o nosso verdadeiro destino. Só o encontro final com ele, para além da morte, vai libertar-nos das limitações da existência atual. Como Jesus, também nós somos chamados a viver para sempre em companhia Daquele que é a verdade, a beleza, o amor infinito. O amor que une o Pai e o Filho numa comunhão total é a fonte de sua felicidade eterna. E é esta alegria sem fim que ele promete a todos que acreditam na sua ressurreição. 

Resignação? Será que pondo a esperança na ressurreição, os cristãos não acabam se resignando com as misérias e injustiças desta vida, em vez de procurar melhorar o mundo? A idéia de uma salvação depois da morte levou muitas vezes os cristãos a aceitar passivamente as dificuldades desta vida. Alguns pensavam mesmo que quanto mais sofressem nesta vida, mais méritos teriam para a vida eterna. Não sabiam dar valor aos bens deste mundo, vendo neles um impedimento para chegar a Deus. Mas esta resignação e suspeita em relação às coisas deste mundo é uma deformação da mensagem de Jesus. 

O mundo material é limitado - O mundo criado por Deus é bom: cabe a nós a responsabilidade de utilizar os recursos da natureza e organizar as relações sociais, para que todos possam sentir-se bem e conviver pacificamente na Terra. As coisas materiais, porém, jamais poderão saciar completamente o nosso coração. É para esta limitação que Jesus aponta quando diz: Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma? O que faz a grandeza e a felicidade do homem não é ter mais, mas ser mais, pela doação de si mesmo ao outro no amor. Tudo o que podemos possuir aqui na terra termina com a morte. Só o amor permanece para sempre. Por isso as coisas desta vida só adquirem um valor definitivo à medida que são postas a serviço do amor. 

Fé na ressurreição - É a fé na ressurreição de Jesus que permite viver o amor: a esperança na vida eterna liberta do apego aos bens. Não se trata de desprezá-los, pois são um dom precioso de Deus, mas o próprio Deus vale muito mais que os seus dons. Por isso, quem crê na ressurreição está disposto, como Jesus, a qualquer sacrifício para ser fiel ao amor. Longe de afastar o cristão de sua responsabilidade para com o mundo presente, esta certeza lhe dá a força de comprometer-se, tornando-o capaz de partilhar, de renunciar a qualquer privilégio, a entregar a própria vida para ajudar os outros a viver mais plenamente. O cristão valoriza a vida presente, mas sabe que ela é apenas o caminho para chegar a nosso destino eterno. 

A vida eterna começa com a morte? "Nisso consiste a vida eterna, em conhecer a ti, verdadeiro e único Deus, e a Jesus Cristo, teu enviado". "Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou tem a vida eterna e não será julgado, mas passou da morte à vida". A vida eterna para aqueles que crêem em Jesus, assim, não começa depois da morte, mas agora. O termo "eterna" não significa, portanto, uma duração infinita, mas o valor e qualidade da vida, que Jesus oferece: uma vida como a do próprio Deus, uma vida de amor. Jesus ressuscitado nos comunica esta vida divina com o dom de seu Espírito de Amor. Quem aceita o oferecimento de Jesus e acredita Nele e na sua Palavra começa a viver desde já esta vida nova.  

Ao crer, já estamos na vida eterna? Por enquanto esta vida eterna ainda não desenvolveu todas as suas potencialidades. O amor não penetrou em todas as dimensões de nosso ser. Não conseguimos realizar todo o bem que desejamos por causa das resistências que encontramos em nós mesmos e no mundo que nos cerca. Mas quem persevera na fé e no amor até o fim, viverá para sempre em comunhão com Deus: ele, que é amor e eternamente fiel, não pode abandonar quem se entregou inteiramente em suas mãos. A nossa existência terrestre acabará com a morte. Mas o Espírito de amor, que enchia o nosso coração, renovará todo o nosso ser, para que possamos viver eternamente a plenitude do amor e da felicidade na comunhão com Deus e com todos os que o amam.

sábado, 16 de abril de 2011

Os últimos dias de vida de Jesus

Apresentamos hoje, em preparação à semana que antecede a Páscoa, os acontecimentos que marcaram a última semana e a Paixão de Jesus.  

Março do ano 30 – No final de março do ano 30, Jesus fez a sua última viagem para Jerusalém. Ele e seus discípulos viajaram da Galiléia, passando pela Peréia (além Jordão), evitando a região da Samaria. Durante essa viagem, curou dez leprosos (Lc 17,11), discutiu com os fariseus sobre o casamento (Mt 19,3) e ensinou os companheiros com as parábolas da viúva e do juiz, do fariseu e do publicano (Lc 18,9) e dos operários da vinha. Falou sobre o juízo final, recebeu as crianças e conversou com o jovem rico (Lc 18, 15-30). 

Em Betânia – Jesus chegou a Betânia na sexta-feira (Jo 12,1), dia 31 de março do ano 30, e foi jantar na casa de seu amigo Lázaro (que havia revivido) e das irmãs Marta e Maria. Betânia era uma aldeia a Leste do monte das Oliveiras, a cerca de três quilômetros de Jerusalém. Nesta noite, Maria lavou os pés de Jesus com um perfume caro e os enxugou com os cabelos; foi repreendida por Judas Iscariotes. Nesta mesma noite, Jesus fez (pela terceira vez) a predição de sua Paixão, recebeu o pedido dos filhos de Zebedeu e contou a parábola das minas e dos talentos. 

Sábado – 1º de abril – No sábado, Jesus e seus discípulos seguiram de Betânia para Jerusalém. Quando passavam por Betfagé, perto do Monte das Oliveiras, Jesus pediu que dois discípulos fossem ao povoado e trouxessem um jumentinho que estava amarrado. Montado no jumentinho, Jesus fez a entrada triunfal em Jerusalém, aclamado pelo povo, que o saudava com ramos. Neste mesmo sábado, Jesus visitou o Templo, expulsando os vendedores, derrubando as mesas e cadeiras dos cambistas. Voltou para Betânia, onde passou a noite (Mt, 21,17). No domingo (2 de abril), Jesus descansou. Em uma de suas caminhadas, encontrou uma figueira estéril e proclamou o ensinamento sobre a fé (Mt 21,18). 

3 e 4 de abril – Na segunda e terça-feira, Jesus voltou a Jerusalém. No Templo, foi interrogado pelos fariseus sobre a sua missão, sobre a sua autoridade (Mt 21,23) e sobre o tributo a César (Mt 22,15). Conversando com os discípulos, Jesus contou as parábolas dos dois filhos (Mt 21,28) e dos vinhateiros (Mt 21,33) e apresentou a oferta da viúva pobre (Mc 12,41). Ao sair, mostrou a grandiosa obra do Templo, fazendo um discurso (conhecido como Apocalipse sinótico) sobre a sua destruição, a grande tribulação e a vigília (Mt 24). A quarta-feira (5 de abril) foi marcada pela traição de Judas (Mt 26,14; Lc 22,1). 

Quinta-feira – O dia 6 de abril começou com a preparação para a Páscoa (Mt 26,17). Os discípulos foram até a cidade e prepararam a Páscoa na casa de um conhecido deles. Ao cair da tarde, Jesus se reuniu com os doze apóstolos e, enquanto comiam, anunciou que seria traído. Judas deixou o cenáculo (Mt 26,20). Em seguida, Jesus lavou os pés dos apóstolos (Jo 13,1), instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio (Mt 26,28), entregou o novo mandamento (Jo 13,33), predisse as negações de Pedro (Mt 26,31) e fez o sermão da despedida (Jo 14,16). Em seguida, Jesus e os apóstolos saíram do Cenáculo, deixando a cidade, em direção a Betânia, até um horto chamado Getsêmani. Ali Jesus agonizou, enquanto os apóstolos dormiam (Mt 26,36). 

Sexta-feira, 7 de abril – De madrugada, no Getsêmani, Jesus foi preso e conduzido ao palácio de Caifás (Sumo Sacerdote). Em seguida, Jesus foi conduzido ao Sinédrio (tribunal religioso judaico, composto de 71 membros), onde os escribas e anciãos estavam reunidos. Pedro negou conhecer Jesus (Mt 26,47). Na manhã, como o Sinédrio não tinha o poder de condenar as pessoas, levaram Jesus para Pilatos (governador da Judéia, representante do Império Romano), pedindo a sua condenação à morte. 

Indecisão – Pilatos interrogou Jesus e não encontrou nenhuma causa de condenação. Sabendo que Jesus era galileu, Pilatos encaminhou-o para Herodes Antipas, que se encontrava na cidade. Herodes também, não encontrou nenhuma causa para condenação de Jesus (Lc 23,6). Novamente foi levado para Pilatos que, lavou as mãos, condenando Jesus e soltando Barrabás. Jesus recebeu uma coroa de espinhos e foi condenado à crucificação, caminhando até um lugar chamado Gólgota.  

Crucificação – Ao meio-dia do dia 7 de abril do ano 30, Jesus foi crucificado ao lado de dois ladrões: Dimas e Gestas (Lc 23,23). Em sua cruz foi escrita a causa da condenação (INRI): “Yehoshuah Nazoreus, Rex Youdeus” (Jesus Nazareno, rei dos Judeus). Jesus morreu às 3 horas da tarde (Mt 27,45) e, antes do pôr do sol, foi sepultado por José de Arimatéia (Mt 27,57). No sábado (8 de abril) nada acontece, pois era o dia de Páscoa dos Judeus. 

Domingo – No domingo, 9 de abril do ano 30, Maria Madalena (e outras pessoas) foram ao túmulo de Jesus e encontraram a pedra rolada. Voltaram e contaram para os apóstolos. Pedro e João foram ao túmulo e encontraram apenas faixas e panos (Jo 20). No mesmo dia Jesus apareceu para os apóstolos (sem Tomé) e para os discípulos de Emaús (Lc 24,13).