sábado, 7 de agosto de 2021

Jesus, pão da vida eterna

 


No Evangelho das missas deste domingo (Jo 6, 41-51), Jesus continua a sua missão na Galiléia. Estamos no mês de abril do ano 29, exatamente um ano antes da crucificação, morte e ressurreição de Jesus.

 Nos domingos anteriores – Vimos que Jesus multiplicou os pães para mais de cinco mil homens nas proximidades da cidade de Betsaida; em seguida, entrou na barca com os apóstolos em direção à cidade de Cafarnaum (durante a viagem no Lago de Genesaré ou Mar da Galiléia, aconteceu uma tempestade e Jesus andou sobre as águas); ao chegarem à Cafarnaum foram seguidos por uma multidão; ao falar para a multidão se declarou como “o pão da vida”.

 Judeus – No texto deste domingo, Jesus continua na cidade de Cafarnaum, provavelmente em uma sinagoga, no sábado, discutindo com os judeus. Estes contestavam as palavras de Jesus ("Eu sou o pão que desceu do céu") e comentavam: "Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?"

 Resposta – E Jesus respondeu: “Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer nunca morrerá. Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo".


Discurso – Este trecho é conhecido como o discurso de Jesus sobre o "Pão da Vida". O gancho que o evangelista João usa para “pendurar” o discurso, é o pedido dos judeus (no versículo 35), "Senhor, dá-nos sempre desse pão". Em resposta, Jesus começa o seu grande discurso, que se divide em duas partes. Na primeira parte (41-51), João apresenta o ensinamento de Jesus sobre o pão celestial que nos nutre. A segunda parte está nos versículos 52 a 58, que não serão lidos neste domingo.

 Paralelo – Jesus faz uma comparação entre o povo de Israel no deserto e os judeus de seu tempo: como os seus antepassados se queixavam, no deserto, contra o pão que Deus mandava (o maná), agora eles queixavam-se do Novo Maná. Os judeus (aqui se entende as autoridades judaicas e não o povo judeu) diziam conhecer a origem de Jesus, porque só pensavam na sua família, e Jesus mostra que, na verdade, não a conheciam, pois eles não conheciam o Pai, a sua verdadeira origem.

 Julgamento final – No versículo 47 (“em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna”), o evangelista João revela uma característica de seus textos: a escatologia realizada. Enquanto, para os Sinóticos, o juízo é algo que acontece no último dia, para João, freqüentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou já está condenada, pela sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus.

 Última Ceia – No final, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da eucaristia "O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida" (versículo 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregue a sua carne como alimento da vida eterna.

 Alimento – Ser atraído por Jesus e crer nele é segui-lo, na adesão concreta ao projeto de Deus. Alimentar-se de Jesus é contemplá-lo e seguir seus passos. Na bondade, na compaixão e no perdão, na fraternidade comunitária e na solidariedade social, na busca da justiça e da paz entra-se em comunhão com Jesus, Pão da Vida Eterna.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O PÃO DOS CÉUS

  


No Evangelho deste domingo, Jesus se apresenta como o Pão que desceu dos Céus.

 Sinais – No Evangelho de São João, o autor nos apresenta cinco catequeses (usadas pela comunidade que gerou o texto) com características comuns: Jesus se apresenta como Messias usando diferentes símbolos e é manifestada a oposição dos judeus ao Jesus/Messias. Essas catequeses são: Em Jo 4,14 Jesus é a “água que dá a vida” ; em Jo 6,1s Jesus é o “verdadeiro pão que sacia todas as fomes”; em Jo 8,12 Jesus se apresenta como “a luz que liberta o homem das trevas”; em Jo 10,1s Jesus é o “Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas”; e em Jo 11,1 Jesus dá “vida e ressurreição para o mundo”.

 

Controvérsia – O texto deste domingo apresenta-nos uma dessas histórias de confronto entre Jesus e os judeus. No final do discurso explicativo da multiplicação dos pães e dos peixes, pronunciado na sinagoga de Cafarnaum (Jo 6,22-40), Jesus apresentara-se como “o Pão da vida” e convidara os seus interlocutores a aderirem à sua proposta para nunca mais terem fome. O texto de João 6, 41-51 fala sobre a seqüência desse episódio, referindo-se à murmuração dos judeus a propósito das palavras de Jesus e descreve a controvérsia que se seguiu.

Filho de José e Maria – Os interlocutores de Jesus não aceitam a sua pretensão de Se apresentar como “o pão que desceu do céu”. Eles conhecem a sua origem humana, sabem que o seu pai é José, conhecem a sua mãe e a sua família; e, na sua visão, isso exclui uma origem divina. Assim, eles não podem aceitar que Jesus tome para si a pretensão de trazer aos homens a vida de Deus.

 

Pão de Deus – Em lugar de discutir a questão da sua origem divina, Jesus prefere denunciar aquilo que está por detrás da atitude negativa dos judeus face à proposta que lhes é feita: eles não têm o coração aberto aos dons de Deus e recusam-se a aceitar os desafios de Deus… O Pai apresenta-lhes Jesus e pede-lhes que vejam em Jesus o “pão” de Deus para dar vida ao mundo; para aqueles que, efetivamente, O querem aceitar como “o pão de Deus que desceu do céu”, Jesus traz a vida eterna. Ele “é”, de fato, o “pão” que permite ao homem saciar a sua fome de vida (“Eu sou o pão da vida”). A expressão “Eu sou” é uma fórmula de revelação (correspondente ao nome de Deus – “Eu sou aquele que sou” – tal como aparece em Ex 3,14) que manifesta a origem divina de Jesus e a validade da proposta de vida que Ele traz.

 

Pão e Maná – Essa vida que Jesus está disposto a oferecer não é uma vida parcial, limitada e finita; mas é uma vida verdadeira e eterna. Para sublinhar esta realidade, Jesus estabelece um paralelo entre o “pão” que Ele veio oferecer e o maná que os israelitas comeram ao longo da sua caminhada pelo deserto… No deserto, os israelitas receberam um pão (o maná) que não lhes garantia a vida eterna e definitiva e que nem sequer lhes assegurava o encontro com a terra prometida e com a liberdade plena; mas o “pão” que Jesus quer oferecer ao homem, levará o homem a alcançar a meta da vida plena. “Vida plena” não indica aqui, apenas, um “tempo” sem fim; mas indica, sobretudo, uma vida com uma qualidade única, com uma qualidade ilimitada – uma vida total, a vida do homem plenamente realizado.

 

Carne – Jesus vai dar a sua “carne” (“o pão que Eu hei de dar é a minha carne”) para que os homens tenham acesso a essa vida plena, total, definitiva. A “carne” de Jesus é a sua pessoa – essa pessoa que os discípulos conhecem e que se lhes manifesta, todos os dias, em gestos concretos de amor, de bondade, de solicitude, de misericórdia. Essa “pessoa” revela-lhes o caminho para a vida verdadeira: nas atitudes, nas palavras de Jesus, manifesta-se historicamente ao mundo o Deus que ama os homens e que os convida, através de gestos concretos, a fazer da vida um dom e um serviço de amor.

sábado, 24 de julho de 2021

São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus


No dia 26 de julho a Igreja comemora São Joaquim e Sant’ana, pais de Maria Santíssima e avós de Jesus. Também se comemora o Dia dos Avós. Não se sabe muito sobre a vida de ambos, pois passaram a ser citados a partir do século II. As poucas informações que se tem são encontradas na tradição judaica, fontes históricas e textos apócrifos. Algumas delas são aceitas na liturgia da Igreja Católica, mesmo não constando nos Evangelhos:

 

O pai de Maria – Joaquim era um homem muito rico que vivia atormentado por não ter filhos, algo muito importante para os judeus, pois esperavam a chegada do messias, como previam as sagradas profecias. Joaquim estava tão angustiado que se retirou para o deserto e jejuou 40 dias e noites para que suas preces fossem atendidas.

 

A mãe de Maria – Ana lamentava a sua esterilidade, pois, como toda esposa judia, esperava que dela nascesse o Salvador, para servir aos desígnios de Deus, se assim Ele o desejasse. Por isso a esterilidade causava sofrimento e vergonha e é nessa situação constrangedora que se encontrava o casal.


 Concepção – Um anjo de Deus apresentou-se a Ana, dizendo que o Senhor ouviu seus pedidos e que ela daria à luz uma criança. A concepção imaculada de Maria é aceita pela Igreja Católica como dogma de fé (instituído pelo Papa Pio IX, em 1854) e comemorada como a festa da Imaculada Conceição de Maria.

 Apresentação no Templo – Ana prometeu que entregaria seu filho (ou filha) como oferenda ao Senhor, para que servisse a Deus todos os dias de sua vida. Nove meses depois, Ana deu à luz uma menina, dando-lhe o nome de Maria. Era, aproximadamente, o ano 20 a.C. Quando completou três anos, Maria foi conduzida ao templo e entregue ao sacerdote. Permaneceu lá até os doze anos, ocupando-se com os afazeres diários do templo.

 Datas – A princípio, apenas santa Ana era comemorada e, mesmo assim, em dias diferentes no Ocidente e no Oriente. Em 25 de julho pelos gregos e, no dia seguinte, pelos latinos. A partir de 1584, são Joaquim passou a ser cultuado no dia 20 de março. Só em 1913 a Igreja determinou que os avós de Jesus Cristo deviam ser celebrados juntos, no dia 26 de julho.

 

Calendário litúrgico - Em 19 de março de 2021, o Papa Francisco inaugurou o Ano “Família Amoris Laetitia”, que terminará em 26/06/2022, por ocasião do X Encontro Mundial das Famílias, em Roma. Também, instituiu em toda a Igreja, a celebração do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, no quarto domingo de julho. Neste primeiro ano, a celebração será dia 25/7, com o Tema: “Eu estou contigo todos os dias” (Mt 28,20) e visa expressar a proximidade do Senhor e da Igreja na vida de cada idoso neste momento de pandemia.


 Indulgência Plenária – Todos os que participarem do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos poderão receber indulgências plenárias. A condições habituais para receber as indulgências são: confissão sacramental, comunhão eucarística e orações na intenção do Sumo Pontífice. A indulgência também será concedida neste dia, àqueles que visitarem, real ou virtualmente, idosos necessitados ou em dificuldade.

 QUER SABER MAIS – Se você gostou desta história, podemos lhe enviar o texto apócrifo “Evangelho da Infância” que descreve a origem de Maria. Solicite por E-mail.

 

sábado, 17 de julho de 2021

"Descansai um pouco"

 


O Evangelho deste domingo (Marcos 6,30-34) é uma continuação do texto do domingo anterior. Jesus se encontra na cidade de Betsaida (talvez na casa de Pedro), à margem do Mar da Galiléia (ou Lago de Tiberíades). Os apóstolos retornam de suas viagens apostólicas e contam para Jesus tudo o que haviam feito e ensinado. Em razão da presença de Jesus, havia muitas pessoas na casa, que não tinham tempo nem para comer. Então Jesus convidou os apóstolos para irem para um lugar deserto, descansar um pouco. Foram até o lago, tomaram o barco, e foram para um lugar deserto e afastado. Mesmo assim, foram reconhecidos pelo povo, que vinha de todas as cidades, e esperava na outra margem do lago. Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.

 Para refletir sobre este texto transcrevemos partes do comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia do Vaticano.

Descansar – Na passagem do Evangelho, Jesus convida seus discípulos a separar-se da multidão, do seu trabalho, e retirar-se com Ele a “um lugar deserto”. Ele lhes ensina a fazer o que Ele fazia: equilibrar ação e contemplação, passar do contato com as pessoas ao diálogo secreto e regenerador consigo mesmo e com Deus.

 Agitação – O tema é de grande importância e atualidade. O ritmo de vida adquiriu uma velocidade que supera nossa capacidade de adaptação. Jesus, no Evangelho, jamais dá a impressão de estar agitado pela pressa. Às vezes, como em nossa passagem evangélica, Ele inclusive convida seus discípulos a perderem tempo com Ele: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”. Ele recomenda frequentemente que não se agitem.

 Missionários – Esta exigência de tempos de solidão e de escuta se apresenta de forma especial aos que anunciam o Evangelho e aos animadores da comunidade cristã, que devem permanecer constantemente em contato com a fonte da Palavra que devem transmitir aos seus irmãos. Os leigos deveriam alegrar-se, não se sentir descuidados, cada vez que o próprio sacerdote se ausenta para um tempo de recarga intelectual e espiritual.

 



Ovelhas – É preciso dizer que as férias de Jesus com os apóstolos foram de breve duração, porque as pessoas, vendo-o partir, seguiram-no a pé até o lugar de desembarque. Mas Jesus não se irrita com as pessoas que não lhe dão trégua, senão que “se comove”, vendo-as abandonadas a si mesmas, “como ovelhas sem pastor”, e começa a “ensinar-lhes muitas coisas”.

sábado, 3 de julho de 2021

A Batalha de Guibeon

 


 Galileo Galilei - Na semana passada descrevemos a condenação do astrônomo Galileo Galilei pelo tribunal do Santo Ofício da Igreja Católica. No ano de 1633, Galileo foi obrigado a negar as suas descobertas científicas, pois estas eram contrárias aos ensinamentos da Igreja; com a sua retratação sua pena seria abrandada para a prisão domiciliar.

 Pecado? – Galileo era acusado de ter escrito dois livros considerados perigosos. Um, chamado “O mensageiro das estrelas” (em 1611), e outro, “Diálogo sobre os maiores sistemas do mundo” (em 1632), nos quais explicava que a Terra não era o centro do universo e que o Sol não girava em torno da Terra (como se acreditava até então), mas sim era a Terra que girava em torno do Sol, e que este estava parado no centro do universo.

 

Argumentos – Os cardeais do Santo Ofício diziam que os ensinamentos de Galileo contradiziam a Bíblia, mais diretamente o Livro de Josué 10, 1-15, onde está descrita a famosa batalha de Guibeon. Nesta batalha, o Sol parou por um dia inteiro, até que o exército de Israel pudesse vencer a guerra. “Se o Sol parou em Guibeon é porque se move”. Mas o que realmente aconteceu com o Sol naquela batalha?

 

A Batalha – A descrição do livro de Josué (Js 10, 11) descreve que Josué e seu exército, depois de marchar a noite toda, de madrugada, no mesmo momento em que acontecia uma forte tormenta de granizo, caiu de surpresa sobre os inimigos. Os exércitos dos cinco reis bateram em retirada para oeste até o vale de Ayyalón. Ali foram alcançados pelo exército Israelita.

 

O sol – Durante a batalha, a tormenta havia diminuído, o céu estava clareando e o Sol já ameaçava aparecer entre as nuvens. Então Josué rezou para que o Sol não aparecesse em Guibeon, para que o dia continuasse nublado, a fim de evitar o forte calor do dia e que seus homens pudessem combater melhor com o dia mais fresco.

 

Galileo tinha razão – O Sol nunca se deteve, nem a Bíblia quer dizer isto. Porém, naquele tempo o Santo Ofício interpretava a Bíblia ao pé da letra. Por isso condenaram Galileo. Nos três séculos que se seguiram aconteceram inúmeras discussões entre cientistas e representantes da Igreja. Hoje, a Igreja reconhece que não se deve interpretar a Bíblia ao pé da letra, mas buscar a intenção de seus autores para poder descobrir sua mensagem.

 

Galileo tinha razão – Por isso o Papa João Paulo II, em um valente discurso pronunciado em 31/10/92 ante a Pontifícia Academia de Ciências, reconheceu que a Igreja havia se equivocado ao condenar Galileo, pedindo perdão e reivindicando publicamente a figura do cientista Fiorentino. Com este gesto, o Papa pôde fechar finalmente uma ferida que estava aberta durante 350 anos.

 

O sol – O sol de Guibeon continua brilhando para todos, como que querendo nos recordar os sofrimentos que uma leitura literal da Bíblia pode nos causar. Por isso, para aqueles que hoje continuam buscando na Bíblia fórmulas científicas secretas, ou revelações misteriosas ou profecias cifradas, convém lembrar a frase de Galileo frente aos membros do Santo Ofício: “Não busquem astronomia na Bíblia. Porque ela não pretende dizer-nos como marcham os céus, mas como marchamos nós até o Céu”.

sábado, 26 de junho de 2021

Há 388 Galileo Galilei era condenado pela Igreja


 Na época de Galileo Galilei (Físico, Astrônomo) a Bíblia era interpretada literalmente, ou seja, entendia-se que as coisas haviam acontecido tal como era dito no texto bíblico. Por isso, quando Galileo lançou conceitos astronômicos que contrariavam os ensinamentos da Igreja, o Santo Ofício exigiu uma retratação ou faria valer a condenação à morte pela fogueira.

 Condenação – Na tarde do dia 22 de junho de 1633 entrava na sala de julgamentos do Convento de Santa Maria da Minerva, em Roma, um venerável ancião, de rosto grave, com barba e cabelos brancos. Estava quase cego e caminhava devagar. Estava acompanhado pelos empregados do Santo Ofício e acabava de entrar na sede da Inquisição Romana. Estava ali, perante os cardeais do Santo Tribunal para ouvir a sentença que o condenava à prisão domiciliar.

 

Culpa? – Qual era o pecado cometido por aquele dedicado ancião? Haver escrito dois livros considerados perigosos. Um, chamado “O mensageiro das estrelas” (em 1611), e outro, “Diálogo sobre os maiores sistemas do mundo” (em 1632), nos quais explicava que a Terra não era o centro do universo e que o Sol não girava em torno da Terra (como se acreditava até então), mas sim era a Terra que girava em torno do Sol, e que este estava parado no centro do universo.

 

Castigo – Quando o cardeal terminou a leitura do castigo imposto pelo Santo Ofício, obrigaram-no a ler em voz alta: “Eu, Galileo Galilei, filho de Vicente Galilei, Fiorentino, 70 anos de idade, ... diante os Sagrados Evangelhos que toco com minha mãos, juro que sempre cri, creio agora e crerei no futuro o que ensina a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, ... por ter me convertido em altamente suspeito de heresia por ensinar a doutrina de que o Sol está imóvel no centro do mundo e que não é a Terra que está fixa no centro, ... com o coração sincero e autêntica fé abjuro, maldigo e renuncio a todos os erros e heresias mencionados e a qualquer outro erro contrário a Santa Igreja e juro não ensina-los oralmente nem por escrito”.

 

Lenda – Conta uma lenda que quando Galileo se retirava cansado e vencido daquela majestosa cerimônia, logo após ter jurado solenemente que a Terra não se movia, ao chegar na porta da sala, deu meia volta, olhou os assistentes e murmurou: “Mas, sem dúvida, se move”. Seja ou não verdade, o certo é que a frase atribuída ao cientista italiano se converteu no símbolo da resistência interior, na figura daqueles que, sob pressão, são obrigados a negar suas crenças, mas interiormente não podem renegar suas convicções.


Argumentos – Que argumentos usaram os cardeais do Santo Ofício para condenar Galileo? Os cardeais diziam que os ensinamentos de Galileo sobre o heliocentrismo (assim se chama a teoria de que o Sol está fixo no centro do universo e que a Terra gira) contradizem a Bíblia, mais diretamente o Livro de Josué 10, 1-15, onde é descrita a famosa batalha de Guibeon. Nesta batalha, Josué notou que, com o fim da luz do sol, os inimigos sobreviventes poderiam esconder-se facilmente nas grutas e escapar. O que fazer? Josué, com os braços estendidos, orou a Yahvé para que o sol se detivesse no céu e a lua não aparecesse no horizonte.

 

Santo Ofício – Para refutar os ensinamentos de Galileo, o Santo Ofício usou o argumento da Batalha de Guibeon: “Se o sol parou em Guibeon é porque se move”. Como pode Galileo afirmar que o Sol está parado? Quem tem razão: a Palavra de Deus ou Galileo? Com as coisas colocadas dessa maneira, não havia nenhuma possibilidade de escapar de uma condenação sem a retratação...

 

Interpretação – Mas o que realmente aconteceu na Batalha de Guibeon? Bem ... Este é um assunto para a próxima semana.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Quem é este homem?

 


No Evangelho deste domingo (Mc 4,35-41), Marcos conta que Jesus e os discípulos estavam numa barca no Mar da Galiléia, quando começou a soprar um vento muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca. Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: "Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?" Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: "Silêncio! Cala-te!" O vento cessou e houve uma grande calmaria. Então Jesus perguntou aos discípulos: "Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?" Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: "Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?

 Marcos – Voltando às celebrações dominicais do tempo comum, também retomamos a caminhada pelo evangelho de Marcos. O trecho deste final de semana está situado na primeira parte do seu evangelho e procura demonstrar que as autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus e os seus discípulos não o compreenderam, apesar de verem as suas obras e milagres (1,19-8,26). Toda esta primeira parte prepara para a pergunta fundamental do evangelho: "E vocês, quem dizem que eu sou?" Por isso, quando Jesus silencia a tempestade, leva os discípulos a se perguntarem: "Quem é este homem?".

 Dúvidas – O evento no mar de Galiléia retrata, simbolicamente, a situação da comunidade de Marcos, pelo ano 70, quando o evangelho foi escrito. A comunidade vacilava na sua fé, assolada por dúvidas e perseguições. Diante do cansaço da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres, sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz.

 Milagres – Por isso Marcos insiste que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois as autoridades, as familiares e os discípulos os tinham e não chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta de Jesus.

 Comunidade – O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada. Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para a comunidade de Marcos, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos e, como consequência, vacilavam na sua fé.

 Medo – Mas Jesus acalmou o mar e ainda questionou a pouca fé dos Doze: "por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?" (v. 40). Assim Marcos quis mostrar aos leitores do seu tempo que Jesus estava com eles nas dificuldades e que a sua falta de fé estava causando grande parte das dificuldades que estavam enfrentando.

 Igreja – Hoje, em muitos lugares, a Igreja se parece com a igreja de Marcos ou ainda com o barco no mar. Diante das desistências, da secularização, da diminuição da influência da Igreja, para muitos ela esta se afundando. Em lugar de assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam numa religiosidade de milagres, fugindo da penosa tarefa de construir o Reino de Deus entre nós.

 Fé – Marcos vem corrigir essa ideologia triunfalista e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear – para nós mesmos e para o mundo – "quem é este homem"; e, a segui-Lo no dia a dia. Jesus não está alheio às nossas dificuldades! Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que as ondas e os ventos estejam contrários.

 Ter fé Nele não é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar a nossa cruz e segui-Lo, na certeza que Ele não nos abandonará! Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: "Porque são tão medrosos? Ainda não têm fé?".