sábado, 1 de janeiro de 2022

OS 7 ERROS DO PRESÉPIO

  

Certamente você já se divertiu com aquele jogo dos 7 erros, em que são apresentadas duas figuras e nós temos que achar as 7 diferenças. Pois bem, hoje nós vamos procurar as 7 diferenças (ou erros) existentes no Presépio, quando comparado com os textos evangélicos.

 MIDRAXE – Inicialmente devemos considerar que os textos evangélicos que narram a infância de Jesus (Mt 1-2 e Lc 1-2) não podem ser considerados relatos históricos, mas uma forma de redação que a tradição judaica a chama de midrachim (ou midraxe). Nela, há ênfase ao maravilhoso, com os personagens comunicando-se com o mundo celeste por meio dos anjos. “A história da infância de Jesus é uma história desta terra, mas o invisível nela se torna continuamente visível de maneira extraordinária; é uma história real, cujos atores, porém, são movidos pelo céu” (D. Estevão Bettencourt).

 PRESÉPIO – O presépio foi criado por São Francisco de Assis, na Itália, em 1223, em uma gruta na cidade de Greccio. São Francisco queria que as pessoas compreendessem melhor o nascimento de Jesus, com isso pediu para seu amigo Giovani preparar o local conforme ele tinha pedido. São Francisco celebrou o Natal do Senhor entre o boi e o jumento, para demonstrar a simplicidade do local que Jesus nasceu.

 1º ERRO – Os Magos não visitaram um recém-nascido – Quando os magos visitaram o Menino Jesus, já havia se passado quase dois anos. Isto é claro em Mt 2,7 (Herodes quis saber a data exata do nascimento de Jesus) e em Mt 2,16 (Herodes mandou matar todos recém-nascidos de Belém com até dois anos). Portanto, os magos não visitaram Jesus na manjedoura, mas uma criança próxima de completar dois anos.

 2º ERRO – Os magos não eram três – O Evangelho de Mateus não cita o número de magos que visitaram Jesus. O número de três deve ter sido adotado em razão dos presentes recebidos por Jesus: ouro incenso e mirra.

 3º ERRO – Os magos não eram reis – Mateus não chama os magos de reis. São chamados de reis, pela dedução de que apenas os reis presenteavam com ouro. O Evangelho também não cita os nomes dos magos: Baltazar (que significa ‘rei da luz’), Melchior (‘protetor de reis’) e Gaspar (‘vencedor de tudo’).

 4º ERRO – A estrela não estava no nascimento – Se a estrela de Belém guiou os magos (Mt 2,1) durante a visita (dois anos após o nascimento) ela não estava no céu na época do nascimento.

 5º ERRO – Jesus não nasceu num celeiro ou estábulo - Quase todos os presépios colocam o menino Jesus em um celeiro, cercado por animais. Isso acontece porque Lc 2,7 diz que “... e o deitou em uma manjedoura”. No entanto, uma manjedoura (calha de alimentação para animais) também podia ser usada em residências. Lucas (2,7) usa o termo grego “KATALUMATI” para o local onde Jesus nasceu. Se procurarmos outra ocasião em que no Evangelho de Lucas o mesmo termo é usado, vamos encontrar apenas mais uma citação: em Lc 22,11, ao descrever o local da Última Ceia. Isto significa que o evangelista usa o mesmo termo (KATALUMATI) para descrever o local onde Jesus nasceu e local da Última Ceia.

 6º ERRO - Maria entrou em Belém em um jumento – A figura de Maria grávida, montando um jumento, é definitivamente um mito comum que a maioria dos cristãos acredita estar na Bíblia. Seria praticamente impossível para uma mulher, nos últimos dias de uma gravidez fazer uma viagem de 180 quilômetros, de Nazaré a Belém, em um jumento.

 7º ERRO – Os animais ao redor de Jesus – Os evangelistas Mateus e Lucas não citam a presença dos diversos animais ao lado da manjedoura.

 

QUER SABER MAIS? – Se você gostou do assunto e quer mais informações, podemos lhe oferecer o texto “Os magos e Jesus” de autoria do teólogo Dom Estevão Bettencourt e o Novo Testamento em grego. Solicite por E-mail que lhe enviaremos os arquivos gratuitamente.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Jesus nasceu em Belém ou Nazaré?

  


Quando nos perguntam onde Jesus nasceu, a resposta é simples: Jesus nasceu em Belém. Aprendemos desde crianças a celebrar o Natal e todos os anos nós cantamos canções em torno do presépio, louvando o Messias nascido em Belém. No entanto, se nós analisarmos cuidadosamente os Evangelhos do Novo Testamento, vamos descobrir que a resposta não é tão fácil.

 O nascimento – É verdade que os dois evangelistas, Mateus e Lucas, afirmam claramente que Jesus nasceu em Belém. Mateus diz: "Quando Jesus nasceu em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes" (Mt 2,1). E Lucas escreve: "Quando eles (José e Maria) estavam ali (em Belém), ela deu à luz o seu filho primogênito" (Lc 2,6). Porém, os outros dois evangelistas, Marcos e João, apresentam Jesus como se tivesse nascido em Nazaré. Na verdade, Ele sempre foi chamado de "Jesus de Nazaré"; e sabemos que, na Bíblia, quando após o nome de uma pessoa é mencionada uma cidade, é porque se trata de seu local de nascimento. Assim, fala de Paulo de Tarso (Atos 9,1), José de Arimateia (Mc 15,43), Lázaro de Betânia (Jo 11,1), Simão de Cirene (Mt 27,32), Amós de Tecoa (Am 1,1) ou Miquéias de Morasti (Mq 1, 1). Qual seria então o local de nascimento de Jesus: Belém ou Nazaré? Vamos olhar mais de perto para as provas.

 Falam os evangelistas – Marcos sugere que Jesus nasceu em Nazaré: na narrativa do batismo, diz que Ele "veio de Nazaré da Galileia" (1,9), sem mencionar qualquer cidade. Quando Jesus vai a Nazaré, afirma que "ele foi para a sua pátria" (6,1) e “patris” (grego), significa "lugar de nascimento". Isto é confirmado pelo próprio Jesus, quando, em Nazaré, diante de escandalizados ouvintes de seus ensinamentos, exclama: "Um profeta só não é valorizado na sua própria pátria" (6,4). Além disso, todos o chamam de Jesus de Nazaré: o endemoninhado de Cafarnaum (1,24), o servo do Sumo Sacerdote (14,67), o anjo do túmulo (16,6), e até mesmo Marcos (10,47). O quarto evangelista, São João, também afirma que Jesus nasceu em Nazaré. Ele começa apresentando-o como "um profeta de Nazaré" (Jo 1,45). E todos estão tão convencidos que Jesus é de Nazaré, que Natanael não quer crer nele, dizendo: “pode sair algo bom de Nazaré?” (Jo 1,46).

 Evidências – Nos Evangelhos, o texto mais claro sobre o nascimento de Jesus está em Jo 7, 40-42. Em uma discussão, alguns judeus rejeitavam Jesus como o Messias por ter nascido em Nazaré e não em Belém. “O Cristo pode vir da Galileia? Não está na Escritura que o Cristo será da descendência de Davi e virá de Belém, o povoado de Davi?”. No Novo Testamento, portanto, as duas vezes em que se afirma que Jesus nasceu em Belém são as narrativas da infância, de Mateus e Lucas. Pelo contrário, em outras 20 passagens, os Evangelhos sugerem o nascimento em Nazaré.

 Razões – Quando Mateus e Lucas escreveram para os cristãos do judaísmo, havia a necessidade de apresentar Jesus como o verdadeiro Messias esperado por Israel, o descendente de David. Então, ambos os evangelistas, para expressar essa ideia, recorreram à narrativa teológica (e não histórica) do seu nascimento em Belém (Miq 5,1). Assim, Mateus apresentou o nascimento de Jesus em Belém porque sua família estava lá (Mt 2,11) e Lucas apresentou Jesus nascido em Belém em razão de um censo (Lc 2,1). João apresenta Jesus vindo dos céus, como Filho de Deus, ou seja, a sua terra natal não tinha nenhum interesse.

 Afinal, onde nasceu? – Muito provavelmente, Jesus nasceu em Nazaré, no ano 7 (ou 6) a.C., não no dia 25 e muito menos no mês de dezembro. Saber disso significa que deveríamos abandonar as tradições de Natal ou colocar de lado as canções que falam de Belém? Não mais montar os presépios e desistir das peregrinações à cidade de Belém, para visitar a gruta do nascimento? Claro que não. Dizer que Jesus nasceu em Belém continua a ser para nós, como foi para os primeiros cristãos, uma afirmação fundamental. Equivale a dizer que Deus, apesar de ser onipotente e poderoso, escolheu uma pequena cidade, preferiu optar pelo mais fraco, pelos humildes, pelos oprimidos e pela mansidão.

 Quer ler mais? – Se você gostou do assunto e quer receber um texto completo escrito pelo teólogo Ariel Valdes, solicite pelo E-mail abaixo (texto de 10 páginas em espanhol).

sábado, 11 de dezembro de 2021

Situação política na época do nascimento de Jesus

  


Palestina – Jesus nasceu e viveu na região da Palestina (hoje Israel).  Na época em que ele nasceu, a Palestina era dominada pelo Império Romano (desde o ano 31 a.C.), cujo imperador era Otávio Augusto.  Desde 37 a.C., a região formava um “reino cliente”, com alguma independência de Roma, sendo administrado pelo rei Herodes Magno (“O Grande”).

 Império Romano – Portanto, na época do nascimento de Jesus, mais da metade do mundo conhecido era dominada pelo Império Romano (toda a região do Mar Mediterrâneo, a Palestina, norte da África e Egito), sendo a Palestina um reino parcialmente independente, cedido pelo imperador romano a Herodes.  Nesta região viviam os judeus, um povo com língua (hebraico ou aramaico), religião e costumes próprios.

 Rei – Herodes (Magno) era um Idumeu (povo que havia invadido a Palestina e assumido a religião judaica, porém excluído pelos judeus), casado com Mariana (judia), com a qual teve dois filhos (Alexandre e Aristóbulo), além de outros filhos de casamentos anteriores. Administrativamente, Herodes era um político hábil: trouxe paz para a região, reconstruiu Jerusalém (com obras pagãs, como teatros e anfiteatros, inaceitáveis para os judeus), instituiu os jogos atléticos em homenagem ao imperador (os jovens competiam nus) e reconstruiu o templo dos judeus com o dobro do tamanho.

 Herodes – Era, porém, obcecado pelo poder. Para mantê-lo, tornou-se um tirano e criminoso: mandou matar dois cunhados, 45 aristocratas, os dois filhos que teve com Mariana (depois de deixá-los presos por um ano), mandou afogar seu cunhado no rio Jordão, mandou matar a sogra, mandou queimar vivos dois sábios; cinco dias antes de morrer (aos 70 anos) mandou matar seu filho Antipater.  Também é atribuída a Herodes a morte de sua mulher Mariana. Em 36 anos de reinado, não se passou um só dia sem execução de inocentes.  Enciumado com o nascimento de Jesus (Mt 2,1-12), mandou matar todos os meninos com menos de 2 anos, nascidos em Belém.

 Filhos – Herodes morreu entre março ou abril do ano -4 (aproximadamente dois anos após o nascimento de Jesus); seu reino foi dividido entre seus filhos: Herodes Antipas, que ficou com a Galileia e Pereia (norte); Herodes Filipe, que ficou com as cinco províncias ao leste do rio Jordão; Herodes Arquelau, ficou com a Judéia e Samaria (ao sul). Arquelau se mostrou mais tirano que o pai.  Nos primeiros dias de sua posse matou muitos judeus.  Num só dia foram mortas 3.000 pessoas.

 Arquelau – O Evangelho de Mateus deixa bem claro a situação de opressão do povo (Mt 2,16-23) por ocasião do nascimento do Messias: José, Maria e Jesus se refugiaram no Egito, com medo de Herodes e somente depois da morte dele é que retornaram para a Galileia, com medo de Arquelau (que reinava na Judéia e Samaria, apenas). Em razão de inúmeros protestos dos judeus, em 6 d.C., Arquelau foi destituído do cargo, pelo Imperador Otávio, passando a Judéia a ter administração direta de Roma, através de procuradores.  Trinta anos depois, Pôncio Pilatos se tornaria o mais famoso dos procuradores.

 Antipas – Herodes Antipas, muito ambicioso, casou-se com a filha do rei da Arábia, ao mesmo tempo em que conquistava a estima e confiança do imperador romano.  Numa viagem a Roma, hospedou-se na casa do irmão, Herodes Filipe, apaixonando-se por Herodíades, mulher do irmão.  Algum tempo depois, Herodíades foi morar na Palestina com Herodes Antipas e levou junto a sua filha Salomé.  A situação de adultério foi denunciada por João Batista, que foi decapitado por vingança de Herodíades.

 Como se vê, a plenitude dos tempos, ocasião escolhida por Deus para o nascimento de seu Filho, foi uma época sombria da história de judeus e pagãos. O que nos leva a refletir sobre uma frase de São Tomás de Aquino: “Deus não ama o homem porque o homem seja bom, mas o homem é bom porque Deus o ama”.

 

sábado, 27 de novembro de 2021

A história do Nascimento de Jesus

  


Ao iniciarmos a preparação para o Natal (advento), inúmeras vezes ouviremos falar de Maria Santíssima, nossa Mãe e Mãe da Igreja. Como os Evangelhos Canônicos trazem poucas informações sobre Maria e José, fomos buscar mais detalhes (histórias, nomes, datas, etc.) em outras fontes, como a tradição judaica, fontes históricas e textos apócrifos (Proto-evangelho de Tiago, a História de José o Carpinteiro). A Igreja Católica aceita alguns destes fatos na sua liturgia (os nomes dos pais de Maria, a cerimônia de apresentação de Maria no Templo, Imaculada Conceição, José idoso, o bastão de José) mesmo não constando nos Evangelhos.

 O pai de Maria Joaquim era um homem muito rico que vivia atormentado por não ter filhos. Para o povo hebreu era muito importante gerar descendentes. Estava tão angustiado que se retirou para o deserto e jejuou quarenta dias e quarenta noites para que suas preces fossem atendidas.

 A mãe de Maria – Ana era uma mulher que lamentava a sua esterilidade. Apresentou-se a ela um anjo de Deus dizendo que o Senhor ouviu seus pedidos e que ela daria à luz uma criança. A concepção imaculada de Maria é aceita pela Igreja Católica como dogma de fé (instituído pelo Papa Pio IX em 1854) e comemorada como a festa da Imaculada Conceição de Maria.

 Apresentação no Templo – Ana prometeu que entregaria seu filho (ou filha) como oferenda ao Senhor, para que ele servisse seu Deus todos os dias de sua vida. Nove meses depois, Ana deu à luz uma menina, dando-lhe o nome de Maria. Era, aproximadamente, o ano 20 a.C. Quando completou três anos, Maria foi conduzida ao templo e entregue ao sacerdote. Permaneceu lá até os doze anos, se ocupando com os afazeres diários do templo.

 Aos doze anos – Quando Maria completou doze anos (aprox. 9 a.C.), os sacerdotes se reuniram e deliberaram que o Sumo Sacerdote deveria decidir o destino de Maria. Este, orando no aposento chamado ‘santo dos santos’, indicou que fossem reunidos 12 viúvos (um de cada tribo de Israel). Cada viúvo deveria vir ao templo com um bastão e aquele que recebesse um sinal singular do Senhor seria o esposo de Maria.

 Os viúvos – José, atendendo o chamado do Sumo Sacerdote, se dirigiu de Belém ao templo, entregando o seu bastão. O Sumo Sacerdote, após orar, devolveu os bastões aos viúvos. Ao entregar o bastão a José, uma pomba passou a voar sobre sua cabeça, indicando que José deveria ser o esposo de Maria.

 Contestação – José replicou que já era velho e tinha filhos (Judas, Josetos, Tiago, Simão Lígia e Lídia), enquanto que Maria era uma menina; argumentando ainda que seria objeto de zombarias por parte do povo. O sacerdote convenceu-o, dizendo que deveria aceitar o casamento como desejo divino.

 A tradição da época – Na palestina não havia diferença entre noivado e casamento. Por isso que em Mt 1,18 nós encontramos que Maria estava desposada de José. Desposada quer dizer noiva. O noivado já tinha o valor de casamento; por isto, em Mt 1,19, José é chamado de esposo. A tradição mandava que após a festa de noivado, a noiva (ou esposa) continuava na casa de seus pais, e o noivo (esposo) ia construir a casa. Pronta a casa, o noivo ia buscar a noiva, geralmente em procissão luminosa, da qual participavam também outras moças do lugar (veja a parábola das dez virgens em Mt 25, 1-13).

 José e Maria Como Maria vivia no templo (e não na casa dos seus pais), José levou-a para sua casa e saiu em viagem de trabalho com os dois filhos maiores. José era carpinteiro e trabalhava na construção de casas. Maria cuidou do pequeno Tiago (filho de José) com carinho e dedicação. Maria viveu como noiva de José perto de dois anos.

 Um certo anjo ... – Um certo dia, no início do ano 7 a.C., Maria pegou um cântaro e foi enchê-lo de água. Mas eis que ouviu uma voz que lhe dizia: "Deus te salve, cheia de graça, o Senhor está contigo ..." Bem, mas este é assunto para a próxima semana.

 GOSTOU DO ASSUNTO? – Se você quer ler mais sobre o assunto, podemos lhe oferecer os Evangelhos apócrifos citados (Protoevangelho de Tiago, a História de José) e a Cronologia da vida de Jesus. Solicite por E-mail.

 

sábado, 20 de novembro de 2021

“Tu és Rei?”

  


O Evangelho da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 18,33-37), Rei do Universo, apresenta-nos uma cena do processo de Jesus diante de Poncio Pilatos, o governador romano da Judéia. Estamos na manhã do dia 7 de abril do ano 30. Naquela sexta-feira, Jesus já havia sido preso, levado à casa de Anás, julgado pelo Sinédrio e agora estava diante de Pilatos. Cabe lembrar que o Sumo Sacerdote era Caifás; Anás, sogro de Caifás, apesar de ter deixado o cargo de Sumo Sacerdote, continuava a ser um personagem muito influente e foi ele, provavelmente, quem liderou o processo contra Jesus.

 Pilatos – Poncio Pilatos, o interlocutor romano de Jesus, governou a Judéia e a Samaria entre os anos 26 e 36. As informações do historiador Flávio Josefo e de Fílon o descrevem como um governante duro e violento, obstinado e áspero, culpado de ordenar execuções de opositores sem um processo legal. As queixas de crueldade apresentadas contra ele pelos samaritanos, no ano 35, levaram Vitélio, o representante romano na Síria, a tomar a decisão de enviá-lo a Roma, para se explicar diante do imperador. Pilatos foi deposto do seu cargo de governador da Judéia no ano 36.

 Rei? – O interrogatório de Jesus começa com uma pergunta direta de Pilatos: “Tu és o Rei dos judeus?”. Essa interrogação já revela qual era a acusação apresentada pelas autoridades judaicas contra Jesus: a de que Ele tinha pretensões de ser o Salvador prometido, que pretendia restaurar o reino de David e libertar Israel dos opressores. Esse tipo de acusação fazia de Jesus um agitador político, empenhado em mudar o mundo pela força, pelo poder das armas. Esta acusação tem fundamento? Jesus aceita-a?

 Messias – A resposta de Jesus coloca as coisas nos devidos lugares. Ele assume-se como o Messias que Israel esperava e confirma, claramente, a sua qualidade de rei; no entanto, descarta qualquer semelhança com os reis que Pilatos conhece. Os reis deste mundo apóiam-se na força das armas e impõem aos outros homens o seu domínio e a sua autoridade; a sua realeza baseia-se na prepotência e na ambição e gera opressão, injustiça e sofrimento… Jesus, ao contrário, é um prisioneiro indefeso, traído pelos amigos, ridicularizado pelos líderes judaicos, abandonado pelo povo; não se impõe pela força, mas veio ao encontro dos homens para servi-los; não cultiva os próprios interesses, mas obedece em tudo à vontade de Deus, seu Pai; não está interessado em afirmar o seu poder, mas em amar os homens até ao dom da própria vida… A sua realeza é de outra ordem, da ordem de Deus.

 Testemunho – A realeza de que Jesus Se considera investido por Deus consiste em “dar testemunho da verdade”. Para o autor do Quarto Evangelho, a “verdade” é a realidade de Deus. Essa “verdade” manifesta-se nos gestos de Jesus, nas suas palavras, nas suas atitudes e, de forma especial, no seu amor vivido até ao extremo, com a doação da vida.

 Verdade – A “verdade” (isto é, a realidade de Deus) é o amor incondicional e sem medida que Deus derrama sobre o homem, a fim de fazê-lo chegar à vida verdadeira e definitiva. Essa “verdade” opõe-se à “mentira”, que é o egoísmo, o pecado, a opressão, a injustiça, tudo aquilo que desfigura a vida do homem e o impede de alcançar a vida plena. A “realeza” de Jesus concretiza-se, por um lado, na luta contra o egoísmo e o pecado que escravizam o homem e que o impedem de ser livre e feliz; por outro lado, a realeza de Jesus se realiza na proposta de uma vida feita amor e entrega a Deus e aos irmãos. Esta meta não se alcança pela lógica do poder e da força, mas pelo amor, pela partilha, pelo serviço simples e humilde em favor dos irmãos. É esse “reino” que Jesus veio propor; é a esse “reino” que Ele preside.

 Renúncia – A proposta de Jesus provoca uma resposta livre do homem. Quem escuta a voz de Jesus adere ao seu projeto e se compromete a segui-lO, renuncia ao egoísmo e ao pecado e faz da sua vida um dom de amor a Deus e aos irmãos. Passa, então, a integrar a comunidade do “Reino de Deus”.

 

sábado, 13 de novembro de 2021

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”

  


Estamos no penúltimo domingo do Ano Litúrgico. A Liturgia nos fala do fim do mundo e da sua história. É um convite à ESPERANÇA: O Deus Libertador vai mudar a noite do mundo numa aurora de vida sem fim. As Leituras bíblicas, numa linguagem apocalíptica, nos estimulam a descobrir, os sinais desse mundo novo, que está nascendo das cinzas do reino do mal.

 Apocalipse de Daniel – Na 1ª leitura, encontramos o Apocalipse de Daniel (Dn 12,1-3). O Povo judeu se encontrava oprimido sob a dominação dos gregos. Muitos judeus, apavorados pela perseguição, abandonavam até a fé… Deus enviou o seu anjo Miguel como defensor dos que se mantiveram fiéis no caminho de Deus. O objetivo deste livro era animar o povo a resistir diante dos opressores e lembrar que a vitória final será dos justos que perseverarem fiéis... É a primeira profissão de fé na RESSURREIÇÃO, que se encontra na Bíblia. Esse texto está em conexão com o evangelho, que nos fala da segunda vinda de Cristo e prefigura a vinda de Cristo libertador.

 Apocalipse de Marcos – No trecho do Evangelho, (Mc 13, 24-32), na época em que foi escrito por Marcos, as comunidades cristãs estavam agitadas e assustadas por causa de guerras e calamidades, como a destruição do templo, no ano 70 d.C. Para tranquilizar os cristãos, o autor também usa a linguagem apocalíptica, descrevendo a catástrofe do Sol e das estrelas e o aparecimento do Filho do Homem sobre as nuvens para julgar os bons e os maus. Esse "Discurso escatológico" de Cristo é o último antes da Paixão. Jesus anuncia a destruição de Jerusalém e o começo de uma nova era, com a sua vinda gloriosa após a ressurreição.

 Fim do mundo? – Não é uma reportagem, mas uma CATEQUESE sobre o fim dos tempos. A intenção não era assustar, mas conduzir a comunidade a discernir os fatos catastróficos e o futuro da comunidade cristã dentro da História. Não deviam dar ouvidos a pessoas que anunciavam o fim do mundo, pelo contrário, precisavam entender como o início de um mundo novo, vendo nos sofrimentos sinais de vida: como dores de parto, que prenunciavam o nascimento de uma nova vida…

 Quando vai acontecer isso? – A resposta para a ocasião em que os fatos ocorrerão é dada através da imagem da figueira: quando começa a brotar, o agricultor sabe que está chegando o verão e se alegra porque se aproxima a época da colheita. Quanto ao dia e hora, só o Pai sabe, mais ninguém... Para nós, o mais importante não é saber quando isso irá acontecer, mas sim estar vigilantes e preparados para ele.

 E as sombras que vemos no Mundo de hoje? – O desabamento de tantas certezas, que julgávamos indestrutíveis, o desaparecimento de pessoas que julgávamos insubstituíveis, o abandono de certas práticas religiosas que pareciam indispensáveis, o esquecimento de tantos valores éticos e morais que tanto apreciamos... O abandono da fé de tantas pessoas, que julgávamos fervorosas... A violência, a corrupção, a opressão andam soltas...   Como devemos ver tudo isso? Será o fim do mundo?

 Mundo novo – A Palavra de Deus reafirma que Deus não abandona a humanidade e está determinado a transformar o mundo velho do egoísmo e do pecado num mundo novo, de vida e de felicidade para todos os homens. A humanidade não caminha para a destruição, para o nada: caminha ao encontro da vida plena, ao encontro de um mundo novo. Nós cristãos devemos ver a vida presente em estado de gestação, como germe de uma vida, cuja plenitude final só alcançaremos em Deus. Esse mundo sonhado por Deus é uma realidade escatológica.

 Novo dia – Desde já um novo dia está surgindo, por isso, devemos ser para os nossos contemporâneos sinais de esperança dessa realidade: gente de fé, com uma visão otimista da vida e da história, que caminha, alegre e confiante, ao encontro desse mundo novo que Deus nos prometeu. O Senhor não nos abandona em nossa caminhada: Ele vem sempre ao nosso encontro para nos indicar o caminho. Da nossa parte, devemos estar atentos aos sinais de Deus, confiantes nas palavras de Cristo, que nos garante: "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão".

sábado, 6 de novembro de 2021

Quem são os santos

 


Neste domingo a Igreja comemora a Solenidade de Todos os Santos. Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia do Vaticano, sobre a liturgia de hoje.

 Comunicação – Faz tempo que os cientistas enviam sinais ao cosmos em espera de respostas por parte de seres inteligentes em algum planeta perdido. A Igreja desde sempre mantém um diálogo com os habitantes de outro mundo: os santos. É o que proclamamos ao dizer: “Creio na comunhão dos santos”. Ainda que existissem habitantes fora do sistema solar, a comunicação com eles seria impossível, porque entre a pergunta e a resposta passariam milhões de anos. Aqui, ao contrário, a resposta é imediata, porque existe um centro de comunicação e de encontro comum que é Cristo Ressuscitado.

 Embrião – Talvez também pelo momento do ano em que cai, a Solenidade de Todos os Santos tem algo especial que explica sua popularidade e as numerosas tradições ligadas a ela em alguns setores da cristandade. O motivo está no que diz João na segunda leitura. Nesta vida, “somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que seremos”; somos como o embrião no seio da mãe que anseia nascer. Os santos “nasceram” (a liturgia chama “dia do nascimento”, dies natalis, no dia de sua morte); contemplá-los é contemplar nosso destino. Enquanto ao nosso redor a natureza se desnuda e caem as folhas, a festa de todos os santos nos convida a olhar para o alto; e nos recorda que não estamos destinados a ficar na terra para sempre, como as folhas.

 Santos – A passagem do Evangelho é a das bem-aventuranças. Uma bem-aventurança em particular inspirou a escolha da passagem: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. Os santos são aqueles que tiveram fome e sede de justiça, isto é, na linguagem bíblica, de santidade. Não se resignaram à mediocridade, não se contentaram com meias palavras.

 Unidos ou separados? – A primeira leitura da Solenidade nos ajuda a entender quem são os santos. São “os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. A santidade se recebe de Cristo; não é uma produção própria. No Antigo Testamento, ser santos queria dizer “estar separado” de tudo o que é impuro; na acepção cristã, quer dizer o contrário, ou seja, “estar unidos”, mas a Cristo.

 Santos leigos – Os santos, isto é, os salvos, não são apenas os que o calendário ou o santoral enumeram. Existem os “santos desconhecidos”: que arriscaram suas vidas pelos irmãos, os mártires da justiça e da liberdade, ou do dever, os “santos leigos”, como alguém os chamou. Sem saber, também suas vestes foram lavadas no sangue do Cordeiro, se viveram segundo a consciência e lhes importou o bem dos irmãos.

 Louvor – Surge espontaneamente uma pergunta: o que os santos fazem no paraíso? A resposta está, também aqui, na primeira leitura: os salvos adoram, deixam suas coroas ante o trono, exclamando: “Louvor, honra, bênção, ação de graças...”. Realiza-se neles a verdadeira vocação humana, que é a de ser “louvor da glória de Deus” (Ef 1, 14). Seu coro é guiado por Maria, que no céu continua seu canto de louvor: “Minha alma proclama a grandeza do Senhor”. É neste louvor que os santos encontram sua bem-aventurança e seu gozo: “Meu espírito se alegra em Deus”. O homem é aquilo que ama e aquilo que admira. Amando e louvando a Deus, ele se une Deus, participa de sua glória e de sua própria felicidade.

 Paraíso – Um dia, um santo, São Simeão, o Novo Teólogo, teve uma experiência mística de Deus tão forte que exclamou para si: “Se o paraíso não for mais que isso, já me basta!”. Mas a voz de Cristo lhe disse: “És bem mesquinho se te contentas com isso. O gozo que experimentaste em comparação com o do paraíso é como um céu pintado no papel com relação ao verdadeiro céu”.