sábado, 15 de janeiro de 2011

Quem é Jesus?

 No Evangelho das missas deste domingo (Jo 1,29-34) João Batista vê Jesus e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. E dá o testemunho: “Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele. Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”.

Questão – O texto que nos é proposto integra a seção introdutória do Quarto Evangelho (Jo 1,19-3,36). Aí o autor, com consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”

Testemunho – João Baptista, o profeta/precursor do Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim da do texto – Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos homens. Ao não assinalar-se o auditório, sugere-se que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.

Apresentador – João é o apresentador oficial de Jesus. A catequese sobre Jesus que aqui é feita se expressa através de duas afirmações com um profundo impacto teológico: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito.

Cordeiro – A primeira afirmação (“o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”) evoca duas imagens tradicionais extremamente sugestivas. Por um lado, evoca a imagem do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação (Is 52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus em favor de Israel (Ex 12,1-28). Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada à libertação dos homens.

Pecado – A ideia é explicitada pela definição da missão de Jesus: Ele veio para tirar (“eliminar”) “o pecado do mundo”. A palavra “pecado” aparece, aqui, no singular: não designa os “pecados” dos homens, mas um “pecado” único que oprime a humanidade inteira; esse “pecado” parece ter a ver, no contexto desta catequese, com a recusa da proposta de vida com que Deus, desde sempre, quis presentear a humanidade (é dessa recusa que resulta o pecado histórico, que oprime os homens). O “mundo” designa, neste contexto, a humanidade que resiste à salvação. Deus propôs-se tirar a humanidade da situação de escravidão em que se encontra; enviou ao mundo Jesus, com a missão de realizar um novo êxodo, que leve os homens da terra da escravidão para a terra da liberdade.

Filho de Deus – A segunda afirmação (o “Filho de Deus” que possui a plenitude do Espírito Santo e que batiza no Espírito – Jo 1,32-34) completa a anterior. Há aqui vários elementos bem sugestivos: o “cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a plenitude do Espírito; e tem por missão batizar os homens no Espírito.

Fez-se carne – Dizer que Jesus é o Filho de Deus é dizer que Ele é o Deus que se faz pessoa, que vem ao encontro dos homens, que monta a sua tenda no meio dos homens, a fim de lhes oferecer a plenitude da vida divina. A sua missão consiste em eliminar “o pecado” que torna o homem escravo e que o impede de abrir o coração a Deus.

Messias – Dizer que o Espírito desce sobre Jesus e permanece sobre Ele sugere que Jesus possui definitivamente a plenitude da vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o seu amor. Por outro lado, a descida do Espírito sobre Jesus é a sua investidura messiânica, a sua unção (“messias” = “ungido”).

Batismo – Jesus é, finalmente, aquele que batiza no Espírito Santo. O verbo “batizar” aqui utilizado tem, em grego, duas traduções: “submergir” e “embeber (como a chuva ensopa a terra)”; refere-se, em qualquer caso, a um contato total entre a água e o sujeito. “Batizar no Espírito” significa, portanto, um contacto total entre o Espírito e o homem, uma chuva de Espírito que cai sobre o homem e lhe ensopa o coração. A missão de Jesus consiste, portanto, em derramar o Espírito sobre o homem; e o homem que adere a Jesus, “embebido” do Espírito e transformado por essa fonte de vida que é o Espírito, abandona a experiência da escuridão (“o pecado”) e alcança o seu pleno desenvolvimento, a plenitude da vida.

Convite – A declaração de João convida os homens de todas as épocas a voltarem-se para Jesus e acolherem a proposta libertadora que, em nome de Deus, Ele faz: só a partir do encontro com Jesus será possível chegar à vida plena, à meta final do Homem Novo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O Batismo de Jesus

Neste domingo, o Evangelho relata o batismo de Jesus por João Batista. De acordo com Mateus, a presença de Jesus na fila de pecadores à espera do batismo confundiu João Batista. Sendo o Mestre, o Messias esperado, que sentido tinha fazer-se batizar, como se houvesse sido infiel a Deus? Por outro lado, a atitude de Jesus não condizia com a crença messiânica, pregada pelo Batista, que dizia ser o Messias um juiz inflexível, incapaz de contemporizar com as fraquezas humanas. O gesto de Jesus inaugurava, assim, uma forma diferente de messianismo, em nada parecida com os messianismos em voga. Ele era o Messias-Filho, amado pelo Pai e plenamente disposto a cumprir a vontade paterna. A dificuldade de João consistia em não saber lidar com a imagem de um Deus tão misericordioso e próximo da humanidade decaída. Vejamos suas razões para isso e como se deu o convívio de João e Jesus.  

Situação política, social e religiosa da época – No primeiro século da era cristã, a religião judaica havia caído num profundo desinteresse, num profundo estado de abatimento moral e físico das pessoas. A situação política opressora, que reinava no país, com o domínio do Império Romano; a espera por um Salvador que não chegava nunca; a vida escandalosa da classe governante e a degradação dos sacerdotes do Templo (mais preocupados com seus próprios interesses) foi esfriando a devoção das pessoas e desanimando a prática religiosa. 

O clamor do deserto – Frente a este panorama, surge João (filho único de Zacarias, sacerdote do Templo), um homem que buscou injetar novas forças ao judaísmo decadente. Com sua linguagem implacável e dureza insensível para um pregador, passou a convocar as pessoas para uma mudança de vida. Dizia que o juízo de Deus era iminente e que, em muito pouco tempo, Deus iria castigar com fogo todos os que não se arrependessem de seus pecados (Mt 3,7). 

Deserto com água – As pessoas vinham de todas as regiões para escutar suas pregações e ficavam impressionadas. A todos que aceitavam seus ensinamentos e buscavam uma mudança de vida, João pedia como sinal de arrependimento um banho exterior: o batismo, que ele pessoalmente ministrava no rio Jordão. 

No Jordão – Toda a pregação de João se desenvolvia junto ao rio Jordão, o que lhe permitia as cerimônias com água. Mas não tinha um lugar fixo. Às vezes se instalava num braço do rio, próximo ao vilarejo de Betânia, na província da Peréia (Jo 1,28). Outras vezes, mais ao norte, em Enon, próximo a Salim, na Samaria (Jo 3,22). O Evangelho de Lucas afirma que João pregava em toda região do rio Jordão (Lc 3,3), em busca de ouvintes para proclamar sua mensagem e batizar. 

Discípulos – Aos poucos, foi se formando ao redor do Batista um pequeno grupo de discípulos que o acompanhava nas sessões batismais (Jo 1, 28.35-37), ajudava nas pregações (Jo 3,23), recebia os ensinamentos mais profundos (Jo 3,26-30), compartilhava sua espiritualidade asceta (Mc 2,18) e a oração (Lc 11.1).  

Jesus – No início do ano 27 d.C., Jesus viajou da cidade de Nazaré (na Galiléia) até o vale do rio Jordão, para ver João. Ali, entre as áridas colinas e vales da Judéia, Jesus pôde escutar a mensagem escatológica de João, que podia ser resumida em três idéias: o fim do mundo está próximo; o povo de Israel perdeu seu rumo e pode ser extinto pelo juízo de Deus; é necessário mudar de vida, deixando-se batizar. Jesus aceitou a mensagem de João, como muitos outros judeus, deixando-se batizar (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22). 

O novo Mestre – Os Evangelhos descrevem que alguns discípulos de João Batista (André e outro, que se deduz ser Felipe) reconheceram Jesus como Mestre e passaram a segui-Lo (Jo 1,35-37). Logo, esses dois discípulos convidaram outros dois (Pedro e Natanael) para que eles se juntassem ao novo mestre.  Assim, Jesus formou o seu grupo de discípulos, indo para a província da Judéia, onde também batizava (Jo 3,22). 

Jesus e João – Os Evangelhos mostram que Jesus integrou o grupo de João Batista, convivendo algum tempo com ele (não se sabe quanto). Depois, como Mestre, passou a empreender seu próprio ministério, com uma metodologia própria, que diferenciava em três pontos de João Batista: não anunciava o castigo iminente de Deus, mas a Sua misericórdia e amor; não permanecia no deserto, mas percorria os povoados e aldeias de toda a Palestina; não jejuava nem fazia abstinência de bebidas, mas comia e bebia com os pecadores.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Maria, Mãe de Deus

O dia 1º de janeiro é consagrado à Maria, Mãe de Deus. Vamos estudar o porquê deste título, indicando inclusive a fundamentação bíblica.  

Jesus Cristo, o nosso Salvador, tinha duas naturezas – Ele era homem e Deus. Como homem, Ele se emocionou, chorou, sentiu dor, fome, sede, etc. Como Deus, Ele fez milagres, curou doentes, perdoou pecados, reviveu pessoas e ressuscitou dos mortos. A unidade das duas naturezas da pessoa de Cristo (divina e humana) é aceita desde os primeiros séculos. 

Nestório – Maria era realmente mãe de Deus? Deus tem mãe? Ou Maria era apenas mãe de Jesus? Mas, Jesus não era Deus? Ou Jesus era metade Deus e metade homem? Então Maria era mãe apenas da metade homem de Jesus? Estas perguntas foram formuladas no século V pelo monge Nestório, bispo de Constantinopla. “Então Deus tem uma mãe?” perguntava o bispo. Ele rejeitava a utilização do termo Theotokos, uma palavra muito usada para referir-se a Maria, que significa Mãe de Deus. Nestório afirmava que Maria não foi progenitora da divindade, mas apenas da humanidade de Cristo.  

Éfeso – A discussão terminou na convocação do terceiro concílio ecumênico, que ocorreu em Éfeso (do ano 431 a 433). Reuniram-se os 200 bispos do mundo para decidir a natureza de Cristo e a posição de Maria na Igreja. 

Theotokos – O Concílio de Éfeso reafirmou as duas naturezas de Cristo, que hoje é aceita por todos os cristãos. No final do Concílio, os bispos, acompanhados por toda a multidão da cidade (com tochas acesas), fizeram uma grande procissão cantando: "Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém". Este cântico dos bispos em Éfeso passou a ser recitado pelos cristãos, se transformando na segunda parte da Oração da Ave Maria. 

Jesus Cristo era Deus – Não há dúvidas que Cristo era Deus.  Confira em Rm 9,5 (Cristo, Deus bendito eternamente), em Jo 20, 28 (Meu Deus, Meu Senhor), em Jo 5, 18 ou em Jo 10, 30-33 (Eu e o Pai somos um). 

Maria era mãe de Jesus, portanto mãe de Deus – Várias passagens bíblicas atestam que Maria é mãe de Jesus.  O nascimento era previsto desde o Antigo Testamento, veja em Is 7,14 (Eis que uma virgem conceberá ...).  Conferir também em Lc 1,31 (Eis que conceberá ...), em Lc 1,35 (O que nascerá de ti será o Filho de Deus) ou em Gal 4,4 (Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher).  É óbvio e lógico que, se aceitamos que Cristo era Deus e que Maria era mãe de Jesus, então, Maria era mãe de Deus.   

Protestantes reconhecem Maria – Em um recente documento intitulado “Manifesto de Dresden”, um grupo de teólogos luteranos alerta para que a figura de Maria seja restaurada nas Igrejas Evangélicas, aceitando inclusive os milagres ocorridos em Fátima e Lourdes.  Eis alguns trechos do documento: “Por que um cristão evangélico pode ter o direito de ignorar tais realidades (os milagres) pelo fato de se apresentarem na Igreja Católica e não na sua comunidade religiosa? Tais fatos não deveriam, ao contrário, levar-nos a restaurar a figura da Mãe de Deus na Igreja Evangélica?”. 

Ainda o Manifesto de Dresden:Seria o cúmulo da tolice ignorarmos a voz de Deus, que fala ao mundo pela mediação de Maria, e dar-lhes as costas unicamente porque Ele faz ouvir sua voz através da Igreja Católica. Lutero honrou Maria até o fim de sua vida; santificava suas festas e cantava diariamente o Magnificat. Perdeu-se na Igreja Evangélica, em tempos posteriores à Reforma, todas as festas a Maria e tudo o que nos trazia sua lembrança. Estamos padecendo as consequências dessa herança de receio e temor.” 

1º de Janeiro – Neste primeiro dia do ano, a Igreja Católica comemora a Solenidade da Santa Maria Mãe de Deus; é a primeira Festa Mariana.  Essa festa foi instituída em 1931 (para o dia 11 de outubro) e transferida para o dia 1º de janeiro. Desta maneira, esta festa mariana encontra um marco litúrgico mais adequado no tempo do Natal do Senhor; e, ao mesmo tempo, todos os católicos começam o ano pedindo o amparo da Santíssima Virgem Maria. 

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sábado, 25 de dezembro de 2010

Uma grande alegria: nasceu o Salvador


Neste dia de Natal, é lido o Evangelho de Lucas (Lc 2,1-14), que descreve o nascimento de Jesus. Começa com o recenseamento, convocado por César Augusto, a viagem de José e Maria (grávida) para Belém, apresenta o nascimento de Jesus, numa manjedoura, e termina com os anjos proclamando: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”.

 

História – Lucas é o evangelista mais preocupado com as referências históricas. O seu Evangelho está cheio de indicações, que procuram situar com precisão os acontecimentos. No que diz respeito ao nascimento de Jesus, Lucas apresenta também, algumas indicações, que pretendem situar o acontecimento numa época e num espaço concreto. Desta forma, Lucas dá a entender que não estamos diante de um fato lendário, mas de algo perfeitamente integrado na vida e na história dos homens.

 

Problemas – Há, no entanto, um problema… Lucas é um cristão de origem grega, que não conhece a Palestina e que tem noções muito básicas da história do Povo de Deus. Por isso, as suas indicações históricas e geográficas são, com alguma frequência, imprecisas e inexatas. De qualquer forma, convém ter em conta que Lucas não está escrevendo história, mas fazendo teologia e apresentando uma catequese sobre Jesus, o Filho de Deus, que veio ao encontro dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação.

 

Belém – A primeira indicação importante vem da referência a Belém, como o lugar do nascimento de Jesus. É uma indicação mais teológica do que geográfica: o objetivo do autor é sugerir que este Jesus é o Messias, da descendência de David (a família de David era natural de Belém), anunciado pelos profetas (Miq 5,1). Fica claro, que o nascimento de Jesus se integra no plano de salvação que Deus tem para os homens – plano que os profetas anunciaram e cuja realização o Povo de Deus aguardava ansiosamente.

 

Pobreza – Uma segunda indicação importante resulta do “quadro” do nascimento. Lucas descreve, com detalhes, a pobreza e a simplicidade que rodeiam a vinda ao mundo do libertador dos homens: a falta de lugar na hospedaria, a manjedoura dos animais como berço, os panos improvisados que envolvem o bebê, a visita dos pastores… É na pobreza, na simplicidade, na fragilidade, que Deus se manifesta aos homens e lhes oferece a salvação. Os esquemas de Deus não se impõem pela força das armas, pelo poder do dinheiro ou pela eficácia de uma boa campanha publicitária; Deus escolhe vir ao encontro dos homens na simplicidade, na fraqueza, na ternura de um menino nascido no meio de animais, na absoluta pobreza. É assim que Deus entra na nossa história… É assim a lógica de Deus.

 

Pastores – Uma terceira indicação é dada pela referência às “testemunhas” do nascimento: os pastores. Trata-se de pessoas consideradas rudes, violentas, marginais, que invadiam com os rebanhos as propriedades alheias e que tinham fama de se apropriar da lã, do leite e das crias do rebanho em benefício próprio. Os fariseus os consideravam – tal como os publicanos e cobradores de impostos – pecadores públicos, incapazes de reparar o mal que tinham feito, tantas eram as pessoas a quem tinham prejudicado.

 

Testemunhas – Ora, Lucas coloca esses marginais como as “testemunhas” que acolhem Jesus. O evangelista sugere, desta forma, que é para estes pecadores e marginalizados que Jesus vem; por isso, a chegada de tal “salvador” é uma “boa notícia”: a partir de agora, os pobres, os fracos, os marginalizados, os pecadores, são convidados a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. Eles vêm ao encontro dessa salvação que Deus lhes oferece em Jesus e são convidados a integrar a comunidade da nova aliança, a comunidade do “Reino”.

 

Salvador – Uma quarta indicação aparece nos títulos dados a Jesus pelos anjos que anunciam o nascimento: Ele é “o salvador, Cristo Senhor”. O título “salvador” era usado, na época de Lucas, para designar o imperador ou os deuses pagãos; Lucas, ao chamar Jesus desta forma, apresenta-O como a única alternativa possível a todos os absolutos que o homem cria… O título “Cristo” equivale a “Messias”: aplicava-se, no judaísmo da palestina do séc. I, a um rei da descendência de David, que viria restaurar o reino ideal de justiça e de paz da época do rei Davi; desta forma, Lucas sugere que o “menino de Belém” é esse rei esperado. O título “Senhor” expressa o caráter transcendente da pessoa de Jesus e o seu domínio sobre a humanidade. Com estes três títulos, a catequese de Lucas apresenta Jesus aos homens e define o seu papel e a sua missão.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Jesus nasceu em 25 de dezembro?


Na noite de 24 de dezembro milhões de pessoas em todo o mundo comemoram, com profunda emoção, o que aconteceu em outra noite, há mais de dois mil anos: o nascimento de Jesus Cristo. O dia 25 de dezembro parece ter um toque mágico.  Mas, Jesus nasceu realmente neste dia? Certamente que não. Então, qual seria a data exata?

 

O Ano – Segundo relatos históricos, o rei Herodes (que perseguiu Jesus, recebeu os magos, mandou matar as crianças de Belém etc.) morreu no final de março do ano 4 a.C. Como Jesus nasceu antes da morte de Herodes, a data mais aceita é o ano 7 a.C.

 

O mês – Quanto ao mês do nascimento de Jesus, a única informação está em Lc 2,8: "na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias montavam guarda a seu rebanho". Sabe-se que, em dezembro, quando comemoramos o Natal, a temperatura na região de Belém é abaixo de zero e normalmente há geadas. Portanto, certamente não haveria gado, no mês de dezembro, nos pastos próximos a Belém. Atualmente, naquela região, os rebanhos são levados para o campo em março e recolhidos no fim de outubro.

 

O dia – Desde os primeiros séculos, os cristãos sempre quiseram ter um dia para comemorar o nascimento de Jesus. Mas, não havia informações suficientes para fixar esse dia. O bispo Clemente de Alexandria (séc. III) dizia ser no dia 20 de abril; São Epifânio sugeria o dia 6 de janeiro, enquanto outros falavam em 25 de março ou 17 de novembro. Porém, não havia acordo. Assim, durante os três primeiros séculos, a festa do nascimento de Jesus não teve data certa.

 

Igreja sacudida – No século IV aconteceria algo que abalaria a Igreja: um presbítero de Alexandria chamado Ário passou a discordar da Igreja quanto à natureza de Cristo. Ário dizia que existia um Deus eterno e não gerado e que Jesus foi criado por esse Deus; portanto, Cristo era criado e não eterno. As idéias de Ário se propagaram e ganharam boa parcela da Igreja. No ano de 325 foi convocado um Concílio Universal da Igreja para resolver a questão ariana. Este concílio aconteceu na cidade de Nicéia, vizinha de Constantinopla. Por grande maioria, as idéias de Ário foram rejeitadas. Para reforçar a idéia, foi criado o credo Niceno-constantinopolitano que rezamos até hoje: “creio em Jesus Cristo nascido do Pai antes de todos os séculos; (Jesus é) Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, da mesma substância do Pai ...”.

 

Pós-Ário – Apesar da derrota, os partidários de Ário não se deram por vencidos. Muitos bispos continuaram aceitando a doutrina ariana e se recusando a utilizar o credo proposto em Nicéia. Frente a essa situação, o Papa Julio I percebeu que era importante propagar a idéia da divindade de Cristo, combatendo as idéias de Ário. Propôs que fosse comemorada a festa do nascimento de Jesus como a celebração do nascimento do Filho de Deus.

 

Qual dia? – Foi proposto usar o dia de uma festa bastante popular do Império Romano: “o dia do Sol Invencível”. Era uma celebração pagã muito antiga, desde o tempo do Imperador Aureliano, no século III, em que se adorava o sol como um deus invencível. Como se sabe, no hemisfério norte, à medida que vai chegando dezembro (inverno), os dias vão diminuindo e as noites se prolongando. A escuridão aumenta e o sol fica cada vez mais fraco. No dia 21 de dezembro (dia mais curto do ano) as pessoas se perguntavam: o sol desaparecerá?  Mas, a partir de 22 de dezembro a luz do sol começa a ganhar da escuridão, aparecendo a primavera.  No dia 25 de dezembro era comemorado o sol que não morre, o Sol Invencível.

 

Luz de Natal – Desta forma, a Igreja do século IV batizou e “cristianizou” uma festa pagã, transformando o “dia de natal do Sol Invencível” para “Dia de Natal de Jesus”, o Sol de Justiça, muito mais brilhante que o astro rei.  Assim, o dia 25 de dezembro se converteu no dia de Natal cristão.

 

Natal – Jesus não nasceu em 25 de dezembro. É uma festa simbólica. Mas, quando vemos ao nosso redor os problemas, preocupações, dores, fracassos, enfermidades, injustiças, misérias, corrupção, mentiras, devemos lembrar e nos perguntar: o mal vencerá o bem? A escuridão ganhará da luz? Cristo desaparecerá? Será vencido pelo mal?  O dia 25 de dezembro é o anúncio que Jesus é o Sol Invencível; jamais será derrotado. O 25 de dezembro é o maior grito de esperança dos homens; todos os que se opuserem a Jesus desaparecerão, porque ele é o verdadeiro Sol Invencível.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Jesus é mesmo o Cristo?


No Evangelho das missas deste domingo (Mt 11, 2-11), o relato feito por Mateus acontece no ano 26 d.C., quando João Batista estava preso na prisão de Maqueronte, por ordem de Herodes Antipas. João permaneceu dez meses preso, até o dia em que Herodíades, por intermédio de sua filha Salomé, conseguiu convencer Herodes de matar João, pedindo como presente a cabeça dele em uma bandeja de prata.

 

Dúvida do Batista – João, ouvindo falar das obras de Jesus, mandou seus discípulos perguntarem: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?”

 

Messias? – A pergunta não é feita à toa… João esperava um Messias que viesse lançar fogo a terra, castigar os maus e os pecadores, dar início ao “juízo de Deus” (Evangelho de domingo passado); e, ao contrário, Jesus aproximou-Se dos pecadores, dos marginais, dos impuros, estendeu-lhes a mão, mostrou-lhes o amor de Deus, ofereceu-lhes a salvação. João e os seus discípulos estão, portanto, desconcertados: Jesus será o Messias esperado ou é preciso esperar outro, que venha atuar de uma forma mais decidida, mais lógica e mais justiceira?

 

Vários Messias – O tempo de Jesus era uma época de expectativas. O povo era muito sofrido, dominado pelo Império Romano e reprimido pela elite dos judeus. Crescia muito a esperança na vinda de um Messias libertador, esperado há séculos. O primeiro século da nossa era foi marcado pelo aparecimento de muitos líderes populares, propondo-se como Messias. Cada grupo da Palestina tinha as suas expectativas sobre como seria a pessoa e a atuação desse Messias prometido.

 

Resposta – Jesus responde aos discípulos de João, mostrando ser o Messias esperado por seus atos. Usando textos do profeta Isaías, ele mostra que o Reino de Deus chegou nele, pois acontecem as obras de libertação que são características do Reino: com os mortos (Is 26,19), os surdos (Is 29,18-19), os cegos, surdos, coxos e pobres (Is 35,5-6), e o anúncio da Boa-Nova aos pobres (Is 61,1).

 

Relações – O messianismo de Jesus não se enquadrava nas expectativas de muita gente, que esperava a derrota dos opressores, mas não vislumbravam um mundo novo, baseado em solidariedade e justiça. Jesus veio estabelecer no meio dos homens o Reino de Deus, baseado no conceito de “justiça” – o restabelecimento de relações corretas de cada pessoa com Deus, consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Veio realmente criar novas relações e não anunciar velhas relações com os papéis invertidos, em que o oprimido vira opressor.

 

Desafio – Jesus sempre é questionador, desafia as nossas expectativas. Para muitos, a proposta de Jesus era difícil demais, pois mexia com o próprio comodismo. Ele era uma novidade total que não se enquadrava nos velhos esquemas. Por isso diz: “E feliz de quem não se escandalizar por minha causa”. Hoje também, a pessoa e o projeto de Jesus desafiam a todos – especialmente nós cristãos.

 

Jesus ‘Light’ – Muitos cristãos têm uma idéia de como deve ser a figura do Messias – triunfal, poderoso, milagreiro, que não mexe com as estruturas sociais, políticas, econômicas da sociedade, que não nos desafia a criar novas relações, na contramão da sociedade materialista, individualista e consumista. Muitos hoje preferem um Jesus “light” – que funciona como analgésico, que nos apazigua a consciência, que nos dá emoções fortes, mas que não nos joga na luta dura da criação de uma nova sociedade, baseada nos princípios do Reino!

 

E onde existe esse Reino? – O Reino existe onde se faz o que Jesus fazia – onde os mais excluídos estão integrados, os rejeitados estão acolhidos, a Boa-Nova de libertação total é pregada e vivenciada – e onde se faz a vontade de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”. É este Jesus que aguardamos no Natal.

 

Advento – Que o Advento seja também, tempo de purificação das falsas imagens a respeito de Jesus, que talvez permeiem as nossas mentes. Ele só renasce onde as pessoas, sejam elas cristãs ou não, se comprometem com as mesmas metas Dele, conforme o texto nos demonstra. Somos felizes, se essas exigências não forem escândalo para nós. A novidade perene do Evangelho e de Jesus nos desafia a rompermos com os nossos velhos esquemas, para que concretizemos, nas nossas vidas, a vinda do Reino.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Uma voz no deserto

Estamos no segundo domingo do Advento. O texto do Evangelho das missas (Mt 3,1-12) é dedicado a João Batista. A reflexão de hoje é baseada num texto do Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia do Vaticano.

 

Uma voz – O Evangelho do segundo domingo de Advento, não é Jesus que nos fala diretamente, mas seu precursor, João Batista. O coração da pregação do Batista está contido nessa frase de Isaías, que João repete a seus contemporâneos com grande força: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!”. Isaías, para dizer a verdade, expressava: “Uma voz clama: no deserto, abri caminho ao Senhor” (Is 40, 3). Não é, portanto, uma voz no deserto, mas um caminho no deserto. Os evangelistas, aplicando o texto ao Batista que pregava no deserto da Judéia, modificaram a pontuação, mas sem mudar o sentido da mensagem.

 

Deserto – Jerusalém era uma cidade rodeada pelo deserto: ao Oriente, os caminhos de acesso na areia eram facilmente apagados pelo vento, enquanto ao Ocidente se perdiam entre as asperezas do terreno para o mar. Quando uma comitiva ou um personagem importante devia chegar à cidade, era necessário sair e caminhar pelo deserto para abrir uma via menos provisória; cortavam as sarças, aplainavam os obstáculos, reparavam a ponte ou uma passagem. Assim se fazia, por exemplo, por ocasião da Páscoa, para acolher os peregrinos que chegavam da Diáspora. Neste dado, de fato, inspira-se João Batista. Está a ponto de chegar, clama, aquele que está acima de todos, “aquele que deve vir”, o esperado os povos: é necessário traçar um caminho no deserto para que possa chegar.

 

Caminhos do Senhor – Mas eis aqui o salto da metáfora à realidade: este caminho não se traça no terreno, mas no coração de cada homem: não se traça no deserto, mas na própria vida. Para fazê-lo, não é necessário pôr-se materialmente ao trabalho, mas converter-se: “Endireitai os caminhos do Senhor”: este mandato pressupõe uma amarga realidade: o homem é como uma cidade invadida pelo deserto; está fechado em si mesmo, em seu egoísmo; é como um castelo com um fosso ao redor e as pontes levantadas. Pior: o homem complicou seus caminhos com o pecado e aí permaneceu, seduzido, como em um labirinto. Isaías e João Batista falam metaforicamente de precipícios, de montes, de passagens tortuosas, de lugares impraticáveis.

 

Verdadeiros nomes – Basta chamar estas coisas por seus verdadeiros nomes, que são orgulho, humilhações, violências, cobiças, mentiras, hipocrisia, imundices, superficialidades, embriaguez de todo tipo (pode-se estar ébrio não só de vinho ou de drogas, mas também da própria beleza, da própria inteligência, de si mesmo, que é a pior embriaguez!). Então se percebe imediatamente que o discurso também é para nós, é para cada homem que nesta situação deseja e espera a salvação de Deus.

 

Significa – Endireitar um caminho para o Senhor, portanto, tem um significado bastante concreto: significa empreender a reforma da nossa vida, converter-se. Em sentido moral, o que se deve aplanar e os obstáculos que se deve retirar são o orgulho – que leva a ser impiedoso, sem amor para com os demais – a injustiça – que engana o próximo – além de rancores, vinganças, traições no amor. São vales cheios de preguiça, incapacidade de impor-se um mínimo de esforço, todo pecado de omissão.

 

Montes – A palavra de Deus jamais nos esmaga sob um monte de deveres sem dar-nos ao mesmo tempo a segurança. O profeta Baruc diz que Deus “dispôs que sejam abaixados os montes e as colinas, e enchidos os vales para que se una o solo, para que Israel caminhe com segurança sob a glória divina". Deus abaixa, Deus enche, Deus traça o caminho; é tarefa nossa corresponder à sua ação, recordando que “quem nos criou sem nós, não nos salva sem nos”.