sábado, 28 de janeiro de 2012

Um ensinamento novo

No evangelho deste domingo, Marcos (1,21-28) descreve a entrada de Jesus em uma sinagoga, em Cafarnaum, pondo-se a ensinar. Em sua narrativa, o evangelista descreve o conflito de Jesus com o rígido sistema religioso judaico e sua severa repreensão ao espírito impuro com o qual se defronta. Na conclusão, fica em destaque o ensinamento novo de Jesus, que vem subjugar os espíritos impuros. 

Descoberta – A primeira parte do Evangelho escrito por Marcos tem como objetivo fundamental levar o leitor a descobrir Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso, os leitores são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar suas palavras e a aderir à sua proposta de salvação/libertação. Este percurso de descoberta do Messias termina em Mc 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro: “Tu és o Messias”. 

Encontro libertador – O texto que nos é proposto neste final de semana aparece, exatamente, no princípio dessa caminhada de encontro com o Messias e com o seu anúncio de salvação. Já rodeado pelos primeiros discípulos, Jesus começa a revelar-Se como o Messias-libertador, que está no meio dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação. 

Local – O Evangelho situa-nos em Cafarnaum (em hebraico Kfar Nahum, a “aldeia de Naum”), a cidade situada na costa noroeste do Lago Kineret (o Mar da Galileia). De acordo com os Evangelhos Sinópticos, é aí que Jesus se vai instalar durante o tempo do seu ministério na Galileia. Vários dos discípulos – Simão e seu irmão André, Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João – viviam em Cafarnaum. 

A cena – É um sábado. A comunidade está reunida na sinagoga de Cafarnaum para a liturgia do dia. Jesus, recém-chegado à cidade, entra na sinagoga – como qualquer bom judeu – para participar na liturgia sabática. A celebração comunitária começava, normalmente, com a “profissão de fé” (Dt 6,4-9), a que se seguiam orações, cânticos e duas leituras: a primeira, escolhida da Torah (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento) e a segunda, de um dos livros dos Profetas; depois, vinha o comentário às Leituras e as bênçãos.  

Comentarista – É provável que Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas. Fez as reflexões sobre o texto de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam habituadas a ouvir dos “escribas” (os estudiosos das Escrituras). As pessoas ficaram maravilhadas com as palavras de Jesus, “porque ensinava com autoridade e não como os escribas”. A referência à autoridade das palavras de Jesus pretende sugerir que Ele vem de Deus e traz uma proposta que tem a marca de Deus.


Autoridade – A “autoridade”, que se revela nas palavras de Jesus manifesta-se também, em ações. Na sequência das palavras ditas por Jesus e que transmitem aos ouvintes um sinal inegável da presença de Deus, aparece em cena “um homem com um espírito impuro”.


Impuros – Os judeus estavam convencidos que todas as doenças eram provocadas por “espíritos maus” que se apropriavam dos homens. As pessoas afetadas por esses males deixavam de cumprir a Lei e ficavam numa situação de “impureza” (afastadas de Deus). Acreditava-se que esses “espíritos maus” tinham um poder absoluto, que os homens não podiam derrotar; somente Deus, com o seu poder e autoridade absolutos, era capaz de vencer os “espíritos maus” e devolver a vida aos homens.


Libertação – Numa encenação com um singular poder evocador, Marcos põe o “espírito mau” que domina “um homem” presente na sinagoga, a interpelar violentamente Jesus. A ação da cura do homem “com um espírito impuro” constitui “a prova” de que Jesus traz uma proposta de libertação que vem de Deus; pela ação de Jesus, Deus vem ao encontro do homem para salvá-lo de tudo aquilo que o impede de ter vida em plenitude.


Ensinamento novo – É um ensinamento novo, que liberta e gera esperança e alegria entre todos. É a novidade do anúncio, com a proposta de conversão de vida, abandonando uma religião estéril para aderir a uma prática do amor transformante das relações humanas, no desapego, na fraternidade, na justiça e na paz.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Paulo: o missionário viajante

No próximo dia 25 de janeiro, a Igreja comemora a festa de conversão de São Paulo. Vamos conhecer um pouco da vida desse discípulo. 

Paulo – Nos Atos dos Apóstolos, o próprio Paulo se apresenta como judeu, nascido na cidade de Tarso, na Cilícia, (atual província de Mersin, na Turquia; em 64 a.C., o general romano Pompeu anexou-a à Província da Síria), circunciso desde o oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus. Criado em Jerusalém e educado pelo rabino Gamaliel (liberal ancião do Sinédrio e o mais proeminente mestre de seu tempo), identificava-se como fariseu. Herdara dos pais a cidadania romana, o que lhe conferia os direitos e proteção legais através de todo o Império Romano. Alguns autores citam que Paulo era rabino. 

Como era – Um antigo texto apócrifo (não reconhecido pela Igreja) descreve Paulo como um "homem de pequena estatura, careca, e de pernas arqueadas, em boa condição física, de sobrancelhas juntas e nariz um pouco encurvado (em forma de gancho), cheio de amabilidade, que umas vezes parecia um homem, outras um anjo".  

Perseguidor – Antes de ter a visão de Cristo, Paulo era um fariseu sincero, tranquilo e devotado à Lei judaica. Por sua fé, colocava-se violentamente contra os seguidores de Cristo, uma “nova seita” que surgia entre os judeus. Para Paulo, Jesus não podia ser o Messias, pois fora condenado pela Lei judaica. Via a oposição de Estêvão e dos helenistas ao Templo como um questionamento aos fundamentos da fé judaica, centrada na prática da Lei e na vida cultural do Templo. 

Viagem para Damasco – Por volta do ano 34, Paulo ficou sabendo que havia uma grande comunidade cristã em Damasco, na Síria. Obteve do Sinédrio (Supremo Tribunal da comunidade judaica de Jerusalém) cartas de recomendação aos rabinos de Damasco, autorizando-o a caçar os hereges cristãos. Acompanhado de alguns homens, percorre a cavalo os cerca de 200 quilômetros até Damasco. Depois de sete dias de viagem, sob um sol escaldante, consegue finalmente avistar as muralhas da cidade. 

A visão – Ao chegar próximo a Damasco, aconteceu algo que virou do avesso os valores de Paulo. Ele próprio descreve a experiência de várias formas: como uma aparição de Jesus ou como Deus se revelando a Seu Filho, ou como uma visão que teve do Senhor, ou ainda como sendo apanhado por Jesus. Paulo foi jogado ao chão e ficou cego por uma luz mais brilhante que o Sol, enquanto uma voz chamava-o pelo nome hebraico: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" Ao perguntar de quem era a voz, recebeu a resposta: "Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo".  

Em Damasco – Os companheiros de Paulo levaram-no até Damasco, onde permaneceu por três dias sem ver e incapaz de comer. Durante o jejum, teve visões de futuras missões para transmitir ao mundo o nome de Jesus, mas não se lançou de imediato em sua vocação.

Pregações – Entre os anos 46 e 58, Paulo fez quatro viagens missionárias através do Mediterrâneo, Paulo percorreu mais de 15 mil quilômetros, sofrendo naufrágios, apedrejamentos, espancamentos, prisões, humilhações e os rigores das condições das viagens. Os Atos dos Apóstolos dividem suas viagens em três partes, mas existem pequenas jornadas entre estas viagens. Paulo e seus colaboradores fundaram Igrejas em mais de 20 cidades. 

Cartas – Paulo enviou muitas cartas às comunidades que fundou. São consideradas canônicas 13 cartas de Paulo (compõem o Novo Testamento), embora apenas 7 tenham sido escritas por seu próprio punho; as outras 6 são compilações ou foram redigidas por discípulos de Paulo após a sua morte. 

Morte – Quando chegou o seu martírio (ano 62), Paulo, mais que qualquer outro discípulo de Cristo, tinha ajudado a criar e cuidar de uma rede de comunidades cristãs que desabrocharia numa Igreja universal.

Memorial – A Igreja comemora em 25 de janeiro a conversão de São Paulo; em 29 de junho os santos Pedro e Paulo, fundadores da Igreja; e em 18 de novembro a festa de dedicação da Basílica de São Pedro e São Paulo.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Vinde e vede

A liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum propõe-nos uma reflexão sobre a disponibilidade para acolher os desafios de Deus e para seguir Jesus. O Evangelho (Jo 1,35-42) descreve o encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos. O autor do Evangelho responde as seguintes perguntas: Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de Jesus?  

Quem é discípulo? – Na primeira parte do Evangelho, João Batista estava com dois de seus discípulos, quando reconhece Jesus na multidão, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus”. Na perspectiva do Evangelista, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer, no Cristo que passa, o Messias libertador. 

Quem pode integrar a comunidade? – Jesus, percebendo que os dois discípulos de João Batista o seguiam, perguntou a eles: “O que é que vocês estão procurando?”. E eles responderam: “Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?” E Jesus respondeu: “Venham, e vocês verão”. E os dois discípulos ficaram com Jesus nesse dia. Portanto, para o Evangelista, pode integrar a comunidade de Jesus quem está disponível para segui-lo no caminho do amor e da entrega, quem aceita o Seu convite para entrar na sua casa e para viver em comunhão com Ele.  

Quem mais? – André, um dos discípulos que seguiram Jesus, foi procurar seu irmão, Pedro, e disse-lhe: “Nós encontramos o Messias (que quer dizer Cristo)”; e levou-o a Jesus. Fixando os olhos nele, Jesus disse-lhe: “Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra)”. Portanto, segundo o Evangelista, pode integrar a comunidade de Jesus quem é capaz de testemunhar Jesus e de anunciá-lo aos outros irmãos. 

Batista e Jesus – Nos Evangelhos, pode-se perceber a íntima relação entre o anúncio de João Batista e o anúncio de Jesus, que assume o caminho aberto pelo Batista, completando-o, como o caminho para a vida eterna em Deus. Nesta narrativa do evangelho de João, a própria formação do discipulado em torno de Jesus se inicia entre os discípulos de João Batista. 

Discípulos – Para os três primeiros discípulos não há um chamado explícito, de forma sumária, como aparece nas narrativas de Marcos e Mateus. Nestas, às margens do Mar da Galileia, Jesus chama os discípulos que pescavam: "Sigam-me...". Em João, a experiência do convívio com Jesus é que estabelece o vínculo do discipulado e leva cada discípulo a comunicá-lo a outros. O breve diálogo que se estabelece é revelador: "O que estão procurando?"... "Onde moras?"... "Venham e verão!". É o encontro com Jesus "onde ele mora", isto é, na intimidade, na sua simplicidade e no seu acolhimento. Firma-se assim, a vocação destes discípulos, que vão comunicar a Pedro o encontro e ele se faz também seguidor de Jesus. 

Chamado – A adesão a Jesus, Filho de Deus encarnado entre nós, se dá a partir de relações pessoais, em um processo comunitário. Este processo se diferencia das tradicionais vocações do Antigo Testamento, onde o chamado de Deus é feito em visões ou aparições individuais. Neste modelo antigo temos, por exemplo, o chamado de Samuel (primeira leitura), consagrado ao santuário de Silo, sob os cuidados do sacerdote Eli.

Nasce a Nova Comunidade – Os discípulos aceitam o convite e fazem a experiência da partilha da vida com Jesus. Essa experiência direta convence-os a ficar com Jesus (“ficaram com Ele nesse dia”). Nasce, assim, a comunidade do Messias, a comunidade da nova aliança. É a comunidade daqueles que encontram Jesus que passa, procuram nele a verdadeira vida e a verdadeira liberdade, identificam-se com Ele, aceitam segui-lo no seu caminho de amor e de entrega, estão dispostos a uma vida de total comunhão com Ele.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Magos do Oriente: inteligência e fé

Magos do Oriente: inteligência e fé



No Evangelho deste domingo (Mt 2,1-12), os “magos” do oriente (representantes de todos os povos da Terra) vêm ao encontro de Jesus. Atentos aos sinais da chegada do Messias, procuram o Menino com esperança, até que O encontram, reconhecendo n’Ele a “salvação de Deus” e aceitando-O como “o Senhor”. 

Papa – Reproduzimos, a seguir, a reflexão realizada pelo Papa Bento XVI, durante o Ângelus do dia 6/1/2010, com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro. 

Sinal – Queridos irmãos e irmãs! Celebramos hoje a grande festa da Epifania, o mistério da manifestação do Senhor a todos os povos, representados pelos Magos, vindos do Oriente para adorar o Rei dos Judeus (cf. Mt 2, 1-2). O evangelista Mateus, que relata o acontecimento, sublinha que estes chegaram a Jerusalém seguindo uma estrela, vista em seu surgimento e interpretada como sinal do nascimento do Rei anunciado pelos profetas, ou seja, o Messias.


Estrelas – Quando chegaram a Jerusalém, no entanto, os Magos precisaram das indicações dos sacerdotes e dos escribas para conhecer exatamente o lugar ao qual deveriam se dirigir, isto é, Belém, a cidade de Davi (Mt 2,5-6; Mq 5,1). A estrela e as Sagradas Escrituras foram as duas luzes que guiaram o caminho dos Magos, que aparecem como modelos dos autênticos buscadores da verdade.


Revelações – Eles eram sábios, que sondavam os astros e conheciam a história dos povos. Eram homens de ciência, em um sentido amplo, que observavam o cosmos, considerando-o quase como um grande livro, cheio de sinais e de mensagens divinas para o homem. Seu saber, portanto, longe de considerar-se autossuficiente, estava aberto a posteriores revelações e chamados divinos. De fato, não se envergonharam de pedir instruções aos chefes religiosos dos judeus. Eles poderiam ter dito: façamos isso sozinhos, não precisamos de ninguém, evitando, segundo nossa mentalidade atual, toda “contaminação” entre a ciência e a Palavra de Deus.


Profecia – No entanto, os Magos escutaram as profecias e as acolheram; e assim que voltaram ao caminho, rumo a Belém, viram novamente a estrela, quase como confirmação de uma perfeita harmonia entre a busca humana e a Verdade divina, uma harmonia que encheu de alegria seus corações de autênticos sábios (Mt 2, 10). O cume do seu itinerário de busca foi quando se encontraram diante do “Menino com Maria, sua mãe” (Mt 2, 11).


Sábios – O Evangelho diz que “ajoelharam-se diante dele e o adoraram”. Eles poderiam ter ficado desiludidos e, mais ainda, escandalizados. No entanto, como verdadeiros sábios, abriram-se ao mistério que se manifesta de forma surpreendente; e, com seus dons simbólicos, demonstraram que reconheciam em Jesus o Rei e o Filho de Deus. Precisamente, neste gesto, se cumprem os oráculos messiânicos que anunciam a homenagem das nações ao Deus de Israel.


Inteligência e fé – Um último detalhe confirma, nos Magos, a unidade entre inteligência e fé: é o fato de que, “avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2, 12). Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para proclamar sua descoberta. No entanto, os Magos, que escolheram o Menino como soberano, protegeram-nO, escondendo-O, segundo o estilo de Maria, ou melhor, do próprio Deus e, assim como tinham aparecido, desapareceram no silêncio, apagados, mas também transformados, após o encontro com a Verdade. Eles descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza: a do amor.

Maria – Que a Virgem Maria, modelo de verdadeira sabedoria, nos ajude a sermos autênticos buscadores da verdade de Deus, capazes de viver sempre a profunda sintonia que existe entre a razão e a fé, entre a ciência e a revelação.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho

No Evangelho deste domingo (Lc 2,16-21) Lucas descreve que os pastores, ao serem avisados pelo anjo, dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura; e regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto. 

Natal – O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal: após o anúncio do “anjo do Senhor”, os pastores (destinatários desse anúncio) dirigiram-se a Belém e encontraram o Menino, deitado numa manjedoura de uma gruta de animais.  

Catequese – Mais uma vez, Lucas não está interessado em fazer a reportagem do nascimento de Jesus ou a crônica social das “visitas” que, então, o menino de Belém recebeu; mas está, sobretudo, interessado em apresentar uma catequese que dê a entender (aos cristãos, a quem o texto se destina) quem é esse Menino e qual a missão de que ele foi investido por Deus. Nesta catequese fica bem claro que Jesus é o Messias libertador, enviado a trazer a paz; e há também, uma reflexão sobre a resposta que Deus espera do homem. 

Ideia do autor – Como pano de fundo do texto está, portanto, a ideia de que, com a chegada de Jesus, atingimos o centro do tempo salvífico… Em Jesus, a proposta libertadora que Deus tinha para nos oferecer veio ao nosso encontro e materializou-se no meio dos homens; o fato de que essa “boa notícia” foi dada, em primeiro lugar, aos pastores (classe marginalizada, considerada impura, pecadora e muito longe de Deus e da salvação) significa que a proposta de Jesus se destina, de forma especial, aos pobres e marginalizados, àqueles que a teologia oficial excluía e condenava. Diz-lhes que Deus os ama, que conta com eles e que os convoca para fazer parte da sua família. Esta é a ideia essencial do autor. 

Personagens da cena – Definida a questão essencial, vamos voltar nossa atenção para as atitudes dos pastores e na forma como eles respondem à chegada de Jesus… 

Pastores – Depois de escutarem a “boa nova” do nascimento do libertador, se dirigem “apressadamente” ao encontro do menino. A palavra “apressadamente” sublinha a ânsia com que os pobres e os marginalizados esperam a ação libertadora de Deus em seu favor. Aqueles que vivem numa situação intolerável de sofrimento e de opressão reconhecem Jesus como o único salvador e apressam-se a ir ao seu encontro. É d’Ele e de mais ninguém que brota a libertação pela qual os oprimidos anseiam. A disponibilidade de coração para acolher a sua proposta é a primeira coisa que Deus pede. 

Glória – Reparem como os pastores reagem ao encontro com Jesus… Começam por glorificar e louvar a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido: é a alegria pela libertação que se converte em ação de graças ao Deus libertador. Depois, esse louvor torna-se testemunho: quem faz a experiência do encontro com Deus libertador tem obrigatoriamente de dar testemunho, a fim de que os outros homens possam participar da mesma experiência gratificante. 

Maria – Finalmente, atentemos na atitude de Maria: ela “conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração”. É a atitude de quem é capaz de abismar-se com as ações do Deus libertador, com o amor que Ele manifesta nos seus gestos em favor dos homens. “Observar”, “conservar” e “meditar” significa ter a sensibilidade para entender os sinais de Deus e ter a sabedoria da fé para saber lê-los à luz do plano de Deus. É precisamente isso que faziam os profetas. 

Atitudes – A atitude meditativa de Maria, que interioriza e aprofunda os acontecimentos, complementa a atitude “missionária” dos pastores, que proclamam a ação salvadora de Deus, manifestada no nascimento de Jesus. Estas duas atitudes definem duas coordenadas essenciais daquilo que deve ser a existência do crente.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Quando nasceu Jesus ?

Como fizemos na semana passada, hoje vamos apresentar mais detalhes sobre o nascimento de Jesus com informações tiradas dos Evangelhos Canônicos e de textos históricos. 

Cronologia – A cronologia do nascimento de Jesus não é encontrada, diretamente, nos Evangelhos.  No entanto, é possível a reconstrução do quadro cronológico a partir de alguns dados evangélicos, históricos e astronômicos.         

O que dizem os Evangelhos – O ano em que Jesus nasceu pode ser calculado em função de dois dados evangélicos: alguns anos antes da morte de Herodes (Mt 2,1-19) e por ocasião de um recenseamento, quando Públio Sulpício Quirino era governador da província romana da Síria (Lc 2,2). 

Um pouco de História – De acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, Herodes governou 37 anos (desde o 714º ano do calendário romano, que conta os anos a partir da fundação de Roma – ou 40 a.C. – até a sua morte no ano 750º, ou 4 a.C.).   Herodes morreu alguns dias após um eclipse lunar e cerca de 10 dias antes da Páscoa.  A astronomia confirma um eclipse lunar visível em Jerusalém na noite de 12 de março de 4 a.C. e a Páscoa daquele ano ocorreu em 11 de abril.  Portanto, Herodes morreu no final de março do ano 4 a.C. 

Herodes – Sabe-se também, que no princípio do inverno do ano de 5 a.C. Herodes, já doente (problemas pulmonares), se transferiu para Jericó e, depois, para as termas de Calliroe, no Mar Morto.  Portanto, a visita dos magos a Jesus e a Herodes em Jerusalém se deu antes dessa data (Mt 2).  Por outro lado, Herodes, calculando a época desde o nascimento de Jesus, fez matar todos os meninos com menos de dois anos.  Isso nos leva a concluir que Jesus deveria ter nascido pelo menos dois anos antes da morte de Herodes.  

O ano do nascimento de Jesus – Essas considerações nos levam a situar o nascimento de Jesus nos anos 7 (mais provável) ou 6 antes de nossa era e, portanto, se não fosse um paradoxo, poderíamos dizer em 7 ou 6 "antes de Cristo". 

Jesus não nasceu em dezembro – Quanto ao mês do nascimento de Jesus, a única informação está em Lc 2,8: "na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias montavam guarda a seu rebanho".   Sabe-se que, em dezembro, quando comemoramos o Natal, a temperatura na região de Belém é abaixo de zero e, normalmente, há geadas.   Portanto, certamente não haveria gado, no mês de dezembro, nos pastos próximos a Belém.   Atualmente, naquela região, os rebanhos são levados para o campo em março e recolhidos no fim de outubro. 

A época mais provável – Portanto, o nascimento de Jesus se deu antes do inverno (do hemisfério norte), talvez no mês de setembro ou outubro do ano 7 (talvez 6) antes de nossa era. 

25 de dezembro – Nada sabemos sobre o dia do nascimento de Jesus. Os romanos comemoravam em 25 de dezembro o ‘Dia do Sol Invencível’ pois, os dias começavam a ficar mais longos.  No século IV, os cristãos adotaram esta data para proclamar o nascimento de Cristo. 

QUER SABER MAIS? – Flávio Josefo foi um escritor e historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d.C. No primeiro século escreveu a obra “A História dos Hebreus” que, depois da Bíblia, é a maior fonte de informações sobre os impérios da Antiguidade, o povo judeu e o Império Romano. Se você quiser receber o texto completo deste livro (1.627 páginas) solicite por E-mail que lhe enviaremos o arquivo gratuitamente.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Advento: Alguém está chegando...

Como fizemos na semana passada, a respeito da história de João Batista, hoje vamos apresentar mais detalhes sobre o nascimento de Jesus com informações tiradas de outras fontes (além dos Evangelhos Canônicos), como a tradição judaica, fontes históricas e textos apócrifos (Protoevangelho de Tiago, a História de José o Carpinteiro). Lembramos que a Igreja Católica aceita alguns destes fatos na sua liturgia (os nomes dos pais de Maria, a cerimônia de apresentação de Maria no Templo, Imaculada Conceição, José idoso, o bastão de José), mesmo não constando nos Evangelhos. 

Maria – A mãe de Jesus era filha de Joaquim e Ana e foi concebida, por intervenção divina, imaculada, sem pecado original. Recebeu educação no Templo dos três aos doze anos de idade, foi oferecida em noivado a José, indo morar em sua casa. 

José – O pai adotivo de Jesus era um viúvo, carpinteiro, que vivia na cidade de Belém com seus seis filhos (quatro homens e duas mulheres). Tiago era o menor deles, ainda com pouca idade. José era um homem justo e costumava permanecer longos períodos em viagem (junto com dois de seus filhos), exercendo sua profissão (construindo casas). 

Um certo anjo... – Certo dia, Maria pegou um cântaro e foi enchê-lo de água. Era o ano 7 a.C. e Maria tinha 13 (ou 14) anos. Mas eis que ouviu uma voz que lhe dizia: "Deus te salve, cheia de graça, o Senhor está contigo, bendita és entre as mulheres." Maria se assustou, pois não sabia de onde vinha aquela voz. Um anjo se apresentou diante dela, dizendo: "Não temas, Maria, pois obtiveste graça junto a Deus. Eis que engravidarás e darás à luz um filho, e lhe darás o nome de Jesus.”. 

Visita a Isabel – Após a visita do anjo, Maria partiu em visita a sua parenta Isabel, grávida de seis meses. Permaneceu três meses com Isabel, portanto, até o nascimento de João Batista. Cabe lembrar a distância entre as cidades de Nazaré e Belém é de, aproximadamente, 140 km. Assim, Maria percorreu 280 km em sua visita a Isabel. 

Magnificat – Ao chegar à casa de Isabel, Maria ouviu um dos mais belos hinos de louvor cristão, todo baseado no cumprimento das promessas do Antigo Testamento (Lc 1,46-56). O Magnificat seria uma oração usada na liturgia palestinense. 

Ave Maria – Você sabia que a primeira parte da oração da "Ave Maria" é totalmente tirada das palavras do anjo e de Isabel? Está tudo na Bíblia. Vejamos: "Ave, cheia de graça" (anjo em Lc 1,28-30), "o Senhor está convosco" (anjo em Lc 1,28), "bendita és entre as mulheres" (Isabel em Lc 1,42), "bendito é o fruto do vosso ventre" (Isabel Lc 1,42). Portanto, ao rezarmos a oração da Ave Maria, estamos recitando versículos do Evangelho de Lucas. 

Gravidez de Maria – Quando Maria estava no sexto mês de gravidez, José voltou do seu trabalho. Ao constatar a gravidez de Maria, revoltou-se, não sabendo que atitude tomar: podia denunciá-la às autoridades (o que a levaria à morte) ou assumir a gravidez, aceitando-a em sua casa como esposa. Um anjo apareceu a José (em sonho), indicando a concepção divina de Maria e determinando que o seu filho deveria chamar-se Jesus. 

Viagem – Era verão (ou outono) do ano 7 (ou 6) a.C. no hemisfério norte, pois os pastores estavam com seus rebanhos no campo (portanto, agosto ou setembro). O imperador Augusto publicou um decreto ordenado que todos deveriam se recensear em sua cidade de nascimento. Para a viagem a Belém, José selou uma asna e acomodou Maria sobre ela. Enquanto um de seus filhos ia à frente, puxando o animal, José ia atrás, em outro animal. 

Nascimento – Quando estavam a aproximadamente três quilômetros de Belém, Maria começou a sentir as dores de parto. Havia ali perto uma gruta de pedra, com alguns animais. Bem... o resto da história todo mundo já sabe...