sábado, 9 de julho de 2016

A logística de uma viagem no tempo de Jesus


No Evangelho das missas deste domingo (Lc 10,25-37), o evangelista Lucas apresenta a parábola do “Bom Samaritano”.  Jesus e seus apóstolos estão viajando da Galiléia para Jerusalém, quando são questionados por um doutor da Lei. Mas, vocês sabem como eram realizadas as viagens na época de Jesus?

Forma de viajar – As viagens eram realizadas a pé (quando participavam homens), ou sobre algum animal (quando havia alguma dificuldade de caminhar) ou com o uso de carroças (formando caravanas). Segundo a tradição, a viagem de José e Maria (grávida) de Nazaré para Belém foi realizada com Maria montada sobre um animal de carga e a viagem dos Magos foi sobre camelos (embora os Evangelhos nada descrevam). A viagem de Jesus (com 12 anos) à Jerusalém foi realizada em caravana (Lc 2, 44).

Tempo de viagem – As viagens eram realizadas apenas durante o dia e isso permitia o deslocamento diário de aproximadamente 40 km (talvez um pouco mais, quando havia somente homens e seguiam a pé). No episódio em que, aos doze anos, Jesus ficou em Jerusalém e José e Maria, em caravana, caminharam um dia inteiro (Lc 2, 41), eles se distanciaram cerca de 40 km de Jerusalém.

Um plano de viagem – Para a viagem de Jesus e os apóstolos de Jerusalém até a Galiléia (Cafarnaum) provavelmente o plano seria o seguinte: uma primeira etapa, de Jerusalém até Jericó (183 estádios ou 34 km); a segunda etapa, de Jericó até o monte Gilboa (50 km); e, uma terceira etapa, até Cafarnaum, de 46 km. O estádio era uma medida romana que equivalia a 600 pés ou 185 metros.

Preparação para a viagem – Nessa época, a viagem era preparada já durante a noite anterior. O trigo era colocado na moenda, acionada pelos criados. Após horas de trabalho, as mós eram desmontadas e o trigo moído era peneirado e depositado num saco para a viagem. Outra parte da farinha era amassada e cozida, formando os pães para a refeição antes da partida.

Refeição – Por volta das 4 horas da manhã, eram servidos os pães (roscas de trigo) com azeite, acompanhados de tigelas de leite de cabra, quente. Após a refeição, com o dia já clareando, cada homem separava o seu material e montava a sua mochila para a viagem.

Cantil – Cada viajante deveria tomar um par de sandálias de reserva (amarradas na cintura) e um cantil (uma cabaça seca e oca) preso a uma corda. Essas cabaças deveriam ter em seu interior uma pedra (pedregulho) para torná-las mais pesadas, permitindo tirar água dos poços sem a necessidade de recorrer aos serviços de homem ou mulher impuros.

Água – A água era transportada em um odre (saco de pele para transporte de líquidos) com capacidade entre 30 e 40 litros, preso a um par correias. O viajante deveria carregar o odre nas costas, deixando o gargalo virado para baixo, o que facilitava para que os outros se servissem da água. À água era misturado um pouco de vinho fermentado, o que dava à bebida um toque mais agradável e refrescante.

Tarefas – Um homem deveria se encarregar do transporte da água. Outros dois homens seriam os responsáveis pela lona e os suportes (paus de conífera, como pinheiros), para a montagem da tenda de campanha. Outro deveria ser o responsável pela estratégia de viagem (itinerário, tempos, locais de acampamento, poços). Havia ainda um tesoureiro, responsável por levar o saco com o dinheiro na cinta.

Mais tarefas – O saco de mantimentos era carregado por um ou dois homens. Os gêneros alimentícios consistiam em legumes (favas e lentilhas), grão torrado, cominhos e hortelã-pimenta (para temperar a comida), um jarro de mel branco e um bom sortimento de passas, tâmaras e figos secos, que eram prensados, tornando-se uma espécie de pão escuro e brilhante. Tudo isso, com uma porção de farinha moída, constituía uma dieta aceitável, suficiente para três ou quatro dias de viagem.

Vestimenta – Obedecendo a outro velho hábito, enrolava-se o respectivo sudário à volta da cabeça, úteis para conter o suor nas longas caminhadas. A maioria dos homens recolhia e enrolava as túnicas à cintura, cingindo os rins (Lc 12, 35). Assim, as amplas peças de lã ou linho não travavam o andar do caminhante. Alguns homens não enrolavam as túnicas à cintura, normalmente para esconder o dinheiro ou a bainha com a espada.


Os Apóstolos – Os Evangelhos não descrevem quais tarefas eram destinadas a cada apóstolo. Sabe-se apenas que Judas Iscariotes era o tesoureiro (Jo 13,29).

domingo, 3 de julho de 2016

O envio ...


No Evangelho das missas deste domingo, os discípulos de Jesus são enviados ao mundo para continuar a obra libertadora que Jesus começou e para propor a Boa Nova do Reino aos homens de toda a terra, sem exceção; devem fazê-lo com urgência, com simplicidade e com amor. Na ação dos discípulos, torna-se realidade a vitória do Reino sobre tudo aquilo que oprime e escraviza o homem.

Caminhada – O Evangelho situa-nos, outra vez, no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém. Apresenta-nos mais uma etapa desse “caminho espiritual”, durante o qual Jesus vai oferecendo aos discípulos a plenitude da revelação do Pai e preparando-os para continuar, após a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.

Catequese – A história do envio dos 72 discípulos é uma tradição exclusiva de Lucas. Seria uma história estranha e inesperada, se a víssemos como um relato fotográfico de acontecimentos concretos: de onde vêm estes 72, que não são nomeados nem por Mateus nem por Marcos e que aqui aparecem surgidos do nada? Trata-se, fundamentalmente, de uma catequese por meio da qual Lucas propõe, aos discípulos de todas as épocas, uma reflexão sobre a missão da Igreja, em caminhada pelo mundo. Lucas ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão de Jesus, tornando-se, para todos os homens, testemunha dessa proposta de salvação/libertação que Cristo veio trazer.

Dois a dois – O texto começa apresentando o número dos discípulos enviados: 72. Trata-se, evidentemente, de um número simbólico, que se refere à totalidade das nações pagãs que habitam a Terra. Significa, portanto, que a proposta de Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças. Depois, Lucas assinala que os discípulos foram enviados dois a dois. Trata-se de assegurar que o seu testemunho tem valor jurídico (Dt 17,6; 19,15); e trata-se de sugerir que o anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária, que não é feita por iniciativa pessoal e própria, mas, em comunhão com os irmãos.

Testemunho – Lucas indica, ainda, que os discípulos são enviados às aldeias e localidades onde Jesus “devia de ir”. Dessa forma, indica que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho d’Ele. Depois desta apresentação inicial, Lucas passa a descrever a forma como a missão se deve concretizar.

Cordeiros – Há, em primeiro lugar, um aviso sobre a dificuldade da missão: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos”. Trata-se de uma imagem que, no Antigo Testamento, descreve a situação do justo, perdido no meio dos pagãos. Aqui, expressa a situação do discípulo fiel, frente à hostilidade do mundo.

Simplicidade – Há, em segundo lugar, uma exigência de pobreza e simplicidade para os discípulos em missão: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforje, nem sandálias; não devem deter-se a saudar ninguém pelo caminho; também não devem saltar de casa em casa. As indicações de não levar nada para o caminho sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força libertadora da Palavra; a indicação de não saudar ninguém pelo caminho demonstra a urgência da missão; a indicação de que não devem saltar de casa em casa sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não a de encontrar uma hospitalidade mais confortável.

Anúncio – Qual deve ser o anúncio fundamental que os discípulos apresentam? Eles devem começar por anunciar “a paz”. Aqui, não se trata apenas da saudação normal entre os judeus, mas do anúncio dessa paz messiânica que preside ao Reino. É o anúncio desse mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar, de felicidade (tudo aquilo que é sugerido pela palavra hebraica “shalom”). Esse anúncio deve ser complementado por gestos concretos de libertação, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens.

Poeira – As palavras de ameaça às cidades que se recusam a acolher a mensagem (Até a poeira desta cidade que grudou nos nossos pés nós sacudimos contra vocês!) não devem ser tomadas ao pé da letra: são uma forma bem oriental de sugerir que a rejeição do Reino trará conseqüências trágicas à vida daqueles que escolhem continuar a viver em caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência.


Resultado – Nos versículos 17-20, Lucas refere-se ao resultado da ação missionária dos discípulos. As palavras com que Jesus acolhe os discípulos descrevem, figuradamente, a presença do Reino enquanto realidade libertadora. Apesar do êxito da missão, Jesus põe os discípulos de sobreaviso para o orgulho pela obra feita: eles não devem ficar contentes pelo poder que lhes foi confiado, mas sim porque os seus nomes estão “inscritos no céu” (a imagem de um livro onde estão inscritos os nomes dos eleitos é freqüente nesta época, particularmente nos apocalipses – veja em Dn 12,1; Ap 3,5; 13,8; 17,8; 20,12.15; 21,27).

domingo, 19 de junho de 2016

“Quo vadis, Domine?”



Nesta próxima semana, a Igreja celebra a Festa de São Pedro e São Paulo. Embora não apareçam no texto sagrado, as palavras latinas do título acima (Quo vadis, Domine?) têm uma relação direta com o martírio de São Pedro, certamente uma das mais emocionantes histórias do cristianismo.

Atos de Pedro – Toda a história é narrada no livro “Atos de Pedro”, um dos mais antigos livros apócrifos do Novo Testamento. Conhecido por sua descrição de uma competição de milagres entre São Pedro e Simão Mago, também é o primeiro registro da tradição, de que São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo. O texto foi escrito originalmente em grego, durante o século II d.C., provavelmente na Ásia Menor.

O texto – De acordo com os “Atos de Pedro”, no ano de 64 d.C., o imperador Nero começou uma perseguição contra os cristãos. Temendo que São Pedro caísse nas garras do imperador, os primeiros cristãos o aconselhavam a sair de Roma para se proteger. Pedro ficou indeciso: ficar e correr o risco de desaparecer junto com a Igreja nascente ou fugir para a Galileia ou Tiberíades e proclamar, bem longe de Roma, as verdades de Cristo?

Fugir de Roma – Pedro optou por sair de Roma. Nas primeiras horas da madrugada, disfarçados e envoltos pelas sombras, Pedro e Nazário, servo fiel, tomaram o rumo da Via Appia (principal estrada de acesso a Roma), em direção perdida. E andaram a passo rápido, ainda que o bastão do velho apóstolo tendesse a escorregar sobre as pedras polidas e entrelaçadas da via, assustando-se por qualquer ruído, temerosos ainda mais do silêncio opressivo.

Visão – Pela manhã, ao cruzar a Porta Latina da cidade, Pedro enxergou uma luz muito forte, vindo em sua direção. Quando a luz se aproximou, ele reconheceu Jesus Cristo, carregando uma cruz. Diante de Cristo, Pedro deixa cair o bastão, se ajoelha, levanta os braços e diz: “Quo vadis, Domini?” (Aonde vais, Senhor?). E Cristo lhe responde: ”Romam vado iterum crucifigi” (Vou a Roma para ser crucificado novamente).

Volta a Roma – Pedro compreendeu, então, que seu lugar era em Roma, entre seus cristãos perseguidos, a exemplo de Cristo, o Bom Pastor, que dera a vida pelas ovelhas de seu rebanho. Envergonhado de sua atitude, Pedro voltou para Roma, para continuar o seu ministério e, como descreve os “Atos de Pedro”, acabou sendo preso e crucificado pelo imperador Nero, porém, de cabeça para baixo, em sinal de humildade.

Quo Vadis – No mundo atual, num ambiente de competição, incerteza e inovação contínua, a expressão “Quo Vadis” ganhou o sentido de “Para onde ir”. Também acabou se tornando o título do famoso romance do polonês Henryk Sienkiewicz (1896), que deu origem ao belíssimo filme “Quo vadis”, seguido de outros dois filmes homônimos.

Bento XVI – Recentemente, na renúncia do Papa Bento XVI, a expressão “Quo Vadis” foi relembrada, por causa da semelhança dos fatos ocorridos com Pedro e o Papa. Alguns textos na imprensa imaginavam a cena de Bento XVI, deixando Roma rumo a Castel Gandolfo, avistando Jesus e, desta vez, o Mestre perguntando: “Quo vadis, domine?”. À indagação, o papa emérito responderia: “Deixo o ofício que o Senhor me confiou, para o bem da Igreja”. Na verdade, essa resposta, em oração, foi realmente dada ao divino fundador da Igreja Católica.

Túmulo de Pedro – As comemorações de São Pedro, no dia 29 de junho, devem-se não à data de sua morte, mas a descobertas relativamente recentes. A partir da década de 1950, foram feitas escavações na Basílica de São Pedro, realizadas por uma equipe chefiada pela arqueóloga italiana Margherita Guarducci. Ali foi encontrado o túmulo de Pedro e as pesquisa concluíram que a data real do martírio seria 13 de outubro de 64 d.C. A data de 29 de junho, marca o dia do translado dos restos mortais de Pedro para o túmulo.


Fico Curioso? – Se você gostou do assunto e quer ler mais, podemos lhe oferecer: o texto apócrifo “Atos de Pedro”, o resumo do livro “Quo Vadis” de autoria de Henryk Sienkiewicz e o texto “A lenda sobre São Pedro não se aplica ao caso do papa Bento XVI” de autoria de Edson Luiz Sampel.

sábado, 18 de junho de 2016

“Quem sou eu para vós?”



O Evangelho das missas deste domingo acontece na fase final da etapa da Galiléia, em julho do ano 29 (lembrar que Jesus foi crucificado no dia 7 de abril do ano 30). Jesus orava sozinho, quando perguntou aos discípulos: “Quem dizem as multidões que Eu sou?” Eles responderam: “Uns, João Batista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou”. Disse-lhes Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Pedro tomou a palavra e respondeu: “És o Messias de Deus”.

Testemunhas – Jesus passou algum tempo apresentando o seu programa e levando a Boa Nova aos pobres, aos marginalizados, aos oprimidos (Lc 4,16-21). À volta d’Ele, formou-se um grupo de “testemunhas”, que apreciaram a sua atuação e que se juntaram a esse sonho de criar um mundo novo, de justiça, de liberdade e de paz para todos. Agora, antes de começar a etapa decisiva da sua caminhada nesta terra (o “caminho” para Jerusalém, onde Jesus vai concretizar a sua entrega de amor), os discípulos são convidados a tirar as suas conclusões sobre o que viram, ouviram e testemunharam. Quem é este Jesus, que se prepara para cumprir a etapa final de uma vida de entrega, de dom, de amor partilhado? E os discípulos estarão dispostos a seguir esse mesmo caminho de doação e de entrega da vida ao “Reino”?

Oração – A cena de hoje começa com a indicação da oração de Jesus. É um dado típico de Lucas que põe sempre Jesus rezando antes de um momento fundamental. A oração é o lugar do reencontro de Jesus com o Pai. Depois de rezar, Jesus tem sempre uma mensagem importante – uma mensagem que vem do Pai – para comunicar aos discípulos. A questão importante que, nesse episódio, Jesus quer comunicar, tem a ver com a questão: “quem é Jesus?”

Messias – A época de Jesus foi uma época de crise profunda para o Povo de Deus; foi, portanto, uma época em que o sofrimento gerou uma enorme expectativa messiânica. Asfixiado pela dor que a opressão trazia, o Povo de Deus sonhava com a chegada desse libertador anunciado pelos profetas. Esperavam um grande chefe militar que, com a força das armas, iria restaurar o império de David e obrigar os romanos opressores a respeitar aquela nação. Na época apareceram várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”, criaram à sua volta um clima de ebulição, arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram, invariavelmente, chacinados pelas tropas romanas. Jesus é também um destes demagogos, em quem o Povo vê cristalizada a sua ânsia de libertação?

Messias? – Aparentemente, Jesus não é considerado pelas multidões “o messias”: preferencialmente, o Povo identifica-o com Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus e que voltaria a anunciar o grande momento da libertação do Povo de Deus. Talvez a postura de Jesus e a sua mensagem não correspondessem àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

Discípulos – Os discípulos (companheiros de “caminho” de Jesus) deviam ter uma perspectiva mais elaborada e amadurecida. De fato, é isso que acontece; por isso, Pedro não tem dúvidas em afirmar: “Tu és o messias de Deus”. Pedro representa aqui a comunidade dos discípulos – essa comunidade que acompanhou Jesus, testemunhou os seus gestos e descobriu a sua ligação com Deus. Dizer que Jesus é o “messias” significa reconhecê-lo como o “enviado” de Deus que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos.

Libertador – Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um “messias” político, poderoso e vitorioso e apressa-se a desfazer possíveis equívocos e a esclarecer as coisas: Ele é o enviado de Deus para libertar os homens; no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida. No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz: é aí, na entrega da vida por amor, que Ele realizará as antigas promessas de salvação feitas por Deus ao seu Povo.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

CORPUS CHRISTI



Corpus Christi – A festa de Corpus Christi é a expressão religiosa pública do núcleo central da fé católica, a Eucaristia, celebrada sessenta dias após a Páscoa. Sempre celebrado numa quinta-feira, este ano, no dia 26 de maio. O acontecimento recorda a instituição da Eucaristia, acontecida na Última Ceia da Quinta-feira Santa (Mc 14,12s).

Eucaristia – A Eucaristia sempre ocupou um lugar proeminente na vida da Igreja. Os cristãos vivem continuamente na certeza de que Cristo, nela, permanece presente e atuante, pela graça do Espírito Santo. A Igreja acredita na realização da promessa do Senhor: "Estarei convosco até a consumação dos séculos" (Mt 28,20) e o tesouro da Eucaristia continua a ocupar nossa melhor atenção, passados anos de sua instituição.

História – A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. Dois acontecimentos ajudaram o papa a tomar a decisão de instituir esta festa: a visão de Santa Juliana de Cornillon, na qual Jesus pedia uma festa para testemunhar de um modo mais forte o significado da Eucaristia para a vida do cristão; e o milagre Eucarístico de Orvieto-Bolsena (Itália), no ano de 1263, em Bolsena, quando um sacerdote celebrando a santa missa, foi atormentando pela dúvida da presença real de Jesus na Eucaristia. No momento da fração da hóstia, viu em suas mãos um pedacinho de carne, de onde caia gotas de sangue no corporal.

Instituição da Festa – Em 1264, com a bula "Transiturus", o Papa Urbano IV prescreveu essa solenidade para toda a Igreja. Era uma época em que a cristandade estava sendo profundamente agitada por uma polêmica que questionava a presença real de Cristo na Eucaristia. Desde então, a data foi marcada por concentrações, procissões e outras práticas religiosas, de acordo com o modo de ser e de viver de cada localidade.


Procissão – A procissão lembra a caminhada do povo de Deus, que é peregrino, em busca da Terra Prometida. No Antigo Testamento, esse povo foi alimentado com o maná, no deserto. Hoje, ele é alimentado com o próprio Corpo de Cristo. Os enfeites trazidos com ramos de árvores e flores, os vários altares colocados ao longo do percurso começaram a aparecer em algumas partes da Alemanha. Contudo, foi no período barroco que a procissão ganhou os ares de um cortejo triunfal e pomposo. Nesta época, verdadeiros carros alegóricos com personagens do Antigo e do Novo Testamento, relacionando-os ao mistério da Eucaristia, já se faziam presentes. Depois, estes motivos passaram aos tapetes que cobriam a rua por onde Jesus Eucarístico deveria passar.

sábado, 14 de maio de 2016

O Início da Igreja


Este domingo é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica para uma comunidade universal, missionária, comprometida com a construção do Reino de Deus "até os confins da Terra". A liturgia deste final de semana nos apresenta a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições: a de Lucas (Atos 2,1-11) e a de João (João 20, 19-23).

Diferença – Uma leitura fundamentalista da Bíblia leva a gente a um beco sem saída, pois, em João, a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (domingo de Páscoa, dia 9 de abril do ano 30), enquanto Lucas descreve a ascensão e a descida do Espírito cinquenta dias depois. Assim, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos dois autores: os 50 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Da mesma maneira que Jesus ficou "repleto do Espírito Santo" e se lançou na sua missão "com a força do Espírito", a comunidade cristã se preparou durante um período semelhante e, na festa judaica de Pentecostes, também experimentou que "todos ficaram repletos do Espírito Santo".

Atos – “Atos dos Apóstolos” descreve o dia de Pentecostes, quando os discípulos estavam reunidos e veio do céu um barulho, como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios de Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava.

Catequese – Não podemos tomar o texto de Lucas (Atos) como uma reportagem jornalística de acontecimentos históricos. O texto que descreve os acontecimentos do dia do Pentecostes é uma construção, com uma evidente intenção teológica. Para apresentar a sua catequese, Lucas recorre às imagens, aos símbolos, à linguagem poética das metáforas. Precisamos entender estes símbolos, para chegarmos à interpelação essencial que a catequese primitiva quis transmitir.

Símbolos – Nos primeiros versículos, o ambiente é o de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Lembra que estavam reunidos três grupos distintos: os Onze, as mulheres (entre as quais Maria, a mãe de Jesus) e os irmãos do Senhor. A expressão externa da descida do Espírito é o "falar em outras línguas" (não o "falar em línguas" – glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neopentecostal).

Ouvir e compreender – No meio do texto o ambiente muda: da casa para um lugar público, provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato de que todos os presentes – destacado por três vezes – pudessem "ouvir os discípulos falarem, na sua própria língua". O termo "ouvir" implica também "compreender". Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético. O texto é uma releitura da Torre de Babel, em que a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu), que foi destruído por Deus, pela diversidade de línguas.

Missão – O Pentecostes de “Atos” é uma página programática da Igreja e anuncia aquilo que será o resultado da ação das “testemunhas” de Jesus: a humanidade nova, a anti-Babel, nascida da ação do Espírito, onde todos serão capazes de comunicar e de se relacionar como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema, como fonte de amor e de liberdade.

Evangelho – O Evangelho de João descreve o anoitecer, o primeiro da semana. É um quadro que reproduz a situação de uma comunidade desamparada no meio de um ambiente hostil e, portanto, desorientada e insegura. É uma comunidade que perdeu as suas referências e a sua identidade e que não sabe, agora, a que se agarrar. Quando estavam reunidos com as portas fechadas, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: "A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio. Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos".

Evangelho de João – Em João é o próprio Jesus que aparece aos Apóstolos e doa o Espírito Santo. O evangelista quer destacar que os discípulos, fazendo a experiência do encontro com Jesus ressuscitado, redescobriram o seu centro, o seu ponto de referência, à volta do qual a comunidade se constrói e toma consciência da sua identidade. A comunidade cristã só existe consistentemente se está centrada em Jesus ressuscitado. Duas vezes o Cristo proclama o seu desejo para os seus discípulos: "A paz esteja com vocês". Na verdade, Jesus usou o termo hebraico “Shalom!” que tem um significado bem mais amplo que a palavra paz. O "Shalom" é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino e promete o “shalom”, pois Ele nunca abandonará aquele que procura viver, na fidelidade, o projeto de Deus.


Reino – Que a celebração de Pentecostes nos anime a buscar um mundo onde o Shalom realmente possa reinar; não a paz falsa da opressão e injustiça, mas, do Reino de Deus, fruto de justiça, solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito Santo – agora depende de nós usarmos essa força que temos, na construção do mundo que Deus quer.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Ascensão de Jesus



O Evangelho das missas deste domingo descreve as últimas instruções de Jesus aos Apóstolos e a sua ascensão.

Aparição – Acontece durante a aparição de Jesus aos apóstolos, no domingo seguinte à Paixão. Ele se dirige aos apóstolos, dizendo que o Messias tinha de sofrer e ressuscitar e que, em nome dele, a mensagem sobre o arrependimento e o perdão dos pecados seria anunciada a todas as nações, começando em Jerusalém. Pede que eles fiquem em Jerusalém, que ele vai mandar o que o Pai prometeu. Em seguida, levou os apóstolos para fora da cidade, até o povoado de Betânia. Ali levantou as mãos e os abençoou. Enquanto os estava abençoando, Jesus se afastou deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram e voltaram para Jerusalém cheios de alegria. E passavam o tempo todo no pátio do Templo, louvando a Deus.

Os textos de Lucas – O Evangelho de Lucas e o Livro de Atos dos Apóstolos formavam, possivelmente, uma única obra. Posteriormente as narrativas de Lucas sobre a vida e o ministério de Jesus foram separadas, formando, com Marcos, Mateus e João, o conjunto dos Evangelhos. A parte sobre as narrativas das primeiras missões formaram o Livro de Atos. Estes dois textos, que apresentam semelhanças e divergências entre si, estão presentes nas leituras deste domingo: o início de Atos, na primeira leitura e a conclusão do Evangelho de Lucas.

Jerusalém – Na conclusão do Evangelho, após a memória da paixão e ressurreição, redigida em forma de querigma paulino, Jesus orienta os discípulos para a missão: o anúncio da conversão à justiça para o perdão dos pecados. Este é o mesmo anúncio de João Batista. Enquanto nos Evangelhos de Marcos, Mateus e João, Jesus e os discípulos retornam para a Galiléia, Lucas, no seu Evangelho, narra como se tivessem permanecido em Jerusalém: "voltaram para Jerusalém e estavam sempre no Templo".

Espírito Santo – Esta interpretação corresponde à teologia de Lucas, que apresenta o movimento de Jesus como a continuidade das doze tribos de Israel, e sua missão partindo de Jerusalém, capital do Judaísmo de seu tempo. Neste mesmo sentido, no Evangelho de João, enquanto Jesus comunica o Espírito Santo, soprando sobre os discípulos no dia da ressurreição, Lucas, em Atos, apresenta a vinda do Espírito, cinquenta dias após a ressurreição, com uma teofania na festa judaica de Pentecostes.

Missão – Os discípulos, que fizeram a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado, são agora convocados para a missão: Jesus os envia, como testemunhas, a pregar a conversão e o perdão dos pecados. Para essa enorme tarefa, os discípulos contam com a ajuda e a assistência do Espírito. A partir de Jerusalém, esta proposta deve ser anunciada a todas as nações.


Ascensão – Lucas descreve que a ascensão acontece em Betânia. Fica claro a semelhança com a subida do profeta Elias. Há duas indicações de Lucas, que importa realçar. A primeira é a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai: essa bênção sugere um dom que vem de Deus e que afeta positivamente toda a vida e toda a ação dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus. A segunda é a alegria dos discípulos: a alegria é o grande sinal messiânico e escatológico; indica que o mundo novo já começou, pois o projeto salvador e libertador de Deus está em marcha.