sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O Juízo Final

  


Hoje encerramos as celebrações dominicais do ano litúrgico com a festa de Cristo Rei. O evangelho de hoje é o famoso texto de Mateus 25 sobre o Juízo Final. Nesse texto, enfatiza-se a sorte eterna dos que optaram ou não pela vivência da "justiça do Reino dos Céus".

 O primeiro discurso do evangelho – o Sermão da Montanha - enfatizou que quem vivesse essa justiça seria perseguido (5,12); o segundo discurso, o Missionário, insistiu que os discípulos não deveriam ter medo diante dessas perseguições, sofrimentos e rejeição (10,23.28.31); o terceiro - as parábolas do Reino - ensinou a paciência e perseverança diante do lento crescimento do Reino e da fraqueza da comunidade (13); o quarto - o Discurso Eclesiológico - traçou as características da comunidade dos que procuram essa justiça.

 Agora, o último discurso – o Escatológico - mostra que a vivência dessa justiça será o critério de Deus para o julgamento final. Ilustra-se, de uma maneira viva, o sentido da frase lapidar do Sermão da Montanha: "Se a justiça de vocês não for superior à dos doutores da lei e dos fariseus, não entrarão no Reino do Céu"(5, 20).

 O Critério do Juízo Final – Jesus - o Rei - não pergunta sobre o cumprimento de leis de ritual e de pureza, tão caras aos doutores da lei e fariseus, mas sobre a prática da justiça do Reino, diante do sofrimento de tanta gente - famintos, sedentos, migrantes, esfarrapados, doentes e presos. A prática de solidariedade com os oprimidos é a única prova duma verdadeira fé em Jesus, e do seguimento fiel dele.

 Sociedade – Esse texto não pode deixar de nos questionar, vivendo como estamos numa sociedade cada vez mais excludente. Celebramos hoje Jesus como "Rei do Universo". Mas ele se torna rei das nossas vidas somente na medida em que fazemos essa opção real pelos oprimidos, e vivenciamos "a justiça do Reino do Céu", tema central do Evangelho de Mateus. Num mundo que nos apresenta tantas outras opções "régias" - ou seja, opções que regem as nossas vidas e manifestam o que são os nossos valores últimos, o texto nos leva a verificar se realmente Jesus é o Rei das nossas vidas - se é o Evangelho dele que as rege, ou se o título não passa de mais um dos rótulos vazios, sem consequências práticas, tão queridos dos arautos de uma religião intimista, sentimentalista e individual, tanto em voga nos nossos tempos.

 Rei – Será que a utopia do Reino de Deus, o seguimento de Jesus até a Cruz, a prática da Justiça do Reino são os elementos que norteiam as nossas práticas, individuais e comunitárias? Se não, então Jesus Cristo ainda não se tornou Rei do nosso universo pessoal e eclesial. É o questionamento do texto de hoje, que nos lembra que Jesus não é Rei conforme os padrões deste mundo, mas o Rei pobre e justo, tão esperado pelos oprimidos de todos os tempos.

sábado, 14 de novembro de 2020

Os talentos

 


 No Evangelho das missas deste domingo (Mt 25,14-30), Jesus apresenta a parábola dos talentos.

 Ambiente – Mais uma vez, o Evangelho apresenta-nos o tema da segunda vinda de Jesus. A catequese que Mateus apresenta neste discurso tem em conta as necessidades da sua comunidade cristã. O texto foi escrito no final do séc. I (década de 80). Os cristãos, fartos de esperar a segunda vinda de Jesus, esqueceram o seu entusiasmo inicial… Instalaram-se na mediocridade, na rotina, no comodismo, na facilidade. As perseguições que se adivinham provocam o desânimo e a deserção… Por esta razão, Mateus encoraja a todos, para que se lembrem de que a segunda vinda do Senhor acontecerá no final da história humana; e que, até lá, os crentes devem “colocar os seus talentos para render”. A parábola fala de “talentos” que um senhor distribuiu entre os servos. Um “talento” corresponde a 36 quilos de prata e ao salário de aproximadamente 3.000 dias de trabalho de um operário não qualificado.

 A “parábola dos talentos” – Conta que um “senhor” partiu em viagem e deixou a sua fortuna nas mãos dos seus servos. A um, deixou cinco talentos, a outro dois e a outro um. Quando voltou, chamou os servos e pediu-lhes contas do que haviam feito com o que tinham recebido. Os dois primeiros duplicaram a soma recebida; mas o terceiro tinha escondido cuidadosamente o talento que lhe fora confiado, pois conhecia a exigência do “senhor” e tinha medo. Os dois primeiros servos foram louvados pelo “senhor”, ao passo que o terceiro foi severamente criticado e condenado.

 O Reino – Provavelmente a parábola, tal como saiu da boca de Jesus, era uma “parábola do Reino”. O “senhor” exigente seria Deus, que reclama para Si uma lealdade a toda a prova e que não aceita meios tons e situações de acomodação e de preguiça. Os servos a quem Ele confia os valores do Reino devem acolher os seus dons e fazer com que eles rendam, a fim de que o Reino seja uma realidade. No Reino, ou se está completamente comprometido, ou não se está.

 Dons – No texto de Mateus, o “senhor” é Jesus que, antes de deixar este mundo, entregou bens consideráveis aos seus “servos” (os discípulos). Os “bens” são os dons que Deus, através de Jesus, ofereceu aos homens. Os discípulos de Jesus são os depositários desses “bens”. A questão é, portanto, esta: como devem ser utilizados estes “bens”? Eles devem dar frutos, ou devem ser cuidadosamente conservados enterrados? Os discípulos de Jesus podem – por medo, por comodismo, por desinteresse – deixar que esses “bens” fiquem infrutíferos? Na perspectiva da parábola, os “bens” que Jesus deixou aos seus discípulos têm de dar frutos.

 Comodismo – Através desta parábola, Mateus incentiva a sua comunidade a estar alerta e vigilante, sem se deixar vencer pelo comodismo e pela rotina. Esquecer os compromissos assumidos com Jesus e com o Reino, demitir-se das suas responsabilidades, deixar na gaveta os dons de Deus, aceitar passivamente que o mundo se construa de acordo com valores que não são os de Jesus, instalar-se na passividade e no comodismo é privar os irmãos, a Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito.

 Construir – O discípulo de Jesus não pode esperar o Senhor de mãos erguidas e de olhos postos no céu, alheio aos problemas do mundo e preocupado em não se contaminar com as questões do mundo… O discípulo de Jesus espera o Senhor profundamente envolvido e empenhado no mundo, ocupado em distribuir a todos os homens, seus irmãos, os “bens” de Deus e em construir o Reino.

sábado, 7 de novembro de 2020

 

A Bíblia passaria no teste de Bechdel?

 


 Recentemente, um amigo me perguntou qual seria o resultado se aplicássemos o Teste de Bechdel à Bíblia. Ele me pediu que eu usasse as minhas habilidades de programação e buscas no texto bíblico para verificar se a Bíblia seria aprovada no teste.

 O que é o Teste de Bechdel – Se você não está familiarizado com ele, o teste de Bechdel “é uma medida da representação das mulheres” em eventos (filmes, livros e peças teatrais, etc.). O teste se tornou famoso quando foi usado por atrizes de Hollywood ao protestarem contra os produtores de filmes pela pequena representatividade de mulheres em espetáculos.

 Como funciona? – O teste sugere que (para que haja representatividade feminina) uma obra deve conter pelo menos uma cena que atenda a três critérios específicos: (1) pelo menos duas mulheres identificadas pelo nome que (2) conversem entre si (3) sobre algo que não seja um homem.

 Reprovados – Inúmeros clássicos do cinema foram reprovados no teste. Entre eles estão “Guerra nas Estrelas”, “Avatar”, “Harry Poter”, “De volta para o futuro”, “O planeta dos Macacos”, “Procurando Nemo”, “O Senhor dos Anéis”, “Toy Story” e “Homem de Ferro”. Um pesquisador americano analisou 4.500 filmes, sendo que apenas 56% foi aprovado no teste.

 E a Bíblia? – Embora a Bíblia não seja uma obra de ficção, tenha sido escrita por inúmeros autores, em épocas totalmente diversas da atual, qual seria o resultado se aplicássemos o teste de Bechdel aos 72 livros da Bíblia? Qual seria a representatividade da mulher na Bíblia?

 Fizemos o teste – Usamos um conjunto de dados de código aberto e um banco de dados que inclui pessoas, lugares e eventos na Bíblia gerado pelo John Dyer, reitor e professor do Seminário Teológico de Dallas. Aqui está um resumo do que encontramos: os 72 livros (45 do AT e 27 do NT) da Bíblia Católica têm 3.070 pessoas identificadas pelos nomes, e 202 delas são mulheres (para efeito de comparação, o Alcorão tem apenas uma mulher chamada Maria). Estreitando a pesquisa, há 147 cenas com duas ou mais mulheres (teste de Bechdel 1), 261 cenas em que mulheres falam, 14 em que as mulheres estão falando entre si (teste de Bechdel 2) e 6 cenas em que as mulheres estão falando sobre algo que não seja sobre um homem (teste de Bechdel 3).

 Encontre na Bíblia – As 6 cenas que atendem ao teste de Bechdel estão em apenas 3 livros da Bíblia. São elas: Rute 1, 6-22 – Rute conversa com suas noras; Rute 2,1-23 – Rute e Booz conversam com Noemi. Marcos 16,1-8 - Maria Madalena, Maria, a mãe de Tiago, e Salomé discutem sobre a pedra removida do túmulo de Jesus; Marcos 16, 9-20 – Maria Madalena anuncia que viu Jesus. Lucas 1, 39-56 - Discussão de Isabel e Maria sobre suas futuras gestações; Lucas 2, 22-40 – A profetiza Ana conversa com Maria na apresentação de Jesus no Templo.

 Então, a Bíblia passa no teste de Bechdel? – Essa resposta é sim; há várias cenas em que duas mulheres nomeadas conversam e não sobre um homem. Portanto, quando você encontrar pessoas afirmando que a Bíblia é machista, composta apenas de personagens masculinos, você agora tem argumentos para contestar tais afirmações. Embora haja menos personagens femininos na Bíblia do que personagens masculinos e muito poucas cenas que passam no teste de Bechdel, quando lemos as passagens centradas na mulher com cuidado, descobrimos que elas se encontram em passagens decisivas da história bíblica.

 VOCÊ QUER MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEXTO? – Se você gostou do texto e quer mais informações, podemos lhe oferecer a tabela desenvolvida por John Dyer (18 páginas em Inglês) com os principais versículos da Bíblia que atendem (parcial ou plenamente) o teste de Bechdel. Solicite por E-mail.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Amarás a teu próximo

 Amarás a teu próximo


 No Evangelho das missas deste domingo, Mateus (22,34-40) descreve mais uma discussão entre Jesus e os fariseus.

Armadilhas – Essas controvérsias apresentam-se como armadilhas bem organizadas e montadas, destinadas a surpreender afirmações polêmicas de Jesus, capazes de ser usadas em tribunal para conseguir a sua condenação. Depois da controvérsia sobre o tributo a César (Mt 22,15-22) e da controvérsia sobre a ressurreição dos mortos (Mt 22,23-33), chega agora a controvérsia sobre o maior mandamento da Lei (Mt 22,34-40). É esta última que o Evangelho de hoje nos apresenta…

Maior mandamento – Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito. Para testá-lo perguntam: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?". Jesus responde: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento e amarás teu próximo como a ti mesmo”. Vamos refletir sobre este texto.

613 preceitos – A questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica no tempo de Jesus, mas objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação em atualizar a Lei, de forma a que ela respondesse a todas as questões do dia a dia, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a pôr em prática. Esta “multiplicação” dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros? É esta a questão que é posta a Jesus.

Além dos mandamentos – A resposta de Jesus, no entanto, supera o horizonte estreito da pergunta e vai muito mais além, situando-se ao nível das opções profundas que o homem deve fazer… O importante, na perspectiva de Jesus, não é definir qual o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E, na perspectiva de Jesus, essa raiz gira à volta de duas coordenadas: o amor a Deus e o amor ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários a estes dois mandamentos.

A Lei e os Profetas – Os cristãos de Mateus usavam a expressão “a Lei e os Profetas” para se referirem aos livros inspirados do Antigo Testamento, que apresentavam a revelação de Deus (Mt 5,17; 7,12). Dizer, portanto, que “nestes dois mandamentos se resumem a Lei e os Profetas” (vers. 40), significa que eles encerram toda a revelação de Deus, que eles contêm a totalidade da proposta de Deus para os homens.

Deuteronômio + Levítico – Jesus une os textos de Dt 6,5 (amor a Deus) e Lv 19,18 (amor ao próximo)… Aproxima os ensinamentos pondo-os em perfeito paralelo e, ao mesmo tempo, simplifica e concentra toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos.

Mesma moeda – Assim, na perspectiva de Jesus, “amor a Deus” e “amor aos irmãos” estão intimamente associados. Não são dois mandamentos diversos, mas duas faces da mesma moeda. “Amar a Deus” é cumprir o seu projeto de amor, que se concretiza na solidariedade, na partilha, no serviço, no dom da vida aos irmãos.

VOCÊ FICOU IMPRESSIONADO com os 613 preceitos judaicos existentes no tempo de Jesus? Podemos lhe enviar os 365 negativos (proibições) e os 248 negativos (ações). Solicite por E-mail.

sábado, 3 de outubro de 2020

O Reino de Deus será entregue a uma nação que produzirá seus frutos

  


No Evangelho das missas deste domingo (Mateus 21,33-43), Jesus reuniu os sacerdotes e anciãos do povo e contou a parábola da vinha:

 Parábola – “Um proprietário plantou uma vinha, arrendou-a a vinhateiros e viajou para o estrangeiro. Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos, que foram espancados e mortos. O proprietário mandou mais empregados, que foram mortos da mesma forma. Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho (herdeiro), que também foi morto.

 Pergunta – Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros? Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: ‘Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo’. Então Jesus lhes disse: ‘Por isso, eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos’.”

 Julgamento final – A parábola de hoje é a segunda numa série de três, referentes ao julgamento final de Deus sobre o seu povo (na semana passada tivemos a parábola dos dois irmãos e, no próximo domingo, a da festa de casamento).

 O texto – Com certeza, o texto que lemos nas bíblias atuais é resultado de uma longa história de transmissão oral e redação. Da boca de Jesus, a história visava à sorte da Vinha, terminando no versículo 41; a transmissão oral pré-sinótica concentrou a atenção na sorte do Filho, acrescentando os versículos 42, 43 e 44, tirados do Salmo 117; finalmente, Mateus transforma a parábola numa alegoria da História da Salvação: deixa claro que o advento do novo povo (versículo 41) está ligado ao destino Daquele que fala e que deve ser condenado e morto, para depois ressuscitar.

 Alegoria – "Os mensageiros" são os profetas que foram mortos pelo povo de Israel, culminando com Jesus, como o Filho. "O Reino" provavelmente se refere à promessa da benção em plenitude, dos últimos tempos. "O Povo" se refere à Igreja, no caso de Mateus composta principalmente de judeu-cristãos, mas também de gentios convertidos, que juntos formam o Novo Povo de Deus, o verdadeiro Israel. Essa conclusão do versículo 43 é a principal contribuição de Mateus à interpretação da parábola, e é mais suave do que a própria parábola, pois os maus vinhateiros não serão destruídos, mas perderão a promessa.

 Promessa – Como o texto de Mateus foi escrito num contexto de polêmica entre a sua comunidade e o judaísmo formativo do fim do primeiro século, ele queria ensinar para a sua comunidade que a promessa antiga feita ao Povo de Deus foi retirada das autoridades farisaicas e das suas comunidades, e dada à comunidade da Igreja.

 Frutos – Mas isso não nos dá motivo para comodismo. Como o povo original perdeu a promessa porque "não deu fruto" também a Igreja não a possui de modo incondicional. Também as comunidades cristãs têm que "dar fruto"- os frutos de justiça, fraternidade, solidariedade e partilha. A História da Salvação nos mostra que Deus não se deixa manipular, nem permite que qualquer comunidade ou religião se torne "dona" Dele, e que o seu verdadeiro povo é aquele que se dedica à construção dos valores do Reino de Deus. O texto convida a um sério exame e revisão das nossas práticas e estruturas eclesiais e eclesiásticas, para que a nossa Igreja cristã não chegue a merecer o destino dos vinhateiros, que por não terem correspondido à Aliança, viram a promessa retirada deles e dada a outro povo "que produzirá os seus frutos" (v43).

domingo, 27 de setembro de 2020

Compromisso com Deus

 


No Evangelho das missas deste domingo (Mateus 21,28-32), Jesus conta a parábola do homem que tinha dois filhos e pediu para que eles trabalhassem em sua vinha. O primeiro disse “não quero”, mas depois foi; o segundo disse “eu irei”, mas não foi. Qual dos dois realizou a vontade do pai?

 Local – O texto situa-nos em Jerusalém, na etapa final da caminhada terrena de Jesus. Estamos na segunda ou terça-feira da semana da Paixão. Jesus será crucificado na próxima sexta-feira. No sábado anterior, Jesus entrara em Jerusalém e fora recebido em triunfo pela multidão (Mt 21,1-11); no entanto, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo fazem oposição a Jesus, não reconhecendo-o como o Messias. Há uma tensão no ar, que anuncia a proximidade da paixão e da morte de Jesus.

 Judeus – No quadro que antecede o episódio, os líderes judeus encontraram-se com Jesus no Templo, perguntando-Lhe com que autoridade Ele agia (Mt 21,23-27). Como resposta, Jesus convida-os a se pronunciarem sobre a origem do batismo de João. Os líderes judaicos não quiseram responder: se dissessem que João Baptista não vinha de Deus, tinham medo da reação da multidão (que considerava João um profeta); se admitissem que o batismo de João vinha de Deus, temiam que Jesus lhes perguntasse porque não o aceitaram… Diante do silêncio, Jesus apresenta três parábolas. O nosso texto é a primeira dessas três parábolas.

 Mensagem – A parábola dos dois filhos ilustra duas atitudes diversas diante dos desafios e das propostas de Deus. O primeiro filho foi convidado pelo pai a trabalhar “na vinha”. A sua primeira resposta foi negativa: “não quero”. No contexto familiar da Palestina do tempo de Jesus, trata-se de uma resposta totalmente reprovável; uma atitude deste tipo ia contra todas as convenções sociais, enchia um pai de vergonha e punha em dúvida a sua autoridade diante dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. No entanto, este primeiro filho acabou por reconsiderar e por ir trabalhar na vinha.

 Segundo – O segundo filho, diante do mesmo convite, respondeu: “vou, sim, senhor”. Deu ao pai uma resposta satisfatória, que não punha em xeque a sua autoridade e a sua “honra”. Ficou bem visto diante de todos e todos o consideraram um filho exemplar. No entanto, acabou por não ir trabalhar na vinha. A questão posta por Jesus, é: “qual dos dois fez a vontade do pai?” A resposta é tão óbvia que os próprios interlocutores de Jesus não têm qualquer timidez em dizer: “o primeiro”.

 Vontade do Pai – A parábola ensina que, na perspectiva de Deus, o importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros e sim cumprir, realmente, a vontade do Pai. Na lógica de Deus, não bastam palavras bonitas ou declarações de boas intenções: é preciso uma resposta adequada e coerente aos Seus desafios e às Suas propostas.

 Proposta do Reino – É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do Povo, disseram “sim” a Deus ao aceitar a Lei de Moisés… A sua atitude – assim como a do filho que disse “sim” e depois não foi trabalhar para a vinha – foi irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas, do ponto de vista do cumprimento da vontade de Deus, a sua atitude foi uma mentira, pois recusaram-se a acolher o convite de João à conversão. Em contrapartida, aqueles que responderam “política e religiosamente incorreto”, dizendo “não”, cumpriram a vontade do Pai: acolheram o convite de João à conversão e acolheram a proposta do Reino que Jesus veio apresentar (por exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas).

 Judeus e pagãos – Mais tarde, a comunidade de Mateus leu a mesma parábola numa perspectiva um pouco diversa. Ela serviu para iluminar a recusa em aceitar o Evangelho por parte dos judeus e o seu acolhimento por parte dos pagãos. Israel seria esse “filho” que aceitou trabalhar na vinha, mas, na realidade, não cumpriu a vontade do Pai; os pagãos seriam esse “filho” que, aparentemente, esteve sempre à margem dos projetos do Pai, mas aceitou o Evangelho de Jesus e aderiu ao Reino.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

“O perdão também cansa de perdoar”

  


A famosa frase do título pertence à música “Regra três”, composta por Toquinho e Vinicius de Morais em 1973. O Evangelho das missas deste domingo (Mt 18,21-35) também nos fala do perdão. Ao contrário da letra da música, fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos – de forma total, ilimitada e absoluta – o seu perdão. Na foto, João Paulo II concedendo o perdão a Mehmet Ali Agca que atirou contra o Papa em 1981.

 “Onde menos vale mais” – Os cristãos são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites e sem medida marque a sua relação com os irmãos. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

 Texto – Mais uma vez é Pedro que articula em palavras o desafio cristão, "quantas vezes devo perdoar o meu irmão?" e responde ele mesmo, sugerindo "sete vezes", com certeza achando que agir assim seria um exagero. Mas para Jesus, não basta o discípulo agir segundo os critérios desse mundo. Por isso exige "não somente sete vezes, mas setenta vezes sete", ou seja, para quem realmente quer se modelar em Deus, o perdão tem que ser sem limites.

 Parábola – Para explicar o perdão sem limites, o evangelista complementa com a parábola dos devedores. Esta parábola ilustra um dos pedidos do Pai Nosso, "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores". Fazendo esse pedido, estamos querendo o perdão de Deus para que, experimentando-o, consigamos perdoar os nossos devedores.

 O Perdão de Deus depende do nosso? – Não é que o perdão de Deus dependa do nosso - é sempre Deus que toma a iniciativa e nós que respondemos. Mas somos capazes de render nulo o efeito do perdão do Pai, se nós não queremos perdoar os outros. Assim, o Pai continua querendo nos perdoar, mas nós cortamos o efeito dessa gratuidade divina.

 Sinais do Reino – A proposta do texto de hoje é além das nossas forças humanas, mas não além da possibilidade da graça divina. Por isso, temos que sempre pedir o dom do perdão, conforme nos ensina a Oração do Senhor, para que as nossas comunidades sejam verdadeiramente sinais do Reino e não meramente aglomerações de pessoas que partilham as mesmas teorias teológicas, mas sem que essas influenciem na sua vivência, na sua prática. Da nossa parte exige-se esforço, e Deus dará a força, para que vivamos conforme o desafio do Sermão da Montanha "sejam perfeitos, como o Pai do Céu de vocês é perfeito".