sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Mc 6, 45: o versículo inexplicável


Escavações em El-Araj, que agora consideram o local provável da cidade de Betsaida, no Novo Testamento.

Os leitores da Coluna Ser Católico do Jornal da Cidade já devem estar familiarizados com os nomes das cidades nas quais Jesus desenvolveu a sua pregação. As cidades de Tiberíades, Magdala, Cafarnaum, Betsaida margeavam o lago de Genesaré (Mar da Galileia) e pertenciam à província da Galileia, na parte ocidental do lago (mapa).



Betsaida – A cidade Betsaida (que significa “casa de pescadores”) é uma das cidades mais mencionadas nos Evangelhos: lar de Filipe, André e Pedro (Jo 1,44), local de curas (Mc 8,22), de viagens de Jesus (Lc 9,10) e da multiplicação dos pães (Lc 9,12s).

Problema – No capítulo 6 do Evangelho de São Marcos, Jesus está com seus apóstolos na cidade de Cafarnaum. Quando Jesus soube que João Batista havia sido morto por Herodes Antipas (Mc 6,14–29) e com o objetivo de proteger a todos e a si próprio (Jesus sabia que também corria perigo, ver Mc 6, 14-16), o Mestre manda que os discípulos se dirijam para a outra margem do lago, saindo da Galiléia (governada por Herodes) e indo para a Traconítide, governada por Filipe.

Mc 6,45 – “Logo em seguida, Jesus mandou que os discípulos entrassem no barco e fossem na frente para Betsaida, na outra margem, enquanto ele mesmo despediria a multidão”. Vejam no mapa o “erro geográfico” em Mc 6, 45: a cidade de Betsaida fica na mesma margem do lago, na Galiléia.

O evangelista errou? – Se Cafarnaum está na Galileia, por que Marcos refere-se a Betsaida como sendo “do outro lado”? Seria incompreensível, portanto, que tivesse ido para Betsaida, do mesmo lado do lago e na província da Galileia. O evangelista errou?

Erro de localização – Durante muitos séculos, os historiadores indicaram a localização da cidade de Betsaida na margem ocidental do Mar da Galiléia, causando esta dificuldade de interpretação do versículo Mc 6, 45. Nos últimos 20 anos, pesquisadores de várias universidades fazem escavações em um local chamado El Araj (ver no mapa). No local, foram encontrados casas e materiais de pescadores. A confirmação desta nova localização para a cidade de Betsaida (algumas Bíblias já trazem esta localização), corroboraria o versículo Mc 6, 45.

QUER SABER MAIS – Se você gostou do assunto, podemos lhe oferecer vários sites com pesquisas, mapas e fotos atuais sobre as escavações em El Araj (Betsaida).

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Quantos eram os apóstolos?



No Evangelho das missas deste domingo (Mt 4,12-23), Jesus chama os primeiros apóstolos. É comum falar dos “doze apóstolos” de Jesus. Pinturas, quadros e esculturas fizeram famosa a cena do Mestre rodeado por seus doze amigos íntimos e contribuíram para imortalizar esse número, que hoje ninguém mais discute. Mas, os apóstolos de Jesus eram realmente doze? No Novo Testamento aparecem quatro vezes a lista com os nomes dos doze apóstolos (Mc 3, 16-19; Mt 10, 2-4; Lucas 6, 14-16 e At 1, 13). Delas, podemos observar alguns dados.

Os mais próximos – Se tomarmos em primeiro lugar a lista de Mateus, veremos que começa com Simão Pedro. É um dos apóstolos de quem mais dados temos. Sabemos que era oriundo de Betsaida (Jo 1, 44), mas tinha sua moradia em Carfanaum (Mt 8, 14), onde ganhava a vida como pescador no Lago da Galileia. Era casado (1 Cor 9,5) e vivia com seu irmão André e sua sogra (Mc 1, 29-30). O segundo da lista é André, irmão de Simão Pedro. Como este, era oriundo de Betsaida e vivia em Carfanaum, dedicando-se à pesca. Tiago e João eram igualmente pescadores do lago da Galileia (Mc 1, 19) e parece que gozavam de boa posição econômica, já que o pai de ambos, Zebedeu, era dono de uma pequena empresa pesqueira. Pedro, Tiago e João (sem André) constituíam um grupo especial dentro dos doze apóstolos e eram, de alguma forma, os preferidos de Jesus, já que lhes concedeu alguns privilégios. E unicamente a eles colocou um nome novo: a Simão chamou “Pedro”, e a Tiago e João, “Boanerges”, que significa “filhos do trovão” (Mc 3, 17).

Os menos famosos – Os outros oito apóstolos são menos conhecidos. De Felipe, o quinto da lista, só sabemos que era também de Betsaida e, ao que parece, muito amigo de André (Jo 12, 20-22). De Bartolomeu, o sexto, não sabemos nada. De Tomé, o sétimo, sabemos que tinha como apelido "Gêmeo", mas não se conta de quem. Foi ele quem convenceu os demais apóstolos a acompanharem Jesus, por ocasião da morte de Lázaro (Jo 11, 6-16); e foi ele quem duvidou das aparições do Senhor Ressuscitado (Jo 20, 24-29), pelo que foi chamado de incrédulo. De Mateus sabemos que era um cobrador de impostos. Dos três apóstolos que seguem – Tiago, filho de Alfeu; Tadeu e Simão, o zelote – não temos nenhum detalhe de suas vidas. E ao final da lista aparece Judas Iscariotes, o que entregou Jesus às autoridades judaicas que o mataram.

Problemas – Esta lista de Mateus coincide com a de Marcos. O problema aparece ao compará-la com as outras duas (de Lucas e Atos), porque nestas aparecem um apóstolo novo: um tal Judas, filho de Tiago (Lc 6, 16, At 1, 13). Quem é este Judas? Como nestas duas listas não há Tadeu, a solução que se encontrou foi que este Judas (de Lucas e Atos) fosse a mesma pessoa que Tadeu (de Mateus e Marcos). E o chamam Judas Tadeu. Mas, essa identificação carece de fundamento bíblico.

Mais problemas – Se prosseguirmos lendo os Evangelhos, veremos que Marcos narra a vocação de outro apóstolo, chamado Levi, cobrador de impostos. Por que ele tampouco aparece na lista dos doze? Aqui a tradição solucionou o problema do mesmo modo: identificando Levi com Mateus. O que não é possível, porque Marcos apresenta Levi e Mateus como pessoas claramente distintas: uma em uma lista dos nomes (Mc 3, 18) e outra no relato de sua vocação (Mc 2, 13-14). Por sua vez, o Evangelho de João relata a vocação de um apóstolo chamado Natanael (1, 45-51), que não está em nenhuma das quatro listas. Para poder seguir mantendo o número doze, a tradição o identificou com Bartolomeu, sem nenhuma razão válida.

Mais apóstolos? Vemos, pois, como os Evangelhos mencionam mais de doze apóstolos. Porém, se continuarmos buscando no Novo Testamento, encontraremos que Paulo e Barnabé eram também apóstolos (Atos 14, 14); que Silvano e Timóteo figuram como apóstolos (1 Ts 2, 5-7); que “Tiago, irmão do Senhor” é chamado apóstolo (Gálatas 1, 19); que Apolo é apóstolo (1 Cor 4, 6.9); e inclusive Andrônico e Júnia (uma mulher!) têm o título de apóstolos (Rm 16, 7).

Quantos eram, afinal, os apóstolos? A esta altura, já é evidente que não eram doze. Por que, então, nós falamos sempre em doze apóstolos? Bem ....  Isto nós veremos na próxima semana.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O preço de testemunhar Jesus Cristo



No Evangelho deste domingo, João Batista vê Jesus e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. E dá o testemunho: “Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele. Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. Atualmente, no mundo, quase 400 milhões de fiéis são discriminados ou perseguidos por darem o testemunho de sua religião, dos quais 200 milhões são cristãos.

Um pouco de História – As religiões cristãs nasceram com os ensinamentos de Cristo na Terra. Jesus Cristo nasceu no ano -7 a.C., foi batizado no ano 27 d.C., pregou entre os anos 27 e 30 d.C., foi crucificado e ressuscitou, em abril do ano 30 d.C. Portanto, a partir do ano 30 d.C., começaram a se formar as comunidades cristãs no mundo.

1º Século – No primeiro século do cristianismo (entre os anos 30 e 100 d.C.), os ensinamentos de Jesus são coletados e escritos, formando o Novo Testamento. Os apóstolos morrem, aparecendo a segunda geração de cristãos. As comunidades e igrejas cristãs proliferam dentro do Império Romano, aparecendo uma nova religião dentro do judaísmo. As perseguições aparecem, principalmente em Roma: Nero usa os corpos de cristãos como tochas humanas para iluminar os seus jardins e Dominiano ordena que todos devem cultuá-lo como “Senhor e Deus”. No ano 100 d.C., os cristãos eram 2 milhões (0,6% da população mundial), 25 mil tinham sido assassinados (1,2%), ou seja, 360 cristãos morriam por ano.

2º século – Entre anos 100 e 200 d.C., os martírios continuaram, aparecendo também as seitas heréticas e os apologistas. Os centros fortes da Igreja estavam na Ásia Menor, no Norte da África e em Roma. A Igreja continuou se espalhando e alcançando todas as classes, particularmente a mais baixa. No ano 200 d.C., os cristãos já eram 16 milhões (3,5% da população), 80 mil já tinham sido assassinados.

3º século – O imperador Setimo Severo (202-211 d.C.) foi o principal perseguidor da Igreja, no 3º século, proibindo a conversão para o Cristianismo. Assim mesmo, o cristianismo crescia: somente no Egito, no ano 300 d.C., existiam cerca de um milhão de cristãos. Até esse ano, os mártires cristãos já somavam 410 mil.

4º século – O séc. IV foi o século das grandes transformações. No início, deu-se a maior perseguição – instituída pelo imperador Dioclesio, em 305 d.C. – com a intenção de acabar com a Igreja. Em seguida, o imperador Constantino aceita o cristianismo e a Igreja é legalizada. É o século dos Concílios Ecumênicos e é definido o cânon do Novo Testamento. No ano 400 d.C., os cristãos já são 16% da população, o Novo Testamento existe em 11 idiomas e já existem 2 milhões de mártires cristãos.

Séculos seguintes – No 5º século a Igreja passa a usar o calendário cristão. Acontece a desintegração do Império Romano. As perseguições continuam. No ano 500 d.C. os cristãos já são 22% da população e já existem 2,5 milhões de mártires. A partir do 6º século, a Igreja ganha poder junto aos imperadores, diminuindo as perseguições.

Hoje – No início do século 21, 200 milhões de cristãos são perseguidos por causa de sua fé. Os responsáveis por isso são 70 Estados, nos quais impera um regime ateu (China, Vietnã, Cuba, Laos, Coréia do Norte), ou um crescente fundamentalismo religioso (Sudão, Paquistão, Egito, Índia, Indonésia, Arábia Saudita...).

Coreia do Norte – Segundo o “Open Doors 2011 World Watch List”, que avalia as condições em que vivem os cristãos em 77 nações, a Coreia do Norte é (pela nona vez) a que mais persegue os seguidores de Jesus, sendo citada como um dos lugares mais perigosos para um cristão viver.

Iraque – Nos últimos anos, há um êxodo de cristãos deixando o Iraque para escapar da perseguição. Atualmente, restam pouco mais de 300 mil cristãos nesse antigo berço do Cristianismo, onde hoje, milícias organizadas barbarizam famílias apenas pelo fato de não professarem a mesma fé que eles. No Natal de 2019 o mundo ficou chocado com um vídeo do grupo extremista Estado Islâmico mostrando 11 cristãos sendo degolados.

Perseguição – Estima-se que 75% das vítimas de perseguição religiosa no mundo seja de Cristãos. A cada cinco minutos, um cristão é assassinado por razão da sua fé. A cada ano, 105 mil cristãos no mundo são condenados ao martírio: um verdadeiro holocausto.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Magos do Oriente: inteligência e fé




No Evangelho deste domingo (Mt 2,1-12), os “magos” do oriente (representantes de todos os povos da Terra) vêm ao encontro de Jesus. Atentos aos sinais da chegada do Messias, procuram o Menino com esperança, até que O encontram, reconhecendo n’Ele a “salvação de Deus” e aceitando-O como “o Senhor”.

Papa – Reproduzimos, a seguir, a reflexão realizada pelo Papa Bento XVI, durante o Ângelus do dia 6/1/2010, com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro.

Sinal – Queridos irmãos e irmãs! Celebramos hoje a grande festa da Epifania, o mistério da manifestação do Senhor a todos os povos, representados pelos Magos, vindos do Oriente para adorar o Rei dos Judeus (cf. Mt 2, 1-2). O evangelista Mateus, que relata o acontecimento, sublinha que estes chegaram a Jerusalém seguindo uma estrela, vista em seu surgimento e interpretada como sinal do nascimento do Rei anunciado pelos profetas, ou seja, o Messias.

Estrelas – Quando chegaram a Jerusalém, no entanto, os Magos precisaram das indicações dos sacerdotes e dos escribas para conhecer exatamente o lugar ao qual deveriam se dirigir, isto é, Belém, a cidade de Davi (Mt 2,5-6; Mq 5,1). A estrela e as Sagradas Escrituras foram as duas luzes que guiaram o caminho dos Magos, que aparecem como modelos dos autênticos buscadores da verdade.

Revelações – Eles eram sábios, que sondavam os astros e conheciam a história dos povos. Eram homens de ciência, em um sentido amplo, que observavam o cosmos, considerando-o quase como um grande livro, cheio de sinais e de mensagens divinas para o homem. Seu saber, portanto, longe de considerar-se autossuficiente, estava aberto a posteriores revelações e chamados divinos. De fato, não se envergonharam de pedir instruções aos chefes religiosos dos judeus. Eles poderiam ter dito: façamos isso sozinhos, não precisamos de ninguém, evitando, segundo nossa mentalidade atual, toda “contaminação” entre a ciência e a Palavra de Deus.

Profecia – No entanto, os Magos escutaram as profecias e as acolheram; e assim que voltaram ao caminho, rumo a Belém, viram novamente a estrela, quase como confirmação de uma perfeita harmonia entre a busca humana e a Verdade divina, uma harmonia que encheu de alegria seus corações de autênticos sábios (Mt 2, 10). O cume do seu itinerário de busca foi quando se encontraram diante do “Menino com Maria, sua mãe” (Mt 2, 11).

Sábios – O Evangelho diz que “ajoelharam-se diante dele e o adoraram”. Eles poderiam ter ficado desiludidos e, mais ainda, escandalizados. No entanto, como verdadeiros sábios, abriram-se ao mistério que se manifesta de forma surpreendente; e, com seus dons simbólicos, demonstraram que reconheciam em Jesus o Rei e o Filho de Deus. Precisamente, neste gesto, se cumprem os oráculos messiânicos que anunciam a homenagem das nações ao Deus de Israel.

Inteligência e fé – Um último detalhe confirma, nos Magos, a unidade entre inteligência e fé: é o fato de que, “avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2, 12). Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para proclamar sua descoberta. No entanto, os Magos, que escolheram o Menino como soberano, protegeram-nO, escondendo-O, segundo o estilo de Maria, ou melhor, do próprio Deus e, assim como tinham aparecido, desapareceram no silêncio, apagados, mas também transformados, após o encontro com a Verdade. Eles descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza: a do amor.

Maria – Que a Virgem Maria, modelo de verdadeira sabedoria, nos ajude a sermos autênticos buscadores da verdade de Deus, capazes de viver sempre a profunda sintonia que existe entre a razão e a fé, entre a ciência e a revelação.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

OS 7 ERROS DO PRESÉPIO


  


Certamente você já se divertiu com aquele jogo dos 7 erros, em que são apresentadas duas figuras e nós temos que achar as 7 diferenças. Pois bem, hoje nós vamos procurar as 7 diferenças (ou erros) existentes no Presépio, quando comparado com os textos evangélicos.

MIDRAXE – Inicialmente devemos considerar que os textos evangélicos que narram a infância de Jesus (Mt 1-2 e Lc 1-2) não podem ser considerados relatos históricos, mas uma forma de redação que a tradição judaica é chama de midrachim (ou midraxe). Nela, há ênfase ao maravilhoso, com os personagens comunicando-se com o mundo celeste por meio dos anjos. “A história da infância de Jesus é uma história desta terra, mas o invisível nela se torna continuamente visível de maneira extraordinária; é uma história real, cujos atores, porém, são movidos pelo céu” (D. Estevão Bettencourt).

PRESÉPIO – O presépio foi criado por São Francisco de Assis, na Itália, em 1223, em uma gruta na cidade de Greccio. São Francisco queria que as pessoas compreendessem melhor o nascimento de Jesus, com isso pediu para seu amigo Giovani preparar o local conforme ele tinha pedido. São Francisco celebrou o Natal do Senhor entre o boi e o jumento, para demonstrar a simplicidade do local que Jesus nasceu.

1º ERRO – Os Magos não visitaram um recém-nascido – Quando os magos visitaram o Menino Jesus, já havia se passado quase dois anos. Isto é claro em Mt 2,7 (Herodes quis saber a data exata do nascimento de Jesus) e em Mt 2,16 (Herodes mandou matar todos recém-nascidos de Belém com até dois anos). Portanto, os magos não visitaram Jesus na manjedoura, mas uma criança próxima de completar dois anos.

2º ERRO – Os magos não eram três – O Evangelho de Mateus não cita o número de magos que visitaram Jesus. O número de três deve ter sido adotado em razão dos presentes recebidos por Jesus: ouro incenso e mirra.

3º ERRO – Os magos não eram reis – Mateus não chama os magos de reis. São chamados de reis, pela dedução de que apenas os reis presenteavam com ouro. O Evangelho também não cita os nomes dos magos: Baltazar (que significa ‘rei da luz’), Melchior (‘protetor de reis’) e Gaspar (‘vencedor de tudo’).

4º ERRO – A estrela não estava no nascimento – Se a estrela de Belém guiou os magos (Mt 2,1) durante a visita (dois anos após o nascimento) ela não estava no céu na época do nascimento.

5º ERRO – Jesus não nasceu num celeiro ou estábulo - Quase todos os presépios colocam o menino Jesus em um celeiro, cercado por animais. Isso acontece porque Lc 2,7 diz que “... e o deitou em uma manjedoura”. No entanto, uma manjedoura (calha de alimentação para animais) também podia ser usada em residências. Lucas (2,7) usa o termo grego “KATALUMATI” para o local onde Jesus nasceu. Se procurarmos outra ocasião em que no Evangelho de Lucas o mesmo termo é usado, vamos encontrar apenas mais uma citação: em Lc 22,11, ao descrever o local da Última Ceia. Isto significa que o evangelista usa o mesmo termo (KATALUMATI) para descrever o local onde Jesus nasceu e local da Última Ceia.

6º ERRO - Maria entrou em Belém em um jumento – A figura de Maria grávida, montando um jumento, é definitivamente um mito comum que a maioria dos cristãos acredita estar na Bíblia. Seria praticamente impossível para uma mulher, nos últimos dias de uma gravidez fazer uma viagem de 180 quilômetros, de Nazaré a Belém, em um jumento.

7º ERRO – Os animais ao redor de Jesus – Os evangelistas Mateus e Lucas não citam a presença dos diversos animais ao lado da manjedoura.

QUER SABER MAIS? – Se você gostou do assunto e quer mais informações, podemos lhe oferecer o texto “Os magos e Jesus” de autoria do teólogo Dom Estevão Bettencourt e o Novo Testamento em grego. Solicite por E-mail que lhe enviaremos os arquivos gratuitamente.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Jesus nasceu há 2026 anos



Você sabe dizer em que ano nasceu Jesus? Quantos anos Ele teria hoje? Se o nosso calendário cristão estivesse certo, em que ano estaríamos? Vamos apresentar mais detalhes sobre a cronologia do nascimento de Jesus a partir de alguns dados evangélicos, históricos e astronômicos.
          
O que dizem os Evangelhos – Os Evangelhos fornecem duas informações sobre o ano em que Jesus nasceu: alguns anos antes da morte de Herodes (Mt 2,1-19) e por ocasião de um recenseamento, quando Públio Sulpício Quirino era governador da província romana da Síria (Lc 2,2).

Um pouco de História – De acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, Herodes governou 37 anos (desde 40 a.C. até a sua morte no ano 4 a.C.). Herodes morreu alguns dias após um eclipse lunar e cerca de 10 dias antes da Páscoa.  A astronomia confirma um eclipse lunar visível em Jerusalém na noite de 12 de março de 4 a.C. e a Páscoa daquele ano ocorreu em 11 de abril.  Portanto, Herodes morreu no final de março do ano 4 a.C. e Jesus nasceu, pelo menos, dois anos antes desta data. Quanto ao recenseamento citado em Lc 2,2, as informações são desencontradas e não conferem com os dados históricos.

Nascimento de Jesus – Essas considerações nos levam a situar o nascimento de Jesus no ano 7 (mais provável) ou 6 antes de nossa era e, portanto, se não fosse um paradoxo, poderíamos dizer em 7 ou 6 "antes de Cristo". Quanto ao mês do nascimento de Jesus, existem duas informações importantes: a existência de pastores nos campos (Lc 2,8) e a informação de que João Batista fora concebido quando Zacarias (seu pai) estava a serviço no Templo (Lc 1,5).

Pastores – Lucas (Lc 2,8) nos informa que, quando Jesus nasceu, "na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias montavam guarda a seu rebanho". Sabe-se que, em dezembro, quando comemoramos o Natal, a temperatura na região de Belém é abaixo de zero e, normalmente, há geadas.   Portanto, certamente não haveria gado, no mês de dezembro, nos pastos próximos a Belém.   Atualmente, naquela região, os rebanhos são levados para o campo em março e recolhidos no fim de outubro. Portanto, o nascimento de Jesus se deu antes do inverno (do hemisfério norte), talvez no mês de setembro ou outubro do ano 7 (talvez 6) antes de nossa era.

Zacarias – Lc 1,5;8;23;24 nos informa que o sacerdote Zacarias (pai de João Batista), da ordem de Abias, estava a serviço no Templo quando João Batista foi concebido. A tradição judaica indica a semana e o mês (do calendário judaico) que cada ordem realiza os trabalhos no Templo (1Cr 24). Neste ano, o período de trabalho de Zacarias no templo (ordem de Abias) começaria no décimo sábado do ano judaico, ou seja, o primeiro sábado do terceiro mês (Sivan, que corresponde a maio-junho). Concluímos que João deve ter sido concebido logo após o segundo sábado do mês de Sivan.

E Jesus? – O Texto de Lucas (Lc 1, 26-27) nos informa que Maria concebeu no sexto mês da gravidez de Isabel, ou seja, e Jesus foi concebido seis meses depois de João Batista. A data do nascimento de João Batista pode ser bem estabelecida em torno de 15 de Nissan; acrescentando-se seis meses ao nascimento de João chegamos ao Nascimento de Jesus no início do mês de Tishri (setembro).

25 de dezembro? – Interessante concluir que as duas análises indicam para o nascimento nos meses de setembro ou outubro. O ano mais provável é 7 a.C. Assim, na próxima quarta-feira estaremos comemorando o 2026º aniversário de Jesus.

QUER SABER MAIS? – Se você gostou do assunto e quer mais informações, podemos lhe oferecer a obra “A História dos Hebreus” do historiador Flávio Josefo (1.627 páginas), o texto do Vaticano sobre “A Cronologia da Vida de Jesus” e o texto “A data do nascimento de Jesus” com base na tradição judaica. Solicite por E-mail que lhe enviaremos os arquivos gratuitamente.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019


Tu és mesmo o Messias?


No Evangelho das missas deste domingo, João Batista manda os seus discípulos irem até Jesus e perguntar-lhe: “És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro?”. João Batista, como todo o povo judeu, aguardava a chegada de um Messias (o Cristo, o Ungido de Deus), como estava prometido no Antigo Testamento. Por essa razão, ele manda seus discípulos perguntarem a Jesus se Ele realmente o Messias esperado, ou devemos esperar por outro.

Messias – Nos primeiros séculos, uma das dificuldades do cristianismo era provar aos judeus que Jesus era o Messias, o Cristo esperado pelos judeus. Conforme o Antigo Testamento, este personagem deveria ter três características prometidas por Deus para o final dos tempos: um profeta, um rei e um sacerdote. Para Jesus ser o Messias, ele deveria ter as três qualidades.
 
Profeta, rei, sacerdote – A vinda de um profeta no final dos tempos foi comunicada por Deus a Moisés no livro do Deuteronômio (18,18): “Suscitarei um profeta como tu entre teus irmãos”. A promessa de um rei está no 2º Livro de Samuel (7,12), onde Deus diz a Davi: “Quando tu morreres eu mandarei um descendente teu e manterei o seu trono para sempre”. Finalmente, a promessa de um futuro sacerdote santo foi para Eli: “Mandarei um sacerdote fiel, que atue segundo a minha vontade” (1Sam 2, 35).

Jesus: Profeta e Rei – Cristo foi reconhecido como “profeta” (Mc 9,8), como “grande profeta” (Lc 7,16) e como “o profeta” (Jo 6,14). Também foi reconhecido como “rei” (Mt 21,9), como “o rei que vem em nome do Senhor” (Lc 19,38), como “o rei de Israel” (Jo 12,13).  O próprio Pedro reconhece Jesus como o profeta prometido (Hb 3,22) e como rei esperado (Hb 2,36).

Por que a pergunta de João? – João Batista e os judeus esperavam um Messias que viesse lançar fogo à terra, castigar os maus e os pecadores, dar início ao “juízo de Deus” (Mt 3,11-12). Ao contrário, Jesus aproximou-Se dos pecadores, dos marginais, dos impuros, estendeu-lhes a mão, mostrou-lhes o amor de Deus, ofereceu-lhes a salvação (Mt 8-9). João e os seus discípulos ficaram desconcertados: Jesus será o Messias esperado, ou é preciso esperar um outro que venha atuar de uma forma mais decidida, mais lógica e mais justiceira?

Jesus Sacerdote – Porém jamais, em nenhuma ocasião, Jesus foi reconhecido como sacerdote. Isto por uma clara razão: para ser sacerdote ele deveria pertencer a tribo de Levi, e Jesus pertencia à tribo de Judá. Portanto, para os judeus, Jesus era um leigo. Explicando melhor: Quando os Hebreus chegaram à Terra Prometida, se dividiram em 12 tribos. Só poderiam ser sacerdotes os descendentes da tribo de Levi (chamados levitas). Jesus pertencia à tribo de Judá, portanto nunca poderia ser aceito como sacerdote.

Solução – Por volta do ano 80 d.C. apareceu na cidade de Roma um personagem de grande cultura e grande conhecimento da língua grega. Este autor, que para nós permanece anônimo, escreveu a Carta aos Hebreus, esclarecendo que Jesus poderia ser sacerdote. Nos capítulos 7 a 10 da Carta, ele desenvolve o seguinte raciocínio: interpretando o Salmo 110 (vers. 4), em que Deus diz “tu és sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedec”, ele afirma que Deus criou uma nova ordem de sacerdotes, distinta da ordem dos levitas. Jesus Cristo desceu dos céus para ser o sumo sacerdote desta nova ordem.
 
Quem era? – Melquisedec é proclamado como “rei de Salém” e “sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14). Foi ao encontro de Abrão, abençoou-o, entregando-lhe pão e vinho. Trata-se de um personagem estranho, pois o texto não indica as suas origens nem a sua ordem sacerdotal.

Nova ordem – Portanto Cristo é o primeiro sacerdote, protagonista e iniciador de uma nova ordem de sacerdotes. Pela interpretação do Salmo (110, 4) e da Carta aos Hebreus (cap.7 a 10) a Igreja Católica proclama Jesus como “sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedec”.