Nos seus ensinamentos no Sermão da Montanha, Jesus nos diz: “amem seus
inimigos” (Mt 5,44). Diante dessa afirmação, surgem várias dúvidas: é
possível mandar no amor? Alguém pode ordenar-nos sentir afeto por outro? A
manifestação de carinho é espontânea? Como é possível amar alguém que é nosso
inimigo?
Raiz do
problema –
Todo o problema dessa passagem está na tradução das palavras de Jesus. Na
língua portuguesa usamos sempre o mesmo verbo “amar”, para qualquer sentimento
amoroso a que queremos nos referir. Na língua grega (em que foram compostos os
Evangelhos), existem quatro verbos distintos para indicar “amar”, cada um com
sentidos diferentes.
Amor romântico – Em primeiro lugar temos o verbo erao
(de onde vem a palavra eros e seu adjetivo erótico).
Significa amar em seu sentido romântico, carnal, sexual. Emprega-se para a
atração entre um homem e uma mulher, em seu aspecto espontâneo e instintivo. Na
Bíblia, aparece o verbo “erao” várias vezes: “O rei amou (erao) a Éster mais
que as outras mulheres de sua corte” (Est 2,17). “Vou reunir todos os que te
amaram (erao)” (Ez 16,37).
Amor familiar
–
Outro verbo grego que significa amar é stergo. Indica o amor
familiar, o carinho do pai por seu filho e do filho pelo pai. É o amor
doméstico, de família, que brota naturalmente dos laços do parentesco. São
Paulo, em sua Carta aos Romanos escreve: “Tenham uma caridade sem fingimento:
amem-se cordialmente (stergo) uns aos outros” (Rom 12,10).
Amor
de amigos – O
terceiro verbo grego usado para designar “amor” é fileo. Expressa
o amor da amizade, o afeto que se sente pelos amigos. Quando Lázaro, o amigo de
Jesus, estava doente, as suas irmãs mandaram dizer: “Senhor, aquele a quem tu
amas (fileo) está enfermo” (Jo 11,3). Quando Maria Madalena não encontra o
corpo de Jesus no sepulcro, sai correndo para encontrar Pedro “e o outro
discípulo que Jesus amava (fileo)” (Jo 20,2). Na parábola do filho pródigo, o
irmão reclama ao pai: “Faz tantos anos que te sirvo e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com meus amigos (filos)” (Lc 15,29).
Amor
caritativo – O quarto verbo grego para “amar” é agapao.
É utilizado para o amor de caridade, de benevolência, de boa vontade, o amor
capaz de dar sem esperar nada em troca. É o amor totalmente desinteressado,
completamente abnegado, o amor com sacrifício. O evangelista João usa o verbo
“agapao” na descrição da Última Ceia: “Sabendo Jesus que havia chegado a hora
de passar deste mundo ao Pai, tendo amado (agapao) aos seus, os amou até o fim”
(Jo 13,1). Ou ainda: “Como o Pai me
amou, eu também os amo (agapao)” (Jo 15,9). E quando encontra os apóstolos:
“Nada tem maior amor (agápe) do que dar a vida por seus amigos” (Jo 15,13).
Jogo de Palavras – Um exemplo interessante é o episódio em que Jesus ressuscitado aparece aos
apóstolos no lago de Tiberíades (Jo 21,15s) e pergunta três vezes a Pedro:
Simão, filho de João, amas-me mais que estes?”. Jesus usa o verbo agapao:
”Simon, agapás me?”. Pedro lhe responde com fileo: “Filo se”. Jesus pergunta a
Pedro se ele o ama com amor total, amor de entrega de serviço, e Pedro lhe
responde humildemente com fileo, menos pretensioso. Na segunda vez, Jesus volta
a perguntar: “Simon, agapás me? E Pedro novamente responde com fileo. Na
terceira vez, Jesus sabendo esperar com paciência o processo de maturidade de
cada um, usa o verbo fileo: “Simon, fileis me? Então Pedro se entristece ao
identificar o sentido da pergunta.
Amar os
inimigos? –
Voltando agora à frase de Jesus, ordenando que se ame os inimigos, Jesus não
utilizou o verbo erao, nem stergo nem fileo.
Usou o verbo agapao. Jesus nunca pediu que amássemos os inimigos
do mesmo modo que amamos nossos entes queridos. Nem pretendeu que sentíssemos o
mesmo afeto que sentimos por nosso cônjuge (erao), nossos familiares (stergo)
ou nossos amigos (fileo). Se quisesse isso, teria usado os outros verbos.
Amor ágape – O que Jesus exige é o amor ágape.
Este não consiste em um sentimento, nem afeto, nem algo de coração (senão seria
impossível cumprir). O ágape que Jesus pede é uma decisão, uma
atitude, uma determinação que depende da vontade. Não nos obriga a sentir
apreço ou estima, nem devolver a amizade por quem nos tenha ofendido. O que
Jesus pede é a capacidade de ajudar e prestar um serviço de caridade, se algum
dia aquele que nos ofendeu necessitar.
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