sábado, 15 de janeiro de 2022

“O Primeiro Sinal”

 

Neste domingo, a liturgia nos apresenta o primeiro milagre de Jesus. João, que provavelmente era um dos convidados nas bodas de Caná, registrou o episódio em seu evangelho (2, 1-12), definindo-o como um “sinal” (2,11): “Jesus (...) manifestou a sua glória”.

 Caná da Galiléia – Caná é um vilarejo citado três vezes no Evangelho de João (2, 1; 4, 26; 21, 2), que distava 8 km de Nazaré. O evangelista faz referência ao fato de que ficava na Província da Galiléia para distingui-la de outra Caná, de Aser, que ficava mais ao norte, a 12 km do sul de Tiro.

 Convidados especiais – Acredita-se que Jesus, sua mãe e alguns discípulos tenham sido convidados por questões de parentesco ou de amizade. Natanael, um dos primeiros discípulos chamados por Jesus (Jo 1, 45-51) era originário de Caná (Jo 21, 2). Além disso, segundo uma tradição cristã do século XII, Sefforis, cidade vizinha de Caná, era o berço de Santa Ana, mãe de Maria Santíssima (Protoevangelho de Tiago).

 Banquete – Nas bodas, realizava-se sempre um banquete, em geral, servido na casa do noivo. Elas duravam, geralmente, uma semana – no caso de primeiras núpcias – mas podiam prolongar-se por duas semanas. Considerando-se o número de participantes, é fácil entender a importância de manter um bom sortimento de vinho nessas circunstâncias: a sua falta no meio da festa poderia provocar duras críticas contra os noivos. Jesus fora convidado e com ele foram seus apóstolos e quem sabe estes levaram outros parentes e amigos, como era costume então. Assim, o número de participantes deve ter ultrapassado em muito o cálculo feito pelos noivos.

 Não têm vinho – Era costume da época que as mulheres ajudassem a servir os convidados. Era, pois, natural, que Maria Santíssima, que se achava entre as mulheres, percebesse imediatamente a falta do vinho no meio da festa. Se esse fato se tornasse público, seria muito humilhante para os noivos. Cuidadosa e atenta, ao se dar conta da situação, Maria se aproxima de Jesus e o avisa sobre o fato desagradável. O contexto não permite concluir se Maria pede um prodígio, mas sem dúvida demonstra que suas palavras são inspiradas por um profundo senso de misericórdia, que parecem mostrar a esperança do milagre. Ela sabe que Jesus pode realizá-lo.

 Resposta enigmática – Jesus responde com uma indagação que aparentemente é uma recusa ao pedido. Fica evidente que ele e a mãe divergem em sua opinião: enquanto Maria preocupa-se com o vinho da festa, que faltou, Jesus pensa na hora culminante de sua missão. No diálogo de Caná, Jesus passa do plano da realidade material para o da realidade espiritual, das quais a primeira é símbolo: ele dará o vinho, sim, mas conferirá um significado profundo a esse dom.

 Entrega total – Mesmo que provavelmente não tenha compreendido exatamente as intenções do Filho, como acontecera no episódio com os doutores do templo, quando Jesus tinha 12 anos (Lc 2, 48-50), Maria transmite sua fé aberta ao incógnito, antes que aconteça a evidência do “sinal”: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5).

 As talhas – Os judeus tinham por costume lavar-se antes de certas cerimônias ou de festas. As grandes talhas eram uma espécie de reservatório, de onde tiravam a água em vasilhas menores para lavar as mãos, os braços ou a cabeça. No casamento de Caná havia seis dessas talhas, com uma capacidade estimada entre 60 e 90 litros cada uma. Além disso, João tem o cuidado de dizer que as talhas foram cheias até em cima, o que indica a quantidade abundante de vinho fornecida por Jesus, como todos os outros dons que concede (Jo 1,16; 4, 13-14; 10, 10).

 Poder manifestado – Com esse primeiro milagre, Jesus manifestou publicamente a sua divindade e depois disso, muitos outros milagres se realizariam com o objetivo de manifestar a sua glória e suscitar a fé Nele. Os milagres de Jesus são os gestos visíveis que nos remetem a uma realidade invisível, porque nos convidam a contemplar em profundidade o mistério do “homem que se chama Jesus” (Jo 9, 11) Tudo o que ocorre com Jesus revela a glória do Verbo que habitou entre nós.

Nenhum comentário:

Postar um comentário