quarta-feira, 13 de setembro de 2000

O QUE VOCÊ DEVE SABER PARA LER A BÍBLIA COM PROVEITO (IV)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 13/09/2000


O assunto da Bíblia

O assunto da Bíblia não é só doutrina sobre Deus. Lá dentro tem de tudo: doutrina, histórias, provérbios, profecias, cânticos, salmos, lamentações, cartas, sermões, meditações, filosofia, romances, cantos de amor, biografias, genealogias, poesias, parábolas, comparações, tratados, contratos, leis para a organização do povo, leis para o bom funcionamento da liturgia; coisas alegres e coisas tristes; fatos verdadeiros e fatos simbólicos; coisas do passado, coisas do presente e coisas do futuro. Enfim, tudo que dá para rir e para chorar. Tem trechos da Bíblia que querem comunicar alegria, esperança, coragem e amor; outros trechos querem denunciar erros, pecados, opressão e injustiças. Tem páginas lá dentro que foram escritas pelo gosto de contar uma bela história para descansar a mente do leitor e provocar nele um sorriso de esperança.

A Bíblia parece um álbum de fotografias. Muitas famílias possuem um álbum assim ou, ao menos, têm uma caixa onde guardam as suas fotografias, todas misturadas, sem ordem. De vez em quando, os filhos despejam tudo na mesa para olhar e comentar as fotografias. Os pais têm que contar a história de cada uma delas. A Bíblia é o álbum de fotografias da família de Deus. Nas suas reuniões e celebrações, o povo olhava as suas "fotografias", e os pais contavam as histórias. Era o jeito de integrar os filhos no povo de Deus e de transmitir-lhes a consciência da sua missão e da sua responsabilidade.

A Bíblia não fala só de Deus que vai em busca do seu povo, mas também do povo que vai em busca do seu Deus e que procura organizar-se de acordo com a vontade divina. Ela conta as virtudes e os pecados, os acertos e os enganos, os pontos altos e os pontos baixos. Nada esconde, tudo revela. Conta os fatos do jeito que foram lembrados pelo povo. Histórias de gente pecadora que procura ser santa. Histórias de gente opressora que procura converter-se e ser irmão. Histórias de gente oprimida que procura libertar-se.

A Bíblia é tão variada como é variada a vida do povo. A palavra BÍBLIA vem do grego e quer dizer LIVROS. A Sagrada Escritura tem 73 livros. É quase uma biblioteca. Poucas bibliotecas paroquiais têm a variedade dos 73 livros da Bíblia!

 A semente da Bíblia

Longo e demorado foi o mutirão do povo, do qual surgiu a Bíblia. Surgiu como surgem as árvores. Elas nascem de uma semente bem pequena, escondida no chão, e crescem até esparramar os seus galhos que oferecem sombra, alimento e proteção. A Bíblia nasceu de um chamado de Deus, escondido na vida do povo, e cresceu até esparramar os seus 73 galhos pelo mundo inteiro.

O chamado de Deus que deu início ao mutirão do povo é a palavra de Deus, por ele dirigida a todos os homens, também a nós hoje. Este apelo de Deus, escondido no chão da vida, foi descoberto primeiro por Abraão, depois por Moisés e pelo povo oprimido no Egito. Eles deram a sua resposta e fizeram nascer o começo do povo de Deus. Uma vez nascido o povo, trataram de não deixar morrer a semente. Os coordenadores convocavam a comunidade, os pais reuniam os filhos para transmitir a seguinte mensagem: "Nós éramos escravos no Egito. Gritamos ao Deus dos nossos pais, e ele ouviu o nosso clamor. Chamou Moisés e, com a ajuda de Deus e de Moisés, conseguimos a nossa libertação. Deus fez uma aliança conosco: Ele quer ser o nosso Deus, e nós temos que ser o seu povo, observando a sua Lei, vivendo como irmãos!"

Esta mensagem é o veiozinho verde que brotou da semente. É o núcleo da fé do povo de Deus. Uma história de libertação, da qual nasceu um compromisso mútuo! Semente bem pequenina! Cabia em umas poucas frases! Mas esta história foi contada e cantada, em prosa e verso, de mil maneiras, pelo povo libertado. Foi daí que nasceram os 73 livros da Bíblia, que hoje se esparramam pelo mundo inteiro, oferecendo sombra, alimento e proteção a quem o deseja. Nasceram, para que também nós possamos descobrir hoje o mesmo apelo de Deus em nossa vida e para que iniciemos a mesma caminhada de libertação. (Editora Vozes. Bíblia Sagrada - Editora Vozes (24) 237-5112 - www.vozes.com.br)

sábado, 9 de setembro de 2000

O QUE VOCÊ DEVE SABER PARA LER A BÍBLIA COM PROVEITO (III)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 09/09/2000

Quem escreveu?

Não foi uma única pessoa que escreveu a Bíblia. Muita gente deu a sua contribuição: homens e mulheres, jovens e velhos, pais e mães de família, agricultores e operários de várias profissões; gente instruída que sabia ler e escrever e gente simples que só sabia contar histórias; gente viajada e gente que nunca saiu de casa; sacerdotes e profetas, reis e pastores, pobres e ricos, gente de todas as classes, mas todos convertidos e unidos na mesma preocupação de construir um povo irmão, onde reinassem a fé e a justiça, o amor e a fraternidade, a verdade e a fidelidade, e onde não houvesse opressor nem oprimido.

Todos deram a sua colaboração, cada um do seu jeito. Todos foram professores e alunos, uns dos outros. Mas aqui e acolá, a gente ainda percebe como alguns, às vezes, puxavam a brasa um pouquinho para o seu lado.

Quando foi escrita?

A Bíblia não foi escrita de uma só vez. Levou muito tempo, mais de mil anos. Começou em torno do ano 1250 antes de Cristo, e o ponto final só foi colocado cem anos depois do nascimento de Jesus. Aliás, é muito difícil saber quando foi que começaram a escrever a Bíblia, pois, antes de ser escrita, a Bíblia foi narrada e contada nas rodas de conversa e nas celebrações do povo. E antes de ser narrada e contada, ela foi vivida por muitas gerações num esforço teimoso e fiel de colocar Deus na vida e de organizar a vida de acordo com a justiça.

No começo, o povo não fazia muita distinção entre contar e escrever. O importante era expressar e transmitir aos outros a nova consciência comunitária, nascida neles a partir do contato com Deus. Faziam isto contando aos filhos os fatos mais importantes do seu passado. Como nós hoje decoramos a letra dos cânticos, assim eles decoravam e transmitiam as histórias, as leis, as profecias, os salmos, os provérbios e tantas outras coisas que, depois, foram escritas na Bíblia. A Bíblia saiu da memória do povo. Nasceu da preocupação de não esquecer o passado.


Onde foi escrita?

A Bíblia não foi escrita no mesmo lugar, mas em muitos lugares e países diferentes. A maior parte do Antigo Testamento e do Novo Testamento foi escrita na Palestina, a terra onde o povo vivia, por onde Jesus andou e onde nasceu a Igreja. Algumas partes do Antigo Testamento foram escritas na Babilônia, onde o povo viveu no cativeiro no século VI antes de Cristo. Outras partes foram escritas no Egito, para onde muita gente emigrou depois do cativeiro. O Novo Testamento tem partes que foram escritas na Síria, na Ásia Menor, na Grécia e na Itália, onde havia muitas comunidades, fundadas ou visitadas pelo apóstolo São Paulo.

Ora, os costumes, a cultura, a religião, a situação econômica, social e política de todos estes povos deixaram marcas na Bíblia e tiveram a sua influência na maneira de a Bíblia nos apresentar a mensagem de Deus aos homens.


Em que língua foi escrita?

A Bíblia não foi escrita numa única língua, mas em três línguas diferentes. A maior parte do Antigo Testamento foi escrita em hebraico. Era a língua que se falava na Palestina antes do cativeiro. Depois do cativeiro, o povo de lá começou a falar o aramaico. Mas a Bíblia continuou a ser escrita, copiada e lida em hebraico. Para que o povo pudesse ter acesso à Bíblia, foram criadas escolinhas em toda parte. Jesus deve ter freqüentado a escolinha de Nazaré para aprender o hebraico. Só uma parte bem pequena do Antigo Testamento foi escrita em aramaico . Um único livro do Antigo Testamento, o livro da Sabedoria, e todo o Novo Testamento foram escritos em grego. O grego era a nova língua do comércio que invadiu o mundo daquele tempo, depois das conquistas de Alexandre Magno, no século IV antes de Cristo.

Assim, no tempo de Jesus, o povo da Palestina falava o aramaico em casa, usava o hebraico na leitura da Bíblia, e o grego no comércio e na política. Quando os apóstolos saíram da Palestina para pregar o Evangelho aos outros povos, eles adotaram uma tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito no século III antes de Cristo para os judeus imigrantes que já não entendiam o hebraico nem o aramaico. Esta tradução grega é chamada Septuaginta ou Setenta. Na época em que ela foi feita, a lista (cânon) dos livros sagrados ainda não estava concluída. E assim aconteceu que a lista dos livros desta tradução grega ficou mais comprida do que a lista dos livros da Bíblia hebraica.

É desta diferença entre a Bíblia hebraica da Palestina e a Bíblia grega do Egito que veio a diferença entre a Bíblia dos protestantes e a Bíblia dos católicos. Os protestantes preferiram a lista mais curta e mais antiga da Bíblia hebraica, e os católicos, seguindo o exemplo dos apóstolos, ficaram com a lista mais comprida da tradução grega dos Setenta. Há sete livros a mais na Bíblia dos católicos: Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, os dois livros dos Macabeus, além de algumas partes de Daniel e Ester. São chamados "deuterocanônicos", isto é, são da segunda (dêutero) lista (cânon). (Editora Vozes. Bíblia Sagrada - Editora Vozes (24) 237-5112 - www.vozes.com.br)

quarta-feira, 6 de setembro de 2000

O QUE VOCÊ DEVE SABER PARA LER A BÍBLIA COM PROVEITO (II)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 06/09/2000

Livro da caminhada do povo

A Bíblia não caiu pronta do céu. Ela surgiu da terra, da vida do povo de Deus. Surgiu como fruto da inspiração divina e do esforço humano. Quem escreveu foram homens e mulheres como nós. Eles é que pegaram caneta e papel e escreveram o que estava no seu coração. A maior parte deles não tinha consciência de estar falando ou escrevendo sob a inspiração de Deus. Estavam só querendo prestar um serviço aos irmãos em nome de Deus. Eles eram pessoas que faziam parte de uma comunidade, de um povo em formação, onde a fé em Deus e a prática da justiça eram ou deviam ser o eixo da vida. Preocupados em animar esta fé e em promover esta justiça, eles falavam e argumentavam para instruir os irmãos, para criticar abusos, para denunciar desvios, para lembrar a caminhada já feita e apontar novos rumos. Alguns deles chegaram a escrever, eles mesmos, as suas palavras ao povo. Outros nem sabiam escrever. Só sabiam falar e animar a fé pelo seu testemunho. As palavras destes últimos foram transmitidas oralmente, de boca em boca, durante muitos anos. Só bem mais tarde, outras pessoas decidiram fixá-las por escrito.

As palavras faladas ou escritas de todos estes homens e mulheres contribuíram para formar e organizar o povo de Deus. Por isso, o povo delas se lembrou e por elas se interessou. Não permitiu que caíssem no esquecimento. Fez questão de distingui-las das palavras e gestos de tantos outros que em nada contribuíram para a formação do povo, nem para a animação da fé e nem para a prática da justiça. Foi um longo processo. Muita gente colaborou. O povo todo se interessou.

Ora, a Bíblia foi surgindo do esforço comunitário de toda esta gente. Surgiu aos poucos, misturada com a história do próprio povo de Deus. Resumindo, a gente pode dizer: a Bíblia nasceu da vontade do povo de ser fiel a Deus e a si mesmo, e da preocupação de transmitir aos outros e a nós esta mesma vontade de ser fiel. Eles diziam: as coisas do passado aconteceram "para servir de exemplo, e foram escritas para advertir-nos, para quem chegou a plenitude dos tempos"(1Cor 10,11). A Bíblia surgiu sem rótulo. Só mais tarde, o próprio povo descobriu aí dentro a expressão da vontade de Deus e a presença da sua palavra santa.

Livro inspirado por Deus

Como é que um livro que surge da vida e da caminhada do povo pode ser, ao mesmo tempo, a palavra de Deus? Um agricultor resumiu a resposta nesta frase: "Deus fala misturado nas coisas: os olhos percebem as coisas, mas a fé enxerga Deus que nos fala!" A ação do Espírito de Deus pode ser comparada com a chuva: cai do alto, penetra no chão, e acorda a semente que produz a planta (cf. Is 55,10-11). A planta é fruto, ao mesmo tempo, da ação gratuita de Deus e do esforço suado das pessoas. É a palavra do Deus do povo e do povo de Deus.

A ação do Espírito de Deus pode ser comparada com o sol: seus raios invisíveis esquentam a terra e fazem crescer as plantas de baixo para cima. Pode ser comparada ainda com o vento que não se vê. A Bíblia é fruto do vento invisível de Deus, que moveu os homens a agir, a falar ou a escrever. Até hoje, o Espírito de Deus nos atinge quando lemos a Bíblia. Ele nos ajuda a ouvir e a praticar a palavra de Deus. Sem ele, não é possível descobrir o sentido que a Bíblia tem para nós (cf. Jo 16,12-13; 14,26). O Espírito Santo não se compra nem se vende (cf. At 8,20), nem é fruto só de estudo. É um dom de Deus que deve ser pedido na oração (cf. Lc 11,13).


A lista dos livros inspirados

Em vista da fidelidade a Deus e a si mesmo, o povo foi fazendo uma seleção daqueles escritos que eram considerados de grande importância para a sua caminhada. Assim surgiu uma lista de livros, reconhecidos por todos como sendo a expressão da sua fé, das suas convicções, da sua história, das suas leis, do seu culto, da sua missão. Lidos e relidos nas reuniões e nas celebrações do povo, os livros desta lista foram adquirindo, aos poucos, uma grande autoridade. Eram o patrimônio sagrado do povo, porque lhe revelavam a vontade de Deus. Daí vem a expressão Escritura Sagrada.

Nós dizemos lista. Eles usavam uma palavra grega e diziam cânon, o que quer dizer lista ou norma. Os livros canônicos (cânon) eram a norma da fé e da vida do povo. Ora, esta lista de livros sagrados recebeu mais tarde o nome de Bíblia.

A Bíblia é o resultado final de uma longa caminhada, fruto da ação de Deus, que quer o bem dos homens, e do esforço dos homens que querem conhecer e praticar a vontade de Deus. Ou seja, a Bíblia é o fruto de um mutirão prolongado do povo que procurava descobrir, praticar, escrever e transmitir aos outros e a nós a palavra de Deus presente na vida. Vamos ver alguns aspectos deste mutirão do povo que deu origem à Bíblia. (Editora Vozes. Bíblia Sagrada - Editora Vozes (24) 237-5112 - www.vozes.com.br)

sábado, 2 de setembro de 2000

SETEMBRO, MÊS DA BÍBLIA

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 02/09/2000


Em setembro celebramos especialmente a Bíblia, Palavra de Deus e, sobre ela, falaremos durante este mês, no qual, excepcionalmente, esta coluna sairá também às quartas-feiras, para melhor podermos abordar este assunto que interessa e apaixona os homens de todos os tempos. Os textos que serão publicados durante este mês foram gentilmente cedidos pela Editora Vozes (Bíblia Sagrada - Editora Vozes (24) 237-5112 - www.vozes.com.br).



O que você deve saber para ler a Bíblia com proveito

 Livro da humanidade

Abrindo a Bíblia, você está abrindo um dos livros mais lidos de toda a história da humanidade. Antes de você, milhões de pessoas procuraram dentro dela um sentido para a sua vida e o encontraram. Se não o tivessem encontrado, não nos teriam transmitido este livro tão antigo, e já não teríamos mais nenhum interesse pela Bíblia. Mas o contrário está acontecendo. Só neste nosso século, mais de um bilhão e quinhentos milhões de exemplares da Bíblia já foram impressos e divulgados no mundo inteiro, traduzidos para mais de mil línguas diferentes.

Ora, um livro procurado e lido por tanta gente deve possuir um segredo muito importante para a vida. Pois, em geral, nós homens e mulheres não somos tão bobos assim para continuar procurando num lugar onde nada se encontra! Qual é este segredo? Como fazer para descobri-lo? A Bíblia é como coco de casca dura. Esconde e protege uma água que mata a sede do romeiro cansado. Romeiros e peregrinos somos todos! Cansados também! Vamos procurar o facão que nos quebre a casca deste coco!

Palavra de Deus

Em todas as épocas da história, sobretudo em épocas de crise como a nossa, voltamos a alimentar-nos da Bíblia, pois acreditamos que este livro tem a ver com Deus. A fé nos diz que a Bíblia é a palavra de Deus para nós. "Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus"(Mt 4,4).

Uma palavra tem a força e o valor daquele que a pronuncia. A palavra humana pode errar e enganar, pois o homem é fraco e não oferece segurança total. Mas a palavra de Deus não erra nem engana. Ela é prego seguro e firme que sustenta a vida de quem nela se agarra e por ela se orienta. Por isso, "toda escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e capacitado para toda boa obra"(2Tm 3,16). Assim, "pela paciência e consolação das Escrituras, permaneçamos firmes na esperança"(Rm 15,4). Esperamos que, um dia, a verdade e a justiça voltem a ser a marca de toda a palavra que sai da boca dos homens!

Perguntas que surgem para quem vai ler a Bíblia

A Bíblia é a palavra de Deus. Mas em canto nenhum da Bíblia, Deus colocou a sua assinatura. Nunca ninguém viu o Espírito Santo em ação para mover alguém a escrever. Então, como foi que o povo descobriu que Deus é o autor da Bíblia? Como entender esta convicção tão profunda da nossa fé de que, quando leio a Bíblia, estou lendo ou ouvindo a palavra de Deus para nós? O que significa dizer que a Bíblia é a palavra inspirada de Deus? Foi Deus mesmo que pegou caneta e papel para escrever? Como foi que surgiu a Bíblia? Qual a sua mensagem? Como a gente deve ler este livro sagrado? Quais as regras da sua interpretação? A palavra de Deus encontra-se tão-somente na Bíblia? São muitas perguntas. Vamos tentar esclarecê-las, parte por parte.

sábado, 26 de agosto de 2000

Jesus, Palavra de vida eterna

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 26/08/2000


Quando lemos sobre a vida dos santos ou assistimos a um filme sobre eles, ficamos pensando como é que puderam chegar a tão algo grau de santidade... Não eram eles pessoas comuns como a gente? Não receberam as mesmas mensagens e doutrinas que todos nós recebemos? Por que, então, a diferença?

Certamente é porque eles souberam aproveitar melhor as mensagens...

É como numa classe de alunos: todos ouvem o que o professor ensina mas alguns aproveitam muito mais daqueles ensinamentos, enquanto outros os esquecem logo. Depende de quem? Do professor? Não! Depende do aluno. Depende da maneira mais correta de aproveitar e utilizar-se dos conhecimentos recebidos. Para os cristãos, Jesus é esse professor que ensina, que semeia a Palavra e nós somos os alunos.

Infelizmente, atualmente constatamos que os princípios evangélicos são cada vez menos levados em consideração, cada vez menos seguidos. E nós, como nos sentimos e o que podemos fazer diante deste problema tão sério? O que será que Deus pede de nós neste século tão descristianizado?

Para responder a essas questões é preciso nos reportar às palavras de Jesus no Evangelho: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (João 14, 6). "Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha" (Mateus 7, 24) .

Ou ainda, o que disse um autor inspirado: "Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos" (Tiago 1, 22).

Jesus é a própria Palavra! Se parássemos para pensar um pouquinho sobre a importância vital de compreender Jesus como a Palavra encarnada, só o fato de parar para pensar, faria nosso coração arder e se acender!

Você por um só momento já imaginou como seria estar entre os ouvintes de Jesus? Escutar o Verbo que fala com palavras humanas? Você pensou em como seria a intensidade, a inflexão, o conteúdo, a voz de Jesus?

Certamente o impacto causado nas pessoas, por suas palavras e sua voz, foi algo tão intenso e inesquecível que, embora passados quarenta anos de sua morte e ressurreição para que elas começassem a ser registradas por escrito, elas puderam ser lembradas por seus seguidores e chegaram até nós, milhares de anos depois. Por isso o Evangelho não dá para ser comparado a nenhum outro livro: porque nele quem fala é o próprio Deus. "Aquele que vem do alto está acima de todos; o que é da Terra é terrestre e fala sobre coisas da Terra" (João 3, 31). Eis a diferença entre o que nós dizemos e o que Jesus diz: ele vem do Alto e nós da Terra. Suas palavras são únicas, eternas: "... seca-se a erva, murcha-se a flor, mas a palavra do nosso Deus subsiste para sempre" (Isaías 40, 8).

Para nós não foi possível ouvir de viva voz, os ensinamentos de Jesus. Não se produziu em nós o impacto de um encontro físico, porém ele nos chamou bem aventurados pois sem termos visto (a ressurreição), acreditamos.

E porque Jesus ressuscitou e vive, suas palavras, mesmo pronunciadas no passado, não são uma simples lembrança, mas palavras que ele dirige hoje a todos nós e a cada homem de qualquer tempo. Palavras que nos trazem a Verdade de Deus. Verdade encarnada em Jesus, homem-Deus.

"Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8, 31-32).

Se o que buscamos é a Verdade, é preciso então que busquemos Jesus, deixemos tudo (o que nos impede de ouvi-lo) e o sigamos! Isso significa lembrar sempre que é apenas colocando em prática suas palavras que podemos seguir o Caminho, a Verdade e a Vida.

E o único caminho para viver o Evangelho é amar o próximo como a si mesmo.

Próximo, é aquele que está ao nosso lado no momento presente: aquele que encontramos no trabalho, na escola, na loja, no banco, em casa... Amar o próximo é "ser um" com ele: entender os seus sentimentos, suas preocupações, aquilo que se passa no seu coração; ir ao encontro de suas necessidades. Enfim, amá-lo, significa esquecer de nós mesmos para "sermos o outro" e "sendo o outro", podermos "ser Jesus" para ele. Dessa maneira ele não carregará mais sozinho os seus pesos, suas angústias e dificuldades; compartilhará também suas alegrias e com elas se sentirá reanimado. Pensem bem, quantas pessoas não estariam assim, sendo evangelizadas por cada um de nós! Quantas não poderiam vir a aderir à vida cristã e começar a vivê-la?

"A quem iremos, Senhor? Tu tens Palavra de vida eterna" (Jo , 68).

sábado, 19 de agosto de 2000

EM QUE ÉPOCA VIVEU A VIRGEM MARIA ?

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 19/08/2000


Nascimento:

Para inferirmos sobre a data de nascimento de Maria, é preciso buscar dados nos textos apócrifos. Estes textos fornecem importantes elementos para a cultura cristã, como a celebração de Santa Ana e São Joaquim (pais de Maria), a apresentação de Maria no templo, as figuras do boi e do jumento no presépio, etc. Dados tirados destes textos apócrifos indicam que Maria teria entre 13 e 14 anos ao ficar noiva de José (um velho carpinteiro, viúvo e pai de 6 filhos: 4 homens e 2 mulheres).

Como já discutimos nesta coluna, a data mais provável para o nascimento de Jesus é o final do ano 7 antes de nossa era (7 a.C.), ou início do ano 6 a.C. Isso nos leva a localizar o nascimento de Maria por volta do ano 20 a.C.

Vida:

Podemos concluir que, no episódio de Jesus (aos 12 anos) no templo, ocorrido no ano 5 ou 6 de nossa era, Maria era uma jovem senhora de 25 anos; no início da vida pública de Jesus, nas bodas de Caná, que pode ser datado em março do ano 28, Maria estaria com 48 anos.

Na crucificação, ocorrida em 7 de abril do ano 30, Maria estava presente, com seus 50 anos de idade, bem como (40 dias após) em Pentecostes (Atos 2).

Morte:

Duas razões nos levam a afirmar que Maria tenha morrido antes do ano 40 d.C..

1 - Nos relatos bíblicos, Maria é citada pela última vez após a ascensão de Jesus e durante a escolha do apóstolo sucessor de Judas (At 1, 14), fatos que podemos datar em maio do ano 30 d.C. Se Maria permanecesse viva entre os apóstolos, ela deveria estar presente em episódios importantes ocorridos na comunidade cristã, posteriores ao ano 30. Porém, Maria não aparece na prisão de João e Pedro, na partilha dos bens, na morte de Estevão. Paulo também não se refere a Maria em sua visita a Jerusalém no ano 40.

2 - A expectativa de vida para a população do século I nos apresenta que um terço das crianças morriam antes dos 6 anos; 60% antes dos 16 anos; 75% da população morria antes de completar 26 anos; e 90% antes dos 46 anos; menos de 3% atingia a idade de 60 anos. A expectativa média de vida no século I era de 30 anos, embora algumas pessoas chegassem a viver até 70 anos. Assim, no ano 40 d.C. Maria teria 60 anos, portanto, menos de 3% de probabilidade de estar viva.

sábado, 12 de agosto de 2000

Os Santos intercedem por nós?

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 12/08/2000

Às vezes nos perguntamos se realmente os santos e santas podem interceder por nós diante de Deus. Afinal, se Deus sabe de tudo, pode tudo, será que Ele vai precisar de intermediários? A resposta a essa pergunta, como sempra, encontramos na Bíblia. Mesmo Deus sabendo de tudo e podendo tudo, Ele quis e ainda quer contar com a ajuda das pessoas sensíveis à dor do próximo. E sempre quando alguém pede a Ele, com fé, intercedendo pelo necessitado, Ele atende!

Nos Evangelhos vemos diversos episódios em que houve intermediários entre as pessoas necessitadas e Cristo.

Cristo, que tudo sabe e tudo pode, poderia ter dispensado estes intermediários e ter atendido diretamente? Sim, poderia. Mas aceitou que pessoas intercedessem pelos necessitados e até elogiou quem fez isso, e por causa dessa intercessão, atendeu ao pedido.

Vejamos agora alguns exemplos de intercessão:

- Em Lucas 7,1-10 ocorrem duas intercessões. O centurião romano intercede junto a Cristo pelo empregado e os anciãos dos judeus intercedem diante de Jesus em favor do centurião. Interessante notar que depois do pedido do centurião diante de Jesus, em favor de seu subordinado, Jesus responde: ‘‘Eu declaro a vocês que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé" (v. 9) E a resposta de Jesus ao pedido de intercessão do oficial romano foi esta: "Os mensageiros voltaram para a casa do oficial, e encontraram o soldado em perfeita saúde" (v. 10).

- Em Mateus 15,21-28, narra-se um pedido de intercessão feito por uma mulher pagã (uma cananéia), em favor de sua filha que estava sendo ‘cruelmente atormentada por um demônio’. E Cristo atende o pedido da mulher. Veja o pedido da mulher: "... a mulher, aproximando-se, ajoelhou-se diante de Jesus, e começou a implorar: Senhor ajuda-me" (v. 25) E Jesus, depois de dialogar com a mulher pagã, respondeu: "...Mulher é grande a sua fé! Seja feito como você quer". E desde esse momento a filha dela ficou curada. (v. 28).

- Em João 2,1-11, nos é narrado o episódio das bodas de Caná onde é explícita a intervenção de Nossa Senhora, diante de Jesus. Maria, a Mãe de Jesus, poderia ter ficado quieta num canto da festa de Caná, indiferente aos problema dos noivos. No entanto, resolveu interceder e solucionar um problema, que nem era dela. E Jesus antecipou a sua hora de fazer milagres, para atender ao pedido de sua Mãe. Cristo sabia daquele problema, mesmo antes que sua Mãe o percebesse. Poderia ter agido diretamente, sem intervenção. Mas, aceitou a intervenção.

Note-se que Cristo elogia esses intermediários em sua fé e atende a seus pedidos em favor de outros. Diante desses episódios poderíamos nos perguntar:

a) Jesus, o Cristo Deus, quando estava neste mundo, aceitou a intermediação e até a enalteceu. Será que depois que foi para o céu não admitiu mais a intercessão?

b) O centurião romano, a mulher cananéia, Maria, Mãe de Jesus, que intercederam junto a Cristo aqui na terra, quando chegaram ao céu e estando novamente na presença do mesmo Cristo, será que nunca mais intercederam em favor de algum necessitado?

c) Cristo Deus aqui no mundo não é o mesmo Cristo Deus no céu?

Diante dessas indagações, percebe-se que Cristo Deus, aceitando a intervenção de um discípulo(a), não deixa de ser Deus, nem diminui sua divindade. É apenas um gesto de sua bondade, mostrando que quer partilhar com outros numa ação de ajuda.

Então, para concluir, podemos dizer que os exemplos de intercessão em favor dos outros diante de Deus, que se encontram nos Evangelhos, vêm confirmar:

a) A intervenção de uns a favor de outros diante de Cristo Deus é um fato;

b) Ao nos dirigirmos a Cristo, devemos também pensar nos outros;

c) Cristo Deus atende aos pedidos de alguém em favor de outros.