sábado, 18 de novembro de 2000

A Unidade dos Cristãos

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 18/11/2000


A leitura da carta de Pantanaeus (150 d.C.), conhecida como "Epístola para Diognetus", publicada no artigo anterior (14/11; se você não leu, solicite pelo E-mail), nos trouxe uma bela descrição sobre como vivam os primeiros cristãos. Trouxe-nos, também, uma grande reflexão ao confrontar aquela realidade vivida com tanto amor e partilha, com a que vivemos hoje, especialmente no que se refere à Igreja fundada por Cristo Jesus.

Infelizmente, hoje ela encontra-se dividida, partida em tantos pedaços...

Será essa a vontade do seu Divino Fundador?

São Paulo, dirigindo-se aos cristãos de Éfeso, assim escreveu: Mantenham entre vocês laços de paz, para conservar a unidade do Espírito. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a vocação de vocês os chamou a uma só esperança: há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos. (Ef. 4, 3-6)

Foi por isso que o Concílio Vaticano II preocupou-se do começo ao fim, com a unidade das Igrejas. Nele, a renovação interna da Igreja foi um esforço para, no dizer do Papa João XXIII, "limpar a casa", a fim de que os irmãos separados, quando quisessem voltar para a Igreja, encontrassem a "casa limpa" e não os mesmos defeitos que um dia motivaram a sua saída.

Isso não quer dizer que uma parte quer convencer a outra, mas trata-se, fundamentalmente, de todos se deixarem converter pelo Espírito de Deus: "Se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a Verdade não está em nós" (1Jo, 1, 8). Por isso diz o Concílio: "Pedimos humildemente perdão a Deus e aos irmãos separados, assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido"(UR7)

È de se lamentar que, em nome de Deus, os homens estejam divididos e até se agredindo, pois isso dificulta a salvação daqueles que se dizem estar com Deus. Na verdade, isso é um verdadeiro escândalo para todos os que estão fora de qualquer igreja.

E Cristo não quer essa divisão, apesar de tê-la previsto: "Pai Santo, guarda-os em teu nome, o nome que tu me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um. ... Eu não te peço só por estes, mas também por aqueles que vão acreditar em mim por causa da palavra deles, para que todos seja um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti. E para que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite que tu e enviaste. Eu mesmo dei a eles a glória que tu me deste, para que eles sejam um, como nós somos um. Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que tu me enviaste e que os amaste, como amaste a mim". (Jo 17, 11.20-23)

Esta oração de Jesus, saída do seu coração, com certeza será atendida pelo Pai um dia. Quando será, nós não o sabemos, mas será ouvida. Porque a Igreja de Jesus não pode ficar despedaçada, dividida até o fim dos tempos: foi por ela que Ele derramou seu Sangue e não é essa a Sua vontade.

O que parece impossível aos homens não é impossível a Deus, e a nós, cristãos, cabe:

a) orar, para que a unidade se restabeleça: a oração sincera será capaz de mostrar a cada um dos cristãos a vergonha que é o escândalo da divisão e, com certeza, mostrará que deve haver renúncia nos pontos de vista errados, para abrir-nos aos impulsos da Graça.

b) praticar a caridade, pois "Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos" (Jo 13, 35).

c) dialogar no plano da fé. Na oração e na caridade, guiados pelo Espírito Santo, conseguiremos chegar à reconciliação e à unidade.

E então "haverá um só rebanho e um só Pastor" (Jo 10,16).

Possamos, pois, estar preparados, para que o Senhor, quando vier, nos encontre com a luz da fé acesa e unidos no seu amor.

"Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o começo e o fim. Felizes aqueles que lavam as suas vestes para terem direito à árvore da vida e poderem entrar na cidade pelas portas" (Ap 22, 12-14)

Você sabia que ...

... a grande divisão dos cristãos (cisma) ocorreu em 1517, com a publicação das 95 teses de Martinho Lutero, dando início ao protestantismo? O texto de Lutero pregava que a salvação seria conquistada apenas com fé (sem obras e sem a mediação da Igreja), atacava a autoridade do Papa, rejeitava o celibato sacerdotal e recomendava o estudo individual da Bíblia (interpretação livre). Se você quer receber as 95 teses de Lutero com comentários sobre o cisma, peça pelo E-mail abaixo.

sábado, 11 de novembro de 2000

Como viviam os cristãos

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 11/11/2000

No século II o cristianismo se expandia por todo mundo. Os cristão eram considerados pessoas diferentes, pois viviam em comunidade, desprezavam os bens e não tinham pátria. Assim, todos tinham grande curiosidade em saber como eles viviam.

Em uma carta datada do ano de 150 d.C. conhecida como "Epístola para Diognetus", provavelmente escrita por Pantanaeus (mestre de Clemente de Alexandria), o autor faz uma impressionante descrição do estilo de vida dos cristãos. O final da carta deve ter se perdido, pois a cópia que chegou até nossos dias termina abruptamente. Note que o autor louva a beleza da vida cristã, inserida neste mundo e compartilhando o que a sociedade tem de honesto, não perdendo de vista os valores definitivos. Será que os cristãos de hoje (após 850 anos) continuamos a viver no mesmo estilo das primeiras comunidades cristãs? Vejamos a carta:



"Meu caro Diognetus, desde que o conheço você se mostra ansioso para entender a religião dos cristãos. Eles confiam em Deus e o adoram, têm um desprezo pelos bens e menosprezam a morte, não acreditam nos deuses gregos nem na superstição dos judeus, e dão grande importância ao afeto entre eles.

Os cristãos não diferem dos demais homens pela terra, pela língua, ou pelos costumes. Não habitam cidades próprias, não se distinguem por idiomas estranhos, não levam vida extraordinária. Além disso, sua doutrina, não a encontraram em pensamento ou cogitação de homens desorientados. Também não patrocinam, como fazem alguns, dogmas humanos. Mas, habitando, conforme a sorte de cada um, cidades gregas e bárbaras, é acompanhando os usos locais em matéria de roupa, alimentação e costumes, que manifestam a admirável natureza de sua vida, a qual todos reputam extraordinária.

Habitam suas pátrias, mas como estrangeiros. Participam de tudo como cidadãos, mas tudo suportam corno estrangeiros. Qualquer terra estranha é pátria para eles; qualquer pátria, terra estranha. Casam-se e procriam, mas nunca lançam fora o que geraram. Têm a mesa em comum, não o leito. Existindo na carne, não vivem segundo a carne. Na terra vivem, participando da cidadania do céu. Obedecem às leis, mas as ultrapassam em sua vida. Amam a todos, sendo por todos perseguidos. Desconhecidos, são assim mesmo condenados. Mas quando entregues à morte, são vivificados. Na pobreza, enriquecem a muitos; desprovidos de tudo, sobram-lhes os bens. São desprezados, mas no meio das desonras sentem-se glorificados. Difamados, mas justos; ultrajados, mas benditos. Injuriados, prestam honra. Fazendo o bem, são punidos como malfeitores; castigados, rejubilam-se como revivificados. Os judeus hostilizam-nos como alienígenas, os gregos os perseguem, mas nenhum de seus inimigos pode dizer a causa de seu ódio.

Para resumir numa palavra, o que é a alma no corpo, são os cristãos no mundo: como por todos os membros do corpo está difundida a alma, assim os cristãos por todas as cidades do universo. Habita a alma no corpo, mas não procede do corpo; assim os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível é enclausurada num corpo visível; os cristãos, conhecidos enquanto estão no mundo, têm uma religião que permanece invisível. A carne odeia a alma sem ter recebido injúria, mas apenas porque não a deixa gozar os prazeres; aos cristãos odeia o mundo sem ter sido injuriado por eles e só porque renunciam aos prazeres. A alma ama o corpo e os membros que a odeiam; também os cristãos amam os que os odeiam.

A alma está encerrada no corpo, mas é ela que o sustenta. Os cristãos, por sua vez, estão encerrados no mundo como num cárcere; mas são eles que o sustentam. A alma habita um tabernáculo mortal. Os cristãos peregrinam através de bens corruptíveis, na expectativa da celeste incorruptibilidade.

Maltratada quanto a alimentos e bebidas, a alma se aperfeiçoa; também os cristãos, afligidos por castigo, cada dia mais aumentam em número. Deus colocou-os num posto tal que não lhes é lícito desertar.

Não foi, como já disse, invenção terrestre o que se lhes transmitiu; nem julgam ter sob sua vigilante guarda uma concepção mortal. Não lhes foi confiada a dispensação de mistérios humanos.

Mas foi o próprio Deus invisível, verdadeiramente Senhor e Criador de tudo, que do alto dos céus colocou entre os homens a Verdade, o Logos santo e incompreensível, e o inseriu firmemente nos seus corações".

sábado, 4 de novembro de 2000

São Judas Tadeu

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 04/11/2000

Atendendo a alguns pedidos de leitores desta coluna, apresentaremos os dados bibliográficos de São Judas Tadeu, santo da Igreja Católica comemorado no dia 28 de outubro. As informações foram colhidas junto ao Santuário de São Judas Tadeu em São Paulo.

São Judas Tadeu era natural de Caná da Galiléia, na Palestina. Sua família era constituída do pai, Alfeu (ou Cléofas) e a mãe, Maria Cléofas, parentes de Jesus. O pai, Alfeu, era irmão de São José e a mãe, Maria Cléofas, prima irmã de Maria Santíssima, portanto, Judas Tadeu era primo-irmão de Jesus. O irmão de Judas Tadeu, Tiago, chamado o Menor, também foi discípulo de Jesus.

A Bíblia trata pouco de Judas Tadeu, mas aponta o importante: ele foi escolhido por Jesus, para apóstolo (Mt 10,4). É citado explicitamente nas Escrituras pelo evangelista João (Jo 14,22), na última ceia, quando perguntou a Jesus: "Mestre, por que razão hás de manifestar-te só a nós e não ao mundo?" Jesus lhe respondeu afirmando que teriam manifestação dele todo aquele que guardasse sua palavra e permanecesse fiel a seu amor.

Após ter recebido o dom do Espírito Santo, Judas Tadeu iniciou sua pregação na Galiléia, passando pela Samaria, Iduméria e outras populações judaicas. Pelo ano 50, tomou parte no primeiro Concílio, o de Jerusalém. Em seguida, foi evangelizar a Mesopotâmia, Síria, Armênia e Pérsia. Neste país recebeu a companhia de outro apóstolo, Simão.

A pregação e o testemunho de Judas Tadeu impressionaram os pagãos que se convertiam. Isto provocou a inveja e fúria contra o apóstolo, que foi trucidado, com pauladas, lanças e machados, pelo ano 70. Dessa maneira, tornou-se mártir, ou seja, mostrou que sua adesão a Jesus era tal, que testemunhou a fé com a doação da própria vida. Os seus restos mortais, após terem sido guardados no Oriente Médio e na França, foram definitivamente transferidos para Roma, na Basílica de São Pedro.

A brevíssima Carta de São Judas, que está na Bíblia, é uma severa advertência contra os falsos mestres e um convite a manter a pureza da fé. Nos versículos 22-23 propõe pontos fundamentais de um programa de vida cristã: fé, oração, auxílio mútuo, confiança na misericórdia de Jesus Cristo.


Você sabia que ...

... os exegetas (estudiosos da Bíblia) modernos fazem distinção entre os três Judas citados no texto acima? Os biblistas consideram que o Judas Tadeu (apóstolo), o Judas (primo de Jesus e irmão de Tiago) e o Judas (autor da Epístola) são três pessoas diferentes. Não confundir nenhum deles com o Judas Iscariotes (apóstolo), que traiu Jesus. Se você quer saber mais sobre os Judas do Novo Testamento, solicite pelo E-mail abaixo.

... no Santuários de São Judas Tadeu, no bairro de Jabaquara, em São Paulo, existe um pedaço de osso do santo, usado para dar a bênção nos dias 28 de cada mês? A relíquia chegou ao Brasil em 1945 ou 1946 por meio de um padre capelão militar que, durante a guerra, serviu a um convento de religiosas, na Itália. Finda a guerra, o padre recebeu de presente das religiosas, a relíquia de São Judas, que foi, posteriormente, doada ao Santuário São Judas Tadeu. Com a relíquia, existe um documento garantindo sua autenticidade.

... A imagem de São Judas possui um livro numa das mãos e uma machadinha na outra, porque representam respectivamente a Palavra que ele pregou e a arma com a qual foi morto?

sábado, 28 de outubro de 2000

Jesus e a História (II)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 28/10/2000

Inúmeras vezes nós, cristãos, somos questionados sobre a pessoa de Jesus Cristo. Alguns, mais extremados, chegam até a afirmar que Jesus nunca existiu, e que tudo não passa de pura invenção dos primeiros cristãos. Existem ainda os professores de História Geral que ensinam a seus alunos não haver provas extra-bíblicas sobre a existência de Jesus.

Vamos continuar o artigo da semana anterior, citando mais alguns documentos históricos sobre Jesus.

O primeiro texto é do historiador romano Tácito (55 – 120), intitulado "Anais", escrito em 64 d.C., relatando a origem do nome "cristãos", responsabilizados pelo imperador Nero pelo incêndio de Roma. Notar que o historiador confirma a morte (crucificação) sob as ordens de Pôncio Pilatos: "Nero firmou a culpabilidade e infligiu as torturas mais primorosas a uma classe odiada por suas abominações, os chamados cristãos. Este nome vem de Cristo, que o Imperador Pôncio Pilatos condenou à morte, sob o reinado de Tibério. Esta odiosa superstição, reprimida durante algum tempo, se propagou de novo não somente na Judéia, onde nasceu esse mal, mas também em Roma, para onde aflui tudo o que o mundo produz de detestável e desonroso, aí encontrando numerosos adeptos. A repressão foi primeiro aos que se confessaram culpados .. ." (Anais, 15, 44).

É importante não confundir Tácito, o historiador romano (autor do texto acima), com o imperador romano de mesmo nome, que viveu entre os anos 200 e 276, sendo imperador entre 275 e 276.

O segundo documento (datado de 112 d.C.) trata-se de uma carta de Plínio (61-112 d.C.), aristocrata, governador da Ásia Menor, ao imperador romano Trajano (viveu entre 53 e 117, sendo imperador entre 98 e 117), onde relata algumas particularidades dos cristãos. Nesta carta, Plínio pede a Trajano que legalize os cristãos. Eis um trecho da carta: "... os cristãos se reuniam em dias fixos, antes do nascer do sol, e cantavam um hino a Cristo, como se fosse um deus." (Cartas 10,96).

Cabe aqui uma explicação importante: o governador Plínio (autor do texto acima) não deve ser confundido com o historiador e naturalista romano Plínio (o Velho), que viveu entre os anos 23 e 79 d.C.

Existem ainda outros textos que comprovam a existência de Jesus como personagem histórico: Tallus, no seu livro de história escrito entre 50 e 70 d.C.; Suetonius, em ‘Vidas dos Caesars’ escrito em 125 d.C.; Galen, em vários textos datados de 150 d.C.; Celsus (filósofo pagão), em ‘Verdadeiro Discurso’, escrito em 170 d.C.; Mara Bar Serapion, em 73 d.C.; Julius Africanus, no livro ‘História do Mundo’ escrito no 3º século.

sábado, 21 de outubro de 2000

Jesus e a História (Parte 1)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 21/10/2000


Jesus teria sido realmente uma figura histórica? Ele realmente existiu, ou seria apenas um mito criado pelos cristãos? Existiu o Jesus histórico, ou apenas o Cristo (Messias) da Igreja e dos Evangelhos? Existiriam documentos, fora da Igreja, que comprovariam, historicamente, a presença do homem Jesus na terra?

A resposta é: não existem dúvidas. Documentos históricos comprovam a existência física do homem Jesus, que viveu na região da Palestina, tendo morrido crucificado. É necessário, porém, que nos atentemos para um importante dado: Jesus viveu numa insignificante região agropecuária do mediterrâneo, numa faixa de terra de 240 km de norte a sul e 100 km de leste a oeste, entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão.

A Palestina, como era chamada, era colonizada pelo Império Romano desde 63 a.C. como um "Reino Cliente", com um rei próprio, e toda uma autonomia administrativa, portanto, independente do domínio de Roma. Era habitada pelos judeus, um povo extremamente religioso, com língua própria (o hebraico ou o aramaico), que não aceitava o domínio do Império, deflagrando inúmeras revoltas. Neste quadro, nós não podemos esperar que a documentação histórica sobre o Império Romano seja farta em documentos sobre a Palestina, ou sobre um revolucionário político ou agitador popular (é assim que os romanos viam Jesus) que viveu por lá entre os anos 28 e 30 d.C., sendo crucificado pelo procurador romano Pontius Pilatus.

Outro fator decisivo era o tipo de sociedade existente no século I: a população urbana era menor que 10% do total, e menos de 0,2% formava a classe dominante (elite, letrados, intelectuais), responsável pelos registros históricos da época. Também não podemos esperar que a elite dominante do primeiro século tenha deixado muitos documentos sobre Jesus.

Vamos citar alguns documentos históricos que comprovam a existência de Jesus:

- O primeiro documento é do maior historiador do primeiro século, o judeu Flávio Josefo (historiador judeu, que viveu entre 37 e 105 d.C., tendo escrito vários livros), no livro Antigüidades Judaicas, escrito em 93 ou 94 d.C., quando descreve a morte por apedrejamento de Tiago, irmão (primo) de Cristo e chefe da comunidade cristã de Jerusalém:

"... Anás (Ananus) vendo que teria uma boa oportunidade de exercer sua autoridade, convocou uma assembléia (sanhedrim) de juizes, e trouxe diante deles o irmão de Jesus, que foi chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e outras pessoas (companheiros dele) e apresentou contra eles a acusação de serem transgressores da lei e os condenou para serem apedrejados." ( XX, 9,1).

O mesmo autor, em outro trecho do mesmo livro conhecido como Testimonium Flavianum, faz uma descrição detalhada de Cristo. Eis o texto:

"Naquela época viveu Jesus, um homem sábio, se realmente as pessoas devem chamá-lo de homem. Pois ele executou trabalhos surpreendentes, e era um mestre que as pessoas recebiam com prazer. Ele conquistou muitos judeus e muitos gregos. Ele era o Messias. E quando Pilatos o condenou à cruz, depois de ouvir as acusações feitas contra ele por homens da mais alta posição entre nós, os seus companheiros não perderam as idéias dele. Porque ele apareceu vivo diante deles no terceiro dia, como os profetas de Deus tinham previsto, além de outras coisas maravilhosas a seu respeito. E o grupo de cristãos, que recebeu este nome por sua causa, não desapareceu até hoje" (XVIII, 3, 3).

Portanto, o maior historiador do Século I cita Jesus, reconhecendo-o não apenas como um homem comum, mas como um mestre entre os judeus, o Messias.

(Continuamos no próximo artigo, com outras citações).

sábado, 14 de outubro de 2000

O CAMELO E O BURACO DA AGULHA

Coluna Ser Católico" – Jornal da Cidade – 14/10/2000


Todos nós conhecemos o episódio em que o jovem rico perguntou a Cristo o que deveria fazer para conseguir a vida eterna. Jesus lhe indicou os Dez Mandamentos da Lei de Deus. Tendo o jovem respondido que já os observava desde a juventude, o Senhor aconselhou-lhe que vendesse as suas posses, distribuísse aos pobres e o seguisse. Ao ouvir estas palavras, o jovem afastou-se entristecido, pois era proprietário de grandes posses. Esta atitude do jovem ocasionou as seguintes observações de Cristo:

"Em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no reino dos céus. Digo-vos ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus" (Mt 19,24).

Sem qualquer dúvida, a desproporção, o contraste quase absurdo, causa estranheza aos dizeres de Jesus. Os pesquisadores apresentam três explicações possíveis para a esquisita comparação:

1 – JESUS TERIA USADO UM DITO POPULAR

A primeira explicação sugere que Jesus realmente tenha dito tal frase, se utilizando de uma expressão (ditado) popular. Parece que Ele quis mostrar a dificuldade da salvação, recorrendo a uma comparação absurda. Cale lembrar que esta frase usada por Jesus em Mt 19,24 nunca foi encontrada em qualquer outro texto judaico, embora outras estranhas comparações tenham aparecido:

- "Ninguém imagina, nem mesmo em sonho, uma palmeira de ouro, ou um elefante que passe pelo buraco de uma agulha" (Talmud (352).

- "Pode um etíope mudar a própria pele? Ou um leopardo apagar as malhas do pêlo de que se reveste?" (Jr 13,23).

Se Cristo vivesse nos dia atuais e se utilizasse de um ditado dos nossos dias, talvez dissesse: "Nem que chova canivete, um rico entrará no reino dos céus".

2 – CAMELO OU CORDA

Na segunda explicação supõe-se que houve um erro na transcrição dos textos dos Evangelhos. Antes da invenção da imprensa, os textos eram copiados manualmente por copistas e sujeitos a inúmeros erros. Dentre estas falhas, o escriba deve ter escrito camelo (Kámelos, em grego) no lugar de corda (Kámilos, em grego). Kámilos era uma corda de grande diâmetro, usada para prender os barcos no porto. Esta cópia do Evangelho (com a palavra trocada) foi usada como original por outros copistas, chegando até nossos dias.

Esta explicação foi apresentada por S. Cirilo de Alexandria (444) e aceita por outros textos do século V como o Tractatus de Divitiis, atribuído ao bispo Fastídio (410-450).

Portanto, se aceitarmos esta justificativa, as verdadeiras palavras de Jesus foram (Mt 19,24): "É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus".

3 – A PORTA DE JERUSALÉM

A terceira explicação se refere a uma descoberta recente: alguns textos da época de Jesus, reportam a existência de uma pequena passagem (ou buraco) nos muros da cidade de Jerusalém, chamado de "Buraco da Agulha". Devemos lembrar que Jerusalém era cercada por altos muros e grandes portões que eram fechados durante a noite. O Buraco da Agulha era uma passagem (talvez usada para entrar ou sair ilegalmente da cidade) onde os animais de carga só podiam passar se fossem despojados da bagagem e dobrassem os joelhos; os homens só transitavam por aí se se curvassem.

Fica a dúvida: teria Jesus se referido a esta passagem em seu discurso aos discípulos?

sábado, 7 de outubro de 2000

A IGREJA CATÓLICA E O ABORTO

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 07/10/2000

ASSUNTO EM MODA

Na última semana várias reportagens em jornais trouxeram à evidência o assunto "aborto". O Jornal da Cidade de 28/09 (página 30) mostrava que manifestantes em toda a América Latina estavam comemorando o dia de luta contra a ‘descriminalização do aborto’. O mesmo jornal do dia 29 noticiava a autorização para a comercialização nos Estados Unidos da pílula abortiva RU-486, já comercializada na França.

Na América Latina ainda há resistência a qualquer abertura em relação ao aborto: trata-se de um procedimento ilegal e criminoso em todos os países americanos, além de ser rejeitado oficialmente por conselhos médicos.

Existe também o movimento "Católicas pelo Direito de Decidir" (CDD), que vem aparecendo no cenário nacional. Trata-se de um movimento de mulheres (fundado em 1970 nos USA) que prega o aborto e a liberdade sexual, atacando duramente a Igreja Católica.

A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

O abortamento é sempre o extermínio de uma vida inocente, que existe desde o momento em que se dá a fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Só se pode admitir o homicídio em caso de legítima defesa ou quando alguém é injustamente agredido e não tem outro meio de escapar da morte iminente se não exterminar o agressor. Ora, o feto não é um injusto agressor; por isso conserva o seu direito à vida, mesmo que esta incomode a gestante; o fato de resultar de estupro não legitima a violência do abortamento.

O artigo 128 do Código Penal assim se exprime:

Não se pune o aborto praticado por médico:

I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante
II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. 

A redação é clara. Não está escrito "não constitui crime", mas tão somente "não se pune". O médico que pratica aborto nesses dois casos, comete crime, embora esteja isento de punição (para detalhes, solicite no E-mail abaixo).
Estudos profundos sobre a natureza jurídica do aborto têm sido publicados em revistas especializadas. Destaca-se o pronunciamento da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro sobre a inconstitucionalidade de uma lei que permitisse o aborto e o texto do Deputado Severino Cavalcanti (Pernambuco) sobre a violação do direito à vida. Estes textos completos podem ser solicitados pelo E-mail abaixo.

A POSIÇÃO DA IGREJA CATÓLICA

A Igreja Católica sempre foi contrária ao aborto. Assim, por exemplo, reza a Didaqué (primeiro catecismo cristão), datado do ano 90-100: "Não matarás, não cometerás adultério ... Não matarás crianças por aborto nem criança já nascida" (2,2). No século III, a Epístola de Diogneto observava: "Os cristãos casam-se como todos os homens; como todos procriam, mas não rejeitam os filhos" (v. 6). A Epístola de Barnabé (século II) e depois Tertuliano (220), S. Gregório de Nissa (após 394), S. Basílio Magno (379) fizeram eco aos escritores precedentes. (solicite cópia pelo E-mail).

Todos os Concílios da Igreja rejeitaram o aborto. Desde o Concílio de Ancira (Ancara) em 314, que decretou: "As mulheres que fornicam e depois matam os seus filhos ou que procedem de tal modo que eliminem o fruto de seu útero, segundo uma lei antiga são afastadas da Igreja até o fim de sua vida".

O Código de Direito Canônico prevê excomunhão para o delito de aborto: "Quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae".

O Catecismo da Igreja Católica (compêndio de toda doutrina católica) dedica um item da Parte III (A Vida em Cristo) para considerações sobre o aborto, destacando: "A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecidos os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida".