sábado, 23 de janeiro de 2010

Hoje se cumpriu a Escritura


O Evangelho deste domingo (Lc 1,1-4; 4,14-21) relata a primeira experiência da vida pública de Jesus. Aconteceu em maio/junho do ano 28 d.C., na cidade de Nazaré, onde Jesus foi criado. Jesus iniciava a sua vida pública com 34 anos de idade. Em dois anos, ele fará toda a sua pregação, sendo crucificado e morto em abril do ano 30. 

Sinagoga – Era um sábado e Jesus foi à sinagoga para participar do culto semanal. O culto de então consistia do canto de um salmo, a recitação do Shema Israel e as Dezoito Bênçãos, uma primeira leitura do Torá e uma segunda dos Profetas, uma homilia sobre as leituras, a benção do presidente da assembléia e a benção sacerdotal de Nm 6,24-27. Segundo muitas autoridades, a primeira leitura era prescrita, a segunda à escolha do leitor. Qualquer judeu adulto (masculino) podia tomar a palavra, mas as autoridades sinagogais habitualmente confiavam esta incumbência aos que eram considerados versados nas escrituras. Jesus foi convidado a fazer a segunda leitura. 

Isaías – Jesus buscou a passagem do livro de Isaías. A citação de Lucas não é exatamente como está no Antigo Testamento, mas uma combinação de Is 61,1-2 e 58.6, omitindo 61,1c e 61,2b-3a. Nós, cristãos, discípulos de Jesus e continuadores da sua missão no mundo atual, temos aqui os elementos essenciais para a vivência da nossa vocação. Olhemos esses elementos: 

a) "Anunciar a Boa-Notícia aos pobres" – O Evangelho é "Boa Notícia"- não uma série de leis, nem uma lista de práticas rituais, mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade – para os pobres! 

b) "Proclamar a libertação aos presos" – Não somente aos presos da cadeia, mas aos que estão sem a liberdade dos filhos de Deus – presos pelas conseqüências trágicas do neoliberalismo, do desemprego, do salário mínimo; presos pelas correntes de racismo, machismo, clericalismo e todos os "ismos" que oprimem! Também os presos pelo próprio egoísmo, pois assumir os valores evangélicos liberta, através de uma mudança radical na nossa visão e maneira de viver. Nós somos convidados a rever se nós não estamos presos por estruturas antiquadas e sem importância, que impedem que sejamos realmente instrumentos de libertação para os oprimidos que estão próximos a nós. 

c) "Aos cegos a recuperação da vista" – Quanta gente cega hoje! Não só por problemas de vista, mas cegas por não verem a realidade do mundo e dos pobres; tornadas cegas pelas falsas utopias da televisão – que cria um mundo de fantasia, totalmente alienante –; pela manipulação de informação pelos meios de comunicação, controlados pelas elites; pelo incentivo ao consumo, que induz a ter sempre mais, especialmente aqueles que carecem de um senso crítico mais apurado. 

d) "Libertar os oprimidos" – Essa frase evoca o eixo fundamental da Bíblia – o Êxodo, como processo permanente de libertação. No livro do Êxodo, Deus se identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Ex 3,7-10). E Jesus se coloca – e coloca todos os seus seguidores – neste mesmo compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão continua, e Deus nos convoca para que todos nos empenhemos nesta luta permanente de concretizar a libertação dos oprimidos. O texto originalmente se referia aos presos por dívidas (cf. Lc 6,35.37; Nm 5,1-5). Aqui há a lembrança do Ano Jubilar. Atrás desta citação está a convicção de que as estruturas da vida social e econômica devem refletir o Reinado de Deus. 

e) "Proclamar o Ano de Graça do Senhor" – O Ano de Graça – o Ano Jubilar! Memória da proposta de Lev. 25, o ano do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das terras aos seus donos originais! Um ano de alegria e graça, especialmente para o povo pobre e oprimido! Como concretizar esta visão, na realidade atual do Brasil? Júbilo e alegria, não podem ser decretados – têm que brotar de algum motivo profundo: o crescimento real da vivência do Reino de Deus entre nós, através de mudanças reais nas estruturas e relacionamentos, no nível pessoal, social, familiar e eclesial.  

Hoje – Hoje continua o desafio de deixar bem claro o que significa para nós, no lugar onde nos achamos, "pregar a Boa Notícia aos pobres", "libertar os presos", "recuperar a vista dos cegos", "libertar os oprimidos" e "pregar o Ano da Graça do Senhor". E nós podemos enfrentar esse desafio com coragem, pois, como Jesus, todos nós fomos "consagrados com a unção", para esta missão e o Espírito que sustentou Jesus na sua missão não falhará no sustento de quem realmente se lança no seguimento de Jesus, para que o Reino de Deus realize-se entre nós.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O Primeiro Sinal


O Evangelho das missas deste domingo (Jo 2,1-11) apresenta Jesus, Maria e os Apóstolos participando de um casamento na cidade de Caná. 

Sinais – No texto, João declara explicitamente, que o episódio pertence à categoria dos “signos” (sinais, “semeiôn”): trata-se de sinais indicadores, que nos convidam a compreender além da história narrada.  Muito mais do que narrar que Jesus transformou a água em vinho, apresenta o programa de Jesus: trazer à relação entre Deus e o homem o vinho da alegria, do amor e da festa. 

Mais sinais – Por esta razão, a primeira parte do Quarto Evangelho é chamada "O Livro dos Sinais", pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo a passo, revelam quem é Jesus e qual é a sua missão (algumas bíblias traduzem o termo grego por "milagre", mas a tradução mais acertada é "Sinal"). O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná. Como quase todo o evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo: pessoas, números e eventos tem uma função simbólica e para nos levar além da superfície das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.  

Hora – Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da "hora" de Jesus. A "hora" não se refere à cronometria, mas à hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. A resposta ao pedido feito por Maria traz de uma maneira um tanto estranha o termo “mulher”: João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, reservando a ela um papel muito mais rico, ou seja, o de mãe dos discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez, neste evangelho, ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado (João) assumem um relacionamento de Filho e Mãe. E devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor. 

Maria – Não devemos reduzir a ação de Maria somente à de uma incomparável intercessora. Maria, aqui, é a imagem do discípulo exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a expectativa de Maria e a visão dele sobre o que seria adequado naquele momento, ela continua com confiança Nele e leva outros a acreditarem também. 

Água e Vinho – A água tornada vinho não era qualquer água: era a água da purificação dos judeus. Na sua narrativa, João deixa claro que, doravante, os ritos judaicos de purificação estavam superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como uma grande mudança: de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, o que vai continuar ao longo do Evangelho de João. 

Muito Vinho – A quantidade de vinho chama a atenção – 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim, a expectativa messiânica se realiza em Jesus e as talhas transbordantes simbolizam a graças abundante que Ele traz. 

Origem do Vinho – A figura do mestre-sala é carregada de simbolismos também, bem como a dos serventes. O primeiro, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto os últimos sim. O mestre-sala representa os chefes do Templo, que não sabiam a origem de Jesus, enquanto os servos representam os discípulos, que acreditaram nele. 

Vinho Novo e Velho – Fazendo uma comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicas ligados à purificação e ao sacrifício não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus. “É certamente bom o vinho do Antigo Testamento, mas o do Novo é melhor. O Antigo Testamento, que os judeus observam, dilui-se nas letras; o Novo, que seguimos, tem o sabor da vida da graça” (São Fausto de Riez, bispo). 

Sinais – O ponto culminante do relato está no versículo 11: "Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram nele". E a fé deles não é intelectual ou teórica, mas, o seguimento concreto do Mestre na formação de novos relacionamentos de amor. Pouco a pouco, o autor vai revelando Jesus através de sinais, para que nós, os leitores, possamos "acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome" (Jo 20,31).

sábado, 9 de janeiro de 2010

O Batismo de Jesus


No primeiro domingo depois da Epifania, celebra-se tradicionalmente a Festa do Batismo do Senhor. Assim, o Evangelho (Lc 3,15-16.21-22) apresenta o encontro entre Jesus e João Baptista, nas margens do rio Jordão. Na circunstância, Jesus foi batizado por João Baptista, um guia carismático de um movimento que anunciava a proximidade do “juízo de Deus”. 

Problema – O batismo de Jesus no Rio Jordão é tão importante teologicamente, que é tratado por cada um dos quatro evangelistas de maneira diferente, de acordo com a situação de suas comunidades e dos seus interesses teológicos. A narração do batizado de Jesus logo se tornou um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado num ritual de purificação dos pecados.  

O batismo nos evangelhos – Por isso, Mateus deixa de fora a referência que Marcos (1, 4) faz ao perdão dos pecados (“E foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados”) e adiciona os versículos 14 e 15 (“João procurava impedi-lo, dizendo: ‘Sou eu que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?’ Jesus, porém, lhe respondeu: ‘Por enquanto deixe como está! Porque devemos cumprir toda a justiça’. E João concordou.”). Para o evangelista João, o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua cristologia, que omite qualquer referência ao batismo e, no seu lugar, faz com que João Batista aponte Jesus como o "Cordeiro de Deus" (cf Jo 1, 29-34).  

Batismo de conversão – Toda a mensagem que João Batista anunciava estava centrada na urgência da conversão e incluía um rito de purificação pela água. O “batismo” proposto por ele não era, na verdade, uma novidade. O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. O “mergulhar na água” era, inclusive, um rito usado na integração dos pagãos que aderiam ao judaísmo, na comunidade do Povo de Deus.  Nessa perspectiva, quem aceitava esse “batismo” renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade do Messias. 

O que é que Jesus tem a ver com isto? – Que sentido faz, Ele apresentar-se a João para receber este “batismo” de purificação, de arrependimento e de perdão dos pecados? O aparecimento de Jesus na cena significa o começo de um novo tempo, o tempo em que o próprio Deus vem ao mundo, feito pessoa humana, para oferecer, à humanidade escravizada, a vida e a salvação. No episódio do “batismo” revela-se, a missão e a verdadeira identidade de Jesus. 

Quem é o Messias – A cena do “batismo” identifica claramente o messias anunciado por João com o próprio Jesus (vers. 21-22). O Espírito Santo, que desce sobre Jesus “como uma pomba”, leva-nos a essa figura de “Servo de Jahwéh” apresentada na primeira leitura, que recebe o Espírito de Deus para levar “a justiça às nações”. Por outro lado, a “voz vinda do céu” apresenta Jesus como “o Filho muito amado” de Deus (vers. 22). A missão de Jesus será, como a do “Servo”, “abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas” (Is 42,7); para concretizar esse projeto, Ele irá “batizar no Espírito” e inserir os homens numa dinâmica de vida nova – a vida no Espírito. Na cena, o testemunho de Deus acerca de Jesus é acompanhado por três fatos estranhos que, no entanto, devem ser entendidos em referência a fatos e símbolos do Antigo Testamento.  

A abertura do céu - A imagem significa a união da Terra e do Céu e inspira-se, provavelmente, em Is 63,19. Com ela, Lucas anuncia que a atividade de Jesus vai reconciliar o Céu e a Terra, vai refazer a comunhão entre Deus e os homens.  

A pomba – O símbolo da pomba não é imediatamente claro… Provavelmente, não se trata de uma alusão à pomba que Noé libertou e que retornou à arca (cf. Gn 8,8-12); é mais provável que a pomba (em certas tradições judaicas, símbolo do Espírito de Deus que, no início, pairava sobre as águas – cf. Gn 1,2) evoque a nova criação que terá lugar a partir da atividade que Jesus vai iniciar. A missão de Jesus é, portanto, fazer aparecer um Homem Novo, animado pelo Espírito de Deus.  

A voz do céu. Trata-se de uma forma muito usada pelos rabbis para expressar a opinião de Deus acerca de uma pessoa ou de um acontecimento. Essa voz declara que Jesus é o Filho de Deus; e faz isso com uma fórmula usada no cântico do “Servo de Jahwéh” (primeira leitura, cf. Is 42,1). Essa referência sugere que a missão de Jesus, o Filho de Deus, não se desenrolará no triunfalismo, mas na obediência total ao Pai; não se cumprirá com poder e prepotência, mas na suavidade, na simplicidade, no respeito pelos homens (“não gritará, nem levantará a voz; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega” – Is 42,2-3).  

Porque é que Jesus quis ser batizado por João? – Ao receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados (do qual não precisava, porque Ele não conheceu o pecado), Jesus solidarizou-Se com o homem limitado e pecador, assumiu a sua condição, colocou-Se ao lado dos homens para ajudá-los a sair dessa situação e para percorrer com eles o caminho da libertação, o caminho da vida plena. Esse era o projeto do Pai, que Jesus cumpriu integralmente. 

Revelação – A cena do batismo de Jesus revela, essencialmente, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai envia ao mundo a fim de cumprir um projeto de libertação em favor dos homens. Como verdadeiro Filho, Ele obedece ao Pai e cumpre o plano salvador do Pai; por isso, vem ao encontro dos homens, solidariza-Se com eles, assume as suas fragilidades, caminha com eles, refaz a comunhão entre Deus e os homens que o pecado havia interrompido e conduz os homens ao encontro da vida em plenitude. Da atividade de Jesus, o Filho de Deus que cumpre a vontade do Pai, resultará uma nova criação, uma nova humanidade.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O quarto Rei Mago


Os magos – O Evangelho de Mateus descreve a visita dos magos a Jesus em Belém, guiados por uma estrela. As antigas comunidades cristãs adicionaram à história do Evangelho o título de “reis”, o número de “três” e os seus “nomes” (Baltazar, Melchior e Gaspar). O texto de Mateus também conta que os magos vieram adorar o Menino e entregar seus presentes: ouro, incenso e mirra. 

A Lenda – Uma antiga história conta que existia um quarto rei mago, que se chamava Artabam. Os quatro magos venderam tudo o que tinham e compraram os presentes.  Artabam escolheu como presentes pedras preciosas: um rubi, uma esmeralda e diamantes.

Artabam – Quando estava a caminho de Belém, Artabam escutou gemidos que um homem, assaltado à beira do caminho, emitia de maneira intermitente. Comovido, colocou-o no seu camelo, levou- o para uma pousada próxima, cuidando dele até que se recuperasse o suficiente. O dono da pousada exigiu o pagamento pelos serviços prestados. Artabam, sem pestanejar, pegou o rubi dentro de sua bolsa e entregou ao dono da pousada. 

Perdeu-se – Artabam procurou a trilha dos outros reis magos, mas a estrela já tinha desaparecido do céu. Dormiu, morto de cansaço. Ao acordar, partiu de novo sem os amigos, sem a estrela para orientá-lo e continuou seu caminho. No fundo do coração, ele sabia que, algum dia, iria encontrar seu Rei. 

A Caravana – A certa altura da caminhada, avistou uma caravana vindo em sua direção. Quando se aproximaram, viu que se tratava de um comboio de escravos sendo levados para a morte.  Artabam olhou para eles e sentiu compaixão e amor. Pegou as esmeraldas e os diamantes e comprou os escravos, libertando-os em seguida.  Quando todos já haviam partido, ficou sozinho. 

Desespero – O sol se pôs e a escuridão tomou conta do deserto. Entre lágrimas, Artabam olhou para o céu estrelado.  Não tinha mais presentes para oferecer, não havia mais a estrela guia, tinha perdido o contato com seus três amigos. 

Final da lenda – Existem dois finais para esta lenda.  Vamos a eles: 

Primeiro final – A estrela de Belém apareceu novamente para Artabam, mas ele desistiu de segui-la, pois nada mais tinha a oferecer ao Menino.  De repente, uma voz misteriosa lhe disse: – Não é tarde, não, Artabam. Você chegou na hora certa. Quero que saiba que seus presentes foram os primeiros que recebi quando nasci. Você foi o primeiro a encontrar-me, o primeiro a me homenagear e o primeiro a me presentear. 

Segundo final – Uma segunda versão conta que Artabam foi assaltado e saqueado por ladrões, perambulando pela região da Palestina por muitos anos.  Nunca desistiu de encontrar o seu Rei.  Um dia, passando próximo a Jerusalém, encontrou três homens crucificados.  Um deles lhe perguntou o que procurava.  Artabam respondeu que há mais de 30 anos buscava o Rei dos Judeus.  O homem lhe disse: “Pois acaba de encontrar!”.

 

sábado, 26 de abril de 2008

O Espírito Santo

  

O Evangelho deste domingo nos apresenta a Última Ceia. Nessa noite de quinta-feira, 6 de abril do ano 30, na véspera da sua morte na cruz, Jesus reuniu-Se com os seus discípulos pela última vez.

 

Despedida – No decurso da “ceia”, Jesus despediu-Se dos discípulos e fez-lhes as últimas recomendações. As palavras de Jesus soam a “testamento final”: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo. Jesus fala-lhes, então, do caminho que percorreu (e que ainda tem de percorrer, até a consumação da sua missão e até chegar ao Pai); e convida os discípulos a seguir o mesmo caminho de entrega a Deus e de amor radical aos irmãos. É seguindo esse “caminho” que eles se tornarão Homens Novos e que chegarão a ser “família de Deus”.

 

Insegurança – Os discípulos, no entanto, estão inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como receberão d’Ele a força para doar, dia-a-dia, a própria vida? No entanto, Jesus garante aos discípulos que não os deixará sós no mundo. Ele vai para o Pai, mas, vai encontrar uma forma de continuar presente e de acompanhar, passo a passo, a caminhada dos seus discípulos.

 

Paráclito – Jesus fala no envio do “Paráclito”, que estará sempre com os discípulos. A palavra grega “paráklêtos”, utilizada por João, pertence ao vocabulário jurídico e designa, nesse contexto, aquele que ajuda ou defende o acusado. Pode, portanto, traduzir-se como “advogado”, “auxiliar”, “defensor”. A partir daqui, pode deduzir-se, também, o sentido de “consolador” ou “intercessor”. No Novo Testamento, a palavra só aparece em João, onde é usada para designar o Espírito (Jo 14,26; 15,26; 16,7) ou o próprio Jesus (que no céu, cumpre uma missão de intercessão - 1Jo 2,1).

 

Espírito Santo – O “Paráclito” que Jesus vai enviar é o Espírito Santo – apresentado aqui como o “Espírito da Verdade”. Enquanto esteve com os discípulos, Jesus ensinou-os, protegeu-os, defendeu-os; mas, a partir de agora, será o Espírito que ensinará e cuidará da comunidade de Jesus. O Espírito desempenhará, nesse contexto, um duplo papel: conservará a memória da pessoa e dos ensinamentos de Jesus, ajudando os discípulos a interpretarem esses ensinamentos à luz dos novos desafios, e dará segurança aos discípulos, guiando e defendendo-os quando tiverem de enfrentar a oposição e a hostilidade do mundo. Em qualquer dos casos, o Espírito conduzirá essa comunidade em marcha pela história, ao encontro da verdade, da liberdade plena, da vida definitiva.

 

Órfãos – Depois de garantir aos discípulos o envio do “Paráclito”, Jesus reafirma que não os deixará “órfãos” no mundo. A palavra utilizada (“órfãos”) é muito significativa: no Antigo Testamento, o “órfão” é o protótipo do desvalido, do desamparado, do que está totalmente à mercê dos poderosos e que é a vítima de todas as injustiças. Jesus é claro: os seus discípulos não vão ficar indefesos, pois Ele vai estar ao lado deles.

 

Comunhão – É verdade que Ele vai deixar o mundo, vai para o Pai. O “mundo” não mais O verá, pois Ele não estará fisicamente presente. No entanto, os discípulos poderão “vê-l’O”, “contemplá-l’O”: eles continuarão em comunhão de vida com Jesus e receberão o Espírito, que lhes transmitirá, dia-a-dia, a vida de Jesus ressuscitado.

 

Família – Nesse dia (o dia em que Jesus for para o Pai e os discípulos receberem o Espírito), a comunidade descobrirá – por ação do Espírito – que faz parte da família de Deus. Jesus identifica-Se com o Pai, por ter o mesmo Espírito; os discípulos identificam-se com Jesus, por ação do Espírito. A comunidade cristã está unida com o Pai, através de Jesus, numa experiência de unidade e de comunhão de vida entre Deus e o homem. Nesse dia, a comunidade será a presença de Deus no mundo: ela e cada membro dela convertem-se em morada de Deus; o espaço onde Deus vem ao encontro dos homens. Na comunidade dos discípulos e por meio dela, realiza-se a ação salvadora de Deus no mundo.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O Caminho de Jesus

  

A liturgia deste domingo convida-nos a refletir sobre a Igreja: é a comunidade dos discípulos que seguem o “caminho” de Jesus – “caminho” de obediência ao Pai e de dom da vida aos irmãos.

 Despedida – O ambiente em que este trecho nos coloca é o de uma ceia de despedida. Nessa ceia (realizada na quinta-feira à noite, pouco tempo antes da prisão, na véspera da morte), estão Jesus e os discípulos. Durante a ceia, Jesus despede-Se dos discípulos e faz-lhes as suas últimas recomendações. As palavras de Jesus soam a “testamento” final: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo.

 

Incertezas – Os discípulos, por sua vez, já perceberam que o ambiente é de despedida e que, daí a poucas horas, o Mestre vai ser tirado deles. Estão inquietos e preocupados. A aventura que eles começaram com Jesus, na Galiléia, terá chegado ao fim? Essa relação que eles construíram com o Mestre irá morrer? Os discípulos não sabem o que vai acontecer nem que caminho vão, a partir daí, percorrer. Sobretudo, não sabem como é que manterão, após a partida de Jesus, a sua relação com Ele e com o Pai.

 

Comunhão – A catequese desenvolvida pelo autor do Quarto Evangelho, neste diálogo de Jesus com os discípulos, é de uma impressionante densidade teológica. Vamos tentar esmiuçar o conteúdo e pôr em relevo os pontos fundamentais. O plano de salvação de Deus passa por estabelecer com os homens uma relação de comunhão, de familiaridade, de amor. Por isso Jesus veio ao mundo: para tornar os homens “filhos de Deus”.

 

Método – Como é que Jesus concretizou esse projeto? Ele “montou a sua tenda no meio dos homens” (Jo 1,14) e ofereceu aos homens um “caminho” de vida em plenitude: mostrou aos homens, na sua própria pessoa, como é que eles podem ser Homens Novos – isto é, homens que vivem na obediência total aos planos do Pai e no amor aos irmãos. Viver desse jeito é viver numa dinâmica divina, entrar na intimidade do Pai, tornar-se “filho de Deus”.

 

Homem Novo – Na ceia de despedida, Jesus sente que está começando o último ato da missão que o Pai lhe confiou (criar o Homem Novo). Falta oferecer aos discípulos a última lição – a lição do amor que se dá até à morte; falta também o dom do Espírito, que capacitará os homens para viverem como Jesus, na obediência a Deus e na entrega aos homens. Para que esse último ato se cumpra, Jesus tem que passar pela morte: tem que “ir para o Pai”. Ao dizer “vou preparar-vos um lugar”, Jesus sugere que tem que ir ao encontro do Pai, para que os homens possam fazer parte da família de Deus.

 

Família – Nessa família há lugar para todos os homens (“na casa de meu Pai há muitas moradas”): basta que sigam “o caminho” de Jesus” – isto é, que escutem as suas propostas e que aceitem viver como Homens Novos, no amor e no dom da vida. A “casa do Pai” é a comunidade dos seguidores de Jesus (a Igreja). Qual é o “caminho” para chegar a fazer parte dessa família de Deus?

 

Caminho – A resposta é simples… O “caminho” é Jesus: é a sua vida, os seus gestos de amor e de bondade, a sua morte (dom da vida por amor) que mostram aos homens o itinerário que eles devem percorrer. Ao aceitarem percorrer esse “caminho” de identificação com Jesus, os homens estão indo ao encontro da verdade e da vida em plenitude. Quem aceita percorrer esse “caminho” de amor, de entrega, de dom da vida, chega até ao Pai e torna-se – como Jesus – “filho de Deus”.

 

Pai e Jesus – Ao identificarem-se com Jesus, os discípulos estabelecem uma relação íntima e familiar com o Pai, porque o Pai e Jesus são um só. O Pai está presente em Jesus. Quem adere a Jesus e estabelece com Ele laços de amor, já faz parte da família do Pai, porque Jesus é Deus que veio ao encontro dos homens: as obras de Jesus são as obras do Pai; o seu amor é o amor do Pai; a vida que Ele oferece é a vida que o Pai dá aos homens.

 

Conclusão – Os discípulos de Jesus têm que percorrer um “caminho”, até chegarem a ser família de Deus. Esse “caminho” foi traçado por Jesus, na obediência a Deus e no amor aos homens. É no final desse “caminho” que os discípulos – tornados Homens Novos – encontrarão o Pai e serão integrados na família de Deus.

sábado, 5 de abril de 2008

AO PARTIR O PÃO, OS DISCÍPULOS O RECONHECERAM

  

O Evangelho deste domingo nos coloca para caminhar com dois discípulos de Jesus que, no domingo, vão de Jerusalém para Emaús.

 

Catequese – Trata-se de uma página de catequese escrita no final do primeiro século, na qual o autor não se preocupou com a descrição fiel de acontecimentos nem com as incongruências do texto. De acordo com o autor, os dois homens dirigiam-se para uma aldeia chamada Emaús, a 12 quilômetros de Jerusalém. Uma localidade com esse nome, a essa distância de Jerusalém é, no entanto, desconhecida. Estes discípulos partiram para a sua aldeia, na manhã de Páscoa, sem, no entanto, investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e que Jesus tinha ressuscitado. Fica claro que o objetivo do autor é ensinar aos cristãos para quem escreve (na década de 80) como é que podem descobrir que Jesus está vivo e como podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado.

 

Messias fracassado – A cena coloca-nos, em primeiro lugar, diante de dois discípulos que vão a caminho de Emaús. Um chama-se Cléofas; o outro não é identificado (podia ser ”qualquer um” dos crentes). Os dois estão, nitidamente, tristes e desanimados, pois os seus sonhos de triunfo e de glória ao lado de Jesus ruíram pela base, aos pés de uma cruz. Esse Messias poderoso, capaz de derrotar os opressores, de restaurar o reino grandioso de David revelou-se um grande fracasso. Em lugar de triunfar, morreu numa cruz; e a sua morte é um fato consumado pois ”é já o terceiro dia depois que isto aconteceu”. Abandonam a comunidade e regressam à sua aldeia, dispostos a esquecer o sonho.

 

Jesus – Na seqüência, o autor do relato introduz no quadro um novo personagem: Jesus. Ele faz-se companheiro de viagem desses discípulos em caminhada, interroga-os sobre ”o que se passou nestes dias” em Jerusalém, escuta as suas preocupações, torna-se o confidente das suas frustrações. Para responder às inquietações dos dois discípulos e para lhes demonstrar que o projeto de Deus não passava por quadros de triunfo humano, mas, pelo amor até às últimas conseqüências e pelo dom da vida, ”começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito”. É na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido: só através da Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente pode perceber que o amor até às últimas conseqüências e o dom da vida não são um fracasso, mas geram vida nova e definitiva.

 

Em Emaús – Os três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) chegam, finalmente, a Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus, mas convidam-n’O a ficar com eles. Ele aceita e sentam-se à mesa. Enquanto comiam, Jesus ”tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e lhes entregou”. As palavras usadas por Lucas para descrever os gestos de Jesus evocam a celebração eucarística da Igreja primitiva. Dessa forma, Lucas recorda aos membros da sua comunidade que é possível encontrar Jesus vivo e ressuscitado na celebração eucarística dominical: sempre que os irmãos se reúnem em nome de Jesus para ”partir o pão”, Jesus lá está, vivo e atuante, no meio deles. A última cena da nossa história põe os discípulos regressando a Jerusalém para anunciar aos irmãos que Jesus está, efetivamente, vivo.

 

Comunidade – Quando Lucas escreve o seu Evangelho (década de 80), a comunidade cristã defrontava-se com algumas dificuldades. Tinham decorrido cerca de cinqüenta anos depois da morte de Jesus, em Jerusalém. A catequese dizia que Ele estava vivo; mas, no dia-a-dia de uma vida monótona, cansativa e cheia de dificuldades, era difícil fazer essa experiência. As testemunhas oculares de Jesus tinham já desaparecido e os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição pareciam demasiado distantes, ilógicos e irreais. ”Se Jesus ressuscitou e está vivo, como posso encontrá-l’O? Onde e como posso fazer uma verdadeira experiência de encontro real com esse Jesus que a morte não conseguiu vencer? Porque é que Ele não aparece de forma gloriosa e não instaura um reino de glória e de poder, que nos faça triunfar definitivamente sobre os nossos adversários?”.

 

Eucaristia – É a isso que o catequista Lucas vai procurar responder. A sua mensagem dirige-se a esses crentes que caminham desanimados pela vida. Nessa narração de Lucas, aparece a idéia de que é na celebração comunitária da Eucaristia que os crentes fazem a experiência do encontro com Jesus vivo e ressuscitado. A narração apresenta o esquema litúrgico da celebração eucarística: a liturgia da Palavra (a ”explicação das Escrituras” – que permite aos discípulos entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus) e o ”partir do pão” (que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus).