sábado, 24 de abril de 2010

O Pai e eu somos um


No Evangelho das missas deste domingo (Jo 10,27-30) Jesus discute com as autoridades judaicas. Estamos nas proximidades do Templo de Jerusalém, em outubro do ano 29 (em abril do ano 30, Jesus será condenado e morto).

 

O texto – Naquele tempo, disse Jesus: "As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um".

 

Imagem – Estas palavras de Jesus ocorrem em um discurso mais longo, pronunciado durante a Festa da Dedicação, em Jerusalém. Na festa anterior, das Tendas, Jesus já fizera uma proclamação semelhante: "Eu sou o Bom Pastor". A imagem é bela e permanece guardada nos corações através dos séculos. Embora seja uma imagem rural e mais específica de determinadas regiões, é facilmente compreendida por todos, pois exprimem uma relação de diálogo e acolhida, algo já existente entre Jesus e os discípulos: o proclamar/falar e o conhecer, ouvir e seguir. É a palavra e a escuta que estabelecem o diálogo. É o diálogo que leva ao conhecimento e à união de amor, o seguimento.

 

Conhecer – Assim, fica claro que as ovelhas são os discípulos (pois o verdadeiro discípulo ouve a palavra do Senhor e o segue), e eles são conhecidos pelo Pastor – aqui cumpre lembrar que, na linguagem bíblica, a palavra “conhecer” tem conotações mais profundas do que no nosso uso comum: significa não tanto um saber intelectual, mas uma intimidade profunda do amor. Assim, a linguagem bíblica muitas vezes até usa o verbo “conhecer” para significar relação sexual. Maria, por exemplo, questiona o anjo, pois ela “não conhece” homem (Lc 1,34). O verdadeiro discípulo é aquele que realmente tem um relacionamento de intimidade com Deus e que põe em prática a sua Palavra. E quem conhece Jesus, conhece o Pai, pois “o Pai e eu somos um”, como diz Jesus no nosso texto.

 

Conhecer mais – O versículo 28 afirma que Jesus dá a vida eterna aos seus seguidores. Este é um tema típico de João e outros textos do evangelho podem nos ajudar a aprofundá-lo. No Último Discurso, Jesus explica o que consiste a vida eterna: “A vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3). Mais uma vez, liga o conceito da vida eterna com o de “conhecer”. Mas em que consiste “conhecer” a Deus?

 

Conhecer Deus – O profeta Jeremias pode esclarecer. Num trecho contundente, onde ele enfrenta o Rei Joaquim e o condena por não pagar os salários dos seus operários na construção do seu palácio, Jeremias diz o seguinte, referindo-se ao falecido rei justo, Josias: "Ele julgava com justiça a causa do pobre e do indigente; e tudo corria bem para ele! Isso não é conhecer-me? – oráculo de Javé” (Jr 22,16). Conhecer Deus não é em primeiro lugar um exercício intelectual, mas uma atitude de vida – a prática da justiça, especialmente em favor do oprimido e fraco. Segundo João, então, a vida eterna é o prêmio de quem pratica a justiça de Deus – proposta dos discípulos de Jesus – e não dos que “sabem” muita coisa sobre Deus, mas que não praticam a justiça – representados no texto de hoje pelas autoridades do templo.

 

Coragem, fé e obras – O nosso texto nos traz motivo de muita coragem, pois afirma que ninguém vai arrancar o verdadeiro discípulo da mão de Jesus (v 28). Mas também nos desafia para que verifiquemos se somos realmente discípulos verdadeiros, se conhecemos Jesus e o Pai, isto é, se praticamos a justiça do seu Projeto. A prova de ser verdadeiro discípulo está na prática das obras do Pai e não no conhecimento teórico de religião.

sábado, 17 de abril de 2010

Apascenta as minhas ovelhas


O Evangelho das missas deste domingo descreve a aparição de Jesus a sete discípulos. O ponto mais importante é a entrega da missão de Pedro, de ser o Pastor das ovelhas do Senhor.

 

Apêndice – O último capítulo do Evangelho de João não faz parte da obra original (a obra original termina com a conclusão de 20,30-31); é um texto acrescentado posteriormente, que apresenta diferenças de linguagem, de estilo e mesmo de teologia, em relação aos outros vinte capítulos. A sua origem não é clara; no entanto, a existência de alguns traços literários tipicamente de João poderia fazer-nos pensar num complemento redigido pelos discípulos do evangelista. Quase todas as traduções da Bíblia intitulam o capítulo 21 de João como "Apêndice" ou "Epílogo".

 

Comunidades – Devido a uma situação nova nas comunidades, tornou-se necessário adicionar o último capítulo. Essa situação era a fusão de dois tipos de comunidades cristãs – as da tradição sinótica ou apostólica, e as da tradição da comunidade do Discípulo Amado. Essa fusão aconteceu pelo fim do primeiro século e é simbolizada nos versículos 15-18, nos quais Pedro recebe a primazia e a missão de pastor dos discípulos – mas somente depois de ter afirmado três vezes que amava Jesus (lembrando que ele tinha negado o Senhor três vezes na paixão). A comunidade do Discípulo Amado aceita a função apostólica de Pedro, mas insiste que antes de ser apóstolo é mais fundamental ser discípulo – ou seja, amar Jesus.

 

Duas Partes – O texto está claramente dividido em duas partes. A primeira parte (1-14) é uma parábola sobre a missão da comunidade. Utiliza a linguagem simbólica e tem caráter de “sinal”. Tem grandes semelhanças com a história da "pesca milagrosa" de Lucas (Lc 5,1-11), mas o contexto pós-ressurrecional é diferente. Chama a atenção que, embora seja a terceira aparição de Jesus, os discípulos não o reconhecem. Isso demonstra que a presença de Jesus depois da Ressurreição, embora real, não é igual a sua presença durante a sua vida terrestre. Quem o reconhece primeiro é o Discípulo Amado, pois só quem vê com olhos de amor reconhece e vê além das aparências. Como foi o amor que o levou a correr mais depressa ao túmulo do que Pedro (capítulo 20), é o amor que faz com que ele seja o primeiro a reconhecer a presença de Jesus Ressuscitado. Ele é o Discípulo Amado e que ama – Pedro o será somente depois da sua profissão de amor (15-17).

 

Missão – A pesca simboliza a missão dos discípulos. Segundo muitos estudiosos, o número de 153 peixes se baseia no fato de que os zoólogos gregos da Antigüidade achavam que existia no mundo somente 153 espécies de peixes. Então, o Evangelho está dizendo que a Igreja (simbolizada pela rede) pode abraçar o universo inteiro, todos os povos e culturas. É interessante que, diferentemente da história em Lucas, a rede não se rompe! A diversidade de culturas, tradições e povos constitui uma riqueza para a Igreja e não deve levar ao rompimento da unidade.

 

Pedro – O nó da questão está na entrega da missão a Pedro. Ele deve ser o Bom Pastor das ovelhas e dos cordeiros (membros das comunidades). Mas as ovelhas não são dele – ele é apenas o Pastor – as ovelhas pertencem ao Senhor! Aqui Pedro recebe esta grande missão, que nos sinóticos recebe na estrada de Cesaréia de Felipe. Mas mais importante do que a sua função, é a sua vocação de discípulo - aquele que ama o Senhor. Só quem ama Jesus profundamente poderá pastorear os seus seguidores.

 

Santo Agostinho – A propósito dessa passagem, Santo Agostinho escreveu um belíssimo texto, que reproduzimos a seguir:

Eis que o Senhor, depois da sua ressurreição, aparece de novo aos seus discípulos. Interroga o apóstolo Pedro, obriga-o a confessar o seu amor, ele que por medo, o havia negado três vezes. Cristo ressuscitou segundo a carne, e Pedro segundo o Espírito. Como Cristo morreu sofrendo, Pedro morre negando. O Senhor Cristo ressuscitou de entre os mortos, e ressuscitou Pedro graças ao amor que este lhe tinha. Interrogou o amor daquele que se declarava agora abertamente, e confiou-lhe o seu rebanho.

Por conseguinte, que é que Pedro trazia a Cristo pelo fato de O amar? Se Cristo te ama, o benefício é para ti, não para Cristo. Se tu amas Cristo, o benefício é ainda para ti, não para ele. Entretanto, o Senhor Cristo, querendo mostrar-nos como os homens devem provar que O amam, revela-nos isso claramente: amando as suas ovelhas. “Simão, filho de João, tu amas-me? – Amo-te – Apascenta as minhas ovelhas”. E isso uma vez, duas vezes, três vezes. Pedro não diz mais nada a não ser o seu amor. Amemo-nos pois, uns aos outros, e amaremos Cristo.

sábado, 10 de abril de 2010

Tomé – nosso contemporâneo no dia que o Senhor fez


O Evangelho deste final de semana relata o encontro de Jesus e Tomé (Jo, 20, 19-31), oito dias após Tomé ter dito que só acreditaria que Jesus ressuscitara se colocasse os dedos em suas chagas. Jesus então, convida-o a fazer isso e diante da confissão de fé de Tomé (“Meu Senhor e meu Deus!”) Jesus afirma que são bem-aventurados os que creram sem ter visto.

 

Tomé, nosso conterrâneo – Relatando o que aconteceu a Tomé e sua incredulidade inicial, o Evangelho sai ao encontro do homem e da era tecnológica, que crê somente no que pode verificar. Podemos chamar Tomé de nosso contemporâneo entre os apóstolos. E agindo da maneira que o fez, obrigou Jesus a dar-nos uma prova “tangível” da verdade de sua ressurreição. A fé na ressurreição saiu beneficiada de suas dúvidas e, ao menos em parte, isso também pode ser aplicado aos numerosos “Tomes” de hoje, a todos aqueles que não creem.

 

Fé, dom de Deus – A crítica e o diálogo com os ateus, quando se desenvolvem no respeito e na lealdade recíproca, são de grande utilidade. Antes de tudo nos fazem humildes. Obrigam-nos a ver que a fé não é um privilégio ou uma vantagem para ninguém. Não podemos impô-la nem demonstrá-la, mas só propô-la e mostrá-la com a vida. “Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido?”, diz São Paulo! (1Cor 4, 7). A fé, no fundo, é um dom, não um mérito, e como todo dom deve ser vivido na gratidão e na humildade.

 

Purificação da fé – A relação com aqueles que não creem ajuda-nos também, a purificar nossa fé de representações. Com muita frequência, aquilo que os ateus rejeitam não é o verdadeiro Deus, o Deus Vivo da Bíblia, mas uma imagem distorcida de Deus, que nós mesmos, os que cremos, contribuímos para criar. Rejeitando esse Deus, os não crentes nos obrigam a voltarmos a situar as marcas do Deus vivo e verdadeiro, Daquele que está além de toda nossa representação e explicação. Eles nos ajudam a não fossilizar ou banalizar a Deus.

 

Tomé, um exemplo a imitar – Assim, que São Tomé encontre hoje muitos imitadores, não só na primeira parte de sua história – quando declara que não crê –, mas também ao final, naquele magnífico ato seu de fé que o leva a exclamar: “Meu Senhor e Deus meu!”. Tomé é também imitável por outro fato: não fecha a porta; não fica em sua postura, dando por encerrada a questão. De fato, não apenas manifestou sua dúvida, mas o encontramos oito dias depois com os demais apóstolos no cenáculo. Se não tivesse desejado crer, ou “mudar de opinião”, não teria estado ali. Ele quis ver, tocar, portanto, estava em busca. E ao final, depois de que viu e tocou com sua mão, dirige-se a Jesus, não como um vencido, mas como um vencedor: “Meu Senhor e Deus meu!”. Nenhum outro apóstolo havia ainda se lançado a proclamar com tanta clareza a divindade de Cristo.

 

Santo Agostinho – A propósito dessa passagem, Santo Agostinho escreveu um belíssimo texto, que reproduzimos a seguir:

E Deus disse: “Faça-se a luz” (Gn 1,3). “Este é o dia que o Senhor fez” (Sl 117,24). Lembrai-vos do estado do mundo no princípio: “As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Deus disse: 'Faça-se a luz'. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas noite” (Gn 1,2s). “Este é o dia que o Senhor fez”. É o dia de que fala o apóstolo Paulo: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5, 8).

Não era Tomé um homem, um dos discípulos, um homem da multidão, por assim dizer? Os seus irmãos disseram-lhe: “Vimos o Senhor”. E ele: “Se eu não tocar, se não meter o meu dedo no seu lado, não acreditarei”. Os evangelistas trazem-te a novidade, e tu não acreditas? O mundo acreditou e um discípulo não acreditou?...

Ainda não tinha chegado esse dia que o Senhor fez; as trevas estavam ainda sobre o abismo, nas profundezas do coração humano, que estava nas trevas. Que venha, pois, Esse que é o sinal do dia, que ele venha e que diga com paciência, com doçura, sem cólera, ele que cura: “Vem. Vem, toca aqui e acredita. Tu declaraste: 'Se não tocar, se não meter o meu dedo, não acreditarei'. Vem, toca, põe o teu dedo e não sejas incrédulo, mas crente. Eu conheço as tuas feridas, guardei para ti a minha cicatriz”.

Aproximando a sua mão, o discípulo pode plenamente completar a sua fé. Qual é, com efeito, a plenitude da fé? Não acreditar que Cristo é somente homem, não acreditar também que Cristo é somente Deus, mas acreditar que ele é homem e Deus...

Assim, o discípulo ao qual o seu Salvador deu a tocar os membros do seu corpo e as suas cicatrizes exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!”. Ele tocou o homem, reconheceu Deus. Tocou a carne, voltou-se para a Palavra, porque “a Palavra fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A Palavra suportou que a sua carne fosse suspensa na cruz...; a Palavra suportou que a sua carne fosse colocada no túmulo. A Palavra ressuscitou na sua carne, mostrou-a aos olhos dos seus discípulos, prestou-se a ser tocada pelas suas mãos. Eles tocaram, e eles exclamaram: “Meu Senhor e meu Deus!”. Este é o Dia que o Senhor fez.

sábado, 3 de abril de 2010

O Sábado Santo


Em todas as missas deste sábado, os participantes rezam o “Creio” recitando: “Creio que Jesus Cristo padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos Infernos (mansão dos mortos). Se alguém de repente nos perguntasse se cremos que Jesus esteve no Inferno, com toda segurança diríamos que não. O que é que queremos afirmar com isso?

 

O Sábado – Todo cristão sabe qual acontecimento celebramos na Sexta-feira Santa e no Domingo de Páscoa. Pouquíssimos, porém, poderiam explicar que fato a Igreja comemora no Sábado Santo. Saberão que, liturgicamente, é um dia vazio em que não se pode celebrar missa, nem batismos, nem casamentos. Em síntese, dirão que é um dia de luto pela morte e pelo sepultamento de Cristo. E apesar disso, a Igreja coloca neste dia o dogma da descida de Cristo aos Infernos. Trata-se de uma verdade esquecida, que hoje não desperta interesse na pregação e na catequese, a tal ponto que muitos cristãos, inclusive o desconhecem e até o acham estranho.

 

Infernos – Comecemos dizendo que os Infernos não são o Inferno. De acordo com a teologia católica, o Inferno é o estado em que se encontram os condenados eternamente. Por outro lado, os Infernos é o nome dado ao lugar, conforme imaginava antigamente Israel, para onde iam todos os que morriam. Com efeito, os judeus no Antigo Testamento tinham uma imagem do cosmos bem diferente da nossa. Representavam-no como um disco enorme e plano, circular, rodeado pelas imensas águas do oceano. Estava assentado sobre quatro colunas que se afundavam no abismo. Acima do espaço estava o firmamento. Era uma cúpula sólida, sobre a qual se supunha existir água e que servia para separá-la das águas inferiores. Desta cúpula pendiam o Sol, a Lua e as estrelas. Para chover, abriam-se as comportas de cima e então as águas caíam sobre a Terra.

 

Sheol – A terceira camada deste cosmo era o lugar chamado, em hebraico, sheol – a morada dos mortos, o mundo subterrâneo, colocado debaixo da Terra. Para ali desciam todos os defuntos, sem exceção. Quando a palavra sheol teve de ser traduzida para o grego, usou-se o vocábulo hades. Mais tarde, ao passar para o latim, traduziu-se por infernus, que significa exatamente isto: lugar inferior, subterrâneo. Estas três palavras, pois, indicam a mesma realidade. Quem baixava ao sheol não podia regressar nunca mais. Para esta região sombria e tenebrosa iam todos os homens que haviam transpassado as fronteiras da vida. Bons e maus, indistintamente, tinham como inevitável destino final a tenebrosa morada dos mortos.

 

Um morto bem morto – O perigo era grande, porque, se Jesus Cristo não tivesse de fato morrido, muito menos teria ressuscitado. E então não teria realizado nossa salvação e tudo estaria como antes de sua vinda. Viu-se, portanto, a necessidade de evidenciar isso num dogma que ficou definido assim: Creio que Jesus Cristo morreu e foi sepultado. E para que não houvesse nenhuma dúvida sobre sua morte real, acrescentou-se: desceu aos Infernos (mansão dos mortos).

 

Defuntos do Sheol – Nos Infernos (sheol), estavam todos os bons, os justos, os santos, que haviam morrido antes de Cristo. E nenhum deles podia entrar no Céu, na salvação, antes de Cristo, porque, como diz São Paulo, ele é o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o primeiro dentre os irmãos, o primeiro em tudo (Cl 1,18). Estavam todos esperando, nos Infernos, que se realizasse a redenção de Cristo. Quando morreu, baixou para buscá-los e para dar-lhes a Boa Notícia e levá-los com ele ao Paraíso. Cristo inaugurou o Céu e atrás dele entram todos os que tinham sido dignos de salvação antes de sua vinda.

 

Descida – A “descida” de Cristo aos Infernos tem, portanto, uma mensagem imensa. Todos os que tinham vivido antes de Cristo, para os quais nunca chegara o Evangelho e que nunca tinham ouvido falar de um Redentor, também puderam salvar-se. Todas as épocas da história foram santificadas, a começar de Adão. Por isso hoje, quando sabemos melhor do que antes quanto é antiga nossa humanidade, esta doutrina assume dimensões maiores.

 

Sábado Santo – A descida aos Infernos, comemorada no Sábado Santo, é uma doutrina que tem uma importância fundamental para a compreensão da fé cristã. Podemos nascer em qualquer século. A descida de Cristo aos Infernos santificou a todos os homens de todos os tempos.

sábado, 27 de março de 2010

Se eles se calarem, as pedras gritarão


No Evangelho das missas deste Domingo de Ramos (Lucas 19, 28-40), Jesus entra na cidade de Jerusalém montado em um jumentinho. Quando chegou perto da descida do monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinha visto. Todos gritavam: “Bendito o rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!” Do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus: “Mestre, repreende teus discípulos!” Jesus, porém, respondeu: “Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão”

 

Significado – Comemoramos neste domingo, com muita alegria, a entrada de Jesus em Jerusalém. Nas comunidades são organizadas procissões, o povo abana ramos, até se celebram encenações do evento. Pessoas que dificilmente pisam numa igreja num domingo comum, fazem questão de não perder a procissão nesse dia. Porém, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, é preciso estudar mais de perto o que significava esta entrada em Jerusalém para Jesus e para o evangelista.

 

Zacarias – Uma das coisas que dificultam o nosso entendimento é a nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Precisamos relembrar um trecho do profeta Zacarias: "Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta... Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra" (Zac 9,9-10).

 

Um Novo Rei – Este era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os "Anawim", ou "os pobres de Javé", que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Entre este grupo encontravam-se Maria, José e os discípulos de Jesus. Foi com essa espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias havia traçado as características do messias: seria um rei, mas um rei "justo e pobre"; não um rei de guerra, mas de paz! Viria estabelecer uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus e de nós) - onde os poderosos e violentos oprimiam os pobres e pacíficos!

 

Um Rei pobre – Um rei jamais entraria numa cidade montado em um jumento (o animal de um camponês), mas num cavalo branco de raça! Então Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura do profeta Zacarias e se identificou com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!

 

Triunfo de Deus – Por isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um Presidente ou Governador do nosso tempo (com pompa, imponência, e demonstração de poder e força). O contrário do que significou o que Jesus fez! Chamamos o evento da "entrada triunfal de Jesus em Jerusalém" - e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor!

 

Qual Jesus? – O texto de hoje nos convida a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus – mas será que é o Jesus real, o Nazareno, o rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos outro – poderoso, nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio?

 

Missão – A entrada em Jerusalém foi o ponto culminante de toda a vida e missão de Jesus – das suas opções concretas em favor dos oprimidos, do seu desafio à religião oficial que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das consequências políticas e econômicas da sua proposta de uma sociedade justa e igualitária. Tudo isso levou os poderosos, romanos e judeus, a tramarem sua morte.

 

Incomodar – É importante lembrar que a paixão e morte de Jesus foram consequências da sua vida – é absolutamente impossível entender o que significa a Semana Santa sem ligá-la com o resto da vida de Jesus e com a sua proposta para a sociedade e para a comunidade dos seus seguidores. Jesus não morreu: foi morto porque incomodava – como continua incomodando os que perseveram com o sistema opressor.

 

Folclore? – Realmente acreditamos no rei dos pobres e oprimidos ou só fazemos um folclore no Dia de Ramos: bonito, mas totalmente desvinculado da mensagem verdadeira e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho?

sábado, 20 de março de 2010

Atire a primeira pedra


No Evangelho das missas deste domingo (Jo 8,1-11), Jesus é questionado pelos judeus sobre uma mulher surpreendida em adultério.

 

Pegadinha – A Lei judaica prescrevia a pena de morte por apedrejamento para a mulher (Dt 22,23-24) e a lei romana tinha retirado dos judeus o direito de condenar alguém a morte. Portanto, se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei civil dos romanos; se ele negasse esta pena, estaria contra a lei religiosa mosaica. É uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César. Que eles não se interessavam pela Lei, fica claro pelo fato de só acusarem a mulher e não o seu parceiro! Uma atitude machista tão comum ainda na nossa sociedade...

 

Homem e mulher – Conforme a tradição da Torá, a pena de morte devia ser aplicada quando um homem cometia adultério com a mulher de outro homem, e os dois adúlteros deviam morrer (Lv 20,10). Entretanto, um homem casado poderia adulterar com uma mulher solteira, sem preocupar-se com a honra de sua esposa. Como o adultério implica parceria, deveriam ter trazido a Jesus tanto a mulher casada como o homem que adulterou com ela.

 

Misericórdia – Após a observação de Jesus (“Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”), todos renunciam a apedrejá-la. Santo Agostinho (354-430) assim comenta essa passagem: "Retiraram-se todos, um após outro. Só ficaram duas: a miserável e a Misericórdia. Mas o Senhor, depois de tê-los derrubado com o vigor da justiça, não se dignou ficar olhando a queda deles; afastando o seu olhar, ‘baixou-se de novo para desenhar traços no chão’. Quando aquela mulher ficou sozinha, depois de todos os outros se terem ido embora, levantou os olhos para ela. Ouvimos a voz da justiça, ouçamos também a da bondade....” (“Vai e não tornes a pecar”).

 

Discriminação – Nas palavras de João Paulo II, “Jesus entra na situação concreta e histórica da mulher, situação sobre a qual pesa a herança do pecado. Esta herança exprime-se, entre outras coisas, no costume que discrimina a mulher em favor do homem, e está enraizada também dentro dela. Deste ponto de vista, o episódio da mulher ‘surpreendida em adultério’ (Jo 8, 3-11) parece ser particularmente eloquente. No fim Jesus lhe diz: ‘não tornes a pecar’; mas, primeiro ele desperta a consciência do pecado nos homens... Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, e antes de tudo, uma confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça ‘masculina’, dos vossos abusos?”

 

Mulher – E continua o Papa: “Esta é uma verdade válida para todo o gênero humano... Uma mulher é deixada só, é exposta diante da opinião pública com ‘o seu pecado’, enquanto por detrás deste ‘seu’ pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo ‘pecado do outro’, antes, co-responsável do mesmo. E, no entanto, o seu pecado escapa à atenção, passa sob silêncio... Quantas vezes a mulher paga pelo próprio pecado, mas paga ela só, e paga sozinha! Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da criança, não quer aceitar a sua responsabilidade? E ao lado das numerosas ‘mães solteiras’ das nossas sociedades, é preciso tomar em consideração também todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas pressões, inclusive da parte do homem culpado, ‘se livram’ da criança antes do seu nascimento. ‘Livram-se’: mas a que preço?”

 

Pecado – Jesus não procura abrandar o pecado ou desculpabilizar o comportamento da mulher. Ele sabe que o pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz… No entanto, também não aceita pactuar com uma Lei que, em nome de Deus, gera morte: os esquemas de Deus são diferentes dos esquemas da Lei. Convida os acusadores a tomar consciência de que o pecado é uma consequência dos nossos limites e fragilidades e que Deus entende isso: “quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”.

 

Caminho novo – Sua postura convida que os acusadores da mulher interiorizem a lógica de Deus – a lógica da tolerância e da compreensão. Quando os escribas e fariseus se retiram, Jesus nem sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida: convida-a, apenas, a seguir um caminho novo, de liberdade e de paz (“vai e não tornes a pecar”). A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas uma lógica de vida; a proposta que Deus faz aos homens através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova, à conversão, à transformação, à libertação de tudo o que oprime e escraviza; e destruir ou matar em nome de Deus ou em nome de qualquer moral é uma ofensa inqualificável a esse Deus da vida e do amor, que apenas quer a realização plena do homem.

 

Homem novo – O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar… os outros. Jesus denuncia aqui, a lógica daqueles que se sentem perfeitos e auto-suficientes, sem reconhecerem que estamos todos a caminho e que, enquanto caminhamos, somos imperfeitos e limitados. É preciso reconhecer, com humildade e simplicidade, que necessitamos todos da ajuda do amor e da misericórdia de Deus para chegar à vida plena do Homem Novo. A única atitude que faz sentido, neste esquema, é assumir para com os nossos irmãos a tolerância e a misericórdia que Deus tem para com todos os homens.

 

“O Senhor é bom, o Senhor é lento na cólera, o Senhor é misericordioso, mas o Senhor também é justo e cheio de verdade (Sl 85,15). Concede-te o tempo para te corrigires, mas preferes gozar esse tempo mais do que mudares de vida. Foste mau ontem, sê bom hoje; passaste este dia no mal, pelo menos amanhã muda a tua conduta” (Santo Agostinho).

sábado, 13 de março de 2010

O Filho Pródigo


No Evangelho das missas deste domingo, Jesus apresenta a “parábola do filho pródigo”, uma parábola que é exclusiva de Lucas.

 

A Parábola – Esta parábola conta a história de um homem que tinha dois filhos. Um dos filhos pede a sua parte na herança e viaja para longe, gastando toda fortuna. Ficando sem dinheiro, chegou a passar fome e resolve retornar para a casa do seu pai, pedindo desculpas. O pai o recebe com festa e alegria. O outro filho, que ficou trabalhando com o pai, se revolta contra o irmão.

 

Lucas – Todo o capítulo 15 de Lucas é dedicado ao ensinamento sobre a misericórdia: em três parábolas, Lucas apresenta uma catequese sobre a bondade e o amor de um Deus que quer estender a mão a todos os que a teologia oficial excluía e marginalizava. O Evangelho apresenta-nos o Deus/Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde. E esse amor lá está, sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar o filho que decide voltar. É um amor entendido na linha da misericórdia e não na linha da justiça dos homens.

 

O pai e os dois filhos – A parábola apresenta-nos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. Vejamos um pouco destas figuras.

 

O pai – A personagem central é o pai. Trata-se de uma figura excepcional, que conjuga o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência em relação ao pai e à casa. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia do filho; trata-se de um pai que continuou a amar, apesar da ausência e da infidelidade do filho. A conseqüência do amor do pai simboliza-se no “anel” que é símbolo da autoridade (Gn 41,42) e nas sandálias, que é o calçado do homem livre.

 

O filho mais novo – É um filho ingrato, insolente e obstinado, que exige do pai muito mais do que aquilo a que tem direito (a lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai - Dt 21,15-17) mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não acediam à sua posse senão depois da morte deste (Sir 33,20-24). Além disso, abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens que o pai colocou à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de frivolidade, de total irresponsabilidade. Acaba, no entanto, por perceber o vazio, o sem sentido, o desespero dessa vida de egoísmo e de auto-suficiência e por ter a coragem de voltar ao encontro do amor do pai.

 

O filho mais velho – É o filho “certinho”, que sempre fez o que o pai mandou, que cumpriu todas as regras e que nunca pensou em deixar esse espaço cômodo e acolhedor que é a casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica da “misericórdia”. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer o seu direito à misericórdia e que acolha, feliz, o filho rebelde. É a imagem desses fariseus e escribas que interpelaram Jesus: porque cumpriam à risca as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus.

 

Lógica de Deus – A “parábola do pai bondoso e misericordioso” pretende apresentar-nos a lógica de Deus. Deus é o Pai bondoso, que respeita absolutamente a liberdade e as decisões dos seus filhos, mesmo que eles usem essa liberdade para procurar a felicidade em caminhos errados; e, aconteça o que acontecer, continua a amar e a esperar ansiosamente o regresso dos filhos rebeldes. Quando os reencontra, acolhe-os com amor e reintegra-os na sua família. Essa é a alegria de Deus. É esse Deus de amor, de bondade, de misericórdia, que se alegra quando o filho regressa que nós, às vezes filhos rebeldes, temos a certeza de encontrar quando voltamos.

 

Convite – A parábola pretende ser também um convite a deixarmos-nos arrastar por esta dinâmica de amor no julgamento que fazemos dos nossos irmãos. Mais do que pela “justiça”, que nos deixemos guiar pela misericórdia, na linha de Deus.