sábado, 28 de agosto de 2010

Humildade e hospitalidade


O Evangelho deste domingo coloca-nos no ambiente de um banquete em casa de um fariseu. Deve tratar-se da refeição solene de sábado, que se tomava por volta do meio-dia, na volta da sinagoga, para a qual eram convidados hóspedes. Durante a refeição, discutia-se as leituras escutadas durante o ofício sinagogal.

 

Fariseus – Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-político da sociedade palestina dessa época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos dos israelitas. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah (cinco primeiros livros da Bíblia), quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Consideravam-se “puros” e desprezavam o povo do país, que por causa da ignorância e da vida dura que levava, não podia cumprir integralmente os preceitos da Lei.

 

Banquete – Conscientes das suas capacidades, da sua integridade e superioridade, não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique o ambiente de luta pelos lugares de honra que o Evangelho faz referência. É bom lembrar, que estamos no contexto de um “banquete”. O “banquete”, no mundo semita, é o espaço do encontro fraterno, o lugar onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece, muitas vezes, envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e beberrão”, mas porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete anuncia a realidade do “reino”.

 

Reino – As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam os lugares de honra não era exatamente uma novidade, pois já o Antigo Testamento aconselhava a não ocupar os primeiros lugares. Mas o que era uma exortação moral no Antigo Testamento, nas palavras de Jesus converte-se numa apresentação do “Reino” e da lógica do “Reino”: o “Reino” é um espaço de irmandade, de fraternidade, de comunhão, de partilha e de serviço, que exclui qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros; quem quiser entrar nele, tem que se fazer pequeno, simples, humilde e não ter pretensões de ser melhor, mais justo ou mais importante do que os outros.

 

Lógica do Reino – Jesus põe em evidência – em nome da lógica do “Reino” – a prática de convidar para o banquete apenas os amigos, os irmãos, os parentes, os vizinhos ricos. Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus convidados para suas refeições: não era conveniente convidar alguém de “nível menos elevado”, pois a “comunidade de mesa” criava vínculo entre os convidados e não era interessante estabelecer laços com gente “desclassificada e pecadora” (por exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “povo da terra”, desclassificado e pecador).

 

Retribuição – Por outro lado, também os fariseus tinham a tendência – própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas – de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma… A questão é que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e amor desinteressado.

 

Convidados – Jesus denuncia – em nome do “Reino” – esta prática; mas vai mais além e apresenta uma proposta verdadeiramente subversiva… Segundo Ele, é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Os cegos, coxos e aleijados eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus e por isso estavam proibidos de entrar no Templo (2Sm 5,8), para não profanar esse lugar sagrado (Lv 21,18-23). No entanto, são esses que devem ser os convidados para o “banquete”.

 

Verdadeiro banquete – Já percebemos que, aqui, Jesus já não está simplesmente falando dessa refeição comida em casa de um fariseu, na companhia de gente distinta; mas está falando daquilo que esse “banquete” anuncia e prefigura: o banquete do “Reino”.

 

Perfil do Reino – Jesus traça, portanto, os contornos do “Reino”: ele é como um “banquete”, no qual os convidados estão unidos por laços de familiaridade, de irmandade, de comunhão. Para esse “banquete”, todos – sem exceção – são convidados (inclusive aqueles que a cultura social e religiosa tantas vezes exclui e marginaliza). As relações entre os que aderem ao banquete do “Reino” não serão marcadas pelos jogos de interesses, mas pela gratuidade e pelo amor desinteressado; e os participantes do “banquete” devem despir-se de qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, para se colocarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço.

sábado, 21 de agosto de 2010

Quantos se salvarão?


No tempo de Jesus, a questão da salvação era muito debatida nos ambientes judaicos. Para os fariseus, a “salvação” era reservada apenas aos filhos de Abraão (povo judeu), enquanto que as nações gentias (povos pagãos) seriam destruídas e condenadas. Este é o assunto tratado por Jesus no Evangelho deste domingo (Lc 13, 22-30). Vamos fazer uma reflexão, usando o comentário do Pe. Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia de Roma.

 

Quantos? – Existe uma questão que sempre marcou os fiéis: são muitos ou poucos os que se salvam? Em certas épocas, este problema se tornou tão agudo que levou algumas pessoas em uma angústia terrível. O Evangelho deste domingo nos informa que um dia se propôs a Jesus este problema: “Enquanto caminhava para Jerusalém, alguém lhe disse: ‘Senhor, são poucos os que se salvam? ’”. A pergunta, como se vê, trata do número, sobre quantos se salvam: muitos ou poucos? Jesus, em sua resposta, muda o centro da atenção de “os que se salvam” para “como salvar-se”, isto é, entrando “pela porta estreita”.

 

Sabedoria – É a mesma atitude que observamos com relação ao retorno final de Cristo. Os discípulos perguntam quando acontecerá a volta do Filho do Homem, e Jesus responde indicando como preparar-se para essa vinda, o que fazer na espera (Mt 24, 3-4). Esta forma de atuar de Jesus não é estranha ou descortês. Simplesmente é a maneira de atuar de alguém que quer educar seus discípulos para que passem do plano da curiosidade ao da verdadeira sabedoria; das questões sem importância, que seduzem as pessoas, aos verdadeiros problemas que importam na vida.

 

Absurdos – Neste ponto, já podemos entender o absurdo daqueles que crêem saber até o número preciso dos salvos: cento e quarenta e quatro mil. Este número, que aparece no Apocalipse, tem um valor puramente simbólico (12 ao quadrado, o número das tribos de Israel, multiplicado por mil) e se explica imediatamente com a expressão que lhe segue: “uma multidão imensa que ninguém poderia contar” (Ap 7, 4.9).

 

Lotado – Também, se esse fosse de verdade o número dos salvos, então já podemos fechar a porta, nós e eles. Como na entrada dos estacionamentos, na porta do paraíso deve estar pendurada, há muito tempo, a placa de “lotado”.

 

Método – Para Jesus, não interessa tanto revelar-nos o número dos que serão salvos, mas a forma de salvar-se. Sobre a salvação, Ele nos diz duas coisas: uma negativa (não necessária) e outra positiva (necessária).

 

Não é necessário – ou em todo caso não basta, o fato de pertencer a um determinado povo, a uma determinada raça, tradição ou instituição, ainda que fosse o povo escolhido do qual provém o Salvador.

 

É necessário – O que situa no caminho da salvação não é um certo título de propriedade (“Comemos e bebemos em tua presença...”), mas uma decisão pessoal seguida de uma coerente conduta de vida. Isso está mais claro ainda no texto de Mateus, que contrapõe dois caminhos e duas entradas, uma estreita e outra ampla (Mateus 7, 13-14).

 

Caminhos – Por que esses dois caminhos são chamados respectivamente de caminho “amplo” e “estreito”? Será que, talvez, o caminho do mal seja sempre fácil e agradável de percorrer e o caminho do bem, sempre duro e fatigoso? Aqui é preciso estar atento para não cair na freqüente tentação de achar que tudo acontece magnificamente bem, aqui embaixo, aos malvados, e tudo vai sempre mal para os bons.

 

Amplo e estreito – O caminho dos ímpios é amplo, sim, mas só no começo; na medida em que se adentram nele, ele se torna estreito e amargo. E em todo caso é estreitíssimo no final, porque se chega a uma rua sem saída. O desfrute que neste caminho se experimenta, tem como característica que diminui na medida em que é provado, até gerar náusea e tristeza. O caminho dos justos, ao contrário, é estreito no começo, quando se empreende, mas depois se transforma em uma via espaçosa, porque nela se encontra esperança, alegria e paz no coração.

sábado, 14 de agosto de 2010

Assunção de Maria


Neste domingo, a Igreja comemora a Assunção de Maria. O Evangelho lido é Lc 1, 39-56, que descreve a visita de Maria à sua prima Isabel e o Magnificat.

 

Uma nova reflexão – Em tempos que a mídia e ONGs fazem campanha pró-aborto e a Lei permite a destruição de embriões congelados, vamos refletir o Evangelho da visitação com outra perspectiva, que não apenas o carinho e a solicitude de Maria para com sua prima.

 

O primeiro milagre de Jesus – Quando se fala no primeiro milagre de Jesus, logo se pensa nas bodas de Caná da Galiléia, onde ele converteu a água em vinho a pedido de sua Mãe (Jo 2). Porém, muito antes desse momento, a Bíblia nos relata outro milagre operado por Jesus, quando ainda estava no ventre de Maria Santíssima: a santificação de João Batista, que estava no ventre de Isabel.

 

Visita – Maria soube, pelo anjo Gabriel, que sua parenta Isabel, uma anciã estéril, tinha ficado grávida e já estava no sexto mês de gestação, pois “para Deus nada é impossível” (Lc 1,36-37). Depois de aceitar a sua própria gravidez (“Eis a serva do Senhor...” - Lc 1,38), Maria foi amorosa e apressadamente (Lc 1,39) ao encontro da outra gestante, Isabel, que morava em uma cidade de Judá. Acredita-se que essa cidade seja Ain-Karim, situada seis quilômetros a oeste de Jerusalém.

 

Distância – Ora, a distância entre Nazaré – onde estava Maria – e Jerusalém é de aproximadamente 140 quilômetros. Como ela viajou “às pressas”, talvez tenha demorado uns seis dias para chegar a Ain-Karim.

 

Embrião – Ao entrar na casa de Zacarias e saudar Isabel, o menino Jesus tinha, então, alguns dias de vida gestacional – um embrião. Era tão pequeno que nem sequer havia se formado o coração (que só começa a pulsar entre o 18º e o 21º dia). Nem estava ainda presente o tubo neural, que daria origem ao sistema nervoso. Estava com a idade de um embrião que ainda não se fixou no útero, um embrião “pré-implantatório”. Tinha o tamanho e a aparência daqueles embriões humanos que estão congelados em alguma clínica, porque “sobraram” no processo de fertilização “in vitro”. Era semelhante àqueles que, hoje, a Lei de Biossegurança (Lei 11.105/2005) permite que sejam destruídos, a fim de que suas células sejam usadas em pesquisa ou terapia. Minúsculo e ainda sem uma aparência atraente, Jesus operou um milagre.

 

Maternidade – Isabel, com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?” (Lc 1,42-43). Note-se que o menino Jesus ainda não nascera, mas Isabel, “repleta do Espírito Santo” (Lc 1,41) chama Maria “a mãe do meu Senhor” e não “a futura mãe do meu Senhor”. De fato, a maternidade começa com a concepção e não com o parto. “Pois quando a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu em meu ventre” (Lc 1,44). Cumpriu-se aquilo que o anjo Gabriel havia anunciado a Zacarias: o menino “ficará pleno do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe” (Lc 1,15).

 

Milagre – Esse milagre foi operado por Jesus com a mediação de Maria, assim como ocorreria anos depois com o milagre de Caná. Mas o milagre da visitação supera em muito o milagre das bodas. Por quê? Porque o primeiro ocorreu na ordem da graça, ao passo que o segundo ocorreu na ordem da natureza. E a graça – que é a vida de Deus em nós – é imensamente superior à natureza.

 

Jesus e João – Comparemos agora o Autor do milagre (Jesus) com o seu beneficiário (João Batista). Jesus é um pequeno embrião de alguns dias. João já é um bebê grande, com seis meses de vida de gestação. Seus órgãos já estão todos formados. Encolhido no ventre de Isabel, ele já faz sentir sua presença quando se move.

 

Jesus Deus – Muitas das pessoas que não teriam escrúpulos em destruir fetos com a idade de Jesus (alguns dias) teriam dúvidas em fazer isso com um bebê da idade de João (seis meses). No entanto, o pequeno santificou o grande. Toda a alegria que inundou a casa de Isabel e que culminou com o cântico de Nossa Senhora (o “Magnificat”) teve como causa aquele minúsculo ser humano, que também é Deus, oculto no ventre de Maria.

sábado, 7 de agosto de 2010

Vigiai e estai preparados


A Palavra de Deus que a liturgia deste domingo nos propõe convida-nos à vigilância: o verdadeiro discípulo não vive de braços cruzados, numa existência de comodismo e resignação, mas está sempre atento e disponível para acolher o Senhor, para escutar os seus apelos e para construir o “Reino”. O Evangelho das missas deste domingo começa com uma referência ao “verdadeiro tesouro”, que os discípulos devem procurar e que não está nos bens deste mundo: trata-se do “Reino” e dos seus valores. A questão fundamental é: como descobrir e guardar esse “tesouro”? A resposta é dada em três “parábolas”, que apelam à vigilância.

 

A primeira parábola convida a ter os rins cingidos e as lâmpadas acesas (o que parece aludir a Ex 12,11 e à noite da primeira Páscoa, celebrada de pé e “com os rins cingidos”, antes da viagem para a liberdade), como homens que esperam o senhor que volta da sua festa de casamento. Os que creem são, assim, convidados a estarem preparados para acolher a libertação que Jesus veio trazer e que os levará da terra da escravidão para a terra da liberdade; e são também convidados a acolherem “o noivo” (Jesus) que veio propor à “noiva” (os homens) a comunhão plena com Deus (a “nova aliança”, representada na teologia judaica através da imagem do casamento).

 

A segunda parábola aponta para a incerteza da hora em que o Senhor virá. A imagem do ladrão que chega a qualquer hora, sem ser esperado, é uma imagem estranha para falar de Deus; mas é uma imagem sugestiva para mostrar que o discípulo fiel é aquele que está sempre preparado, a qualquer hora e em qualquer circunstância, para acolher o Senhor que vem.

 

A terceira parábola parece dirigir-se aos responsáveis da comunidade, que devem permanecer fiéis às suas tarefas de animação e de serviço: se algum deles descuida de suas responsabilidades no serviço aos irmãos e usa as funções que lhe foram confiadas de forma negligente ou em benefício próprio, será castigado. A última afirmação (“a quem muito foi dado, muito será exigido, a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá – vers. 48b) é claramente dirigida aos responsáveis da comunidade; mas pode aplicar-se a todos os que receberam dons materiais ou espirituais.

 

Reflexão – O Evangelho nos propõe refletir que:

♦ A vida dos discípulos de Jesus precisa ser uma espera vigilante e atenta, pois o Senhor, permanentemente, vem ao nosso encontro e nos desafia a nos despirmos das cadeias que nos escravizam e a percorrermos, com Ele, o caminho da libertação. O que é que nos distrai, que nos prende, que nos aliena e que nos impede de acolher esse dom contínuo de vida?

♦ Ser cristão não é um trabalho “das 8 às 18h”, ou um “hobby” de fim-de-semana; é um compromisso em tempo integral, que deve marcar cada pensamento, cada atitude, cada opção, vinte e quatro horas por dia… Estou consciente dessa exigência e suficientemente atento para marcar, com o selo do meu compromisso cristão, todas as minhas ações e palavras?

♦ Viver a Palavra é um constante desafio Estou suficientemente atento e disponível para acolher e responder aos apelos que Deus me faz e aos desafios que se apresentam através das necessidades dos irmãos? Estou suficientemente atento e disponível para escutar os sinais, através dos quais Deus me apresenta as suas propostas?

♦ Por vezes, os discípulos de Jesus manifestam a convicção de que tudo vai de mal a pior, que esta geração de tão poucos valores está perdida e que não é possível fazer mais nada para tornar o mundo mais humano e mais feliz… Isso não será, apenas, uma forma de mascararmos o nosso egoísmo e comodismo e de nos recusarmos a ser protagonistas empenhados na construção desse “Reino” que é o tesouro mais valioso?

♦ A Palavra de Deus deste final de semana contém uma indagação especial a todos aqueles que desempenham funções de responsabilidade, quer na Igreja, quer no governo, quer nas autarquias, quer nas empresas, quer nas repartições… Convida cada um a assumir as suas responsabilidades e a desempenhar, com atenção e empenho as funções que lhe foram confiadas. A todos aqueles a quem foi confiado o serviço da autoridade, a Palavra de Deus pergunta sobre o modo como nos comportamos: como servos que, com humildade e simplicidade cumprem as tarefas que lhes foram confiadas, ou como ditadores que manipulam os outros a seu bel‑prazer? Estamos atentos às necessidades – sobretudo dos pobres, dos pequenos e daqueles que são frágeis – ou instalamo-nos no egoísmo e no comodismo e deixamos que as coisas se arrastem, sem entusiasmo, sem vida, sem desafios, sem esperança?

sábado, 31 de julho de 2010

Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância


A catequese que Jesus faz, apresentada no texto do Evangelho deste domingo, é sobre a atitude face aos bens. A reflexão é trazida à luz por uma questão relacionada com a partilha de bens.

 

A Questão – Um homem queixa-se a Jesus, porque o irmão não quer repartir a herança com ele. Segundo as tradições judaicas, o filho primogênito de uma família de dois irmãos receberia dois terços das possessões paternas. Segundo o Livro do Deuteronômio (Dt 21,17), os bens deveriam ser atribuídos ao primogênito, para guardar intacto o patrimônio da família. O homem que interpela Jesus é, provavelmente, o irmão mais novo, que ainda não tinha recebido nada. Era frequente, no tempo de Jesus, que os “doutores da lei” assumissem o papel de juízes, em casos similares…

 

Como é que Jesus se posiciona diante desta questão? – Jesus recusa-se, delicadamente, a se envolver em questões de direito familiar ou  a tomar posição por um irmão contra outro (“amigo, quem me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?”). O que estava em causa, na questão, era a cobiça, a luta pelos bens, o apego excessivo ao dinheiro (talvez por parte dos dois irmãos). Jesus explica porque é que Ele não aceita se envolver na questão: o dinheiro não é a fonte da verdadeira vida. A cobiça dos bens (o desejo insaciável de ter) é idolatria: não conduz à vida plena, não responde às aspirações mais profundas do homem, não conduz a um autêntico amadurecimento da pessoa. A lógica do Reino não é a lógica de quem vive para os bens materiais; quem quiser viver na dinâmica do Reino, deverá ter isto presente.

 

Ganância – A parábola que Jesus vai apresentar, na sequência, ilustra a atitude do homem: voltado para os bens perecíveis e esquecendo-se do essencial – aquilo que dá a vida em plenitude. A história apresenta-nos um homem previdente, responsável, trabalhador (que até poderíamos admirar); mas que, de forma egoísta e obsessiva, vive apenas para os bens, que lhe asseguram tranquilidade e bem-estar material (e nisso, já não o podemos admirar). Esse homem representa todos aqueles cuja vida é apenas um acumular sempre mais, esquecendo todo o resto – inclusive Deus, a família e os outros. Representa todos aqueles que, vivendo uma relação de “circuito fechado” com os bens materiais, fizeram deles o seu deus pessoal,  esquecendo que não é aí que está o sentido mais fundamental da existência.

 

Egoísmo – O que Jesus pretende, ao contar essa história? Convidar os seus discípulos a despojar-se de todos os bens? Ensinar aos seus seguidores que não devem se preocupar com o futuro? Propor, aos que fizeram a sua adesão ao Reino, uma existência de miséria, sem o necessário para uma vida minimamente digna e humana? NÃO. O que Jesus pretende é dizer-nos que não podemos viver na escravidão do dinheiro e dos bens materiais, como se eles fossem a coisa mais importante de nossas vidas. A preocupação excessiva com os bens, a sua busca obsessiva, constitui uma experiência de egoísmo, de fechamento, de desumanização, que centra o homem em si próprio e o impede de estar disponível e de ter espaço, na sua vida, para os valores verdadeiramente importantes – os valores do Reino. Quando o coração está cheio de cobiça, de avareza, de egoísmo, quando a vida se torna um combate obsessivo pelo “ter”, quando o verdadeiro motor da vida é a ânsia de acumular, o homem torna-se insensível aos outros e a Deus; é capaz de explorar, de escravizar o irmão, de cometer injustiças, a fim de ampliar a sua conta bancária. Torna-se orgulhoso e auto-suficiente, incapaz de amar, de partilhar, de se preocupar com os outros… Fica, então, à margem do Reino.

 

Importante – Esta parábola não se destina apenas àqueles que têm muitos bens; mas a todos aqueles que, tendo muito ou pouco, vivem obcecados com os bens, orientam a sua vida no sentido do “ter” e fazem dos bens materiais os deuses que condicionam a sua vida e o seu agir.

sábado, 24 de julho de 2010

Ensina-nos a rezar!


No Evangelho deste domingo, os discípulos veem Jesus orar e se interessam em aprender a orar também. O pedido é atendido. A oração ensinada por Jesus é o Pai-Nosso.

 

Duas versões – O texto traz o ensinamento da Oração do Senhor na versão de Lucas, visto que o Novo Testamento traz duas versões dela – por sinal, a única oração que o Senhor nos ensinou: Lucas 11,2-4 e Mateus 6,9-13.

 

Diferenças – Normalmente, os cristãos rezam a forma contida no Evangelho de Mateus, com sete petições e a oração de louvor (doxologia). A versão de Lucas só tem cinco petições. A forma usada na missa acrescenta a doxologia “porque Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”, baseada no texto trazido pela Didaché (um documento cristão do início do segundo século). Alguns estudiosos explicam as duas formas pelo fato de que Lucas e Mateus estavam se dirigindo a comunidades diferentes, com tradições diferentes. Mateus se dirigia a pessoas que tinham o costume de rezar, mas que estavam correndo o risco de orar de uma maneira muita formal e rotineira (judeu-cristãos), enquanto Lucas estava escrevendo para pessoas recém-convertidas (gentio-cristãos) e que precisavam aprender, talvez pela primeira vez, a rezar continuamente.

 

Qual foi a primeira? – Embora não exista unanimidade entre exegetas sobre qual é a forma mais original, parece que o consenso tende em favor da versão de Lucas. Mateus apresenta uma forma mais litúrgica do seu uso (por exemplo, “Pai Nosso” em lugar do simples “Pai”), mas, na verdade, não há diferença essencial entre as duas versões. Com base no trabalho de um exegeta alemão, Joaquim Jeremias, é possível elaborar a seguinte versão como a mais aproximada às palavras aramaicas de Jesus (lembrando que Jesus falava em aramaico, que os evangelhos foram escritos em grego e nós os lemos em português):

 

Oração original – “Querido Pai, santificado seja o Teu nome; venha o Teu Reino; o pão nosso de amanhã, nos dá hoje; perdoa-nos as nossas dívidas, como queremos perdoar os nossos devedores, e não nos deixes sucumbir à Tentação”.

 

Reino – Seguindo este autor, tratamos a oração como uma “oração escatalógica”, ou seja, a oração da comunidade cristã que experimenta o Reino como uma realidade já presente, mas que espera e pede a sua consumação final.

 

Chave – Uma chave para a compreensão da Oração do Senhor apresentada por Lucas, nós encontramos no primeiro versículo do texto: “Um dia, Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos pediu: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele” (Lc 11,1). Essa frase nos faz lembrar que muitos grupos religiosos do tempo de Jesus tinham uma oração que identificava os seus discípulos, como por exemplo, os essênios, os fariseus e os batistas. O discípulo de Jesus, assim, pede uma oração que pudesse identificar o seu programa de vida, como discípulos de Jesus. Então podemos ver a Oração do Senhor como mais do que uma oração: como um “manifesto”, uma proposta de vivência da nossa fé.

sábado, 17 de julho de 2010

Marta e Maria


No Evangelho deste domingo, Jesus visita uma casa onde moravam duas irmãs: Marta e Maria. A primeira fica preocupada com os seus afazeres, enquanto a outra se concentra em ouvir a Palavra de Jesus.

 

Betânia – Este episódio situa-nos numa aldeia não identificada, em casa de duas irmãs (Marta e Maria). Estas duas irmãs são as irmãs de Lázaro, referidas em Jo 11,1-40 e Jo 12,1-3. Assim, provavelmente, a ação passa-se em Betânia, uma pequena aldeia situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, a cerca de três quilômetros de Jerusalém. Betânia era o lugar predileto onde Jesus procurava – e recebia – aconchego humano, carinho, afeto, amizade, acolhimento; onde podia refazer as suas forças nas suas caminhadas evangelizadoras.


Duas irmãs – É gritante a diferença de gênio das duas irmãs! Marta, provavelmente a mais velha, preocupada com os seus afazeres – afinal tinha chegado treze hóspedes para uma refeição e tinham que ser bem tratados. Maria, calma, senta-se aos pés do Senhor, para escutar a Palavra. De repente, ressoa o desabafo de Marta: “Senhor, não te importa que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!”.

 

Mestre – Há, neste texto, um pormenor que é preciso pôr em relevo. Diz respeito à postura corporal de Maria: “sentada aos pés de Jesus”: é a posição típica de um discípulo diante do seu mestre (Lc 8,35; At 22,3). A situação mostra também que Jesus não fazia qualquer discriminação: as mulheres na sociedade da época eram tidas como inferiores e nenhum “rabbi” (mestre) da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas coloca em relevo, neste episódio, que o fator decisivo para ser discípulo de Jesus é estar disposto a escutar a sua Palavra.

 

Marta – Marta se sente responsável pela situação. Qual é a mãe da família, a dona de casa ou o anfitrião de visita que não sentiria o que Marta sentiu? Por isso mesmo, chama a atenção a resposta do Senhor: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.” Jesus não está defendendo a preguiça, nem a omissão, nem a exploração do trabalho dos outros! Num mundo agitado como é o nosso, em que "não há tempo" para cultivar o relacionamento humano, a amizade e a oração, esta resposta nos faz lembrar a importância de priorizar as coisas, modificando nossa maneira de viver.


Maria – Jesus questiona a agitação e o ativismo. Focar a vida num número sem fim de atividades sem objetivos claros, sem organização, sem rumo, é fuga para evitar um encontro com os anseios mais profundos do nosso ser, dos apelos de Deus. A atitude de Maria é a de uma discípula que aprende viver de maneira nova, ouvindo e refletindo sobre a Palavra de Deus, uma palavra que pode levar a muita atividade, mas nunca ao ativismo.


Marta e Maria – Jesus não quer menosprezar Marta. Na realidade, todos nós temos que ser “Marta e Maria”. Temos necessidade de nos dedicarmos aos nossos afazeres, mas também é preciso achar tempo para ficarmos aos pés do Senhor. O desafio é de conseguir o equilíbrio entre os dois aspectos de vida, entre “lançar as redes” e “consertar as redes” (Mc 1,16-20), entre “atividade” e “oração”, entre “missão” e “interiorização”. Os dois lados são tão intimamente ligados que, o desequilíbrio – seja do lado que for – trará conseqüências negativas para a nossa vida de discípulos.

 

Ação e contemplação – Não podemos ver, neste episódio, uma oposição entre ação e contemplação.  O evangelista (Lucas), nesta catequese, não está querendo ressaltar que a vida contemplativa é superior à vida ativa: está dizendo que a escuta da Palavra de Jesus é o que há de mais importante para a vida do cristão, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isso não significa que o “fazer coisas”, que o “servir os irmãos” não seja importante, e sim que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é essa disposição interior que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós.