sexta-feira, 26 de abril de 2013

A retratação de Galileo Galilei


A história do físico e astrônomo condenado pela Igreja – Na época de Galileo, a Bíblia era interpretada literalmente, ou seja, entendia-se que as coisas haviam acontecido tal como era dito no texto bíblico. Por isso, quando Galileo lançou conceitos astronômicos que contrariavam os ensinamentos da Igreja, o Santo Ofício exigiu uma retratação ou faria valer a condenação à morte pela fogueira. 

Condenação – Na tarde do dia 22 de junho de 1633, entrava na sala de julgamentos do Convento de Santa Maria da Minerva, em Roma, um venerável ancião, de rosto grave, com barba e cabelos brancos. Estava acompanhado pelos empregados do Santo Ofício e acabava de entrar na sede da Inquisição Romana. Perante os cardeais do Santo Tribunal ele tinha dois caminhos: confirmava suas ideias publicadas em dois livros (e morria na fogueira) ou se retratava (e ia para a prisão domiciliar).  

Culpa? – Qual era o pecado cometido por aquele dedicado ancião? Haver escrito dois livros, considerados perigosos. Um, chamado “O mensageiro das estrelas” (em 1611), e outro, “Diálogo sobre os maiores sistemas do mundo” (em 1632), nos quais explicava que a Terra não era o centro do universo e que o Sol não girava em torno da Terra (como se acreditava até então), mas sim era a Terra que girava em torno do Sol e que este estava parado no centro do universo. 

Retratação – Para livrá-lo da morte, o Santo Ofício obrigou-o a ler em voz alta: “Eu, Galileo Galilei, filho de Vicente Galilei, Fiorentino, 70 anos de idade, ... diante os Sagrados Evangelhos que toco com minhas mãos, juro que sempre cri, creio agora e crerei no futuro o que ensina a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, ... por ter me convertido em altamente suspeito de heresia por ensinar a doutrina de que o Sol está imóvel no centro do mundo e que não é a Terra que está fixa no centro, ... com o coração sincero e autêntica fé abjuro, maldigo e renuncio a todos os erros e heresias mencionados e a qualquer outro erro contrário a Santa Igreja e juro não ensina-los oralmente nem por escrito”.  

Lenda – Conta uma lenda que, quando Galileo se retirava cansado e vencido daquela majestosa cerimônia, logo após ter jurado solenemente que a Terra não se movia, ao chegar à porta da sala, deu meia volta, olhou os assistentes e murmurou: “Mas, sem dúvida, se move”. Seja ou não verdade, o certo é que a frase atribuída ao cientista italiano se converteu no símbolo da resistência interior, na figura daqueles que, sob pressão, são obrigados a negar suas crenças, mas interiormente não podem renegar suas convicções.

Argumentos – Que argumentos usaram os cardeais do Santo Ofício para condenar Galileo? Os cardeais diziam que os ensinamentos de Galileo sobre o heliocentrismo (assim se chama a teoria de que o Sol está fixo no centro do universo e que a Terra gira) contradizem a Bíblia, mais diretamente o Livro de Josué 10, 1-15, onde é descrita a famosa batalha de Guibeon em que o Sol parou durante um dia inteiro.

Santo Ofício – Para refutar os ensinamentos de Galileo, o Santo Ofício usou o argumento da Batalha de Guibeon: “Se o Sol parou em Guibeon é porque se move”. Como pôde Galileo afirmar que o Sol está parado? Quem tem razão: a Palavra de Deus ou Galileo? Com as coisas colocadas dessa maneira, não havia nenhuma possibilidade de escapar de uma condenação sem a retratação...
 

O Método – O grande trunfo de Galileo Galilei foi não enfrentar o Santo Ofício com dados que contrariavam a Bíblia ou a doutrina da Igreja. Galileo publicou um método, por meio do qual se obtém aquelas informações. Com esse método, inúmeros físicos chegaram aos mesmos dados de Galileo, confirmando o heliocentrismo e publicando as informações desta nova concepção do universo.  

Novos tempos – O episódio de Galileu Galilei e outros que se seguiram (Lamark em 1809 e Darwin em 1859) abalaram a, até então, visão bíblica e teológica de mundo. À Igreja coube reconhecer que somente as questões de fé eram de alcance da Teologia e que novas teorias e descobertas cabiam à Ciência. Na sequência dos acontecimentos, Galileu Galilei passou a ser reconhecido como “pai” da Metodologia Científica. 

Galileo tinha razão – Hoje, a Igreja reconhece que não se deve interpretar a Bíblia ao pé da letra, mas buscar a intenção de seus autores para poder descobrir sua mensagem. Por isso o Papa João Paulo II, em 1992, reconheceu que a Igreja havia se equivocado ao condenar Galileo, pedindo publicamente perdão. Com este gesto, o Papa pôde fechar finalmente uma ferida que estava aberta durante 350 anos. 

Fé e razão – “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (João Paulo II, Encíclica Fides et Ratio, prólogo).

sábado, 20 de abril de 2013

Uma Igreja para todos


Na primeira leitura das missas deste domingo (At 13,14.43-52), Paulo e Barnabé chegam à Antioquia e, no sábado, pregam o Evangelho de Cristo na sinagoga. Após uma discussão com os judeus, são expulsos da cidade.
 

Atos dos Apóstolos – A partir do capítulo 13, os “Atos dos Apóstolos” apresentam o “caminho” da Igreja no mundo greco-romano. O protagonista humano desta nova etapa será Paulo (embora sempre animado e conduzido pelo Espírito do Senhor ressuscitado). 

Missionários – Tudo começa quando a comunidade cristã de Antioquia da Síria, ansiosa por fazer a Boa Nova de Jesus chegar a todos os povos, envia Barnabé e Paulo a evangelizar. Entre 13,1 e 15,35, Lucas (o autor dos “Atos”) descreve o “envio” dos missionários, a viagem, a evangelização de Chipre e da Ásia Menor (Perga, Antioquia da Pisídia, Icónio, Listra, Derbe) e os problemas colocados à jovem Igreja pela entrada maciça de gentios. 

Antioquia – Este texto, em concreto, situa-nos na cidade de Antioquia da Pisídia, no interior da Ásia Menor. Nos versículos anteriores, o autor dos “Atos” pôs na boca de Paulo um longo discurso, que resume a catequese primitiva sobre Jesus e que enquadra no plano de Deus a proposta de salvação que Jesus veio trazer (At 13,16-41). Qual será a resposta ao anúncio, quer por parte dos judeus, quer por parte dos pagãos que escutaram a mensagem? 

Duas atitudes – A questão central gira, portanto, à volta da reação de judeus e pagãos ao anúncio de salvação apresentado por Paulo e Barnabé. O texto põe em confronto duas atitudes diversas diante da proposta cristã:  

Os Judeus – a daqueles que pensavam ter o monopólio de Deus e da verdade, mas que estavam instalados nas suas certezas, no seu orgulho, na sua autossuficiência, nas suas leis definidas e comodamente arrumadas e não estavam, realmente, dispostos a “embarcar” na aventura do seguimento de Cristo;  

Os pagãos – e a daqueles que, no desafio do Evangelho, descobriram a vida verdadeira, aceitaram questionar-se, quiseram arriscar e responderam com alegria e entusiasmo à proposta libertadora que Deus lhes fez por intermédio dos missionários (pagãos). 

Universal – A Boa Nova de Jesus é, portanto, uma proposta que é dirigida a todos os homens, de todas as raças e nações; não se trata de uma proposta fechada, exclusivista, destinada a um grupo de eleitos, mas de uma proposta universal, que se destina a todos os homens, sem exceção.  

Vida nova – O que é decisivo não é ter nascido neste ou naquele ambiente, mas é a capacidade de se deixar desafiar pela proposta de Jesus, de acolher com simplicidade, alegria e entusiasmo essa proposta e de partir, todos os dias, para esse caminho onde o nosso Deus nos propõe encontrar a vida nova, a vida verdadeira, a vida total.

sábado, 13 de abril de 2013

Simão, tu me amas?

No Evangelho das missas deste domingo (Jo 21,1-19) Jesus pergunta três vezes a Simão Pedro: “Simão, tu me amas?”. Nas três vezes Pedro responde: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Por que Jesus perguntou três vezes? Ele não estava contente com a resposta? Pedro respondeu de forma errada? Vamos esclarecer a questão.  

Raiz do problema – Todo o problema dessa passagem do Evangelho de João está na tradução das palavras de Jesus. Na língua portuguesa usamos sempre o mesmo verbo “amar”, para qualquer sentimento amoroso a que queremos nos referir. Na língua grega (em que foram compostos os Evangelhos), existem quatro verbos distintos para indicar “amar”, cada um com sentidos diferentes. 

Amor romântico – Em primeiro lugar, temos o verbo erao (de onde vem a palavra eros e seu adjetivo erótico). Significa amar em seu sentido romântico, carnal, sexual. Emprega-se para a atração entre um homem e uma mulher em seu aspecto espontâneo e instintivo. Na Bíblia aparece o verbo “erao” várias vezes: “O rei amou (erao) a Éster mais que as outras mulheres de sua corte” (Est 2,17). “Vou reunir todos os que te amaram (erao)” (Ez 16,37).   

Amor familiar – Outro verbo grego que significa amar é stergo. Indica o amor familiar, o carinho do pai por seu filho e do filho pelo pai. É o amor doméstico, de família, que brota naturalmente dos laços do parentesco. São Paulo, em sua Carta aos Romanos, escreve: “Tenham uma caridade sem fingimento: amem-se cordialmente (stergo) uns aos outros” (Rom 12,10).  

Amor de amigos – O terceiro verbo grego usado para designar “amor” é fileo. Expressa o amor da amizade, o afeto que se sente pelos amigos. Quando Lázaro, o amigo de Jesus, estava doente, as suas irmãs mandaram dizer: “Senhor, aquele a quem tu amas (fileo) está enfermo” (Jo 11,3). Quando Maria Madalena não encontra o corpo de Jesus no sepulcro, sai correndo para encontrar Pedro “e o outro discípulo que Jesus amava (fileo)” (Jo 20,2). Na parábola do filho pródigo, o irmão reclama ao pai: “Faz tantos anos que te sirvo e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com meus amigos (filos)” (Lc 15,29).  

Amor caritativo – O quarto verbo grego para “amar” é agapao. É utilizado para o amor de caridade, de benevolência, de boa vontade, o amor capaz de dar sem esperar nada em troca. É o amor totalmente desinteressado, completamente abnegado, o amor com sacrifício. O autor do Evangelho de João usa o verbo “agapao” na descrição da Última Ceia: “Sabendo Jesus que havia chegado a hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado (agapao) aos seus, os amou até o fim” (Jo 13,1).  Ou ainda: “Como o Pai me amou, eu também os amo (agapao)” (Jo 15,9). E quando encontra os apóstolos: “Nada tem maior amor (agápe) do que dar a vida por seus amigos” (Jo 15,13). 

Amar os inimigos? – Um exemplo interessante é o episódio em que Jesus ordena que se ame os inimigos. Jesus não utilizou o verbo erao, nem stergo nem fileo. Usou o verbo agapao. Jesus nunca pediu que amássemos os inimigos do mesmo modo que amamos nossos entes queridos. Nem pretendeu que sentíssemos o mesmo afeto que sentimos por nosso cônjuge (erao), nossos familiares (stergo) ou nossos amigos (fileo). Se quisesse isso teria usado os outros verbos. O que Jesus exige é o amor ágape. Não nos obriga a sentir apreço ou estima, nem devolver a amizade por quem nos tenha ofendido. O que Jesus pede é caridade, se algum dia aquele que nos ofendeu necessitar.

Jogo de Palavras – Voltando agora à pergunta que Jesus fez a Pedro. “Simão, filho de João, amas-me mais que estes?”. Jesus usa o verbo agapao: “Simon, agapás me?”. Pedro lhe responde com fileo: “Filo se”. Jesus pergunta a Pedro se ele o ama com amor total, amor-entrega, amor-serviço, amor que compromete a fundo a vida, sem esperar recompensa. E Pedro lhe responde, humildemente, com fileo, menos pretensioso. Na segunda vez, Jesus volta a perguntar: “Simon, agapás me? E Pedro novamente responde com fileo. Na terceira vez, Jesus, sabendo esperar com paciência o processo de maturidade de cada um, usa o verbo fileo: “Simon, fileis me? Então, Pedro, mesmo ficando triste, identifica-se com a pergunta e responde a ela nos mesmos termos (“filo se”). E Jesus aceita a resposta, mas prediz que o amor de Pedro não irá parar ali, crescerá, amadurecerá e chegará ao agapao solicitado, pois um dia haveria de dar sua vida pelo Mestre (Jo 21, 18-19).

sábado, 6 de abril de 2013

O Apocalipse de João


A segunda leitura das missas deste domingo é o início do Livro do Apocalipse. O texto é uma visão de João, que apresenta Jesus caminhando lado a lado com sua Igreja. Vamos refletir.  

Época – Estamos nos finais do reinado de Domiciano (por volta do ano 95); os cristãos eram perseguidos de forma violenta e organizada e parecia que todos os poderes do mundo se voltavam contra os seguidores de Cristo. Muitos cristãos, cheios de medo, abandonavam o Evangelho e passavam para o lado do império. Na comunidade dizia-se: “Jesus é o Senhor”; mas lá fora, quem mandava mesmo como senhor todo-poderoso era o Imperador de Roma. 

Apocalipse – É neste contexto de perseguição, de medo e de martírio que vai ser escrito o Apocalipse. O objetivo do autor é apresentar aos crentes um convite à conversão (capítulos de 1 a 3) e uma leitura profética da história que os ajude a enfrentar a tempestade com esperança e a acreditar na vitória final de Deus e dos crentes (capítulos de 4 a 22). 

A leitura – O texto da segunda leitura deste domingo pertence à primeira parte do livro. Nele, apresenta-se – recorrendo à linguagem simbólica, pois é através dos símbolos que melhor se expressa a realidade do mistério – o “Filho do Homem”: é Ele o Senhor da história e Aquele através de quem Deus revela aos homens o seu projeto. 

Jesus – Esse “Filho do Homem” é Cristo ressuscitado. Para descrevê-lo em pormenor, o autor (João, exilado na ilha de Patmos por causa do Evangelho) vai recorrer a símbolos herdados do mundo do Velho Testamento que sublinham, antes de mais, a divindade de Jesus. 

Preside a Igreja – Este “Filho do Homem” é apresentado como o Senhor que preside à sua Igreja (no versículo 12, os sete candelabros representam a totalidade da Igreja de Jesus; recordar que o sete é o número que indica plenitude, totalidade) e que caminha no meio dela e com ela (versículo 13a). 

É Sacerdote – Ele está revestido de dignidade sacerdotal (a longa túnica, distintivo da dignidade sacerdotal revela que Ele é, agora, o verdadeiro intermediário entre Deus e os homens – versículo 13b) e possui dignidade real (o cinto de ouro, porque n’Ele reside a realeza e a autoridade sobre a história, o mundo e a Igreja – versículo 13c). 

É o Cristo – Sobretudo, Ele é o Cristo do mistério pascal: esteve morto, voltou à vida e é agora o Senhor da vida que derrotou a morte (versículo 18). A história começa e acaba n’Ele (versículo 17b). Por isso, os cristãos nada terão a temer.

Profeta – A João, Cristo ressuscitado confia a missão profética de testemunhar. O fato de João cair por terra como morto e o fato de o Senhor o reanimar com um gesto (versículo 17) fazem-nos pensar em vários relatos de vocação profética do Antigo Testamento. O “profeta” João é, pois, enviado às igrejas; a sua missão é anunciar uma mensagem de esperança que permita enfrentar o medo e a perseguição. Sobretudo, é chamado a anunciar a todos os cristãos que Jesus ressuscitado está vivo, que caminha no meio da sua Igreja e que, com Ele, nenhum mal nos acontecerá, pois é Ele que preside à história.

sábado, 30 de março de 2013

ÚLTIMA CEIA NA TERÇA-FEIRA ?


Uma das maiores divergências entre os Evangelhos está nos dias em que ocorreram os acontecimentos da Paixão de Cristo. Enquanto os três Evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) indicam a Última Ceia na sexta-feira e a morte de Cristo no sábado (no dia da Páscoa dos Judeus), o Evangelho de João coloca a última ceia na quinta-feira, a morte na sexta-feira e a Páscoa no sábado. 

Páscoa Judaica – O calendário judaico é diferente do calendário que usamos atualmente. O primeiro mês é o Nisã (ou Nissan), que começa junto com a primavera (21 de março). A Lei de Moisés (Ex 12,6) mandava que os Judeus comemorassem a Páscoa da seguinte forma: preparassem a Páscoa (imolando um cordeiro) no 14º dia do mês Nisã e, no 15º dia celebrariam a solenidade da Páscoa, observando o estrito repouso. 

Naquele tempo ... – No ano 30, ano da morte de Jesus, o 15º dia de nisã aconteceu num sábado. Portanto, os judeus prepararam o cordeiro na sexta-feira (14º dia de nisã) e, ao anoitecer (que os judeus já consideravam o dia seguinte) comeriam o cordeiro assado com pães ázimos (sem fermento). 

Divergência – Os três Evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) afirmam que a Última Ceia aconteceu no dia da preparação (em que se sacrificava o cordeiro) e a morte de Jesus no dia da Páscoa (Mt 26, 17-20;  Mc 14, 12-17;  e Lc 22, 7-12). No Evangelho de João (Jo 19,14-31) Jesus foi condenado e morreu no dia da preparação da Páscoa.  João explica que, por não terem comido o cordeiro pascal, os judeus não entravam no pretório de Pilatos durante o julgamento, pois o contato com o ambiente pagão os contaminaria (Jo 18, 28) impossibilitando de comer a ceia noturna. 

Portanto ... – Segundo Mateus, Lucas e Marcos, a Última Ceia aconteceu na sexta-feira (14º nisã) e crucificação e morte de Jesus ocorreu no sábado (15º nisã), Páscoa dos judeus; segundo João, a Última Ceia aconteceu na quinta-feira (13º nisã) e crucificação e morte de Jesus ocorreu em 14 nisã, na preparação (véspera) da Páscoa dos judeus. 

Soluções – Ao longo dos séculos aconteceram inúmeras tentativas de conciliar esta contradição dos Evangelhos, sem qualquer solução convincente. 

Calendários – No ano de 1947 foram descobertos os manuscritos de Qumrán, que eram parte de uma biblioteca de uma seita judaica chamada essênios. Dentre os inúmeros livros ali encontrados, dois deles (Livro dos Jubileus e Livro de Henoc) revelavam que, no tempo de Jesus, estavam em uso dois calendários distintos. Um era o calendário solar (ano de 364 dias) em que as festas importantes (ano novo, festa dos Tabernáculos, Páscoa) caíam sempre às quartas-feiras. O outro calendário (ano com 365 dias), mais recente e mais preciso, tinha como característica que o dia da Páscoa podia cair em qualquer dia da semana. 

Duas Páscoas – Portanto, na época de Jesus havia duas datas para a Páscoa: a os judeus mais tradicionais (mais populares), que adotavam o calendário mais antigo e celebravam a Páscoa na quarta-feira (preparavam na terça-feira e comiam após o entardecer), e a dos sacerdotes e classes mais elevadas, que adotavam o novo calendário, em que a festa da Páscoa podia cair em qualquer dia da semana. 

Solução – A solução para a divergência pode ser entendida se considerarmos que Jesus com seus apóstolos celebrou a Última Ceia baseando-se no calendário antigo, na terça-feira à noite, como fazia o povo mais simples. Os Evangelhos sinóticos afirmam que Jesus ceou com os apóstolos no dia da Páscoa (quarta-feira ou terça-feira à noite) porque seguiam o calendário antigo; João diz que Jesus ceou “antes da Páscoa”, portanto, segundo o calendário oficial. 

Última Ceia na terça – Com a nova data, os acontecimentos ficam distribuídos da seguinte forma: Terça: pela noite, Jesus celebra a Páscoa, vai ao Monte das Oliveiras, é preso e levado ao sumo sacerdote; Quarta: pela manhã acontece a primeira sessão do Sinédrio, que escuta os testemunhos e Jesus passa a noite na prisão dos judeus; Quinta: pela manhã, em nova sessão, o Sinédrio condena Jesus à morte, que é levado à Pilatos, que o interroga e lhe envia a Herodes e Jesus passa a noite na prisão dos romanos; Sexta: Pilatos recebe pela segunda vez Jesus, o condena a ser açoitado e crucificado, morrendo às 3 horas da tarde. 

Coerência – A proposta de localização da Última Ceia na terça-feira é bastante coerente, pois distribui todos os acontecimentos que antecederam a morte de Jesus em 3 dias; não haveria tempo hábil para todos estes fatos acontecerem na madrugada e manhã da sexta-feira (como no Evangelho de João). Seria impossível acontecerem no dia da Páscoa (como nos sinóticos), pois a tradição judaica proibia para este dia: carregar armas e encarcerar um réu (Mt 26, 47); acender fogo (Lc 22, 55); caminhar do campo para a cidade (Mc 15, 21); carregar uma cruz; executar uma sentença capital; comprar uma mortalha (Mc 15, 46); preparar aromas (Lc 23, 56). 

Liturgia – A Igreja Católica sempre seguiu o Evangelho de João, comemorando a Última Ceia na quinta-feira santa. Estes ritos fazem parte da liturgia, que tem uma finalidade mais pedagógica do que histórica. Assim como celebramos o nascimento de Jesus em 25 de dezembro (sabendo que não é uma data histórica), podemos seguir celebrando a Última Ceia na quinta-feira, pois o objetivo é obter um benefício espiritual.

sábado, 23 de março de 2013

Com Pedro ou com Judas


Neste domingo a Igreja comemora a Festa de Ramos. Reproduzimos aqui o comentário do Padre Raniero Cantalamessa OFM, pregador da Casa Pontifícia do Vaticano sobre o Evangelho deste domingo. 

Traição – O Domingo de Ramos é a única ocasião, em todo o ano, em que se escuta por inteiro o relato evangélico da Paixão. O que mais impressiona, lendo a paixão segundo Marcos, é a relevância que se dá à traição de Pedro. Primeiro é anunciada por Jesus na Última Ceia; depois se descreve em todo seu humilhante desenvolvimento. 

Confissão – Esta insistência é significativa, porque Marcos era uma espécie de secretário de Pedro e escreveu seu Evangelho unindo as recordações e as informações que lhe chegavam precisamente dele. Foi, portanto, o próprio Pedro quem divulgou a história de sua traição. Fez uma espécie de confissão pública. Na alegria do perdão encontrado, a Pedro não importou nada seu bom nome e sua reputação como líder dos apóstolos. Quis que nenhum dos que, posteriormente, caísse como ele, ficasse desesperado. 

Judas e Pedro – É necessário ler a história da negação de Pedro paralelamente à da traição de Judas. Também esta é pré-anunciada por Cristo no cenáculo, depois consumada no Horto das Oliveiras. De Pedro lê-se que Jesus voltou-se e “olhou” para ele (Lc 22, 61); com Judas fez mais ainda: beijou-o. Mas o resultado foi bem diferente. Pedro, “saindo, rompeu a chorar amargamente”; Judas, saindo, foi enforcar-se. 

Judas ou Pedro – Estas duas histórias não estão fechadas; prosseguem, afetam-nos de perto. Quantas vezes temos de dizer que fizemos como Pedro! Nós nos vimos na situação de dar testemunho de nossas convicções cristãs e preferimos nos fechar para não correr perigos, para não nos expormos. Dissemos, com os fatos ou com nosso silêncio: “Não conheço esse Jesus de quem vós falais”. 

Judas – Igualmente a história de Judas, pensando bem, não nos é alheia. O padre Primo Mazzolari teve uma pregação famosa uma Sexta-Feira Santa sobre “nosso irmão Judas”, fazendo ver como cada um de nós poderia ter estado em seu lugar. Judas vendeu Jesus por trinta denários, e quem pode dizer que não o traímos, às vezes até por muito menos? Traições, ao certo menos trágicas que a sua, mas, agravadas pelo fato de que nós sabemos, melhor que Judas, quem é Jesus. 

Duas histórias – Precisamente porque as duas histórias nos afetam de perto, devemos ver o que é que marca a diferença entre uma e outra: por que as duas histórias, de Pedro e de Judas, acabam de modo tão diferente? Pedro arrependeu-se do que havia feito, mas Judas também teve remorsos, tanto que gritou: “Traí sangue inocente!”, e devolveu os trinta denários. Onde está então a diferença? Só em uma coisa: Pedro teve confiança na misericórdia de Cristo, Judas não! 

Ladrões – No Calvário, de novo, ocorre o mesmo. Os dois ladrões pecaram igualmente e estão manchados de crimes. Mas um maldiz, insulta e morre desesperado; o outro grita: “Jesus, lembra-te de mim quando estiveres em teu reino”, e ouve como resposta: “Eu te asseguro: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). 

Páscoa – Viver a Páscoa significa viver uma experiência pessoal da misericórdia de Deus em Cristo. Uma vez uma criança, à qual havia sido relatada a história de Judas, disse com o candor e a sabedoria das crianças: “Judas equivocou-se de árvore para enforcar-se: elegeu uma figueira”. “E o que deveria ter elegido?”, perguntou-lhe surpresa a catequista. “Devia ter-se colocado no colo de Jesus!”. Tinha razão: se tivesse se colocado no colo de Jesus para pedir-lhe perdão, hoje seria honrado como é São Pedro.

sábado, 16 de março de 2013

Houve cataclismos no dia em que morreu Jesus?


Conforme a Bíblia, coisas estranhas aconteceram na longínqua sexta-feira, 7 de abril do ano 30, que os cristãos chamam de Sexta-feira Santa.  

Condenação – O governador da Judéia, Pôncio Pilatos, acabava de autorizar a morte de Jesus sob uma tríplice acusação política: era um agitador social, incitava o povo a não pagar impostos ao Imperador e havia se autoproclamado rei (Lc 23,2). O castigo era a crucifixão, um dos mais comuns da época. 

Execução – Por volta das nove horas da manhã (Mc 15,25), o pelotão de soldados romanos partiu do palácio do governador até uma colina próxima, onde executou a sentença. E esperou ao pé da cruz a morte do condenado.  

Cataclismos – Mas, de repente, aconteceu o inesperado: “Desde o meio-dia até às três da tarde toda a Terra ficou coberta de escuridão” (Mt 27,45). Na Palestina, ver o Sol ardente do meio-dia obscurecer-se, deve ter sido um espetáculo impressionante. Mas isso não foi tudo. São Mateus conta que lá pelas três da tarde Jesus deu um forte grito e expirou. E então “eis que o véu do Templo se rasgou de alto a baixo em duas partes, a terra tremeu e fenderam-se as rochas. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos ressuscitaram e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição de Jesus, vieram à cidade santa e apareceram a muitos” (Mt 27,51-53).  

Cinco fenômenos – Segundo Mateus (27,51-53), no dia em que Jesus morreu aconteceram cinco prodígios: trevas ao meio-dia, tremor de terra, rochas que se partiram, tumbas que se abriram, corpos de santos falecidos que se levantaram e apareceram a muitos. É possível explicar isso? 

A escuridão – Uns 750 anos antes do nascimento de Jesus, o profeta Amós vivia na cidade de Samaria, capital do reino de Israel. Enormes injustiças e um contraste brutal entre ricos e pobres afligia o povo. Amós anunciava uma mensagem da intervenção de Deus: “Acontecerá naquele dia que farei o sol declinar em pleno meio-dia e escurecerei a terra em um dia de luz” (Am 8,9). O povo, então, começou a aguardar a chegada deste novo amanhecer, o dia em que Deus livraria todo o povo de sua dor e de suas injustiças. Começou a memorizar o sinal e a suspirar por este dia e passou a chamá-lo de “o dia de Javé”. 

O terremoto – Poucos anos mais tarde apareceu outro grande profeta, cujo nome era Isaías. A ele coube viver numa época muito difícil do reino de Judá. E foi lá pelo ano 740 a.C., que pronunciou um célebre sermão, proclamando a chegada do “dia de Javé” (Is 2,6-22). E três vezes repete este mesmo sinal (terremotos) em seu discurso (Is 2,10.19.21) para que o povo não se esqueça. O povo viu renascer novamente sua esperança no dia da manifestação de Deus. 

As rochas – Em 587 a.C., o povo de Israel foi levado cativo para a Babilônia onde permaneceu durante 50 anos. Ao regressar, surgiu o profeta Zacarias (300 a.C.), que falou sobre a necessidade de purificar o povo. Em uma de suas últimas predições (Zc 14,1-21), afirma que o “dia de Javé” não está muito longe. Nesse dia as rochas se fenderão, especialmente as do Monte das Oliveiras, localizado defronte a Jerusalém (Zc 14,4). Assim Zacarias predisse o terceiro sinal do dia de Javé. 

As tumbas – Três séculos antes (592 a.C.), muitos quilômetros dali, na Babilônia, surgia o profeta Ezequiel. O seu anúncio consistia na chegada de uma nova época para o mundo todo. Ezequiel faz um anúncio impressionante da chegada daquele dia de Javé: “Assim diz o Senhor Deus: ó meu povo, vou abrir vossas sepulturas! Eu vos farei sair de vossas sepulturas e vos conduzirei para a terra de Israel” (Ez 37,12). Acrescenta assim um quarto sinal aos três já dados pelos profetas anteriores sobre o “dia de Javé”.  

Os mortos – Faltava um último sinal, aquele dado pelo livro de Daniel. Esta obra foi provavelmente escrita por volta do ano 167 a.C., num momento muito difícil para os judeus. Daniel dá um sinal sobre aqueles santos que morreram dolorosamente na perseguição: “Muitos que dormem na terra poeirenta despertarão” (Dn 12,2). É a primeira vez que na Bíblia se anuncia a ressurreição dos mortos. Podemos imaginar o impacto que isso produziu entre os judeus, que fixaram para sempre a lembrança do fato como sinal da chegada do “dia de Javé”.
 
Sinais – Vemos, pois, como os profetas do Antigo Testamento foram dando esses cinco sinais indicadores que serviriam para conhecer a chegada de um dia muito especial, o “dia de Javé”. Na verdade tratava-se de uma linguagem simbólica. Queriam dar a entender que haveria mudanças muito notáveis na história. Mateus, quando descreve os cinco fenômenos que acompanham a paixão de Cristo, não pretendia relatar fatos realmente acontecidos. Simplesmente se propôs a afirmar uma verdade teológica, mediante imagens tomadas dos profetas do Antigo Testamento. Estamos, pois, diante de um relato simbólico que é preciso interpretar corretamente e não entender literalmente. Com sua descrição, pretendeu evocar o “fim do mundo” ou, pelo menos, o “fim de um mundo”. Com a morte de Jesus iniciou-se uma nova era na humanidade, o novo tempo da salvação.