sábado, 28 de fevereiro de 2015

Qual a distância que Jesus carregou a cruz?


Na leitura da Paixão de Cristo, todos os cristãos ficam impressionados com o sofrimento de Jesus ao carregar a cruz. Vamos detalhar o que aconteceu.

Condenação – Jesus foi condenado à morte por crucificação pelo Tribunal Romano, na Fortaleza Antônia, próxima ao Templo. Para iniciar a caminhada até o monte Gólgota (ou monte Calvário), a chamada “Via Crucis”, os três condenados (Jesus e os dois ladrões) foram preparados para carregar as cruzes.

A cruz – A Cruz é um antigo instrumento bárbaro de suplício, usado por vários povos para executar os condenados a morte. Era constituída de duas partes: uma haste vertical de aproximadamente 3,5 metros de comprimento, denominada “estipe”, que era cravada a um metro de profundidade no local da crucificação. A parte horizontal da cruz, uma haste chamada “patíbulo”, tinha cerca de 2,20 metros de comprimento e pesava aproximadamente 35 quilos. Os condenados transportavam somente o patíbulo nas costas, o que causava graves ferimentos na nuca, e as estipes ficavam fixadas no monte Calvário, aguardando a chegada dos condenados. Portanto, não são reais as representações artísticas de Jesus carregando as duas partes da cruz (estipe e patíbulo).

Crucificação – Chegando no monte Calvário, colocavam o "patíbulo" no chão e deitavam o réu sobre ele, fixando os seus pulsos. A seguir, com forquilhas de madeira, levantavam o patíbulo (com o crucificado), fixando-o no estipe. Cabe lembrar que nenhum dos quatro Evangelhos menciona que Jesus tenha sido fixado na cruz com pregos (ou cravos). O mais comum no Império Romano era amarrar os pés e as mãos do crucificado com cordas. A indicação de que Jesus teria sido pregado na cruz vem da descrição da aparição de Jesus aos apóstolos (Jo 20,25), quando se fala em sinais deixados pelos pregos.

Tipos de cruzes – Havia vários tipos de cruzes para a crucificação. A mais usada era a “cruz comissa” (crux commissa), em que o patíbulo era colocado sobre a estipe, formando um “T”. Na crucificação de Jesus foi usada a cruz imissa (crux immissa), em que uma parte da estipe fica acima do patíbulo, onde havia espaço para uma inscrição (Mt 27.37).

Via crucis A cidade de Jerusalém foi destruída durante a Guerra Judaica (66 a 73 d.C.). Na atualidade, é muito difícil estabelecer um trajeto preciso, por onde Jesus passou com a cruz, até o monte Calvário. O traçado das ruas é bastante diferente da época da ocupação Romana de Jerusalém. Se considerarmos que Jesus saiu da Fortaleza Antônia, passou pelo portão de Damasco para chegar ao Calvário, hoje, a distância seria de 595 metros. Alguns autores fixam esta distância, no tempo de Jesus, entre 500 e 600 metros.

Não é bem assim – Mas Jesus não carregou a cruz em todo o percurso. De acordo com os Evangelhos Sinóticos, Simão de Cirene foi obrigado pelos soldados romanos a carregar a cruz de Jesus Cristo até o Gólgota (Mt 27, 32; Mc 15, 22; Lc 23, 26). O Evangelho de João nega o episódio, dando ênfase à ideia de que Jesus teria carregado a cruz sozinho até o monte. De acordo com os evangelistas Marcos e Lucas, Simão era oriundo de Cirene, cidade do Norte de África (atual Líbia), distante 1.200 km de Jerusalém. Simão era pai de Alexandre e Rufo (Marcos 15, 21), sendo representado como um negro ao ser identificado com o Simão de At 13,1. Rufo teria seguido os apóstolos, sendo citado por Paulo em Rom 16,13. Alexandre teria repudiado a pregação do Evangelho (1Tim 1,19-20; 2Tim 4,14).

Quantos metros? – Como não sabemos em que ponto do trajeto houve o encontro com Simão, vamos supor que Jesus carregou a cruz até o portão de Damasco. Neste local, onde havia uma maior concentração de pessoas, Jesus caiu pela segunda vez, fazendo parar o cortejo. Neste ponto, os soldados convocaram a ajuda de Simão (Cirineu). Com esta suposição, Jesus teria carregado a cruz entre 400 e 450 metros, deixando o restante do percurso até o Calvário (150 a 200 metros) para Simão.

Quer saber mais – Se você gostou do assunto e quer saber mais, podemos lhe oferecer mapas da cidade de Jerusalém no tempo de Jesus, com os possíveis trajetos da “Via Crucis”. Solicite por E-mail.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

O GALO QUE CANTOU APÓS AS NEGAÇÕES DE PEDRO ERA UMA AVE?


Estamos na Quaresma, e daqui a cinco semanas estaremos lendo a Paixão de Cristo. Todos devem se lembrar que, após a terceira negação de Pedro o galo cantou: ‘“Homem, não sei de que estás falando!’ E, enquanto ainda falava, o galo cantou” Lc 22,60). Como isto pode ter acontecido, se os judeus eram proibidos de criar galos nas cidades?

Pedro? – Na leitura da Paixão, uma das frases mais surpreendentes de Jesus é o anúncio das negações de Pedro: “Pedro, eu te digo que hoje, antes que o galo cante, três vezes negarás que me conheces” (Lc 22,34). Como poderia isso acontecer? Ainda mais com Pedro, o apóstolo mais próximo de Jesus e o homem que mais demonstrou a sua fé no Messias (Mt 16,16 - “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”). Mas, com certeza, as negações de Pedro aconteceram, pois são relatadas nos quatro Evangelhos: nos sinóticos em Mt 26,34, 69-75; em Mc 14,30, 66-72; e em Lc 22,34, 54-62 como também Evangelho de João (Jo 13,38; 18,15-18).

Onde foi? – Uma pergunta importante para esta história é “onde ocorreram as negações de Pedro?”. A resposta é detalhada nos Evangelhos (Mateus 26,57; Marcos 14,53; Lucas 22,54): após a Última Ceia, Jesus foi para uma propriedade chamada Getsêmani, onde foi preso e levado para a casa do Sumo Sacerdote Anás. A casa do Sumo Sacerdote estava no centro de Jerusalém, próxima à Fortaleza Antonia (onde estava Pilatos) e ao Templo. Pedro acompanhou Jesus. Enquanto Jesus era interrogado no interior da casa, Pedro ficou no pátio, junto com os soldados.

Galos em Jerusalém? – Um fato intrigante complica esta história. A Mishná (texto da tradição oral judaica, considerada a obra mais importante do judaísmo rabínico, é chamada de Torá Oral) é bem clara: os judeus não podem criar galos em Jerusalém por causa das Coisas Santas, nem os sacerdotes podem criá-los em qualquer lugar na Terra de Israel. O tratado Baba Kama (primeiro de uma série de três tratados talmúdicos, que lidam com matéria civil, tais como danos e delitos) também proíbe a criação de qualquer tipo de galináceo nas cidades.

Questão – Como poderia um galo ter cantado, se Pedro estava com Jesus na casa de Anás, no centro de Jerusalém onde, certamente, não haveria um galinheiro? Sendo assim, será que houve um “galo” que literalmente, “cantou” no contexto da negação de Pedro?

Solução – A resposta está no Evangelho de Marcos (Mc 13, 35-36): “Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o senhor da casa voltará: à tarde, à meia-noite, ao canto do galo, ou de manhã, para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo”. Para entender isso, é importante ter em conta que os romanos dividiam os dias em períodos de três em três horas. Lembrem que Jesus foi crucificado na sexta hora (meio dia) e morreu na nona hora (três horas da tarde).

Vigília – À noite, os períodos de três horas eram chamados de vigílias. Essas vigílias, por sua vez, demarcavam períodos de três horas, nos quais funcionava cada turno do serviço de guarda. A primeira vigília da noite começava às 18h00 e ia até às 21h00; a segunda vigília começava às 21h00 e ia até à meia-noite; a terceira vigília começava à meia-noite e ia até às 3h00 da madrugada; e a quarta vigília ia das 3h00 da madrugada até às 6h00 da manhã. Cada período era marcado pelo toque da trombeta.

Apelidos – Acontece que os judeus se expressavam de forma abreviada quando se referiam a essas vigílias da noite. Assim (como em Mc 13,35), a palavra “tarde” se referia ao fim da primeira vigília (21h00); “meia-noite” indicava o fim da segunda vigília; “Canto do galo” era o termo usado por eles para o fim da terceira vigília (3h00); e “de manhã” era o modo como se referiam ao fim da quarta vigília (6h00).

Não era uma ave – Quando Jesus diz, em Lc 22,34, “Pedro, eu te digo que hoje, antes que o galo cante, três vezes negarás que me conheces”, ele estava fazendo menção ao fim da terceira vigília. Seria o mesmo de dizer: “Pedro, eu te digo que hoje, antes das três horas da madrugada, três vezes negarás que me conheces”. Portanto, este “cantar do galo” não era uma referência ao som emitido pela ave “galo”, mas sim uma alusão ao toque da trombeta, conhecido em latim como gallicinium.


Quer ler mais – Se você gostou do assunto e quer conhecer detalhes sobre o “canto do galo”, podemos lhe enviar um estudo completo (19 páginas em português). Solicite por E-mail.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

As “novas lepras” da sociedade



Nas leituras das missas deste domingo, Jesus cura um leproso. Para refletir sobre estes textos vamos transcrever o comentário do padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia do Vaticano.

Terror – Nas leituras das missas deste domingo ressoa várias vezes a palavra que, só de ouvi-la pronunciar, suscitou por milênios angustia e pavor: lepra! Dois fatores alheios contribuíram a acrescentar o terror frente a esta enfermidade, até fazer dela o símbolo da máxima desventura que pode tocar uma criatura humana e isolar os pobres infelizes das formas mais desumanas. O primeiro era a convicção de que esta enfermidade era tão contagiosa que infectava qualquer um que tivesse estado em contato com o enfermo; o segundo, igualmente carente de todo fundamento, era que a lepra era um castigo pelo pecado.

Follereau – Quem contribuiu mais que ninguém para que mudasse a atitude e a legislação com respeito aos leprosos foi Raoul Follereau (escritor, jornalista e poeta francês, que dedicou toda sua vida a combater a enfermidade de Hansen). Instituiu em 1954 a Jornada Mundial da Lepra, promoveu congressos científicos e finalmente, em 1975, conseguiu que se revogasse a legislação sobre a segregação dos leprosos.

Lei judaica – Acerca do fenômeno da lepra, as leituras deste domingo nos permitem conhecer a atitude primeiro da Lei mosaica e depois do Evangelho de Cristo. Na primeira leitura, do Levítico se diz que a pessoa da que se suspeite que padece de lepra deve ser levada ao sacerdote, o qual, verificando-a, a “declarará impura”. O pobre leproso, expulso do convívio humano, deve manter afastadas as pessoas, advertindo-as de longe do perigo. A única preocupação da sociedade é proteger a si mesma.

Evangelho – Vejamos agora como se comporta Jesus no Evangelho: “Aproximou-se de um leproso suplicante: ‘Se queres podes purificar-me’. Compadecido dele, estendeu sua mão, tocou-o e lhe disse: ‘Quero; sê purificado’. E no mesmo instante desapareceu a lepra e ficou purificado”.

Jesus – não tem medo do contágio; permite ao leproso que chegue até Ele e se jogue de joelhos. Mais ainda: em uma época na qual se considerava que a mera proximidade de um leproso contagiava, Ele “estendeu sua mão e o tocou”. Não devemos pensar que tudo isto fosse espontâneo e não contava nada a Jesus. Como homem, Ele compartilhava, nisto como em tantos outros pontos, as convicções de seu tempo e da sociedade na qual vivia. Mas a compaixão pelo leproso é mais forte n’Ele que o medo da lepra.

Cura – Jesus pronunciou nesta circunstância uma frase simples e sublime: “Quero; sê purificado”. “Se queres, podes”, havia dito o leproso, manifestando assim sua fé no poder de Cristo. Jesus demonstra poder fazê-lo, fazendo-o.

Novas lepras – Esta comparação entre a Lei mosaica e o Evangelho no caso da lepra nos obriga a propor-nos a pergunta: em qual das duas atitudes me inspiro? É verdade que a lepra já não é a enfermidade que produz mais temor (ainda que existam milhões de leprosos no mundo), que é possível, se se chega a tempo, curar-se completamente dela, e na maioria dos países já foi vencida do todo; mas outras enfermidades ocuparam seu lugar. Fala-se desde há tempos de “novas lepras”. Com estes termos não se entendem tanto as enfermidades incuráveis de hoje (Aids e dependência de drogas) das quais a sociedade se defende (como com a lepra), isolando o enfermo e rejeitando-o à margem dela mesma.

Conversão – O que Raoul Follereau sugeriu fazer para com os leprosos tradicionais, e que tanto contribuiu a aliviar seu isolamento e sofrimento, dever-se-á fazer (e graças a Deus muitos o fazem) com os novos leprosos. Com frequência um gesto assim, especialmente se se realiza tendo de vencer a si mesmo, marca o início de uma verdadeira conversão para quem o faz. O caso mais célebre é o de Francisco de Assis, que remonta ao encontro com um leproso o começo de sua nova vida.


Quer ler mais – Se você quer conhecer, em detalhes, a história do encontro de São Francisco de Assis com o leproso, solicite por E-mail, que lhe enviaremos gratuitamente.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A casa de Pedro




No Evangelho das missas deste domingo (Mc 1, 29-39) Jesus está na cidade de Cafarnaum e cura a sogra de Pedro. Lembramos que Jesus deixou a sua cidade natal, Nazaré (situada a 34 km a sudoeste), e instalou-se em Cafarnaum (Mt 4,13). Simão, o pescador, lhe emprestou a sua casa e, desde então, a vila se tornou o centro de suas atividades. Ao receber Jesus, Cafarnaum passou a ser a capital do anúncio evangélico, passando a ser conhecida como “Cidade de Jesus” (Mt 9,1). Jesus viveu ali durante o tempo de sua pregação, entre os anos 27 e 30.

Jesus – Lembramos que Jesus nasceu na cidade de Belém, na Judéia (no ano 7 a.C.), foi criado em Nazaré (por isso foi chamado de Jesus de Nazaré ou Nazareno) e, no ano 27 d.C., com 33 anos de idade, foi morar em Cafarnaum, que se tornou a sede de sua pregação. Jesus morreu crucificado na sexta-feira, 7 de abril do ano 30 (com 36 anos), e ressuscitou no domingo, 9 de abril.

Ruas – Cafarnaum situava-se na margem do lago de Genesaré (ou Mar da Galiléia). Tinha uns 300 metros de leste a oeste e uns 200 metros de norte a sul, com uma população estimada entre 800 e 900 pessoas. Tinha uma planta harmoniosa e ordenada, com ruas formando quarteirões e conjuntos de casas. No desenho acima podemos ver as ruínas da cidade de Cafarnaum, com as ruas, a casa de Pedro e a sinagoga (lembrem-se do Evangelho da semana passada, quando Jesus estava na sinagoga).

Pedro – A casa de Simão Pedro estava situada em um dos quarteirões, nas imediações do lago. Em Cafarnaum não existiam casas individuais, mas habitações de famílias ou coletivas: as habitações, construídas em pedra, agrupavam-se ao redor de um único pátio, para várias famílias. As diversas habitações não tinham porta para a rua, permanecendo sempre abertas para o pátio. Uma única porta comunicava a rua ao pátio. No pátio se amassava e assava o pão, em fornos coletivos; as mulheres moíam o trigo e os artesãos faziam seus trabalhos manuais.

A casa – O pátio da casa de Pedro tinha aproximadamente 84 m2, totalizando sete habitações. Conforme Marcos (1, 29), na casa moravam Simão (Pedro) e seu irmão André. Devemos considerar que todos tinham mulheres e filhos, além da sogra de Pedro, que podia ter marido e outros membros da família. No Evangelho deste domingo, Jesus saiu da sinagoga e, ao chegar na “casa coletiva”, lhe informaram que a sogra de Pedro estava com febre. Jesus entrou no pátio e se encaminhou para a casa onde estava a sogra de Pedro. Levantou-a pela mão, curando-a. Mais tarde, curou doentes na porta da casa.

Sinagoga – Perto da casa de Pedro havia uma sinagoga, tantas vezes visitada por Jesus. Tinha 22 m de largura por 16 m de comprimento. Sabemos, pelo Evangelho de São Lucas, que foi construída por um centurião romano, cujo criado foi curado por Jesus. O Evangelho diz que, quando o militar enviou um grupo de judeus para implorar seu milagre, estes lhe disseram: “Ele merece este favor, porque ama o nosso povo. Ele até construiu uma sinagoga para nós.” (Lc 7,5).


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sábado, 31 de janeiro de 2015

Um ensinamento novo


No evangelho deste domingo, Marcos (1,21-28) descreve a entrada de Jesus em uma sinagoga, em Cafarnaum, pondo-se a ensinar. Em sua narrativa, o evangelista descreve o conflito de Jesus com o rígido sistema religioso judaico e sua severa repreensão ao espírito impuro com o qual se defronta. Na conclusão, fica em destaque o ensinamento novo de Jesus, que vem subjugar os espíritos impuros.

Descoberta – A primeira parte do Evangelho escrito por Marcos tem como objetivo fundamental levar o leitor a descobrir Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso, os leitores são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar suas palavras e a aderir à sua proposta de salvação/libertação. Este percurso de descoberta do Messias termina em Mc 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro: “Tu és o Messias”.

Encontro libertador – O texto que nos é proposto neste final de semana aparece, exatamente, no princípio dessa caminhada de encontro com o Messias e com o seu anúncio de salvação. Já rodeado pelos primeiros discípulos, Jesus começa a revelar-Se como o Messias-libertador, que está no meio dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação.

Local – O Evangelho situa-nos em Cafarnaum (em hebraico Kfar Nahum, a “aldeia de Naum”), a cidade situada na costa noroeste do Lago Kineret (o Mar da Galileia). De acordo com os Evangelhos Sinópticos, é aí que Jesus se vai instalar durante o tempo do seu ministério na Galileia. Vários dos discípulos – Simão e seu irmão André, Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João – viviam em Cafarnaum.

A cena – É um sábado. A comunidade está reunida na sinagoga de Cafarnaum para a liturgia do dia. Jesus, recém-chegado à cidade, entra na sinagoga – como qualquer bom judeu – para participar na liturgia sabática. A celebração comunitária começava, normalmente, com a “profissão de fé” (Dt 6,4-9), a que se seguiam orações, cânticos e duas leituras: a primeira, escolhida da Torah (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento) e a segunda, de um dos livros dos Profetas; depois, vinha o comentário às Leituras e as bênçãos.

Comentarista – É provável que Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas. Fez as reflexões sobre o texto de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam habituadas a ouvir dos “escribas” (os estudiosos das Escrituras). As pessoas ficaram maravilhadas com as palavras de Jesus, “porque ensinava com autoridade e não como os escribas”. A referência à autoridade das palavras de Jesus pretende sugerir que Ele vem de Deus e traz uma proposta que tem a marca de Deus.

Autoridade – A “autoridade”, que se revela nas palavras de Jesus manifesta-se também, em ações. Na sequência das palavras ditas por Jesus e que transmitem aos ouvintes um sinal inegável da presença de Deus, aparece em cena “um homem com um espírito impuro”.

Impuros – Os judeus estavam convencidos que todas as doenças eram provocadas por “espíritos maus” que se apropriavam dos homens. As pessoas afetadas por esses males deixavam de cumprir a Lei e ficavam numa situação de “impureza” (afastadas de Deus). Acreditava-se que esses “espíritos maus” tinham um poder absoluto, que os homens não podiam derrotar; somente Deus, com o seu poder e autoridade absolutos, era capaz de vencer os “espíritos maus” e devolver a vida aos homens.

Libertação – Numa encenação com um singular poder evocador, Marcos põe o “espírito mau” que domina “um homem” presente na sinagoga, a interpelar violentamente Jesus. A ação da cura do homem “com um espírito impuro” constitui “a prova” de que Jesus traz uma proposta de libertação que vem de Deus; pela ação de Jesus, Deus vem ao encontro do homem para salvá-lo de tudo aquilo que o impede de ter vida em plenitude.


Ensinamento novo – É um ensinamento novo, que liberta e gera esperança e alegria entre todos. É a novidade do anúncio, com a proposta de conversão de vida, abandonando uma religião estéril para aderir a uma prática do amor transformante das relações humanas, no desapego, na fraternidade, na justiça e na paz. 

sábado, 24 de janeiro de 2015

A Profecia de Jonas


Na primeira leitura das missa deste domingo, é apresentada a Profecia de Jonas (Jn 3,1-5,10).

O texto - Jonas é enviado por Deus para ir a cidade de Nínive, capital da Assíria. A sua missão era pregar a mensagem de Javé. Durante a viagem acontece um violenta tempestade, que só acaba quando Jonas é lançado ao mar. Ele é engolido por um “grande peixe” (Jonas 1,17) permanecendo três dias e três noites no estômago do peixe. Sentindo como se estivesse sepultado e, nesta situação, arrependido, reconsidera a sua decisão. É vomitado pelo "grande peixe" numa praia e segue rumo para Nínive.

O Livro de Jonas – Este texto foi escrito na segunda metade do séc. V a.C. (talvez entre 440 e 410 a.C.). É uma história bonita e edificante, mas não é real. Trata-se de um texto que poderíamos classificar no gênero “ficção didática”. Dito de outra forma: o livro de Jonas não é uma coleção de oráculos proféticos proferidos por um homem chamado Jonas, nem sequer um relato de caráter histórico; mas é uma obra de ficção, escrita com a finalidade de ensinar e educar.

Povo de Deus – Estamos numa época em que a política de Esdras e Neemias favorecia o nacionalismo e o fechamento do Povo de Deus aos outros povos. Por um lado, sublinhava-se o fato de Judá ser o Povo Eleito de Deus, o povo preferido de Deus, um povo diferente de todos os outros; por outro, considerava-se que todos os outros povos eram inimigos de Deus, odiados por Deus, que deviam ser inapelavelmente condenados e destruídos por Deus.

Deus universal – Reagindo contra a ideologia dominante, o autor do “Livro de Jonas” apresenta Javé como um Deus universal, cuja bondade e misericórdia se estendem a todos os povos, sem exceção. A escolha de Nínive como a cidade destinatária da ação salvadora de Deus não é casual: Nínive, capital do império assírio, tinha ficado na consciência dos habitantes de Judá como símbolo do imperialismo e da mais cruel agressividade contra o Povo de Deus (Is 10,5-15; Sof 2,13-15).

Convite – É precisamente esta cidade que Javé quer salvar. Por isso, chama Jonas e convida-o a ir a Nínive pregar a conversão. No entanto, Jonas, como os outros seus contemporâneos, não está interessado em que Javé perdoe aos opressores do Povo de Deus e recusa-se a cumprir o mandato divino. Em lugar de se dirigir para Nínive, no Oriente, toma o barco para Társis, no Ocidente. Na sequência de uma tempestade, Jonas é atirado ao mar e engolido por um peixe. Mais tarde, o peixe vai depositá-lo em terra firme. Jonas é, de novo, chamado por Deus para a missão em Nínive.

O nosso texto – A primeira leitura deste domingo começa com Jonas recebendo o segundo mandato de Javé para ir a Nínive. Desta vez, Jonas aceita a missão, vai a Nínive e anuncia aos ninivitas a destruição da sua cidade. Contra todas as expectativas, os ninivitas escutam-no, fazem penitência e manifestam a sua vontade de conversão. Finalmente, Deus desiste do castigo.

1ª Lição – É a da universalidade do amor de Deus. Deus ama todos os homens, sem exceção, e sobre todos quer derramar a sua bondade e a sua misericórdia. Mais: Deus ama até mesmo os maus, os injustos e opressores e a eles oferece a possibilidade de salvação. Deus não ama o pecado, mas ama os pecadores. Ele não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva.

2ª Lição – É a resposta dada pelos ninivitas ao desafio de Deus. Ao descrever a forma imediata e radical como os ninivitas “acreditaram em Deus” e se converteram “do seu mau caminho”, o autor sugere que os pagãos são capazes de estar mais atentos aos desafios de Deus do que o próprio Povo eleito. Desta forma, o autor desta história denuncia uma certa visão nacionalista que estava em moda na sua época entre os seus contemporâneos. Desafia o seu Povo a aceitar que Javé seja um Deus misericordioso, que oferece o seu amor e a sua salvação a todos os homens, até aos maus. Desafia, ainda, os habitantes de Judá a assumirem a mesma lógica de Deus – lógica de bondade, de misericórdia, de perdão, de amor sem limites – e a não verem, nos outros homens, inimigos que merecem ser destruídos, mas irmãos que é preciso amar.


CURIOSIDADE: O texto da Profecia de Jonas diz que Jonas foi engolido por um grande peixe. A história que se tratava de uma baleia, apareceu no Evangelho de Mateus (Mt 12,40), escrito 500 anos depois.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Quem é Jesus?


No Evangelho das missas deste domingo (Jo 1,29-34) João Batista vê Jesus e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. E dá o testemunho: “Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele. Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”.

Questão – O texto que nos é proposto integra a seção introdutória do Quarto Evangelho (Jo 1,19-3,36). Aí o autor, com consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”

Testemunho – João Baptista, o profeta/precursor do Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim da do texto – Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos homens. Ao não assinalar-se o auditório, sugere-se que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.

Apresentador – João é o apresentador oficial de Jesus. A catequese sobre Jesus que aqui é feita se expressa através de duas afirmações com um profundo impacto teológico: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito.

Cordeiro – A primeira afirmação (“o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”) evoca duas imagens tradicionais extremamente sugestivas. Por um lado, evoca a imagem do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação (Is 52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus em favor de Israel (Ex 12,1-28). Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada à libertação dos homens.

Pecado – A ideia é explicitada pela definição da missão de Jesus: Ele veio para tirar (“eliminar”) “o pecado do mundo”. A palavra “pecado” aparece, aqui, no singular: não designa os “pecados” dos homens, mas um “pecado” único que oprime a humanidade inteira; esse “pecado” parece ter a ver, no contexto desta catequese, com a recusa da proposta de vida com que Deus, desde sempre, quis presentear a humanidade (é dessa recusa que resulta o pecado histórico, que oprime os homens). O “mundo” designa, neste contexto, a humanidade que resiste à salvação. Deus propôs-se tirar a humanidade da situação de escravidão em que se encontra; enviou ao mundo Jesus, com a missão de realizar um novo êxodo, que leve os homens da terra da escravidão para a terra da liberdade.

Filho de Deus – A segunda afirmação (o “Filho de Deus” que possui a plenitude do Espírito Santo e que batiza no Espírito – Jo 1,32-34) completa a anterior. Há aqui vários elementos bem sugestivos: o “cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a plenitude do Espírito; e tem por missão batizar os homens no Espírito.

Fez-se carne – Dizer que Jesus é o Filho de Deus é dizer que Ele é o Deus que se faz pessoa, que vem ao encontro dos homens, que monta a sua tenda no meio dos homens, a fim de lhes oferecer a plenitude da vida divina. A sua missão consiste em eliminar “o pecado” que torna o homem escravo e que o impede de abrir o coração a Deus.

Messias – Dizer que o Espírito desce sobre Jesus e permanece sobre Ele sugere que Jesus possui definitivamente a plenitude da vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o seu amor. Por outro lado, a descida do Espírito sobre Jesus é a sua investidura messiânica, a sua unção (“messias” = “ungido”).

Batismo – Jesus é, finalmente, aquele que batiza no Espírito Santo. O verbo “batizar” aqui utilizado tem, em grego, duas traduções: “submergir” e “embeber (como a chuva ensopa a terra)”; refere-se, em qualquer caso, a um contato total entre a água e o sujeito. “Batizar no Espírito” significa, portanto, um contacto total entre o Espírito e o homem, uma chuva de Espírito que cai sobre o homem e lhe ensopa o coração. A missão de Jesus consiste, portanto, em derramar o Espírito sobre o homem; e o homem que adere a Jesus, “embebido” do Espírito e transformado por essa fonte de vida que é o Espírito, abandona a experiência da escuridão (“o pecado”) e alcança o seu pleno desenvolvimento, a plenitude da vida.


Convite – A declaração de João convida os homens de todas as épocas a voltarem-se para Jesus e acolherem a proposta libertadora que, em nome de Deus, Ele faz: só a partir do encontro com Jesus será possível chegar à vida plena, à meta final do Homem Novo.