sexta-feira, 15 de maio de 2020

A EXPANSÃO CRISTÃ: FILIPE NA SAMARIA




A Primeira Leitura das missas deste domingo (Atos 8) descreve Filipe pregando em uma cidade da Samaria. Quando os Apóstolos que estavam em Jerusalém ouviram dizer que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Quando chegaram, rezaram pelos samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo.

Igreja primitiva – Durante os primeiros anos, o cristianismo praticamente não saiu de Jerusalém: os primeiros sete capítulos do livro dos Atos dos Apóstolos apresentam-nos a Igreja de Jerusalém e o testemunho dado pelos primeiros cristãos no espaço restrito da cidade.

Perseguição – Por volta do ano 35 (Jesus morreu em abril do ano 30), com a morte do discípulo Estevão, desencadeou-se uma perseguição contra os membros da comunidade cristã de Jerusalém. É interessante observar que esta perseguição não afetou igualmente todos os membros da comunidade (pois os apóstolos continuaram em Jerusalém), mas dirigiu-se, de forma especial, contra os judeu-helenistas do círculo de Estêvão. Estes, inconformados com a morte de Estevão, deixaram Jerusalém e espalharam-se pelas outras regiões da Palestina. Tratou-se de um fato providencial, que permitiu a difusão do Evangelho pelas outras regiões palestinas.

Explicando – No judaísmo do tempo de Cristo (e dos primeiros discípulos) haviam dois grupos de judeus: um oriundo da própria Palestina, chamados de cristãos “hebreus”, falavam aramaico, e mantinham uma fidelidade à Lei e ao judaísmo; e outro, os judeus helenistas (como Estêvão) originários de fora da Palestina e falavam grego. Os "helenistas" eram vistos com certo preconceito pelos judeus da Palestina, pois eles não eram praticantes assíduos de todos os preceitos judaicos.

Filipe – A primeira leitura deste domingo fala-nos de Filipe – não é o apóstolo Filipe, mas um dos sete diáconos, do mesmo grupo do mártir Estêvão (At 6,1-7) – que, deixando Jerusalém foi anunciar o Evangelho aos habitantes da região central da Palestina, a Samaria. É curioso que a difusão do Evangelho fora de Jerusalém ocorra, precisamente, na Samaria. A Samaria era, para os judeus, uma terra praticamente pagã. Os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé judaica.

O texto – O texto da Primeira Leitura divide-se em duas partes: na primeira parte (vers. 5-8), temos um sumário que resume a atuação de Filipe entre os samaritanos. Filipe pregava “o Messias”, isto é, apresentava aos samaritanos Jesus Cristo e a sua proposta de salvação e de libertação. Na segunda parte (vers. 14-17), Lucas refere a chegada à Samaria dos apóstolos Pedro e João. Quando a comunidade cristã de Jerusalém soube que a Samaria tinha já acolhido a mensagem de Jesus, enviou para lá Pedro e João para complementar a pregação. Lucas não diz qual a reação de Pedro e João ao constatarem o avanço do Evangelho; apenas refere que os samaritanos, apesar de batizados, ainda não tinham recebido o Espírito Santo.

Que significa isto? – Provavelmente, significa que a adesão dos samaritanos ao Evangelho era superficial, talvez mais motivada pelos gestos espetaculares que acompanhavam a pregação de Filipe, do que por uma convicção bem fundada. Logo que chegaram, Pedro e João impuseram as mãos aos samaritanos, a fim de que também eles recebessem o Espírito. O Espírito aparece, aqui, como o selo que comprova a pertença dos samaritanos à Igreja de Jesus Cristo.

QUER SABER MAIS: Se você está em quarentena, gostou do assunto e quer saber mais sobre os judeus-helenistas e a primeira expansão cristã, nós podemos lhe oferecer os textos (em Português): “Os grupos dos helenistas em atos” da Editora Paulinas; “Os Judeus Helenistas e a Primeira Expansão Cristã”, tese de doutorado de Monica Selvatici; “Quem são os helenistas”, texto de Luiz da Rosa; “A importância do helenismo no pensamento do Apóstolo Paulo”, artigo de Isidoro Mazzarolo.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

RESSUSCITOU ... CONFORME AS ESCRITURAS



 Todas as vezes que participamos de uma missa, ao rezar a Profissão de Fé, nós dizemos: “Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai”. Por que a oração diz “conforme as escrituras”?

Escrituras – O texto da Profissão de Fé quer deixar claro que todos os livros do Novo Testamento proclamam a ressurreição de Jesus. Os 4 Evangelhos detalham a Paixão, morte e enterro de Jesus na sexta-feira (7 de abril do ano 30), o sábado da Páscoa dos judeus e a ressurreição (túmulo vazio) no domingo (9 de abril). O texto “conforme as escrituras” documenta que todos os livros do N.T. confirmam um único fato.

Problema – Se nós fizermos a leitura da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios, encontraremos o seguinte texto: “Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras; ele foi sepultado, ressuscitou no terceiro dia, conforme as Escrituras; apareceu a Pedro e depois aos doze” (1Cor 15, 3-4). (Lembrar que Paulo cometeu um engano, pois eram “onze”). O problema está em quais “Escrituras” Paulo está se referindo, pois, o Novo Testamento ainda não existia.

Novo Testamento – Nos cursos bíblicos que ministramos, deixamos claro que o primeiro documento do Novo Testamento é a Carta de Paulo aos Tessalonicenses, escrita entre 49 e 51 d.C. A Carta aos Coríntios é datada de 55-56 d.C. Os Evangelhos foram escritos 20 anos depois: Marcos (67-70 d.C. em Roma), Lucas (70-80 d.C.), Mateus (70-80 d.C.) e João (por volta do ano 100 d.C.). Se não haviam documentos nem os Evangelhos, a quais “Escrituras” Paulo estava se referindo?

Antigo Testamento – Certamente que Paulo estava se referindo aos livros judaicos. Ele era judeu e se orgulhava de ter sido educado pelo rabino Gamaliel (líder dentre as autoridades do Sinédrio de meados do século I, reconhecido mestre e Doutor da Lei). Paulo se apresentava como: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade, e instruí-me aos pés de Gamaliel conforme o rigor da Lei de nossos pais, sendo zeloso para com Deus” (At 22,3). Portanto, Paulo conhecia, detalhadamente os livros dos judeus.

Quais eram os livros judaicos? – Conforme Flavio Josefo, escritor e historiador do primeiro século, antes de 70 d.C., os judeus se utilizavam de apenas 22 livros.  Eis o texto: “Porque nós [judeus] não temos uma imensidão inumerável de livros que discordam e se contradizem entre si (como os gregos têm), mas apenas vinte e dois livros: ... cinco pertencem a Moisés, ... os profetas escreveram 13 livros ... os outros 4 livros contêm hinos e preceitos para a conduta humana”. Portanto seriam: os 5 livros da Lei (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), os 13 livros proféticos (talvez Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Neemias, Jó, Crônicas, Daniel, Ester, Josué, Ruth, Samuel, Reis) e, 4 livros de hinos (talvez Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes).

As “Escrituras” de Paulo – Existem duas referências nos livros judaicos, que Paulo poderia estar se referindo na Carta aos Coríntios: o livro do profeta Oseias: “Depois de dois dias ele nos dará vida novamente; ao terceiro dia nos restaurará, para que vivamos em sua presença” (Os 6, 2). Também pode estar se referindo ao livro de Jonas, quando Jonas ficou na barriga do grande peixe por três dias e três noites antes de ser solto e, em uma espécie de sentido simbólico, voltou dos mortos (Jonas 2). O próprio Jesus cita esta passagem nos Evangelhos comparando sua morte e ressurreição ao “sinal de Jonas” (Mt 12, 39–41).

QUER SABER MAIS: Se você está em quarentena, gostou do assunto e quer saber mais, podemos lhe oferecer os textos citados: o livro “Obra completa de Flavius Josephus” que contém o livro “Against Apion”” de Flavio Josefo (1627 pág. em Português, ver livro 1, 8); a apostila “Formação do Novo Testamento” e um “Mapa Bíblico do Século I”, usados no Curso Bíblico da Paróquia São Judas Tadeu e São Dimas. Solicite por E-mail.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O BOM PASTOR



O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do “Bom Pastor”. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.

Símbolo – A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do 4º Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente Ez 34 (onde se encontra a chave para compreender a metáfora do “pastor” e do “rebanho”). Falando aos exilados da Babilónia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”, que conduziram o Povo por caminhos de morte e de desgraça; mas – diz Ezequiel – o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo; Ele porá à frente do seu Povo um “Bom Pastor” (o “Messias”), que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida.

Partes – O texto do Evangelho, que hoje nos é proposto, está dividido em duas partes, ou em duas parábolas. Na primeira parábola (Jo 10,1-6), Jesus apresenta-se preferencialmente como “o Pastor”, cuja ação se contrapõe a esses dirigentes judeus que se arrogam o direito de pastorear o “rebanho” do Povo de Deus, mas sem serem “pastores”.

Judeus – Jesus não usa meias palavras: os dirigentes judeus são ladrões e bandidos, que se servem das suas prerrogativas para explorar o Povo (ladrões) e usam a violência para o manter sob a sua escravidão (bandidos). Aproximam-se do Povo de Deus de forma abusiva e ilegítima, porque Deus não lhes confiou essa missão (“não entram pela porta”): foram eles que a usurparam. O seu objetivo não é o bem das “ovelhas”, mas o seu próprio interesse.

Jesus – Ao contrário, Jesus é “o Pastor” que entra pela porta: ele tem um mandato de Deus e a sua missão foi-Lhe confiada pelo Pai. Em Ezequiel, o papel do “pastor” correspondia, em primeiro lugar, a Deus e ao enviado de Deus, o “Messias” descendente de David. Ao apresentar-se como Aquele “que entra pela porta”, com autoridade legítima, Jesus declara-Se o “Messias” enviado por Deus para conduzir o seu Povo e para guiá-lo para as pastagens onde há vida em plenitude. Ele entra no redil das “ovelhas” para cuidar delas, não para explorá-las.

Pastor – Como é que Jesus exercerá a sua missão de “pastor”? Em primeiro lugar, irá chamar as “ovelhas”. “Chama-as pelo seu nome”, porque conhece cada uma e com cada uma quer ter uma relação pessoal. Não obrigará ninguém a responder-Lhe; mas os que responderem ao seu chamamento farão parte do seu “rebanho”. Depois, o “pastor” caminhará “diante das ovelhas” e estas lhe seguirão. Ele indica-lhes o caminho, pois Ele próprio é “o caminho” (Jo 14,6) que leva à vida plena.

Porta – Na segunda parábola (Jo 10,7-9), Jesus apresenta-Se como “a porta”. Aqui, Ele já não é o pastor legítimo que passa pela porta, mas “a porta”. Significa que Jesus é o único lugar de acesso para que as “ovelhas” possam encontrar as pastagens que dão vida. “Passar pela porta” que é Jesus significa aderir a Ele, segui-lo, acolher as suas propostas. As “ovelhas” que passam pela porta que é Jesus (isto é, que aderem a Ele) podem passar para a terra da liberdade (onde não mandam os dirigentes que exploram e roubam), onde encontrarão “pastos” (vida em plenitude).

Vida – O nosso texto termina com a reafirmação do contraste entre Jesus e os dirigentes: os líderes religiosos judaicos utilizam o “rebanho” para satisfazer os seus próprios interesses egoístas, despojam e exploram o povo; mas Jesus só procura que o seu “rebanho” encontre vida em plenitude.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

EMAÚS EXISTIU ?



 No Evangelho das missas deste domingo será lido o trecho da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús.  Vamos examinar a descrição de Lucas.

A Aparição – Era o domingo, 9 de abril do ano 30. Domingo da ressurreição. Dois discípulos caminhavam de Jerusalém para a aldeia de Emaús, distante 11 quilômetros. Durante as duas horas de caminhada, comentavam os fatos ocorridos naquele dia. Jesus se aproxima, passa a caminhar com eles e, puxando a conversa, pergunta sobre o que discutem.  Eles não reconhecem Jesus. Cléofas, admirado, lhe diz que ele deve ser a única pessoa em Jerusalém que não sabe o que aconteceu com Jesus Nazareno. Jesus lhes descreve toda a história da salvação, começando por Moisés, passando por toda a Escritura. Ao chegar à casa de um deles, Jesus distribuiu o pão, sendo reconhecido por eles. Os discípulos voltaram para Jerusalém para contar aos apóstolos o que tinha acontecido.

Nicópolis – Assim como o Evangelho de São Lucas, o Livro dos Macabeus (1Mac 9,50) e o historiador do Século I Flavius Josefo (História dos Hebreus) citam o nome de uma cidade chamada Emaús. A grande questão desta história é que a aldeia de Emaús nunca foi encontrada. Os turistas e peregrinos que visitam a Terra Santa são levados a uma igreja em Nicópolis, como sendo Emaús. Isto devido ao historiador da igreja do século IV, Eusébio de Cesaréia, que identificou a cidade de Nicópolis como a Emaús bíblica. O teólogo e tradutor São Jerônimo (347 – 420) concordou com a indicação, fazendo com que, a partir do século IV, os cristãos identificassem Nicópolis com Emaús.

O problema – é que Nicópolis está muito mais longe de Jerusalém (30 quilômetros).  Ao longo dos anos, vários estudiosos sugeriram nada menos que cinco locais alternativos para Nicópolis e não há acordo geral sobre qual é o mais provável.

Nova descoberta – Em 2017, um grupo francês e israelense de arqueólogos (Israel Finkelstein e Thomas Römer) começou o trabalho de escavação em Kiriath-Jearim, uma colina vários quilômetros a oeste de Jerusalém. Descubriram que, durante o século XII, Kiriath Yearim e da vila vizinha de Abu Ghosh serviram de hospedagem para as cruzadas. Construiram ali a Igreja da Ressurreição em Abu Ghosh, abaixo da colina de Kiriath-Jearim, e chamavam o lugar de Castellum Emmaus. Vamos aguardar as novas descobertas para certificação da teoria dos autores.

QUER SABER MAIS: Se você está em quarentena, gostou do assunto e quer saber mais, podemos lhe oferecer os textos citados: O artigo “Os arqueólogos descobriram a cidade em que Jesus apareceu depois de sua ressurreição?” da jornalista Candida Moss; o livro “História dos Hebreus” de Flavio Josefo (1627 pág. em Português com 18 citações de Emaús); O texto “Cronologia da Vida de Jesus” de autoria de Enrico Galbiati (Doutor da Biblioteca Ambrosiana de Milão); Onomasticon – Sobre os Nomes dos Lugares nas Sagradas Escrituras – de autoria de Eusébio de Cesaréia (escrito no ano 330, onde cita Emaús).

sábado, 4 de abril de 2020

Os últimos dias de vida de Jesus



Apresentamos hoje, em preparação à semana que antecede a Páscoa, os acontecimentos que marcaram a última semana e a Paixão de Jesus.

Março do ano 30 – No final de março do ano 30, Jesus fez a sua última viagem para Jerusalém. Ele e seus discípulos viajaram da Galiléia, passando pela Peréia (além Jordão), evitando a região da Samaria. Durante essa viagem, curou dez leprosos (Lc 17,11), discutiu com os fariseus sobre o casamento (Mt 19,3) e ensinou os companheiros com as parábolas da viúva e do juiz, do fariseu e do publicano (Lc 18,9) e dos operários da vinha. Falou sobre o juízo final, recebeu as crianças e conversou com o jovem rico (Lc 18, 15-30).

Em Betânia – Jesus chegou a Betânia na sexta-feira (Jo 12,1), dia 31 de março do ano 30, e foi jantar na casa de seu amigo Lázaro (que havia revivido) e das irmãs Marta e Maria. Betânia era uma aldeia a Leste do monte das Oliveiras, a cerca de três quilômetros de Jerusalém. Nesta noite, Maria lavou os pés de Jesus com um perfume caro e os enxugou com os cabelos; foi repreendida por Judas Iscariotes. Nesta mesma noite, Jesus fez (pela terceira vez) a predição de sua Paixão, recebeu o pedido dos filhos de Zebedeu e contou a parábola das minas e dos talentos.

Sábado – 1º de abril – No sábado, Jesus e seus discípulos seguiram de Betânia para Jerusalém. Quando passavam por Betfagé, perto do Monte das Oliveiras, Jesus pediu que dois discípulos fossem ao povoado e trouxessem um jumentinho que estava amarrado. Montado no jumentinho, Jesus fez a entrada triunfal em Jerusalém, aclamado pelo povo, que o saudava com ramos. Neste mesmo sábado, Jesus visitou o Templo, expulsando os vendedores, derrubando as mesas e cadeiras dos cambistas. Voltou para Betânia, onde passou a noite (Mt, 21,17). No domingo (2 de abril), Jesus descansou. Em uma de suas caminhadas, encontrou uma figueira estéril e proclamou o ensinamento sobre a fé (Mt 21,18).

3 e 4 de abril – Na segunda e terça-feira, Jesus voltou a Jerusalém. No Templo, foi interrogado pelos fariseus sobre a sua missão, sobre a sua autoridade (Mt 21,23) e sobre o tributo a César (Mt 22,15). Conversando com os discípulos, Jesus contou as parábolas dos dois filhos (Mt 21,28) e dos vinhateiros (Mt 21,33) e apresentou a oferta da viúva pobre (Mc 12,41). Ao sair, mostrou a grandiosa obra do Templo, fazendo um discurso (conhecido como Apocalipse sinótico) sobre a sua destruição, a grande tribulação e a vigília (Mt 24). A quarta-feira (5 de abril) foi marcada pela traição de Judas (Mt 26,14; Lc 22,1).

Quinta-feira – O dia 6 de abril começou com a preparação para a Páscoa (Mt 26,17). Os discípulos foram até a cidade e prepararam a Páscoa na casa de um conhecido deles. Ao cair da tarde, Jesus se reuniu com os doze apóstolos e, enquanto comiam, anunciou que seria traído. Judas deixou o cenáculo (Mt 26,20). Em seguida, Jesus lavou os pés dos apóstolos (Jo 13,1), instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio (Mt 26,28), entregou o novo mandamento (Jo 13,33), predisse as negações de Pedro (Mt 26,31) e fez o sermão da despedida (Jo 14,16). Em seguida, Jesus e os apóstolos saíram do Cenáculo, deixando a cidade, em direção a Betânia, até um horto chamado Getsêmani. Ali Jesus agonizou, enquanto os apóstolos dormiam (Mt 26,36).

Sexta-feira, 7 de abril – De madrugada, no Getsêmani, Jesus foi preso e conduzido ao palácio de Caifás (Sumo Sacerdote). Em seguida, Jesus foi conduzido ao Sinédrio (tribunal religioso judaico, composto de 71 membros), onde os escribas e anciãos estavam reunidos. Pedro negou conhecer Jesus (Mt 26,47). Na manhã, como o Sinédrio não tinha o poder de condenar as pessoas, levaram Jesus para Pilatos (governador da Judéia, representante do Império Romano), pedindo a sua condenação à morte.

Indecisão – Pilatos interrogou Jesus e não encontrou nenhuma causa de condenação. Sabendo que Jesus era galileu, Pilatos encaminhou-o para Herodes Antipas, que se encontrava na cidade. Herodes também, não encontrou nenhuma causa para condenação de Jesus (Lc 23,6). Novamente foi levado para Pilatos que, lavou as mãos, condenando Jesus e soltando Barrabás. Jesus recebeu uma coroa de espinhos e foi condenado à crucificação, caminhando até um lugar chamado Gólgota.

Crucificação – Ao meio-dia do dia 7 de abril do ano 30, Jesus foi crucificado ao lado de dois ladrões: Dimas e Gestas (Lc 23,23). Em sua cruz foi escrita a causa da condenação (INRI): “Yehoshuah Nazoreus, Rex Youdeus” (Jesus Nazareno, rei dos Judeus). Jesus morreu às 3 horas da tarde (Mt 27,45) e, antes do pôr do sol, foi sepultado por José de Arimatéia (Mt 27,57). No sábado (8 de abril) nada acontece, pois era o dia de Páscoa dos Judeus.

Domingo – No domingo, 9 de abril do ano 30, Maria Madalena (e outras pessoas) foram ao túmulo de Jesus e encontraram a pedra rolada. Voltaram e contaram para os apóstolos. Pedro e João foram ao túmulo e encontraram apenas faixas e panos (Jo 20). No mesmo dia Jesus apareceu para os apóstolos (sem Tomé) e para os discípulos de Emaús (Lc 24,13).

sábado, 28 de março de 2020

Eu sou a Ressurreição e a Vida


O Evangelho das missas deste domingo nos apresenta a ressurreição de Lázaro (capítulo 11 do Evangelho de João).

Família – A cena acontece em Betânia, uma aldeia a Leste do monte das Oliveiras, a cerca de três quilômetros de Jerusalém. O autor da catequese coloca-nos diante de um triste episódio familiar: a morte de um homem. A família mencionada, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; o texto observa que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.

A história – A catequese se resume em: a família de Betânia é formada por Maria, Marta e Lázaro (não há pai, nem mãe, nem filhos). Trata-se de uma família amiga de Jesus. Um fato abala a vida desta família: um irmão (Lázaro) está gravemente doente. As “irmãs”, preocupadas, informam Jesus. Jesus não vai imediatamente ao seu encontro. Depois de dois dias, Jesus resolve dirigir-se à Judéia ao encontro do “amigo”. Ao chegar a Betânia, Jesus encontrou o “amigo” sepultado há quatro dias. De acordo com a mentalidade judaica, a morte era considerada definitiva a partir do terceiro dia.

As irmãs – Por esta altura, entram em cena as “irmãs” de Lázaro. Marta é a primeira. Vem ao encontro de Jesus e insinua a sua reprovação: Jesus podia ter evitado a morte do amigo, se tivesse estado presente, pois onde Ele está reina a vida. Maria, a outra irmã, tinha ficado em casa. Está imobilizada, paralisada pela dor sem esperança. Marta convida a irmã a sair da sua dor e ir ao encontro de Jesus. Maria vai rapidamente, sem dar explicações a ninguém: ela tem consciência de que só em Jesus encontrará uma solução para o sofrimento que lhe enche o coração.

Amigo – Jesus inicia a sua catequese dizendo-lhe: “teu irmão ressuscitará”. Marta pensa que as palavras de Jesus são uma consolação banal e que Ele se refere à crença farisaica, segundo a qual os mortos haveriam de reviver, no final dos tempos. Jesus, no entanto, não fala da ressurreição no final dos tempos. O que Ele diz é que, para quem é amigo de Jesus, não há morte, sequer. Jesus é “a ressurreição e a vida”. Para os seus amigos, a morte física é apenas a passagem desta vida para a vida plena.

A pedra – A cena da ressurreição de Lázaro começa com Jesus chorando. Não é pranto ruidoso, mas sereno… Jesus chega junto do sepulcro de Lázaro. A entrada da gruta onde Lázaro está sepultado está fechada com uma pedra (como era costume, entre os judeus). A pedra é, aqui, símbolo da definitividade da morte. Separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, cortando qualquer relação entre um e outro. Jesus, no entanto, manda tirar essa “pedra”: para os crentes, não se trata de duas realidades sem qualquer relação. Jesus, ao oferecer a vida plena, abate as barreiras criadas pela morte física. A morte física não afasta o homem da vida.

Dar Vida – A ação de dar vida a Lázaro representa a concretização da missão que o Pai confiou a Jesus: dar vida plena e definitiva ao homem. É por isso que Jesus, antes de mandar Lázaro sair do sepulcro, ergue os olhos ao céu e dá graças ao Pai: a sua oração demonstra a sua comunhão com o Pai e a sua obediência na concretização do plano do Pai. Depois, Jesus mostra Lázaro vivo na morte, provando à comunidade dos crentes que a morte física não interrompe a vida plena do discípulo que ama Jesus e O segue.

Comunidade – A família de Betânia representa a comunidade cristã, formada por irmãos e irmãs. Todos eles conhecem Jesus, são amigos de Jesus, acolhem Jesus na sua casa e na sua vida. Essa família também faz a experiência da morte física. Como é que deve lidar com ela? Com o desespero de quem acha que tudo acabou? Com a tristeza de quem acha que a morte venceu, por algum tempo, até que Deus ressuscite o “irmão” morto, no final dos tempos (perspectiva dos fariseus da época de Jesus)? Não; de forma alguma.

Vida Plena – Ser amigo de Jesus é saber que Ele é a ressurreição e a vida em todos os momentos. Ele não evita a morte física; mas a morte física é, para os que aderiram a Jesus, apenas a passagem (imediata) para a vida verdadeira e definitiva. Para os “amigos” de Jesus – para aqueles que acolhem a sua proposta e fazem da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos irmãos – não há morte… Podemos chorar a saudade pela partida de um irmão, mas temos de saber que, ao deixar este mundo, ele encontrou a vida plena, na glória de Deus.

sexta-feira, 13 de março de 2020

A Samaritana Pecadora



No Evangelho deste domingo, o evangelista João descreve uma catequese usada no final do primeiro século. Ele conta o encontro de Jesus com uma mulher da Samaria, em um poço na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina: uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de uma religião que misturava ritos e crenças.

Samaritanos – Na época de Jesus existia uma animosidade muito viva entre samaritanos e judeus. Historicamente, a divisão começou quando os assírios invadiram a Samaria e deportaram cerca de 4% da população samaritana. Os colonos assírios, então, se instalaram na região e se misturaram com a população local. Na visão dos judeus, os habitantes da Samaria começaram nesse momento a paganizar-se (2 Re 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, passados quase trezentos anos, os judeus retornaram do exílio e recusaram a ajuda dos samaritanos (Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém e denunciaram os casamentos mistos.

Templo – Assim, os judeus tiveram que enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (Ne 3,33-4,17). Cem anos depois, novo elemento de separação: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim, que foi destruído duzentos anos depois por João Hircano. Mais tarde, os desentendimentos continuaram: o mais famoso aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.

Desprezo – Os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé. Os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.

O poço – A cena que João descreve passa-se em volta do “poço de Jacob”, situado no vale entre os montes Ebal e Garizim, perto da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, ele teria sido aberto pelo patriarca Jacob. Os dados arqueológicos revelam que ele serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair água dele).

Os sinais – O evangelista utiliza “personagens” para compor a sua história. A mulher representa a Samaria, que procura desesperadamente a água capaz de matar a sua sede de vida plena. Jesus vai ao encontro da “mulher”. O “poço” representa a Lei, o sistema religioso à volta do qual se conformava a experiência religiosa dos samaritanos. Os “cinco maridos” que a mulher já teve representam os cinco deuses dos samaritanos (2 Re 17,29-41).

Água Viva – Jesus senta-se “junto do poço”, como se pretendesse ocupar o seu lugar; e propõe à mulher/Samaria uma “água viva”, que matará definitivamente a sua sede de vida eterna. A mulher/Samaria responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro (agora inútil), e corre a anunciar aos habitantes da cidade o desafio que Jesus lhe faz.

Missão de Jesus – O texto deixa claro que Jesus quer comunicar ao homem o Espírito que dá vida. O Espírito que Jesus tem para oferecer desenvolve e fecunda o coração do homem, dando-lhe a capacidade de amar sem medida. Eleva, assim, os que buscam a vida plena e definitiva à categoria de Homens Novos, filhos de Deus que fazem as obras de Deus. Do dom de Jesus nasce a nova comunidade.