sábado, 4 de novembro de 2000

São Judas Tadeu

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 04/11/2000

Atendendo a alguns pedidos de leitores desta coluna, apresentaremos os dados bibliográficos de São Judas Tadeu, santo da Igreja Católica comemorado no dia 28 de outubro. As informações foram colhidas junto ao Santuário de São Judas Tadeu em São Paulo.

São Judas Tadeu era natural de Caná da Galiléia, na Palestina. Sua família era constituída do pai, Alfeu (ou Cléofas) e a mãe, Maria Cléofas, parentes de Jesus. O pai, Alfeu, era irmão de São José e a mãe, Maria Cléofas, prima irmã de Maria Santíssima, portanto, Judas Tadeu era primo-irmão de Jesus. O irmão de Judas Tadeu, Tiago, chamado o Menor, também foi discípulo de Jesus.

A Bíblia trata pouco de Judas Tadeu, mas aponta o importante: ele foi escolhido por Jesus, para apóstolo (Mt 10,4). É citado explicitamente nas Escrituras pelo evangelista João (Jo 14,22), na última ceia, quando perguntou a Jesus: "Mestre, por que razão hás de manifestar-te só a nós e não ao mundo?" Jesus lhe respondeu afirmando que teriam manifestação dele todo aquele que guardasse sua palavra e permanecesse fiel a seu amor.

Após ter recebido o dom do Espírito Santo, Judas Tadeu iniciou sua pregação na Galiléia, passando pela Samaria, Iduméria e outras populações judaicas. Pelo ano 50, tomou parte no primeiro Concílio, o de Jerusalém. Em seguida, foi evangelizar a Mesopotâmia, Síria, Armênia e Pérsia. Neste país recebeu a companhia de outro apóstolo, Simão.

A pregação e o testemunho de Judas Tadeu impressionaram os pagãos que se convertiam. Isto provocou a inveja e fúria contra o apóstolo, que foi trucidado, com pauladas, lanças e machados, pelo ano 70. Dessa maneira, tornou-se mártir, ou seja, mostrou que sua adesão a Jesus era tal, que testemunhou a fé com a doação da própria vida. Os seus restos mortais, após terem sido guardados no Oriente Médio e na França, foram definitivamente transferidos para Roma, na Basílica de São Pedro.

A brevíssima Carta de São Judas, que está na Bíblia, é uma severa advertência contra os falsos mestres e um convite a manter a pureza da fé. Nos versículos 22-23 propõe pontos fundamentais de um programa de vida cristã: fé, oração, auxílio mútuo, confiança na misericórdia de Jesus Cristo.


Você sabia que ...

... os exegetas (estudiosos da Bíblia) modernos fazem distinção entre os três Judas citados no texto acima? Os biblistas consideram que o Judas Tadeu (apóstolo), o Judas (primo de Jesus e irmão de Tiago) e o Judas (autor da Epístola) são três pessoas diferentes. Não confundir nenhum deles com o Judas Iscariotes (apóstolo), que traiu Jesus. Se você quer saber mais sobre os Judas do Novo Testamento, solicite pelo E-mail abaixo.

... no Santuários de São Judas Tadeu, no bairro de Jabaquara, em São Paulo, existe um pedaço de osso do santo, usado para dar a bênção nos dias 28 de cada mês? A relíquia chegou ao Brasil em 1945 ou 1946 por meio de um padre capelão militar que, durante a guerra, serviu a um convento de religiosas, na Itália. Finda a guerra, o padre recebeu de presente das religiosas, a relíquia de São Judas, que foi, posteriormente, doada ao Santuário São Judas Tadeu. Com a relíquia, existe um documento garantindo sua autenticidade.

... A imagem de São Judas possui um livro numa das mãos e uma machadinha na outra, porque representam respectivamente a Palavra que ele pregou e a arma com a qual foi morto?

sábado, 28 de outubro de 2000

Jesus e a História (II)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 28/10/2000

Inúmeras vezes nós, cristãos, somos questionados sobre a pessoa de Jesus Cristo. Alguns, mais extremados, chegam até a afirmar que Jesus nunca existiu, e que tudo não passa de pura invenção dos primeiros cristãos. Existem ainda os professores de História Geral que ensinam a seus alunos não haver provas extra-bíblicas sobre a existência de Jesus.

Vamos continuar o artigo da semana anterior, citando mais alguns documentos históricos sobre Jesus.

O primeiro texto é do historiador romano Tácito (55 – 120), intitulado "Anais", escrito em 64 d.C., relatando a origem do nome "cristãos", responsabilizados pelo imperador Nero pelo incêndio de Roma. Notar que o historiador confirma a morte (crucificação) sob as ordens de Pôncio Pilatos: "Nero firmou a culpabilidade e infligiu as torturas mais primorosas a uma classe odiada por suas abominações, os chamados cristãos. Este nome vem de Cristo, que o Imperador Pôncio Pilatos condenou à morte, sob o reinado de Tibério. Esta odiosa superstição, reprimida durante algum tempo, se propagou de novo não somente na Judéia, onde nasceu esse mal, mas também em Roma, para onde aflui tudo o que o mundo produz de detestável e desonroso, aí encontrando numerosos adeptos. A repressão foi primeiro aos que se confessaram culpados .. ." (Anais, 15, 44).

É importante não confundir Tácito, o historiador romano (autor do texto acima), com o imperador romano de mesmo nome, que viveu entre os anos 200 e 276, sendo imperador entre 275 e 276.

O segundo documento (datado de 112 d.C.) trata-se de uma carta de Plínio (61-112 d.C.), aristocrata, governador da Ásia Menor, ao imperador romano Trajano (viveu entre 53 e 117, sendo imperador entre 98 e 117), onde relata algumas particularidades dos cristãos. Nesta carta, Plínio pede a Trajano que legalize os cristãos. Eis um trecho da carta: "... os cristãos se reuniam em dias fixos, antes do nascer do sol, e cantavam um hino a Cristo, como se fosse um deus." (Cartas 10,96).

Cabe aqui uma explicação importante: o governador Plínio (autor do texto acima) não deve ser confundido com o historiador e naturalista romano Plínio (o Velho), que viveu entre os anos 23 e 79 d.C.

Existem ainda outros textos que comprovam a existência de Jesus como personagem histórico: Tallus, no seu livro de história escrito entre 50 e 70 d.C.; Suetonius, em ‘Vidas dos Caesars’ escrito em 125 d.C.; Galen, em vários textos datados de 150 d.C.; Celsus (filósofo pagão), em ‘Verdadeiro Discurso’, escrito em 170 d.C.; Mara Bar Serapion, em 73 d.C.; Julius Africanus, no livro ‘História do Mundo’ escrito no 3º século.

sábado, 21 de outubro de 2000

Jesus e a História (Parte 1)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 21/10/2000


Jesus teria sido realmente uma figura histórica? Ele realmente existiu, ou seria apenas um mito criado pelos cristãos? Existiu o Jesus histórico, ou apenas o Cristo (Messias) da Igreja e dos Evangelhos? Existiriam documentos, fora da Igreja, que comprovariam, historicamente, a presença do homem Jesus na terra?

A resposta é: não existem dúvidas. Documentos históricos comprovam a existência física do homem Jesus, que viveu na região da Palestina, tendo morrido crucificado. É necessário, porém, que nos atentemos para um importante dado: Jesus viveu numa insignificante região agropecuária do mediterrâneo, numa faixa de terra de 240 km de norte a sul e 100 km de leste a oeste, entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão.

A Palestina, como era chamada, era colonizada pelo Império Romano desde 63 a.C. como um "Reino Cliente", com um rei próprio, e toda uma autonomia administrativa, portanto, independente do domínio de Roma. Era habitada pelos judeus, um povo extremamente religioso, com língua própria (o hebraico ou o aramaico), que não aceitava o domínio do Império, deflagrando inúmeras revoltas. Neste quadro, nós não podemos esperar que a documentação histórica sobre o Império Romano seja farta em documentos sobre a Palestina, ou sobre um revolucionário político ou agitador popular (é assim que os romanos viam Jesus) que viveu por lá entre os anos 28 e 30 d.C., sendo crucificado pelo procurador romano Pontius Pilatus.

Outro fator decisivo era o tipo de sociedade existente no século I: a população urbana era menor que 10% do total, e menos de 0,2% formava a classe dominante (elite, letrados, intelectuais), responsável pelos registros históricos da época. Também não podemos esperar que a elite dominante do primeiro século tenha deixado muitos documentos sobre Jesus.

Vamos citar alguns documentos históricos que comprovam a existência de Jesus:

- O primeiro documento é do maior historiador do primeiro século, o judeu Flávio Josefo (historiador judeu, que viveu entre 37 e 105 d.C., tendo escrito vários livros), no livro Antigüidades Judaicas, escrito em 93 ou 94 d.C., quando descreve a morte por apedrejamento de Tiago, irmão (primo) de Cristo e chefe da comunidade cristã de Jerusalém:

"... Anás (Ananus) vendo que teria uma boa oportunidade de exercer sua autoridade, convocou uma assembléia (sanhedrim) de juizes, e trouxe diante deles o irmão de Jesus, que foi chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e outras pessoas (companheiros dele) e apresentou contra eles a acusação de serem transgressores da lei e os condenou para serem apedrejados." ( XX, 9,1).

O mesmo autor, em outro trecho do mesmo livro conhecido como Testimonium Flavianum, faz uma descrição detalhada de Cristo. Eis o texto:

"Naquela época viveu Jesus, um homem sábio, se realmente as pessoas devem chamá-lo de homem. Pois ele executou trabalhos surpreendentes, e era um mestre que as pessoas recebiam com prazer. Ele conquistou muitos judeus e muitos gregos. Ele era o Messias. E quando Pilatos o condenou à cruz, depois de ouvir as acusações feitas contra ele por homens da mais alta posição entre nós, os seus companheiros não perderam as idéias dele. Porque ele apareceu vivo diante deles no terceiro dia, como os profetas de Deus tinham previsto, além de outras coisas maravilhosas a seu respeito. E o grupo de cristãos, que recebeu este nome por sua causa, não desapareceu até hoje" (XVIII, 3, 3).

Portanto, o maior historiador do Século I cita Jesus, reconhecendo-o não apenas como um homem comum, mas como um mestre entre os judeus, o Messias.

(Continuamos no próximo artigo, com outras citações).

sábado, 14 de outubro de 2000

O CAMELO E O BURACO DA AGULHA

Coluna Ser Católico" – Jornal da Cidade – 14/10/2000


Todos nós conhecemos o episódio em que o jovem rico perguntou a Cristo o que deveria fazer para conseguir a vida eterna. Jesus lhe indicou os Dez Mandamentos da Lei de Deus. Tendo o jovem respondido que já os observava desde a juventude, o Senhor aconselhou-lhe que vendesse as suas posses, distribuísse aos pobres e o seguisse. Ao ouvir estas palavras, o jovem afastou-se entristecido, pois era proprietário de grandes posses. Esta atitude do jovem ocasionou as seguintes observações de Cristo:

"Em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no reino dos céus. Digo-vos ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus" (Mt 19,24).

Sem qualquer dúvida, a desproporção, o contraste quase absurdo, causa estranheza aos dizeres de Jesus. Os pesquisadores apresentam três explicações possíveis para a esquisita comparação:

1 – JESUS TERIA USADO UM DITO POPULAR

A primeira explicação sugere que Jesus realmente tenha dito tal frase, se utilizando de uma expressão (ditado) popular. Parece que Ele quis mostrar a dificuldade da salvação, recorrendo a uma comparação absurda. Cale lembrar que esta frase usada por Jesus em Mt 19,24 nunca foi encontrada em qualquer outro texto judaico, embora outras estranhas comparações tenham aparecido:

- "Ninguém imagina, nem mesmo em sonho, uma palmeira de ouro, ou um elefante que passe pelo buraco de uma agulha" (Talmud (352).

- "Pode um etíope mudar a própria pele? Ou um leopardo apagar as malhas do pêlo de que se reveste?" (Jr 13,23).

Se Cristo vivesse nos dia atuais e se utilizasse de um ditado dos nossos dias, talvez dissesse: "Nem que chova canivete, um rico entrará no reino dos céus".

2 – CAMELO OU CORDA

Na segunda explicação supõe-se que houve um erro na transcrição dos textos dos Evangelhos. Antes da invenção da imprensa, os textos eram copiados manualmente por copistas e sujeitos a inúmeros erros. Dentre estas falhas, o escriba deve ter escrito camelo (Kámelos, em grego) no lugar de corda (Kámilos, em grego). Kámilos era uma corda de grande diâmetro, usada para prender os barcos no porto. Esta cópia do Evangelho (com a palavra trocada) foi usada como original por outros copistas, chegando até nossos dias.

Esta explicação foi apresentada por S. Cirilo de Alexandria (444) e aceita por outros textos do século V como o Tractatus de Divitiis, atribuído ao bispo Fastídio (410-450).

Portanto, se aceitarmos esta justificativa, as verdadeiras palavras de Jesus foram (Mt 19,24): "É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus".

3 – A PORTA DE JERUSALÉM

A terceira explicação se refere a uma descoberta recente: alguns textos da época de Jesus, reportam a existência de uma pequena passagem (ou buraco) nos muros da cidade de Jerusalém, chamado de "Buraco da Agulha". Devemos lembrar que Jerusalém era cercada por altos muros e grandes portões que eram fechados durante a noite. O Buraco da Agulha era uma passagem (talvez usada para entrar ou sair ilegalmente da cidade) onde os animais de carga só podiam passar se fossem despojados da bagagem e dobrassem os joelhos; os homens só transitavam por aí se se curvassem.

Fica a dúvida: teria Jesus se referido a esta passagem em seu discurso aos discípulos?

sábado, 7 de outubro de 2000

A IGREJA CATÓLICA E O ABORTO

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 07/10/2000

ASSUNTO EM MODA

Na última semana várias reportagens em jornais trouxeram à evidência o assunto "aborto". O Jornal da Cidade de 28/09 (página 30) mostrava que manifestantes em toda a América Latina estavam comemorando o dia de luta contra a ‘descriminalização do aborto’. O mesmo jornal do dia 29 noticiava a autorização para a comercialização nos Estados Unidos da pílula abortiva RU-486, já comercializada na França.

Na América Latina ainda há resistência a qualquer abertura em relação ao aborto: trata-se de um procedimento ilegal e criminoso em todos os países americanos, além de ser rejeitado oficialmente por conselhos médicos.

Existe também o movimento "Católicas pelo Direito de Decidir" (CDD), que vem aparecendo no cenário nacional. Trata-se de um movimento de mulheres (fundado em 1970 nos USA) que prega o aborto e a liberdade sexual, atacando duramente a Igreja Católica.

A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

O abortamento é sempre o extermínio de uma vida inocente, que existe desde o momento em que se dá a fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Só se pode admitir o homicídio em caso de legítima defesa ou quando alguém é injustamente agredido e não tem outro meio de escapar da morte iminente se não exterminar o agressor. Ora, o feto não é um injusto agressor; por isso conserva o seu direito à vida, mesmo que esta incomode a gestante; o fato de resultar de estupro não legitima a violência do abortamento.

O artigo 128 do Código Penal assim se exprime:

Não se pune o aborto praticado por médico:

I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante
II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. 

A redação é clara. Não está escrito "não constitui crime", mas tão somente "não se pune". O médico que pratica aborto nesses dois casos, comete crime, embora esteja isento de punição (para detalhes, solicite no E-mail abaixo).
Estudos profundos sobre a natureza jurídica do aborto têm sido publicados em revistas especializadas. Destaca-se o pronunciamento da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro sobre a inconstitucionalidade de uma lei que permitisse o aborto e o texto do Deputado Severino Cavalcanti (Pernambuco) sobre a violação do direito à vida. Estes textos completos podem ser solicitados pelo E-mail abaixo.

A POSIÇÃO DA IGREJA CATÓLICA

A Igreja Católica sempre foi contrária ao aborto. Assim, por exemplo, reza a Didaqué (primeiro catecismo cristão), datado do ano 90-100: "Não matarás, não cometerás adultério ... Não matarás crianças por aborto nem criança já nascida" (2,2). No século III, a Epístola de Diogneto observava: "Os cristãos casam-se como todos os homens; como todos procriam, mas não rejeitam os filhos" (v. 6). A Epístola de Barnabé (século II) e depois Tertuliano (220), S. Gregório de Nissa (após 394), S. Basílio Magno (379) fizeram eco aos escritores precedentes. (solicite cópia pelo E-mail).

Todos os Concílios da Igreja rejeitaram o aborto. Desde o Concílio de Ancira (Ancara) em 314, que decretou: "As mulheres que fornicam e depois matam os seus filhos ou que procedem de tal modo que eliminem o fruto de seu útero, segundo uma lei antiga são afastadas da Igreja até o fim de sua vida".

O Código de Direito Canônico prevê excomunhão para o delito de aborto: "Quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae".

O Catecismo da Igreja Católica (compêndio de toda doutrina católica) dedica um item da Parte III (A Vida em Cristo) para considerações sobre o aborto, destacando: "A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecidos os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida".

sábado, 30 de setembro de 2000

O QUE VOCÊ DEVE SABER PARA LER A BÍBLIA COM PROVEITO (Final)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 30/09/2000


A vivência comunitária da fé na ressurreição

Este terceiro ponto, muitas vezes esquecido, é muito importante. É como a caixa de ressonância de um violão. Sem ela, as cordas das palavras bíblicas não produzem a música de Deus no coração do leitor. Como criar esta caixa de ressonância da interpretação da Bíblia?

1. Jesus soube criar um ambiente de amizade e de abertura, onde foi possível ele ler a Bíblia junto com os dois discípulos de Emaús. Este é o primeiro passo: criar um ambiente de amizade e de abertura entre as pessoas, não para esconder os problemas da vida atrás de um sorriso, mas para poder discuti-los e enfrentá-los, mesmo que for preciso ir a Jerusalém, de noite, na escuridão.

2. A Bíblia surgiu da caminhada de um povo oprimido que, apoiado na promessa de Deus, buscava a sua libertação. A sua interpretação deve ser feita a partir do povo crente e oprimido que hoje busca a sua libertação. A interpretação da Bíblia não pode ser neutra, nem pode ser feita separada da vida e da história do nosso povo. Ela deve ser o fermento de Deus neste processo de "conversão" e de mudança da morte para a vida, do medo para a coragem, do desespero para a esperança, da opressão para a liberdade, que hoje marca a vida das nossas comunidades.

3. A Bíblia nasceu dentro de uma comunidade de fé. É só com o olhar de fé desta mesma comunidade que pode ser captada e entendida plenamente a sua mensagem. Este olhar não se compra com dinheiro nem com estudo. Adquire-se vivendo na comunidade, participando da sua caminhada e das suas lutas. Mesmo quando leio a Bíblia sozinho, devo lembrar sempre que estou lendo o livro da comunidade. Ninguém tem o direito de explicar a Bíblia do jeito que convém a ele, contrário aos interesses da comunidade. Pois a Bíblia não é propriedade privada de ninguém. Ela foi entregue aos cuidados do povo de Deus, para que este realize a sua missão libertadora, e revele aos olhos de todos a presença de Javé, o Deus vivo e verdadeiro. Com outras palavras, a Bíblia deve ser interpretada de acordo com o sentido que lhe dá a comunidade, a Igreja. O modo de pensar das comunidades do Brasil e da América Latina foi resumido em Medellin e em Puebla. O modo de pensar das comunidades do mundo inteiro é definido pelos Concílios Ecumênicos e pela palavra autorizada dos papas.

4. A Bíblia é, antes de tudo, palavra de Deus para nós. Por isso, a sua interpretação e leitura devem ser feitas com a convicção de fé de que Deus nos fala por meio da Bíblia. E ele fala não para que nós nos fechemos no estudo e na leitura da Bíblia, mas para que, pela leitura e pelo estudo da Bíblia, possamos descobrir a palavra viva de Deus dentro da história da nossa comunidade e do nosso povo.

5. A interpretação da Bíblia não depende só da inteligência e do estudo, mas também do coração e da ação do Espírito Santo. O Espírito de Jesus deve ter a oportunidade de nos falar quando lemos a Bíblia. Por isso, além do estudo e da troca de idéias, a leitura da Bíblia deve ter os seus momentos de silêncio e de oração, de canto e de celebração, de troca de experiências e de vivências. (Editora Vozes. Bíblia Sagrada - Editora Vozes (24) 237-5112 - www.vozes.com.br)

quarta-feira, 27 de setembro de 2000

O QUE VOCÊ DEVE SABER PARA LER A BÍBLIA COM PROVEITO (VIII)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 27/09/2000

A reflexão sobre a realidade

Interpretar a Bíblia, sem olhar a realidade da vida, é o mesmo que manter o sal fora da comida, a semente fora da terra, a luz debaixo da mesa; é como galho sem tronco, olhos sem cabeça, rio sem leito.

Pois a Bíblia não é o primeiro livro que Deus escreveu para nós, nem o mais importante. O primeiro livro é a natureza, criada pela palavra de Deus; são os fatos, os acontecimentos, a história, tudo que existe e acontece na vida do povo; é a realidade que nos envolve. Deus quer comunicar-se conosco através da vida que vivemos. Por meio dela, ele nos transmite a sua mensagem de amor e de justiça.

Mas nós homens, por causa dos nossos pecados, organizamos o mundo de tal maneira e criamos uma sociedade tão torta, que já não é mais possível perceber claramente a voz de Deus nesta vida que vivemos. Xor isso, Deus escreveu um segundo livro que é a Bíblia. O segundo livro não veio substituir o primeiro. A Bíblia não veio ocupar o lugar da vida. A Bíblia foi escrita para nos ajudar a entender melhor o sentido da vida e perceber a presença da palavra de Deus dentro da nossa realidade.

Santo Agostinho resumiu tudo isso da seguinte maneira: a Bíblia, o segundo livro de Deus, foi escrita para nos ajudar a decifrar o mundo, para nos devolver o olhar da fé e da contemplação e para transformar toda a realidade numa grande revelação de Deus.

Por isso, quem lê e estuda a Bíblia, mas não olha a realidade do povo oprimido nmm luta pela justiça e pela fraternidade, é infiel à palavra de Deus e não imita Jesus Cristo. Ele é semelhante aos fariseus que conheciam a Bíblia de cor, mas não a praticavam.

O estudo da própria Bíblia

O estudo da Bíblia deve ser feito com muita seriedade e disciplina. Considere a leitura que você faz da Bíblia como uma conversa sua com Deus. Ora, quando a gente conversa com alouém, deve tomar as palavras do outro do jeito que elas são ditas por ele. Eu não posso colocar as minhas idéias dentro das palavras do outro. Isto seria uma falta de honestidade. Não posso tirar do texto nenhum sentido, a não ser aquele que está dentro do texto. Convém ser severo e exigente consigo mesmo neste ponto. Nunca manipular o texto em favor das suas próprias idéias!

Mas um texto pode ser lido com duas mentalidades: com a mentalidade avarenta de um pão-duro ou com a mentalidade generosa de um mão-aberta. A gente deve ser generoso e(nunca avarento na interpretação da Bíblia. Isto quer dizer: ler não só nas linhas, mas também nas entrelinhas. Em todos os textos sempre há duas coisas: as coisas ditas abertamente nas linhas, e as coisas ditas veladamente nas entrelinhas. As duas vêm do autor do texto, e as duas são igualmente importantes.

Como descobrir o que o autor diz nas entrelinhas? Usando a inteligência, o coração e a imaginação, perguntando sempre:

  1. Quem é que está falando no texto e a quem?
  2. O que ele está querendo dizer e por quê?
  3. Em que situação ele está falando ou escrevendo e qual o jeito que ele usa para dar o seu recado?
  4. Qual o ambiente que ele cria por meio das suas palavras e qual o interesse que ele defende?

Estas e outras perguntas ajudam a gente i puxar a cortina e a perceber o que existe nas entrelinhas do texto bíblico.

Além disso, as introduções de cada livro, as notas ao pé das páginas, as referências para outros textos bíblicos, os mapas geográficos e o vocabulário que você encontra no fim desta Bíblia, foram feitos para ajudá-lo na descoberta do sentido certo e exato do texto. E aqui convém lembrar o seguinte: nadar se aprende nadando. O conhecimento da Bíblia se adquire através de uma prática constante de leitura, se possívml diária. (Editora Vozes. Bíblia Sagrada - Editora Vozes (24) 237-5112 - www.vozes.com.br)