sábado, 19 de setembro de 2015

Uma nova corrida


No Evangelho deste domingo (Marcos 9, 30-37), Jesus termina a sua viagem pela Galiléia e chega a Cafarnaum. Estamos em agosto do ano 29. Jesus estava chegando de uma longa viagem de vários meses: saiu da região das cidades de Tiro e Sidom, atravessou a Fenícia, passou próximo da cidade de Cesaréia de Felipe e, finalmente, chegou a Cafarnaum.

Primeiro e último – Sabendo o que os discípulos haviam discutido durante a viagem, Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: "Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!" Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: "Quem acolher, em meu nome, uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher está acolhendo não a mim, mas àquele que me enviou".

Uma questão – Será que, com estas palavras, Jesus condena o desejo de sobressair, de fazer grandes coisas na vida, de dar o melhor de si, e privilegia, ao contrário, a apatia, o espírito de abandono, os negligentes?

Nietzsche – Assim pensava o filósofo Nietzsche, que se sentiu no dever de combater ferozmente o cristianismo por ter (em sua opinião) introduzido, no mundo, o “câncer” da humildade e da renúncia. Em sua obra “Assim falava Zaratustra”, ele opõe a este valor evangélico o da “vontade de poder”, encarnado pelo “super-homem”, o homem da “grande saúde”, que quer levantar-se, não abaixar-se.

Ser o primeiro – Pode ser que os cristãos, às vezes, tenham interpretado mal o pensamento de Jesus e tenham dado ocasião a este mal-entendido. Mas, certamente, não é isso o que o Evangelho quer nos dizer. “Se alguém quiser ser o primeiro...” indica que é possível querer ser o primeiro, não está proibido, não é pecado. Jesus não só não proíbe o desejo de querer ser o primeiro, mas, o estimula.

Ser o último – Só que revela uma via nova e diferente para realizá-lo: não à custa dos outros, mas a favor dos outros. De fato, acrescenta: “... seja o último de todos e o servidor de todos”. Mas, quais são os frutos de uma ou outra forma de sobressair? A ânsia de poder conduz a uma situação na qual a pessoa se impõe e os outros servem; e a pessoa é “feliz”, enquanto os outros são infelizes; só se sente vencedor com todos os outros derrotados e se domina, com os outros dominados.

Guerras? – Sabemos os resultados alcançados com o “ideal do super-homem” alardeado por Hitler. Aliás, não se trata só do nazismo: quase todos os males da humanidade provêm dessa raiz. Na segunda leitura deste domingo, Tiago propõe a angustiosa e perene pergunta: “De onde procedem as guerras?”. Jesus, no Evangelho, nos dá a resposta: do desejo de dominar! Domínio de um povo sobre outro, de uma raça sobre outra, de um partido sobre os outros, de um sexo sobre o outro, de uma religião sobre a outra...

Serviço – No serviço, ao contrário, todos se beneficiam da grandeza das pessoas. Quem é grande no serviço, se torna grande e torna os outros grandes também; mais que elevar-se acima dos outros, eleva os demais consigo. É o caso de Madre Teresa de Calcutá, Raoul Follereau e todos os que diariamente servem à causa dos pobres e dos feridos das guerras, frequentemente arriscando sua própria vida.

Dúvida – Resta somente uma dúvida. O que pensar do antagonismo no esporte e da concorrência no comércio? Também estas coisas estão condenadas pela palavra de Cristo? Não; quando estão contidas dentro de limites da concorrência esportiva e comercial, estas coisas são boas, servem para aumentar o nível das possibilidades físicas e para abaixar os preços no comércio...

Esporte – O convite de Jesus, a ser o último, não se aplica, certamente, às corridas ciclísticas ou às de Fórmula 1! Mas, especialmente o esporte, serve para esclarecer o limite desta grandeza em relação ao serviço: “Nas corridas do estádio, todos correm, mas um só recebe o prêmio”, diz São Paulo (1Cor 9,24). Basta recordar o que ocorre no término de uma final de 100 metros rasos: o vencedor exulta, é rodeado de fotógrafos e levado triunfalmente; todos os outros se afastam tristes e humilhados. “Todos correm, mas um só recebe o prêmio.”


Nova Corrida – São Paulo extrai das competições atléticas um ensinamento positivo: “Os atletas se privam de tudo; e isso por uma coroa corruptível!; Nós, ao contrário [para receber de Deus a], coroa incorruptível [da vida eterna]”. Luz verde, portanto, à nova corrida inventada por Cristo, na qual o primeiro é quem se torna último de todos e servo de todos.

sábado, 12 de setembro de 2015

Quem vocês dizem que sou?


No Evangelho deste domingo, Jesus estava caminhando com os apóstolos perto da cidade de Cesaréia de Felipe. Em meio ao caminho, pergunta aos apóstolos: “Quem o povo diz que eu sou?” E os discípulos responderam: “Alguns dizem que o senhor é João Batista; outros, que é Elias; e outros, que é um dos profetas“. Jesus torna a perguntar: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?” Pedro então responde: “O senhor é o Messias!”

Estranho – Qual a razão dos apóstolos citarem os nomes de Elias e João Batista se eles já estavam mortos? Os judeus acreditavam em reencarnação? Certamente, seria muito estranho os judeus acharem que Jesus fosse uma pessoa morta que “voltou”... O caso não é bem esse... Mas, primeiramente, vamos recordar quem foram Elias e João Batista.

Elias – Originário de Tesbi, Elias foi um profeta do Antigo Testamento que exerceu seu ministério no reino do Norte, no século 9 a.C. Ele manteve a fé do povo em Deus e lutou com vigor contra todo sincretismo religioso. Assim, é descrito no Antigo Testamento como o profeta que "surgiu como fogo e cuja palavra queimava como uma tocha”. O seu desaparecimento é descrito como um arrebatamento por um carro de fogo (2Rs 2-13). Dessa descrição se originou a antiga crença hebraica de que o profeta não teria morrido, mas, teria sido levado para junto de Deus. Sobre ele Malaquias (3, 23) profetizou: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”. Assim, surgiu a crença judaica de que Elias haveria de regressar antes do "Grande dia de Yavéh" ou da "parusia" do Messias, para preparar a vinda do Salvador. Essa convicção foi descrita pelos evangelistas em Mc 6, 14-16; Mc 9,11; Mt 17,10-13, Lc 9, 7; Jo 1, 21.

João Batista – João Batista nasceu cerca de cinco meses antes de Cristo, numa região montanhosa de Judá. Tanto seu pai, o sacerdote Zacarias, como sua mãe, Isabel, eram descendentes de Aarão. Sua mãe era prima de Maria, a mãe de Jesus. Sobre ele o Anjo Gabriel anunciou uma profecia muito semelhante à de Malaquias: “Ele reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto” (Lc 1, 16). Marcos 9, 13 e Mt 11, 14 também confirmam que João Batista tinha o mesmo ideal e o zelo do profeta Elias. O próprio Jesus declara que: “E se vocês o quiserem aceitar [o reino do céu], João é Elias que devia vir” (Mt 11, 14).

Crença – Como tinham aprendido que Elias tinha sido arrebatado para junto de Deus e que haveria de ser reenviado para preparar a vinda do Salvador, os judeus na época de Jesus acreditavam que em algum momento ele “voltaria”. Por isso o evangelho de João (1, 21) relata que perguntam a João Batista se ele era Elias. Ou seja, esperavam o retorno do próprio Elias para anunciar a chegada do Messias.  Assim, não tinham a preocupação de identificar o Messias e sim de reconhecer Elias, pois apenas após o seu reaparecimento viria o Messias.

João Batista, o profeta do anúncio – Em Mt 17,10-13 (Mc 9, 11) lemos que os discípulos interrogaram Jesus perguntando a razão de os escribas dizerem que era necessário que Elias viesse primeiro. Jesus respondeu que “De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles” O texto de Mateus termina dizendo que, então, os discípulos entenderam que Jesus estava falando de João Batista. Mais uma vez, Jesus atesta que João Batista veio cumprir a mesma missão designada a Elias, de zelar com vigor pelas coisas de Deus e cumprir a profecia de ser o precursor do Messias.

Sem dúvidas, mas ainda sem compreender... – Tendo visto todas as coisas que Jesus realizara e tendo compreendido que João Batista era o profeta que viria anunciar a chegada de Jesus, quando são interrogados pelo Mestre sobre quem pensam que Ele é, a resposta de Pedro é categórica: “Tu és o Messias”, atestando que Jesus é o Libertador que Israel esperava, enviado por Deus para livrar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva. Jesus, entretanto, não é o Messias triunfante ou vingador, que busca as glórias humanas, preenchendo as esperanças político-nacionalistas dos judeus. Por isso, para evitar equívocos, instrui-os para que não falem sobre quem Ele é e explica-lhes que a sua missão deve ser entendida à luz da cruz (isto é, como dom da vida aos homens, por amor), dando-lhes instruções sobre o significado e as exigências de ser um discípulo seu.


Atualizando – E para nós, quem é Jesus? Responder a esta questão não significa repetir lições de catequese ou tratados de teologia e sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim? Ele é o Messias libertador, que o Pai enviou ao meu encontro com uma proposta de salvação e de vida plena?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Natividade de Maria Santíssima


No próximo dia 8 de setembro a Igreja comemora a Natividade de Nossa Senhora. Como os Evangelhos Canônicos trazem poucas informações sobre a vida de Maria, fomos buscar mais detalhes (histórias, nomes, datas, etc.) em outras fontes, como a tradição judaica, fontes históricas e textos apócrifos (Proto-evangelho de Tiago, a História de José o Carpinteiro). A Igreja Católica aceita alguns destes fatos na sua liturgia (os nomes dos pais de Maria, a cerimônia de apresentação de Maria no Templo, Imaculada Conceição, as figuras do boi e do jumento no presépio) mesmo não constando nos Evangelhos.

O pai de Maria – Joaquim era um homem muito rico que vivia atormentado por não ter filhos. Para o povo hebreu era muito importante gerar descendentes. Estava tão angustiado que retirou-se para o deserto e jejuou quarenta dias e quarenta noites para que suas preces fossem atendidas.

A mãe de Maria – Ana era uma mulher que lamentava a sua esterilidade. Apresentou-se a ela um anjo de Deus dizendo que o Senhor ouviu seus pedidos e que ela daria à luz uma criança. A concepção imaculada de Maria é aceita pela Igreja Católica como dogma de fé (instituído pelo Papa Pio IX em 1854) e comemorada como a festa da Imaculada Conceição de Maria (8 de dezembro, nove meses antes do nascimento).

Nascimento – Ana e Joaquim eram residentes em Jerusalém, ao lado da piscina de Betesda, onde hoje se ergue a Basílica de Santa Ana. Num sábado, 8 de setembro do ano 20 a.C., nasceu-lhes uma filha que recebeu o nome de Miriam, que em hebraico significa "Senhora da Luz", passado para o latim como Maria. Maria foi oferecida ao Templo de Jerusalém aos três anos, tendo lá permanecido até os doze anos.

Data – Dados tirados de textos apócrifos indicam que Maria teria entre 13 e 14 anos ao ficar noiva de José (um carpinteiro, viúvo e pai de 6 filhos: 4 homens e 2 mulheres). Como já discutimos nesta coluna, a data mais provável para o nascimento de Jesus é o final do ano 7 antes de nossa era (7 a.C.), ou início do ano 6 a.C. Isso nos leva a localizar o nascimento de Maria por volta do ano 20 a.C.

Cronograma da vida – Um cronograma aproximado da vida de Maria seria o seguinte: nasceu no ano 20 a.C.. No final do ano 7 a.C. (com 13 anos) deu à luz Jesus, na cidade de Belém. Maria assistiu a crucificação e morte de Jesus em abril do ano 30 d.C., com 50 anos de idade. Segundo Hipólito de Tebas (autor bizantino do século VII), a Virgem Maria viveu onze anos após a morte de Jesus, morrendo no ano de 41 d.C. (com 61 anos de idade).

Aos doze anos – Quando Maria completou doze anos (aprox. 9 a.C.), os sacerdotes se reuniram e deliberaram que o Sumo Sacerdote deveria decidir o destino de Maria. Este, orando no aposento chamado ‘santo dos santos’, indicou que fossem reunidos 12 viúvos (um de cada tribo de Israel). Cada viúvo deveria vir ao templo com um bastão e aquele que recebesse um sinal singular do Senhor seria o esposo de Maria.

Os viúvos – José, atendendo o chamado do Sumo Sacerdote, se dirigiu de Belém ao templo, entregando o seu bastão. O Sumo Sacerdote, após orar, devolveu os bastões aos viúvos. Ao entregar o bastão a José, uma pomba passou a voar sobre sua cabeça, indicando que José deveria ser o esposo de Maria.

Contestação – José replicou que já era velho e tinha filhos (Judas, Josetos, Tiago, Simão Lígia e Lídia), enquanto que Maria era uma menina; argumentando ainda que seria objeto de zombarias por parte do povo. O sacerdote convenceu-o, dizendo que deveria aceitar o casamento como desejo divino.

A tradição da época – Na palestina não havia diferença entre noivado e casamento. Por isso que em Mt 1,18 nós encontramos que Maria estava desposada de José. Desposada quer dizer noiva. O noivado já tinha o valor de casamento; por isto, em Mt 1,19, José é chamado de esposo. A tradição mandava que após a festa de noivado, a noiva (ou esposa) continuava na casa de seus pais, e o noivo (esposo) ia construir a casa. Pronta a casa, o noivo ia buscar a noiva, geralmente em procissão luminosa, da qual participavam também outras moças do lugar (veja a parábola das dez virgens em Mt 25, 1-13).

José e Maria – Como Maria vivia no templo (e não na casa dos seus pais), José levou-a para sua casa e saiu em viagem de trabalho com os dois filhos maiores. José era carpinteiro e trabalhava na construção de casas. Maria cuidou do pequeno Tiago (filho de José) com carinho e dedicação. Maria viveu como noiva de José perto de dois anos.

Um certo anjo ... – Um certo dia, no início do ano 7 a.C., Maria pegou um cântaro e foi enchê-lo de água. Mas eis que ouviu uma voz que lhe dizia: "Deus te salve, cheia de graça, o Senhor está contigo ...". Bem, mas este é um outro assunto ... .


Quer ler mais – Se você quer ler a história completa de Maria, podemos lhe enviar os textos apócrifos do Proto-evangelho de Tiago e a História de José. Solicite por E-mail.

domingo, 30 de agosto de 2015

Jesus e os 613 ritos judaicos


O Evangelho das missas deste domingo (Mc 1,14-8,30) descreve a discussão de Jesus e os discípulos com os fariseus, sobre o não cumprimento das tradições judaicas. Estamos na Galiléia, no mês de maio do ano 29.

Regras – Os povos antigos, em geral, e os judeus, em particular, sentiam um grande desconforto quando tinham de lidar com certas realidades desconhecidas e misteriosas (quase sempre ligadas à vida e à morte), que não podiam controlar nem dominar. Criaram, então, um conjunto abundante de regras que interditavam o contato com essas realidades (por exemplo, os cadáveres, o sangue, a lepra, etc.) ou que, pelo menos, regulamentavam a forma de lidar com elas, de forma a torná-las inofensivas.

Judeus – No contexto judaico, quem infringia – mesmo involuntariamente – essas regras colocava-se numa situação de marginalidade e de indignidade que impedia de se aproximar do mundo divino (o culto, o Templo) e de integrar a comunidade do Povo santo de Deus. Dizia-se então, que a pessoa ficava “impura”. Para readquirir o estado de “pureza” e poder reintegrar-se, era preciso realizar um rito de “purificação”, cuidadosamente estipulado na “Lei”.

Tradições judaicas – Na época de Jesus, as regras da “pureza” tinham sido absurdamente ampliadas pelos doutores da Lei, criando-se uma obsessão pelos rituais de “purificação”. Para os fariseus, a “tradição dos antigos” não se restringia às normas escritas contidas na Lei (Torah), mas abrangia 613 leis, das quais 248 eram preceitos de formulação positiva e 365 eram preceitos de formulação negativa. Essas eram, para os fariseus, o caminho para tornar Israel um Povo santo e para apressar a vinda libertadora do Messias. É sobre isso que se centra a polêmica entre Jesus e os fariseus que o Evangelho deste domingo.

Lavar as mãos – Um desses ritos consistia na lavagem das mãos antes das refeições. (Ex 30,17-21). Na perspectiva dos doutores da Lei, a purificação das mãos antes das refeições não era uma questão de higiene, mas uma questão religiosa… Em cada momento corria-se o risco de, mesmo sem saber, deparar-se com uma realidade impura e de a tocar; para evitar que a “impureza” presa às mãos se introduzisse no corpo junto com os alimentos, exigia-se a lavagem das mãos antes das refeições.

Apenas ritos – Para Jesus, a obsessão dos fariseus com os ritos externos de purificação era sintoma de uma grave deficiência na maneira de ver e de viver a religião; ele denunciou essa vivência religiosa de repetição de práticas externas e formalistas, mas que não tinha preocupação com a vontade de Deus (“este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” – v. 6) ou com o amor aos irmãos.

Mais ritos – Trata-se de uma religião vazia e estéril (“é vão o culto que Me prestam” – v. 7), que não vem de Deus mas foi inventada pelos homens (“as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos” – v. 7). Àqueles que apostavam na religião dos ritos estéreis, Jesus chamava “hipócritas” (v. 6): interessava-lhes mais o “parecer” do que o “ser”, interessava mais a materialidade do que a essência das coisas… Eles cumpriam as regras, mas não amavam; vestiam a máscara da religião, mas não se preocupavam minimamente com a vontade de Deus. Esta religião é uma mentira, uma hipocrisia, ainda que revestida de ares muito santos e muito piedosos.

Princípios – Depois, Jesus dirige-Se à multidão e formula o princípio decisivo da autêntica moralidade: “não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro; o que sai do homem é que o torna impuro” (v. 15). E explica: “do interior do homem é que saem os maus pensamentos: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem lá de dentro e tornam o homem impuro” (v. 22-23).

A verdadeira religião – não passa, portanto, pelo cumprimento de regras externas, que regulam o que o homem come ou não come; mas passa por uma autêntica conversão do coração, que leve o homem a deixar a vida velha e a transformar-se num Homem Novo, que assume e que vive os valores do Reino. A preocupação com as regras externas de “pureza” é uma preocupação estéril, que não toca o essencial – o coração do homem; pode até distrair-nos do essencial, dando falsas segurança e sensação de estar na vontade de Deus. A nossa verdadeira preocupação deve ser moldar o coração, para que os nossos sentimentos, desejos, pensamentos, projetos, decisões se concretizem, no dia a dia, na escuta atenta dos desafios de Deus e no amor aos irmãos.

QUER SABER MAIS – Se você quer saber quais são as 613 mandamentos da Lei judaica, solicite por E-mail, que lhe enviaremos gratuitamente.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Tu tens palavras de vida eterna


No Evangelho das missas deste domingo (Jo 6, 60-69), Jesus continua a sua missão na Galiléia: é o mês de abril do ano 29, exatamente um ano antes da sua crucificação, morte e ressurreição.

Discípulos – A cena se desenrola na cidade de Cafarnaum, onde Jesus, logo após a reunião na sinagoga, no sábado, discutiu com os judeus que contestavam as suas palavras ("Eu sou o pão que desceu do céu"). Muitos discípulos, que escutavam a discussão, murmuravam: "Esse modo de falar é duro demais. Quem pode continuar ouvindo isso?". E Jesus disse: "Isso escandaliza vocês? Imaginem então se vocês virem o Filho do Homem subir para o lugar onde estava antes! O Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada. As palavras que eu disse a vocês são espírito e vida. Mas entre vocês há alguns que não acreditam".

Pedro – A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com Jesus. Então, Ele disse aos doze: "Vocês também querem ir embora?" Simão Pedro respondeu: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Agora nós acreditamos e sabemos que tu és o Santo de Deus".

Analisando o texto – O texto é a conclusão do grande discurso sobre "O Pão da Vida". Mais uma vez, a Bíblia deixa claro que, diante de Jesus e das suas palavras, o ouvinte tem que tomar uma decisão radical. E os versículos não escondem o fato de que nem todos conseguem optar por Jesus.

Discussão – As primeiras palavras, "depois de ter ouvido isso", demonstram que a divisão nasceu após algum ensinamento de Jesus, sem explicitar o motivo exato da discussão. As preocupações comunitárias dos versículos anteriores – a afirmação de Jesus, de que Ele dá o seu corpo como Pão da Vida, e o fato de o texto se dirigir aos discípulos – indicam que, provavelmente, a fonte de divisão foi o discurso eucarístico.

Divisão – De qualquer maneira, é importante notar que a divisão não se dá entre "os judeus", mas entre os próprios discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus neste momento. Sem dúvida, essa história reflete a experiência da comunidade de João, pelo ano 90, quando estava sentindo, na pele, as dores de divisão, pois muitos dos seus membros a estavam abandonando.

Quantidade – É muito interessante a reação de Jesus diante do abandono da maioria dos seus discípulos. Ele não arreda pé, mas, com toda calma, até convida os Doze a saírem, se não podem aceitar a sua palavra. Jesus não se preocupa com números, mas, com a fidelidade ao Pai. Talvez até fique sozinho, mas não vai diluir em nada as exigências do seguimento da vontade do Pai.

Um exemplo – Esse é um exemplo importante para nós, pois muitas vezes caímos na tentação de julgar o êxito pelos números! Igrejas cheias indicam sucesso! Mas nem sempre é assim: é mais importante ser coerente com o Evangelho, custe o que custar, do que "fazer média" com a sociedade, às vezes mediante uma pregação tão insossa, que reduz a religião a mero sentimentalismo, sem conseqüências sociais.

Escrituras – Diante do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem no Mestre algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Só Jesus tem palavras de vida eterna! Declaração atual, pois é moda na nossa sociedade (até entre muitos católicos praticantes) de correr atrás de tudo que é novidades: supostas aparições, esoterismo, religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas, às vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de Deus nas Escrituras.


Palavras de vida eterna – O texto nos convida a examinar e verificar se estamos realmente buscando a verdade onde ela se encontra ou se a deixamos de lado, achando – como a multidão do texto – que o seguimento de Jesus "é duro demais"! No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados a reencontrar a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo a experiência de Pedro, que descobriu que Jesus "tem palavras de vida eterna".

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Como aconteceu a Assunção de Maria?


No próximo domingo a Igreja comemora a Assunção de Maria, conforme o dogma publicado pelo Papa Pio XII (1950): “A Virgem Imaculada, que fora preservada de toda a mancha de culpa original, terminando o curso da sua vida terrena, foi elevada à glória celeste em corpo e alma”.

Mistério – Os detalhes da morte, enterro e assunção da Virgem Maria são um dos maiores mistérios do Novo Testamento. A Igreja usa o texto da Carta de São Paulo (1Cor 15, 20-23) e do Apocalipse (Ap 11, 19; 12, 1), para fundamentar o dogma. Nenhuma descrição ou fato histórico é citado. Apresentamos aqui as descobertas mais recentes sobre o assunto:

Cronograma – Um cronograma aproximado da vida de Maria seria o seguinte: nasceu no ano 20 a.C., aproximadamente; filha de Ana e Joaquim. No final do ano 7 a.C. (com 13 anos) deu à luz Jesus, na cidade de Belém. Maria assistiu a crucificação e morte de Jesus em abril do ano 30 d.C., com 50 anos de idade. Segundo Hipólito de Tebas (autor bizantino do século VII), a Virgem Maria viveu onze anos após a morte de Jesus, morrendo no ano de 41 d.C. (com 61 anos de idade).

João Paulo II – Em catequese, no dia 9 de julho de 1997, o Papa João Paulo II disse que o primeiro testemunho de fé na assunção da Virgem Maria aparece nas histórias apócrifas, intituladas "Transitus Mariae", cujo núcleo original remonta aos séculos II e descreve a morte, o sepultamento, o túmulo e a ascensão de Maria aos Céus. Segundo a palavra do Pontífice este texto reflete uma intuição da fé do povo de Deus.

O texto – O autor do “Transitus Mariae” usa o pseudônimo de Melitão. Existiu um Melitão, Bispo de Sardes, no ano de 150, mas não deve ser o mesmo. O autor diz que escutou de São João apóstolo a seguinte história: Maria vivia em sua casa, quando recebeu a visita de um anjo anunciando que, em três dias, seria elevada aos céus. Então ela pediu ao anjo que gostaria que todos os apóstolos estivessem reunidos.

Morte – Três dias depois, Maria morreu na presença de todos os apóstolos. Pedro recebeu uma mensagem de Cristo: ele deveria tomar o corpo de Maria e levar à direita da cidade, até o oriente, onde encontraria um sepulcro novo. Ali deveria depositar o corpo de Maria e aguardar um novo aparecimento de Cristo.

Enterro – Os apóstolos assim fizeram: colocaram o corpo num caixão, saíram de Jerusalém, à direita da cidade, entraram no Vale de Josafat (ou vale do Cedron), no caminho para o Monte das Oliveiras, depositaram o corpo no sepulcro, fecharam com uma pedra e ficaram esperando.

Assunção – Cristo ressuscitado apareceu, saudando a todos: “A paz esteja convosco”. Pedro disse: “Senhor, se possível, parece justo que ressuscite do corpo de sua mãe e a conduza contigo ao Céu”.  Jesus disse: “Tu que não aceitasse a corrupção do pecado não sofrerás a corrupção do corpo no sepulcro”. E os anjos a levaram ao paraíso. Enquanto ela subia, Jesus falou aos apóstolos: “Do mesmo modo que estive com vocês até agora, estarei até o fim do mundo”. E desapareceu entre as nuvens junto com os anjos e Maria.

Impressionante descoberta – A arqueologia estudou durante anos os detalhes da pequena igreja existente no local descrito pelo texto “Transitus Mariae” sem nada encontrar. Em 1972, uma chuva torrencial alagou a igreja e exigiu a reconstrução do piso. Ao remover o piso, apareceu um grande porão, com uma câmara funerária do primeiro século. Todas as descrições do livro apócrifo estavam confirmadas.


Quer ler mais – Se você se interessou pelo assunto, nós podemos lhe oferecer a história completa do “Túmulo de Maria” escrita pelo teólogo católico Ariel Alvarez Valdes (17 páginas, em espanhol) com fotos e desenhos do túmulo. Também podemos oferecer o texto completo do livro apócrifo “Transitus Mariae”, escrito no século II (16 páginas, em espanhol). Solicite por E-mail.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Jesus, pão da vida eterna


No Evangelho das missas deste domingo (Jo 6, 41-51), Jesus continua a sua missão na Galiléia. Estamos no mês de abril do ano 29, exatamente um ano antes da crucificação, morte e ressurreição de Jesus.

Nos domingos anteriores – Vimos que Jesus multiplicou os pães para mais de cinco mil homens nas proximidades da cidade de Betsaida; em seguida, entrou na barca com os apóstolos em direção à cidade de Cafarnaum (durante a viagem no Lago de Genesaré ou Mar da Galiléia, aconteceu uma tempestade e Jesus andou sobre as águas); ao chegarem à Cafarnaum foram seguidos por uma multidão; ao falar para a multidão se declarou como “o pão da vida”.

Judeus – No texto deste domingo, Jesus continua na cidade de Cafarnaum, provavelmente em uma sinagoga, no sábado, discutindo com os judeus. Estes contestavam as palavras de Jesus ("Eu sou o pão que desceu do céu") e comentavam: "Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?"

Resposta – E Jesus respondeu: “Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer nunca morrerá. Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo".

Discurso – Este trecho é conhecido como o discurso de Jesus sobre o "Pão da Vida". O gancho que o evangelista João usa para “pendurar” o discurso, é o pedido dos judeus (no versículo 35), "Senhor, dá-nos sempre desse pão". Em resposta, Jesus começa o seu grande discurso, que divide-se em duas partes. Na primeira parte (41-51), João apresenta o ensinamento de Jesus sobre o pão celestial que nos nutre. A segunda parte está nos versículos 52 a 58, que não serão lidos neste domingo.

Paralelo – Jesus faz uma comparação entre o povo de Israel no deserto e os judeus de seu tempo: como os seus antepassados se queixavam, no deserto, contra o pão que Deus mandava (o maná), agora eles queixavam-se do Novo Maná. Os judeus (aqui se entende as autoridades judaicas e não o povo judeu) diziam conhecer a origem de Jesus, porque só pensavam na sua família, e Jesus mostra que, na verdade, não a conheciam, pois eles não conheciam o Pai, a sua verdadeira origem.

Julgamento final – No versículo 47 (“em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna”), o evangelista João revela uma característica de seus textos: a escatologia realizada. Enquanto, para os Sinóticos, o juízo é algo que acontece no último dia, para João, freqüentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou já está condenada, pela sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus.

Última Ceia – No final, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da eucaristia "O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida" (versículo 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregue a sua carne como alimento da vida eterna.


Alimento – Ser atraído por Jesus e crer nele é segui-lo, na adesão concreta ao projeto de Deus. Alimentar-se de Jesus é contemplá-lo e seguir seus passos. Na bondade, na compaixão e no perdão, na fraternidade comunitária e na solidariedade social, na busca da justiça e da paz entra-se em comunhão com Jesus, Pão da Vida Eterna.