sábado, 23 de fevereiro de 2008

A Samaritana Pecadora

 

No Evangelho deste domingo, o evangelista João descreve uma catequese usada no final do primeiro século. Ele conta o encontro de Jesus com uma mulher da Samaria, em um poço na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina: uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de uma religião que misturava ritos e crenças.

 Samaritanos – Na época de Jesus existia uma animosidade muito viva entre samaritanos e judeus. Historicamente, a divisão começou quando os assírios invadiram a Samaria e deportaram cerca de 4% da população samaritana. Os colonos assírios, então, se instalaram na região e se misturaram com a população local. Na visão dos judeus, os habitantes da Samaria começaram nesse momento a paganizar-se (2 Re 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, passados quase trezentos anos, os judeus retornaram do exílio e recusaram a ajuda dos samaritanos (Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém e denunciaram os casamentos mistos.

 Templo – Assim, os judeus tiveram que enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (Ne 3,33-4,17). Cem anos depois, novo elemento de separação: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim, que foi destruído duzentos anos depois por João Hircano. Mais tarde, os desentendimentos continuaram: o mais famoso aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.

 Desprezo – Os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé. Os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.

 O poço – A cena que João descreve passa-se em volta do “poço de Jacob”, situado no vale entre os montes Ebal e Garizim, perto da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, ele teria sido aberto pelo patriarca Jacob. Os dados arqueológicos revelam que ele serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair água dele).

 Os sinais – O evangelista utiliza “personagens” para compor a sua história. A mulher representa a Samaria, que procura desesperadamente a água capaz de matar a sua sede de vida plena. Jesus vai ao encontro da “mulher”.

 Mais sinais – O “poço” representa a Lei, o sistema religioso à volta do qual se conformava a experiência religiosa dos samaritanos. Era nesse “poço” que os samaritanos procuravam a água da vida plena. Mas, os próprios samaritanos tinham reconhecido a insuficiência do “poço” da Lei e haviam buscado a vida plena noutras propostas religiosas. Os “cinco maridos” que a mulher já teve representam os cinco deuses dos samaritanos (2 Re 17,29-41).

 Água Viva – Estamos, pois, diante de um quadro que representa a busca da vida plena. Onde encontrar essa vida? Na Lei? Noutros deuses? É aqui que entra a novidade de Jesus. Ele senta-se “junto do poço”, como se pretendesse ocupar o seu lugar; e propõe à mulher/Samaria uma “água viva”, que matará definitivamente a sua sede de vida eterna. Jesus passa a ser o “novo poço”, onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede.

 Proposta de vida – Jesus tem para oferecer a “água do Espírito”, que no Evangelho de João é o grande dom de Jesus. A mulher/Samaria fica confusa, não sabendo escolher entre o caminho dos samaritanos ou dos judeus. No entanto, Jesus nega que se trate de escolher entre um caminho ou outro: não é no Templo de pedra de Jerusalém ou no Templo de pedra do monte Garizim que Deus está… O que se trata é de acolher à novidade do próprio Jesus, aderir a Ele e aceitar a sua proposta de vida.

 Resposta – A mulher/Samaria responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro (agora inútil), e corre a anunciar aos habitantes da cidade o desafio que Jesus lhe faz. O texto fala, ainda, sobre a adesão entusiástica de todos os que tomam conhecimento da proposta de Jesus e a “confissão da fé”: Jesus é reconhecido como “o salvador do mundo” – isto é, como Aquele que dá ao homem a vida plena e definitiva (vers. 28-41).

 Missão de Jesus – O texto deixa claro que Jesus quer comunicar ao homem o Espírito que dá vida. O Espírito que Jesus tem para oferecer desenvolve e fecunda o coração do homem, dando-lhe a capacidade de amar sem medida. Eleva, assim, os que buscam a vida plena e definitiva à categoria de Homens Novos, filhos de Deus que fazem as obras de Deus. Do dom de Jesus nasce a nova comunidade.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A Transfiguração


 

O Evangelho deste segundo domingo da Quaresma nos apresenta a Transfiguração de Jesus e nos ensina o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, da obediência total e radical aos planos do Pai.

 

Os desanimados – O relato da transfiguração de Jesus é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mt 16,21-23) e de uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida – cf. Mt 16,24-28). Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede aos que o querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um fracasso; eles vêem desaparecer, pouco a pouco – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.

 

Projeto – É neste contexto que Mateus coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para os crentes em geral), pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projeto que Jesus apresenta é um projeto que vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse projeto.

Simbologia – Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro que descreve todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.

 

Elementos – Esta página de catequese, destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus, está construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?

 

O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo. A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei. A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto.

 

Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva. O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus. As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.

 

Novo Moisés – A mensagem fundamental, moldada com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Mais ainda: ele é um novo Moisés – isto é, aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova aliança.

 

Novo Povo de Deus – Da ação libertadora de Jesus (o novo Moisés), irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma nova aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

As bem-aventuranças

  

O Evangelho deste domingo proclama os “bem-aventurados” e recomenda, aos crentes, a misericórdia, a sinceridade de coração, a luta pela paz, a perseverança diante das perseguições: essas são as atitudes que correspondem ao compromisso pelo “Reino”. Enquanto que no primeiro grupo de “bem-aventuranças” se constatam situações, no segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir.

 

A nova Lei – Ao longo do seu texto, Mateus apresenta cinco longos discursos, nos quais agrupa “ditos” e ensinamentos, provavelmente proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos. Na visão de Mateus, esses cinco discursos traziam uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco livros do Pentateuco.

 

As bem-aventuranças – As “bem-aventuranças” que Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das “bem-aventuranças” propostas por Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem nove “bem-aventuranças”, enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano; outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É muito provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido mais trabalhado.

 

O Reino – As “bem-aventuranças” são fórmulas freqüentes na tradição bíblica e definem sempre uma alegria oferecida por Deus. Devem ser entendidas no contexto da pregação sobre o “Reino”: Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que estão numa situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de instaurar o “Reino” e a situação destes “pobres” vai mudar radicalmente; além disso, são “bem-aventurados” porque, na sua fragilidade, debilidade e dependência, estão de espírito aberto e coração disponível para acolher a proposta de salvação e libertação que Deus lhes oferece em Jesus (a proposta do “Reino”).

Os pobres – As quatro primeiras “bem-aventuranças” referidas por Mateus (vers. 3-6) dirigem-se aos “pobres” (as segunda, terceira e quarta “bem-aventuranças” são apenas desenvolvimentos da primeira, que proclama: “bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a sua vontade; daqueles que, de forma consciente, deixam de colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo, que aceitam despojar-se de si próprios e estar disponíveis para Deus e para os outros.

Os “mansos” – Não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências orquestradas pelos poderosos; mas, são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos e prepotências dos injustos… A sua atitude pacífica e tolerante os torna membros de pleno direito do “Reino”.

Os que choram - São aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do “Reino” vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e alegria…

Os que têm fome e sede de justiça – Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico – isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.

Misericordiosos e puros de coração – Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de compadecer-se, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros homens e mulheres, que são capazes de ir ao encontro dos irmãos e estender-lhes a mão, mesmo quando eles falharam. Os “puros de coração” são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano.

Os “que constroem a paz” – São aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte dirijam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação entre os homens.

Os perseguidos por causa da justiça – São aqueles que lutam pela instauração do “Reino” e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a morte… Jesus garante-lhes: o mal não poderá vencer; e, no final do caminho, espera o triunfo, a vida plena.

Os perseguidos por causa de Jesus – Na última “bem-aventurança” (vers. 11), o evangelista dirige-se, em jeito de exortação, aos membros da sua comunidade que têm a experiência de serem perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.

No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está para chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.

sábado, 26 de janeiro de 2008

O projeto do Reino

  


O texto que nos é proposto como Evangelho deste domingo encerra a etapa da preparação de Jesus para a missão (Mt 3,1-4,16) e lança a etapa do anúncio do Reino.

 Local – O texto situa-nos na Galiléia, a região setentrional da Palestina, zona de população heterogênea e ponto de encontro de muitos povos. Faz referência também à cidade de Cafarnaum, cidade situada no limite do território de Zabulão e de Neftali, na margem noroeste do lago de Genezaré, na direção do “caminho do mar” (que ligava o Egito e a Mesopotâmia). Cafarnaum era considerada a capital judaica da Galiléia porque Tiberíades, a capital política da região, por causa dos seus costumes pagãos e por estar construída sobre um cemitério, era evitada pelos judeus. A sua situação geográfica abria-lhe, também, as portas dos territórios dos povos pagãos da margem oriental do lago.

 Cafarnaum – Na primeira parte (Mt 4,12-16), Mateus refere como Jesus abandona Nazaré, o seu lugar de residência habitual, e se transfere para Cafarnaum. Mateus descobre nesse fato um significado profundo, à luz de Is 8,23-9,1: a “luz” que havia de eliminar as trevas e as sombras da morte de que fala Isaías é, para Mateus, o próprio Jesus. Na terra humilhada de Zabulão e Neftali, vai começar a brilhar a luz da libertação; e essa libertação vai atingir, também, os pagãos que acolherem o anúncio do Reino. O anúncio libertador de Jesus apresenta, desde logo, uma dimensão universal.

 Reino – Na segunda parte (Mt 4,17-23), Mateus apresenta o lançamento da missão de Jesus: o conteúdo básico da pregação que se inicia vai se definindo, o “Reino” apresenta-se como realidade viva atuante e são apresentados os primeiros discípulos, que acolhem o apelo do “Reino” e que vão acompanhar Jesus na missão.

 Anúncio – Qual é, em primeiro lugar, o conteúdo do anúncio? O versículo 17 é claro: Jesus veio trazer “o Reino”. A expressão “Reino de Deus” refere-se, no Antigo Testamento e na época de Jesus, ao exercício do poder soberano de Deus sobre os homens e sobre o mundo. Decepcionado com a forma com que o os reis humanos exerceram a realeza, o Povo de Deus começa a sonhar com um tempo novo, em que o próprio Deus vai reinar sobre o seu Povo. Para eles, esse reinado será marcado pela justiça, pela misericórdia, pela preocupação de Deus em relação aos pobres e marginalizados, pela abundância e fecundidade, pela paz sem fim.

 Arrependei-vos – Jesus tem consciência de que a chegada do “Reino” está ligada à sua pessoa. Para Mateus o primeiro anúncio resume-se no seguinte slogan: “arrependei-os, porque o Reino dos céus está para chegar”. O convite à conversão é um convite a uma mudança radical na mentalidade, nos valores, na postura vital. Corresponde, fundamentalmente, a um reorientar a vida para Deus, a um reequacionar a vida, de modo que Deus e os seus valores passem a estar no centro da existência do homem. Só quando o homem aceita que Deus ocupe o lugar que lhe compete, está preparado para aceitar a realeza de Deus… Então, o “Reino” pode nascer e tornar-se realidade no mundo e nos corações.

 Apóstolos – Finalmente, Mateus descreve o chamamento dos primeiros discípulos. Não se trata, segundo parece, um relato jornalístico de acontecimentos, mas de uma catequese sobre o chamamento e a adesão ao projeto do “Reino”. Através da resposta pronta de Pedro e André, Tiago e João, propõe-se um exemplo da conversão radical ao “Reino” e de adesão às suas exigências.

 Chamamento – O relato ressalta uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como acontecia com os discípulos dos “rabbis”; mas a iniciativa é de Jesus, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu, que os convida a segui-Lo e lhes propõe uma missão.

 Opção – A resposta dos quatro discípulos ao chamamento é também inusitada: renunciam à família, ao seu trabalho, às seguranças instituídas e seguem Jesus sem condições. Esta ruptura (que significa não só uma ruptura afetiva com pessoas, mas também a ruptura com um quadro de referências sociais e de segurança econômica) indicia uma opção radical pelo “Reino” e pelas suas exigências.

 Missão – Uma palavra para a missão que é proposta aos discípulos que aceitam o desafio do “Reino”: eles serão pescadores de homens. O mar é, na cultura judaica, o lugar dos demônios, das forças da morte que se opõem à vida e à felicidade dos homens; a tarefa dos discípulos que aceitam integrar o “Reino” será, portanto, libertar os homens dessa realidade de morte e de escravidão em que eles estão mergulhados, conduzindo-os à liberdade e à realização plenas.

 Testemunhas – Estes quatro discípulos representam todo o grupo dos discípulos, de todos os tempos e lugares… Como eles, devemos responder positivamente ao chamamento, optar pelo “Reino” e pelas suas exigências e tornarmo-nos testemunhas da vida e da salvação de Deus no meio dos homens e do mundo.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Quem é Jesus?

  


No Evangelho das missas deste domingo, João Batista apresenta Jesus como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. O trecho é tirado da seção introdutória do Evangelho de João (Jo 1,19 - 3, 36).

 Esquema – João dispõe o texto num enquadramento cênico. As diversas personagens que vão entrando em cena procuram apresentar Jesus. Um a um, os atores vão fazendo afirmações carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, Aquele que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.

 João – João Batista, o profeta precursor do Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim da seção – Jo 1,19-37; 3, 22-36). Ele define Aquele que chega e apresenta-O aos homens. O testemunho de João é perene, dirigido aos homens de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã. João é, portanto, o “apresentador oficial” de Jesus. De que forma e em que termos O apresenta?

 Catequese – A catequese sobre Jesus que aqui é feita se expressa por intermédio de duas afirmações: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito.

 Cordeiro – A primeira afirmação (“o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” – Jo 1,29) evoca, provavelmente, duas imagens tradicionais, extremamente sugestivas: a do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação; e, a do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus em favor de Israel. Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada à libertação dos homens.

 Pecado – A idéia é explicitada pela definição da missão de Jesus: Ele veio para tirar (“eliminar”) “o pecado do mundo”. A palavra “pecado”, no singular, não significa os “pecados” dos homens, mas um “pecado” único que oprime a humanidade inteira. O “mundo” indica, neste contexto, a humanidade que resiste à salvação, reduzida à escravidão, e que recusa a luz/vida que Jesus lhe pretende oferecer… Deus se propondo tirar a humanidade da situação de escravidão em que ela se encontra, enviou Jesus ao mundo com a missão de realizar um novo êxodo, que leve os homens da terra da escravidão para a terra da liberdade.

 Filho de Deus – A segunda afirmação (o “Filho de Deus” que possui a plenitude do Espírito Santo e que batiza no Espírito – Jo 1, 32-34) completa a anterior. Há aqui vários elementos bem sugestivos: o “cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a plenitude do Espírito e tem por missão batizar os homens no Espírito. Ele é o Deus que se faz Pessoa, a fim de oferecer a plenitude da vida divina. A sua missão consiste em eliminar “o pecado” que torna o homem escravo e que o impede de abrir o coração a Deus.

 Espírito – Dizer que o Espírito desce sobre Jesus e permanece sobre Ele sugere que Jesus possui definitivamente a plenitude da vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o seu amor. A descida do Espírito sobre Jesus é a sua investidura messiânica, a sua unção (“messias” = “ungido”). Jesus é o eleito de Yahweh, sobre quem Deus derramou o seu Espírito (Is 42,1), a quem ungiu e a quem enviou para “anunciar a Boa Nova aos pobres, para curar os corações destroçados, para proclamar a libertação aos cativos, para anunciar aos prisioneiros a liberdade” (Is 61,1-2).

 Batismo – Jesus é, finalmente, aquele que batiza no Espírito Santo (batizar significa ‘submergir’ ou ‘encharcar’). “Batizar no Espírito” significa, portanto, um contacto total entre o Espírito e o homem, uma chuva de Espírito que cai sobre o homem e lhe inunda o coração. A missão de Jesus consiste, portanto, em derramar o Espírito sobre o homem; e o homem que adere a Jesus, “inundado” do Espírito e transformado por essa fonte de vida que é o Espírito, abandona a experiência da escuridão (“o pecado”) e alcança o seu pleno desenvolvimento, a plenitude da vida.

 A declaração de João convida os homens de todas as épocas a voltarem-se para Jesus e a acolherem a proposta libertadora que, em nome de Deus, Ele faz: só no encontro com Jesus será possível chegar à vida plena, à meta final do Homem Novo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Onde está o rei dos judeus?


Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação do Senhor ("Epifania" em grego), onde comemoramos o fato de que Jesus foi manifestado não somente ao seu próprio povo, mas a todos, representados pelos Magos do Oriente.

Salvação Universal – Embora a festa tenha muita popularidade folclórica, ela esconde uma grande verdade da fé – que a salvação em Jesus é para todos os povos, sem distinção de raça, cor ou religião. Retomando a grande intuição do profeta Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus.

Simbolismos – O texto de hoje é altamente simbólico – usa uma técnica da literatura judaica chamada "midrash", ou seja, uma releitura de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos textos do Antigo Testamento. Por exemplo:

Magos – Vêm os magos (nem três, nem reis!), buscando o Rei dos Judeus. Esses magos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés (Ex 7,11.22; 8,3.14-15; 9,11), e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas maravilhas feitas por ele.

Estrela – A estrela é sinal da vinda do Messias, prevista na profecia de Balaão (Nm 24,17).

Belém – O menino nasce em Belém, segundo a profecia de Miquéias (Mq 5,1).

Presentes – Os presentes lembram as profecias de Isaías sobre os estrangeiros que viriam a Jerusalém, trazendo presentes para Deus (Is 49,23; 60,5; Sl 72,10-11).

Massacre – Herodes é o novo Faraó, também massacra os filhos do povo de Deus (Ex 1,8.16).

Reações – O texto chama atenção pelas reações diferentes diante do acontecido. Os que deveriam reconhecer o Messias – pois são versados nas escrituras – ficam alarmados, pois, para eles, opressores do povo através da religião e da política, Jesus e a sua mensagem constituem uma ameaça. Outros, pagãos do Oriente, buscando sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe presentes, sinal da partilha, que será característica do Reino que Jesus veio pregar.

Novo sinal – Hoje em dia verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e do seu Evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico com shows e cantos, mas que de forma alguma questionam a nossa sociedade e os seus valores. Para outros, o Menino na estribaria é um sinal do novo Projeto de Deus, o mundo fraterno, no qual todas as pessoas de boa vontade têm que se unir, seja qual for a sua raça, nação, gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.

Mensagem – Jesus não precisa de presentes e sim do nosso esforço na vivência de seu Reino. Não caiamos na celebração oca das histórias do Ciclo Natalino, reduzindo o seu sentido a algo somente sentimental e folclórico. Na prática, temos que optar entre a vivência religiosa vazia, como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou a mensagem libertadora do Menino de Belém, que convoca a todos (representados pelos magos) para a construção de um mundo de paz, de fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que "todos tenham vida e a tenham plenamente" (Jo 10,10).

sábado, 28 de dezembro de 2002

O ano de 2002

Quantas vírgulas têm a Bíblia?

Qual os nomes dos avós de Jesus?

Qual o nome do segundo ladrão crucificado com Jesus?

Qual é a história de São Longuinho?

Qual o nome da mãe de Santo Agostinho?

Qual a santa protetora da esquadra de Pedro Álvares Cabral?

Qual Apóstolo que ficou bêbado com vinho?

Qual o homem mais bonito da Bíblia?

O que era o carrossel de fogo do Livro dos Reis?



Estas são algumas perguntas formuladas por leitores da Coluna “Ser Católico” neste ano de 2002. Recebemos mais de 500 correspondências entre cartas e E-mails. O nosso ‘site’ na Internet foi visitado mais de 5.000 vezes.  Todas as dúvidas e questionamentos foram respondidos; todos os materiais solicitados (textos, livros, publicações, dados sobre santos, informações sobre a Igreja) foram enviados gratuitamente.


Ser Católico – A Coluna “Ser Católico” estará completando, em maio de 2003, três anos de existência. No ano de 2002 estivemos presentes no Jornal da Cidade em todos os sábados. Isso significa uma visita semanal a mais de 35 mil residências da região de Bauru.


Correspondências – Respondemos cartas e E-mails de todos os tipos de leitores: católicos, protestantes, pessoas simples, seminaristas, professores de cursos de teologia, catequistas, pastores evangélicos, detentos da penitenciária, professores de cursos bíblicos etc. Recebemos cartas de toda a região de Bauru e até de São Paulo e Campinas.  Os E-mails vêm de mais longe: a maioria da grande Bauru, mas chegamos a remeter material para o Japão, para um bauruense que lá reside.


Mais solicitado – Todos os leitores devem se lembrar que, nos meses de maio a julho, a coluna publicou 13 artigos sobre os “Dogmas da Igreja Católica”.  Os 44 Dogmas da Igreja foram enviados para mais de cem leitores, se tornando o texto mais solicitado em 2002.  Até os seminários solicitaram o texto para estudo!  Isso mostra que os Dogmas (base, fundamento da doutrina católica) não são conhecidos pela grande maioria do povo católico.


Aparições de Nossa Senhora – Também foi bastante solicitado o texto sobre as aparições de Nossa Senhora.  Os detalhes das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe foram solicitados mais de 50 vezes.


Corpos Incorruptos e Milagre de Lanciano – Muitos leitores solicitaram os textos sobre os 40 santos cujos corpos continuam intactos.  O Milagre de Lanciano, em que a hóstia se tornou carne e o vinho se tornou sangue e se mantêm intactos até hoje (desde 1713) também chamou a atenção dos leitores.


Apóstolos de Cristo e os Irmãos de Jesus – Os oito artigos sobre a vida dos Apóstolos de Cristo também merecem destaque.  Foram mais de 30 solicitações do texto sobre os detalhes da vida daqueles que acompanharam Cristo na terra. A descoberta do ossário de Tiago levantou a polêmica sobre os irmãos de Jesus; no mês de novembro esse assunto foi tratado em detalhes.


VOCÊ PERDEU ALGUM ARTIGO?
Se você perdeu algum destes textos e gostaria de ler, é fácil: entre em nosso ‘site’ que está tudo lá.  Se você preferir, solicite por E-mail que lhe enviaremos (gratuitamente) o material publicado e textos para um estudo mais aprofundado. Aproveitamos também a oportunidade para agradecer àqueles que colaboraram enviando sugestões. A você que nos acompanhou durante todo o ano de 2002, os nossos mais efusivos votos de Ano Novo cheio da Paz e do Amor de Deus. Que o Menino Jesus renove em todos a fé e a certeza de um mundo melhor, construído pela graça do Espírito Santo, por cada um de nós.