sábado, 27 de fevereiro de 2010

Jesus, Moisés e Elias


O Evangelho das missas deste domingo (Lc 9,28b-36) apresenta a Transfiguração. Jesus toma consigo Pedro, João e Tiago e sobe para um monte. Lá as suas vestes se tornam brancas luminosas e aparecem Moisés e Elias para conversar com ele. Todos foram envolvidos por uma nuvem, quando escutaram uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”.

 

Catequese – O relato da transfiguração de Jesus não é um relato histórico, mas uma criação literária dos evangelistas, com a finalidade de deixar um ensinamento teológico, uma idéia válida para a vida dos cristãos. A narrativa é feita com o estilo literário de uma teofania (manifestação de Deus), caracterizado por fenômenos espantosos e supranaturais, nuvens e voz celestial, que indicam a comunicação de Deus (confira na primeira leitura da missa).

 

Ambiente – Estamos no final da “etapa da Galileia”; durante essa etapa, Jesus anunciou a salvação aos pobres, proclamou a libertação aos cativos, fez os cegos recobrar a vista, deu liberdade aos oprimidos, proclamou o tempo da graça do Senhor (Lc 4,16-30). À volta de Jesus já se formou esse grupo dos que acolheram a oferta da salvação (os discípulos). Testemunhas das palavras e dos gestos libertadores de Jesus, eles já descobriram que Jesus é o Messias de Deus (Lc 9,18-20).

 

Cruz – Também já ouviram dizer que o messianismo de Jesus passa pela cruz (Lc 9,21-22) e que os discípulos de Jesus devem seguir o mesmo caminho de amor e de entrega da vida (Lc 9,23-26); mas, antes de subirem a Jerusalém para testemunhar a erupção total da salvação, recebem a revelação do Pai que, no alto de um monte, atesta que Jesus é o Filho bem amado. Os acontecimentos que se aproximam ganham, assim, novo sentido.

 

Monte – Para o homem bíblico, o “monte” era o lugar sagrado por excelência: a meio caminho entre a Terra e o Céu, era o lugar ideal para o encontro do homem com o mundo divino. É, portanto, no monte que Deus Se revela ao homem e lhe apresenta os seus projetos.

 

Catequese – A Transfiguração é uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que através da cruz concretiza um projeto de vida. O episódio está cheio de referências ao Antigo Testamento. O “monte” situa-nos num contexto de revelação (é “no monte” que Deus Se revela e que faz aliança com o seu Povo); a “mudança” do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (Ex 34,29); a nuvem indica a presença de Deus conduzindo o seu Povo através do deserto (Ex 40,35; Nm 9,18.22;10,34). Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (Dt 18,15-18; Mal 3,22-23). Eles falam com Jesus sobre a sua “morte” (“exodon” – “partida”) que ia dar-se em Jerusalém. A palavra usada por Lucas situa-nos no contexto do “êxodo”: a morte próxima de Jesus é, pois, vista por Lucas como uma morte libertadora, que trará o Povo de Deus da terra da escravidão para a terra da liberdade.

 

A Nova Aliança – A mensagem fundamental, portanto, é esta: Jesus é o Filho amado de Deus, através de Quem o Pai oferece aos homens uma proposta de aliança e de libertação. O Antigo Testamento (Lei e Profetas) e as figuras de Moisés e Elias apontam para Jesus e anunciam a salvação definitiva que n’Ele irá acontecer. Essa libertação definitiva irá acontecer na cruz, quando Jesus cumprir integralmente o seu destino de entrega, de dom, de amor total. É esse o “novo êxodo”, o dia da libertação definitiva do Povo de Deus. E o “sono” dos discípulos e as “tendas”? O “sono” é simbólico: os discípulos “dormem” porque não querem entender que a “glória” do Messias tenha de passar pela experiência da cruz e da entrega da vida; a construção das “tendas” (alusão à “Festa das Tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em tendas, no deserto) parece significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, de festa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Jesus foi tentado?


O trecho do Evangelho lido neste domingo (Lc 4,1-13) apresenta-nos uma catequese sobre as tentações de Jesus.

 

Desonra? – Muitos têm dificuldade em aceitar que Jesus foi tentado pelo Diabo. No fundo é porque consideram a tentação como algo desonroso para a pessoa, como uma fraqueza, uma deficiência. Mas não é assim. A tentação não é nem boa e nem má. É simplesmente inevitável. Passa a ser boa ou má segundo a decisão que cada indivíduo toma diante dela.

 

Coisas estranhas – Como podemos dizer que as tentações de Jesus são as mesmas que as nossas?  A primeira tentação acontece no deserto. Mas, na segunda, o Diabo aparece transportando-o pessoalmente ao Templo de Jerusalém. Como o transportou? Levantando-o? Voando? Isto seria aceitar que o Diabo realizou um impressionante prodígio. De onde tirou poder para fazer milagres, quando a tradição bíblica sustenta que só Javé pode fazê-los? Na terceira tentação, o Diabo aparece levando-o a um alto monte, de onde lhe mostra todos os reinos e países do mundo. Existe na Terra esta extraordinária montanha, de onde se pode contemplar semelhante espetáculo?

 

Criação literária – E como pôde Jesus permanecer quarenta dias no deserto sem comer e, principalmente, sem beber? A desidratação não perdoa ninguém. Tudo isso nos leva a supor que, embora Jesus tivesse tido tentações durante sua vida, o modo como elas estão aqui contadas não é histórico. Trata-se mais de uma criação literária dos evangelistas, com a finalidade de deixar um ensinamento religioso, uma idéia válida para a vida dos cristãos. Nenhum exegeta sustenta que Jesus foi realmente levado ao deserto, que ali teve fome e foi tentado, que depois foi levado ao Templo de Jerusalém e terminou em cima de um monte. Toda esta coreografia é uma criação dos evangelistas para deixar-nos um ensinamento.

 

Por que os evangelistas escolheram essas três tentações? Aqui está a chave e o segredo de todo o relato! Escolheram-nas para traçar um paralelo com aquilo que aconteceu com o povo de Israel, logo após a saída do Egito, quando os israelitas entraram no deserto, conduzidos por Deus. Ali permaneceram durante quarenta anos e sofreram especialmente três tentações. Levando em conta esses detalhes, os autores bíblicos apresentam Jesus como o novo povo de Israel, que veio substituir o antigo, pois o povo de Israel, toda vez que fora tentado, tinha sido derrotado. Jesus, ao contrário, sai vitorioso das mesmas tentações e agora forma o novo povo, a nova herança de homens e pode realizar o programa libertador encomendado por Deus ao antigo Israel que, por sua infidelidade, não o pôde levar avante.

 

No deserto – O cenário da primeira tentação de Jesus é o deserto: durante quarenta dias sem comer, Ele sente fome e o Tentador o provoca para converter as pedras em pão. O povo de Israel teve a mesma experiência: depois de sair da opressão do Egito,  durante quarenta anos experimentou uma fome parecida, caindo em tentação. Rebelou-se contra Moisés, desejou poderes especiais para fazer aparecer alimento e até chegou a desejar voltar para a escravidão do Egito. Muitos anos depois Moisés lhes jogaria na cara essa fraqueza, dizendo que deviam ter pensado que nem só de pão vive o homem, mas também de tudo o que sai da boca de Javé (Dt 8,3). Mas quando sobreveio a mesma tentação a Jesus, ele negou-se a usar seus poderes, derrotando o Diabo com as mesmas palavras de Moisés.

 

No Templo – O segundo encontro entre Jesus e o Diabo se deu no Templo, sobre um precipício de mais de cem metros. Ele é convidado a jogar-se dali, para provar que Deus sempre cuida dele. Também o povo de Israel havia passado por semelhante situação: em Masá, no deserto, houve falta d’água e embora soubessem que Javé nunca os havia abandonado, os israelitas exigiram de Moisés que fizesse aparecer água. Caíram na tentação de usá-lo para Deus. E mesmo assim, Deus lhes fez o milagre. Moisés, porém, os censurou: “Não tenteis o Senhor vosso Deus como tentastes em Masá” (Dt 6,16). Essa mesma tentação assaltava agora Jesus. Mas o Senhor, lembrando-se de Moisés, voltou a citá-lo ao Diabo, para vencê-lo.

 

Na montanha – A terceira tentação se dá numa montanha altíssima, de onde Jesus contempla todos os reinos. Dessa vez Satanás lhe propõe que abandona o serviço exclusivo do Pai e converta-se em um adorador seu. O povo de Israel, igualmente, teve essa tentação no deserto: abandonar Javé e fazer para si um ídolo, um bezerro de ouro para adorá-lo (Êx 32). Moisés dirigiu um discurso ao povo antes de entrar na Terra Prometida, pedindo-lhe que não se deixasse tentar por outros deuses, pois “só se deve adorar e prestar culto a Deus” (Dt 6,13). Jesus viveu essa mesma tentação de adorar a outro fora de Deus Pai. E superou-a novamente com as palavras de Moisés que lhe serviram de arma vencedora.

 

Em substituição ao perdedor – Israel havia sido derrotado em todas as provas do deserto, por isso os profetas acreditaram que Deus mandaria um Messias, com força suficiente para vencer todas as tentações e converter em realidade as antigas esperanças do povo. Com o advento do Senhor, os evangelistas sugerem que se inaugura um “novo povo de Israel”, formado por Jesus Cristo e pelos seus seguidores, os cristãos. E dessa vez conseguirá, sim, pois Jesus saiu triunfante das tentações e todo aquele que viver unido a Ele poderá vencer igualmente as tentações. Para isso, os autores colocaram as tentações só no início de sua vida pública, mostrando que, se alguém se esforça em vencê-las, logo tem desimpedido o caminho para o êxito e assegura o triunfo final, como Jesus.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Felizes são vocês...


No trecho do Evangelho lido neste domingo (Lc 6,17.20-26), Jesus proclama as bem-aventuranças.

 

Época – Estamos na Galiléia e Jesus já é conhecido em toda a região, reunindo multidões por onde passa. Estamos no mês de agosto/setembro do ano 28 (lembrar que Jesus foi batizado há quase um ano e, há quatro meses, iniciou o seu ministério proclamando-se o Messias na sinagoga de Nazaré).

 

Dois textos – As bem-aventuranças são apresentadas por dois evangelistas: Mateus e Lucas. Enquanto Mateus apresenta a proclamação bem-aventuranças bem no início do ministério de Jesus, na Galileia (logo após o chamado dos quatro primeiros discípulos), em Lucas esta proclamação é situada após alguns milagres, atritos com os fariseus, o chamado de Mateus e a escolha dos Doze apóstolos. Em Mateus, a proclamação se faz no alto de uma montanha e apenas ao grupo de discípulos. Em Lucas, ela é feita em um lugar baixo e plano, aos discípulos e a uma grande multidão. Mateus cita quatro bem-aventuranças que não estão em Lucas (categorias da tradição profética de Israel): mansidão, misericórdia, pureza de coração e promoção da paz.

 

Ungido – Para entendermos todo o alcance e significado deste texto, devemos recordar que ele está situado na primeira parte do Evangelho de Lucas que é dominada pelo episódio da sinagoga de Nazaré, onde Jesus enuncia o seu programa: “o Espírito do Senhor está sobre Mim porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos…” (Lc 4,18-19). As bem-aventuranças de Lucas inserem-se em todo este ambiente: a libertação chegou com Jesus e dirige-se aos pobres.

 

Mensagem – Lucas inicia este “discurso da planície” com quatro bem-aventuranças (que equivalem às nove de Mateus). Os destinatários destas bem-aventuranças são os pobres, os que têm fome, os que choram, os que são perseguidos. Os “pobres” de Lucas são as pessoas privadas de bens e à mercê da prepotência e da violência dos ricos e dos poderosos. São os desprotegidos, os explorados, os pequenos e sem voz, as vítimas da injustiça, que com frequência são privados dos seus direitos e da sua dignidade pela arbitrariedade dos poderosos. Por isso, eles têm fome, choram, são perseguidos.

 

Pobres? – Serão os pobres os primeiros destinatários da salvação de Deus. Por quê? Por que a proposta libertadora de Deus é para uma classe social, em exclusivo? Não! Porque eles estão numa situação intolerável de debilidade e Deus, na sua bondade, quer derramar sobre eles a sua bondade, a sua misericórdia, a sua salvação. Depois, a salvação de Deus dirige-se prioritariamente a eles porque, na sua simplicidade, humildade, disponibilidade e despojamento, os pobres estão mais abertos para acolher a proposta que Deus lhes faz em Jesus.

 

Bem-aventurados – As bem-aventuranças manifestam, numa outra linguagem, o que Jesus já havia dito no início da sua atividade na sinagoga de Nazaré: Ele é enviado pelo Pai ao mundo, com a missão de libertar os oprimidos. Aos pequenos, aos privados de direitos e de dignidade, aos simples e humildes, Jesus diz que Deus os ama de uma forma especial e que quer oferecer-lhes a vida e a liberdade plenas. Por isso eles são “bem-aventurados”.

 

Maldições – As “maldições” (ou os quatro “ais”) aos ricos que preenchem a segunda parte do Evangelho deste domingo são o reverso da medalha. Denunciam a lógica dos opressores, dos instalados, dos poderosos, dos que pisam os outros, dos que têm o coração cheio de orgulho e de auto-suficiência e não estão disponíveis para acolher a novidade revolucionária do “Reino”. As advertências aos ricos não significam que Deus não tenha para eles a mesma proposta de salvação que apresenta aos pobres; mas significam que, se eles persistirem numa lógica de egoísmo, de prepotência, de injustiça, de auto-suficiência, não têm lugar nesse “Reino” que Jesus veio propor.

 

Nova lógica – A proposta de Jesus apresenta uma nova compreensão da existência, bem distinta da que predomina no nosso mundo. A lógica do mundo proclama “felizes” os que têm dinheiro (mesmo quando esse dinheiro resulta da exploração dos mais pobres), os que têm poder (mesmo que esse poder seja exercido com prepotência e arbitrariedade), os que têm influência (mesmo quando essa influência é obtida à custa da corrupção e dos meios ilícitos). A lógica de Deus exalta os pobres, os desfavorecidos: é a esses que Deus Se dirige com uma proposta libertadora e a quem convida a fazer parte da sua família.

 

Boa Nova – O anúncio libertador que Jesus traz é, portanto, uma Boa Nova que enche de alegria os corações amargurados, os marginalizados, os oprimidos. Com o “Reino” que Jesus propõe aos homens, anuncia-se um mundo novo, um mundo de irmãos, no qual a prepotência, o egoísmo, a exploração e a miséria serão definitivamente banidos e onde os pobres e marginalizados terão lugar como filhos iguais e amados de Deus.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Os seus primeiros discípulos


No trecho do Evangelho lido neste domingo, Jesus chama os primeiros apóstolos. E começa com Simão, Tiago e João, convidando-os a serem pescadores de homens. 

Época – Estamos na Galiléia, no início do ministério de Jesus, por volta do mês de maio/junho do ano 28 d.C.. Jesus já apresentou o seu programa na sinagoga de Nazaré como anúncio da Boa Nova aos pobres e proposição da libertação para os prisioneiros… Agora, começam a notar-se os primeiros resultados da atividade de Jesus: à sua volta começa a formar-se o grupo dos que foram sensíveis a essa proposta de salvação e seguiram Jesus. 

Hebreus – No Antigo Testamento, as narrativas de vocação são feitas em estilo literário próprio, com sinais extraordinários e visões, como vemos na vocação de Isaías (veja a primeira leitura da missa). No Novo Testamento, a vocação de Paulo, descrita em Atos, também é narrada em estilo semelhante. Não tendo sido chamado diretamente por Jesus em sua vida, Paulo – a partir da visão de Jesus ressuscitado (veja segunda leitura da missa) – reivindica para si o título de apóstolo. 

Lago – Jesus adota um estilo próprio, convocando as pessoas para fazerem parte de seu grupo. O evangelista Lucas apresenta o chamado destes discípulos no contexto do ensino de Jesus. Jesus inicia seu ministério em Cafarnaum, à beira do "mar" (aí o Rio Jordão forma um grande lago, conhecido na região como "Mar da Galileia"). Lucas o chama de "lago de Genesaré". O centro desta narrativa é o anúncio de Jesus. 

Ensino – Jesus estava na margem do lago de Genesaré e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago e, subindo na barca de Simão, pediu que se afastasse um pouco. Depois sentou‑se e, da barca, ensinava as multidões. A barca (instrumento de pesca para Simão) passa a ser usada por Jesus para anunciar a Palavra da Boa-Nova à multidão. E é na adesão a esta Palavra que se obtêm bons resultados, imprevisíveis, como mostra a pescaria abundante. 

Pesca – Jesus disse a Simão: "Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes". Simão respondeu: "Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes". Assim fizeram e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas. Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: "Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!" A pesca imprevista e abundante, sob a orientação de Jesus, é uma confirmação da força de sua palavra.  

Pescadores de homens – Tiago e João, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: "De hoje em diante tu serás pescador de homens". Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus. Na pessoa de Simão, estes pescadores são também chamados por Jesus a assumirem o anúncio da Boa-Nova. 

Reflexões – O texto do Evangelho nos propõe cinco reflexões: 

Ser cristão é... estar com Jesus “no mesmo barco” (a comunidade cristã), de onde a Palavra de Jesus se dirige ao mundo, propondo a todos a libertação. 

Ser cristão é... escutar a proposta de Jesus, fazer o que Ele diz, cumprir as suas indicações, lançar as redes ao mar. Às vezes, as propostas de Jesus podem parecer ilógicas, incoerentes, ridículas; mas é preciso confiar incondicionalmente, entregar-se nas mãos d’Ele e cumprir à risca as suas indicações. 

Ser cristão é... reconhecer Jesus como “o Senhor”: é o que faz Pedro, ao perceber como a proposta de Jesus gera vida e fecundidade para todos. O título “Senhor” (grego, “Kyrios”) é o título que a comunidade cristã primitiva dá a Jesus ressuscitado. 

Ser cristão é... aceitar a missão que Jesus propõe: ser pescador de homens. Trata-se de salvar o homem de morrer afogado no mar da opressão, do egoísmo, do sofrimento, do medo. 

Ser cristão é... deixar tudo e seguir Jesus. Esta alusão ao desprendimento do discípulo é típica de Lucas: expressa que a generosidade e o dom total devem ser sinais distintivos das comunidades e dos crentes que seguem Jesus.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Ele não é o filho de José?


Estamos na sequência do episódio que a liturgia de domingo passado nos apresentou. Jesus foi a Nazaré, entrou na sinagoga, foi convidado a ler um trecho dos Profetas e a fazer o respectivo comentário… Leu uma citação de Is 61,1-2 e “atualizou-o”, aplicando o que o profeta dizia, a Si próprio e à sua missão: “cumpriu-se hoje mesmo este trecho da Escritura que acabais de ouvir”. O Evangelho de hoje apresenta a reação dos habitantes de Nazaré à ação e às palavras de Jesus. 

Admiração e Fúria – Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a Nazaré, logo após o seu batismo. É muito violenta a mudança de atitude dos nazarenos: eles vão da admiração à fúria. Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos numa só história, mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos.  

Aprovação – Em primeiro lugar "todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca". Com certeza esta reação não foi causada pela oratória de Jesus, nem porque soubesse usar "artifícios para seduzir os ouvintes", como fazem tantos pregadores e políticos hoje. Não, foram palavras cheias de encanto porque brotaram da sua intimidade com o Pai, da sua espiritualidade profunda, da sua capacidade de compaixão, da coerência entre a sua fala e a sua vivência.  

Palavra – Aqui há um desafio para todos nós: deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que a nossa palavra não seja mais a nossa, mas a manifestação do Espírito que habita em nós. Só assim as nossas palestras e pregações surtirão efeito. Do contrário, por mais eloqüente que possa ser a nossa fala, seremos "sinos ruidosos ou címbalos estridentes": poderemos até chamar a atenção, mas não deixaremos frutos! 

Comparando os textos – Este episódio é relatado nos três Evangelhos sinóticos, porém, Lucas muda a frase central de Jesus. Em Marcos Jesus diz que: "Um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e em sua família" (Mc 6,3). Mateus fala: "Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família" (Mt 13,57). Lucas diz: "Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria" (Lc 4,24), sem qualquer referência a uma rejeição por parte da família ou dos parentes.  

Maria em Lucas – Sem dúvida, atrás desta mudança está a crescente veneração por Maria na comunidade de Lucas, bem como a lembrança da liderança dos parentes de Jesus, na Igreja primitiva. Segundo os estudiosos, a Igreja de Jerusalém foi dirigida por membros do clã de Jesus até 135 d.C.: Tiago, "o irmão do Senhor", era o chefe da Igreja-Mãe, considerado uma das "colunas da Igreja", junto com Pedro e João, como nos diz Paulo em Gálatas 2, 9.  

Rejeição – A reação dos vizinhos de Nazaré encontra eco, muitas vezes, nas comunidades de hoje. É o pobre que não acredita no pobre! Jesus é rejeitado por ser considerado o filho de José, um simples carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, acontece que, em lugar de incentivar as nossas lideranças das bases, os próprios companheiros de comunidade os rejeitam por não serem "doutores", por não saberem "falar bonito" como sabem muito bem os nossos exploradores!!  

Caminhada – Jesus nos dá o exemplo de como enfrentar esses problemas. Ele "continuou o seu caminho" (Lc 4,20) e nos ensinou que apesar das críticas, da não-aceitação, das gozações, o cristão tem que "continuar o seu caminho". Jesus sofreu com isso, mas não se abalou, pois a sua convicção não se baseava na opinião, aprovação e aceitação dos outros, mas na oração, na interiorização da Palavra. Oxalá todos nós cresçamos neste sentido, seguindo o exemplo do Mestre!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Hoje se cumpriu a Escritura


O Evangelho deste domingo (Lc 1,1-4; 4,14-21) relata a primeira experiência da vida pública de Jesus. Aconteceu em maio/junho do ano 28 d.C., na cidade de Nazaré, onde Jesus foi criado. Jesus iniciava a sua vida pública com 34 anos de idade. Em dois anos, ele fará toda a sua pregação, sendo crucificado e morto em abril do ano 30. 

Sinagoga – Era um sábado e Jesus foi à sinagoga para participar do culto semanal. O culto de então consistia do canto de um salmo, a recitação do Shema Israel e as Dezoito Bênçãos, uma primeira leitura do Torá e uma segunda dos Profetas, uma homilia sobre as leituras, a benção do presidente da assembléia e a benção sacerdotal de Nm 6,24-27. Segundo muitas autoridades, a primeira leitura era prescrita, a segunda à escolha do leitor. Qualquer judeu adulto (masculino) podia tomar a palavra, mas as autoridades sinagogais habitualmente confiavam esta incumbência aos que eram considerados versados nas escrituras. Jesus foi convidado a fazer a segunda leitura. 

Isaías – Jesus buscou a passagem do livro de Isaías. A citação de Lucas não é exatamente como está no Antigo Testamento, mas uma combinação de Is 61,1-2 e 58.6, omitindo 61,1c e 61,2b-3a. Nós, cristãos, discípulos de Jesus e continuadores da sua missão no mundo atual, temos aqui os elementos essenciais para a vivência da nossa vocação. Olhemos esses elementos: 

a) "Anunciar a Boa-Notícia aos pobres" – O Evangelho é "Boa Notícia"- não uma série de leis, nem uma lista de práticas rituais, mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade – para os pobres! 

b) "Proclamar a libertação aos presos" – Não somente aos presos da cadeia, mas aos que estão sem a liberdade dos filhos de Deus – presos pelas conseqüências trágicas do neoliberalismo, do desemprego, do salário mínimo; presos pelas correntes de racismo, machismo, clericalismo e todos os "ismos" que oprimem! Também os presos pelo próprio egoísmo, pois assumir os valores evangélicos liberta, através de uma mudança radical na nossa visão e maneira de viver. Nós somos convidados a rever se nós não estamos presos por estruturas antiquadas e sem importância, que impedem que sejamos realmente instrumentos de libertação para os oprimidos que estão próximos a nós. 

c) "Aos cegos a recuperação da vista" – Quanta gente cega hoje! Não só por problemas de vista, mas cegas por não verem a realidade do mundo e dos pobres; tornadas cegas pelas falsas utopias da televisão – que cria um mundo de fantasia, totalmente alienante –; pela manipulação de informação pelos meios de comunicação, controlados pelas elites; pelo incentivo ao consumo, que induz a ter sempre mais, especialmente aqueles que carecem de um senso crítico mais apurado. 

d) "Libertar os oprimidos" – Essa frase evoca o eixo fundamental da Bíblia – o Êxodo, como processo permanente de libertação. No livro do Êxodo, Deus se identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Ex 3,7-10). E Jesus se coloca – e coloca todos os seus seguidores – neste mesmo compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão continua, e Deus nos convoca para que todos nos empenhemos nesta luta permanente de concretizar a libertação dos oprimidos. O texto originalmente se referia aos presos por dívidas (cf. Lc 6,35.37; Nm 5,1-5). Aqui há a lembrança do Ano Jubilar. Atrás desta citação está a convicção de que as estruturas da vida social e econômica devem refletir o Reinado de Deus. 

e) "Proclamar o Ano de Graça do Senhor" – O Ano de Graça – o Ano Jubilar! Memória da proposta de Lev. 25, o ano do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das terras aos seus donos originais! Um ano de alegria e graça, especialmente para o povo pobre e oprimido! Como concretizar esta visão, na realidade atual do Brasil? Júbilo e alegria, não podem ser decretados – têm que brotar de algum motivo profundo: o crescimento real da vivência do Reino de Deus entre nós, através de mudanças reais nas estruturas e relacionamentos, no nível pessoal, social, familiar e eclesial.  

Hoje – Hoje continua o desafio de deixar bem claro o que significa para nós, no lugar onde nos achamos, "pregar a Boa Notícia aos pobres", "libertar os presos", "recuperar a vista dos cegos", "libertar os oprimidos" e "pregar o Ano da Graça do Senhor". E nós podemos enfrentar esse desafio com coragem, pois, como Jesus, todos nós fomos "consagrados com a unção", para esta missão e o Espírito que sustentou Jesus na sua missão não falhará no sustento de quem realmente se lança no seguimento de Jesus, para que o Reino de Deus realize-se entre nós.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O Primeiro Sinal


O Evangelho das missas deste domingo (Jo 2,1-11) apresenta Jesus, Maria e os Apóstolos participando de um casamento na cidade de Caná. 

Sinais – No texto, João declara explicitamente, que o episódio pertence à categoria dos “signos” (sinais, “semeiôn”): trata-se de sinais indicadores, que nos convidam a compreender além da história narrada.  Muito mais do que narrar que Jesus transformou a água em vinho, apresenta o programa de Jesus: trazer à relação entre Deus e o homem o vinho da alegria, do amor e da festa. 

Mais sinais – Por esta razão, a primeira parte do Quarto Evangelho é chamada "O Livro dos Sinais", pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo a passo, revelam quem é Jesus e qual é a sua missão (algumas bíblias traduzem o termo grego por "milagre", mas a tradução mais acertada é "Sinal"). O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná. Como quase todo o evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo: pessoas, números e eventos tem uma função simbólica e para nos levar além da superfície das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.  

Hora – Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da "hora" de Jesus. A "hora" não se refere à cronometria, mas à hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. A resposta ao pedido feito por Maria traz de uma maneira um tanto estranha o termo “mulher”: João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, reservando a ela um papel muito mais rico, ou seja, o de mãe dos discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez, neste evangelho, ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado (João) assumem um relacionamento de Filho e Mãe. E devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor. 

Maria – Não devemos reduzir a ação de Maria somente à de uma incomparável intercessora. Maria, aqui, é a imagem do discípulo exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a expectativa de Maria e a visão dele sobre o que seria adequado naquele momento, ela continua com confiança Nele e leva outros a acreditarem também. 

Água e Vinho – A água tornada vinho não era qualquer água: era a água da purificação dos judeus. Na sua narrativa, João deixa claro que, doravante, os ritos judaicos de purificação estavam superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como uma grande mudança: de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, o que vai continuar ao longo do Evangelho de João. 

Muito Vinho – A quantidade de vinho chama a atenção – 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim, a expectativa messiânica se realiza em Jesus e as talhas transbordantes simbolizam a graças abundante que Ele traz. 

Origem do Vinho – A figura do mestre-sala é carregada de simbolismos também, bem como a dos serventes. O primeiro, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto os últimos sim. O mestre-sala representa os chefes do Templo, que não sabiam a origem de Jesus, enquanto os servos representam os discípulos, que acreditaram nele. 

Vinho Novo e Velho – Fazendo uma comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicas ligados à purificação e ao sacrifício não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus. “É certamente bom o vinho do Antigo Testamento, mas o do Novo é melhor. O Antigo Testamento, que os judeus observam, dilui-se nas letras; o Novo, que seguimos, tem o sabor da vida da graça” (São Fausto de Riez, bispo). 

Sinais – O ponto culminante do relato está no versículo 11: "Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram nele". E a fé deles não é intelectual ou teórica, mas, o seguimento concreto do Mestre na formação de novos relacionamentos de amor. Pouco a pouco, o autor vai revelando Jesus através de sinais, para que nós, os leitores, possamos "acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome" (Jo 20,31).