sábado, 10 de setembro de 2022

As parábolas da misericórdia

 


 No Evangelho das missas deste domingo (Lc 15, 1-32) Jesus apresenta três parábolas: “A Ovelha Perdida”, “A Moeda Perdida” e “O Filho Pródigo”. São as chamadas “Parábolas da Misericórdia”, pois, de forma privilegiada, expressam o amor de Deus que se derrama sobre os pecadores.

 

Desafio – O discurso de Jesus é apresentado numa situação concreta. Naquela época, os cobradores de impostos eram tidos como ladrões; os fariseus e escribas, por sua vez, eram cumpridores rigorosos da Lei, não admitiam qualquer contato com pecadores e desclassificados. Sua rigidez moral era tanta, que ao perceberem a aproximação de alguém reconhecidamente pecador, mudavam o seu rumo de direção para evitar cruzar com a pessoa. Assim, ao verem que alguns cobradores de impostos se aproximavam de Jesus e que eram acolhidos, expressaram a sua admiração por verem que Jesus se sentava à mesa com pecadores (isso expressava familiaridade, comunhão de vida e de destinos). É essa crítica que provoca o discurso do Mestre sobre a atitude misericordiosa de Deus.


Ovelha Perdida – É nesse sentido que podemos interpretar a parábola conhecida como a “Ovelha Perdida”. Jesus, diante da intransigência dos fariseus, pergunta: “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la?”. A resposta razoável é “não” – nenhum pastor, com a cabeça no lugar, deixaria noventa e nove ovelhas à deriva para tentar encontrar uma perdida. Seria loucura! Mas é exatamente aqui que está o sentido da parábola: Deus faz loucuras por amor a nós!! Ele é capaz de fazer o que nenhuma pessoa humana faria – ir atrás da ovelha perdida, custe o que custar, até a encontrar e trazer de volta! Aqui a parábola funciona não por comparação, mas por contraste – Deus é o oposto dos homens, que só agem de maneira calculista; faz loucura – e a loucura do amor consegue o que a razão jamais conseguiria: a volta da ovelha perdida! Assim, se faz contraste entre a atitude de Deus e a dos fariseus e doutores da Lei! Essa parábola nos questiona sobre as nossas atitudes diante das “ovelhas perdidas” das nossas comunidades e famílias! Agimos como os fariseus, com censuras e moralismos, ou como Deus, com a loucura do amor???


Moeda Perdida – A mesma mensagem é retomada na segunda parábola – a da “moeda perdida”. Não que uma dracma (a moeda perdida) fosse de tão grande valor. Mas para o pobre, até uma moeda pequena faz falta! Então, a mulher faz questão de virar a casa (as casas não tinham janelas, por isso precisava acender uma lâmpada) até achá-la. É assim com Deus – talvez a gente ache que uma pessoa não tenha grande valor, mas para Deus ela faz falta e Ele é capaz de “exagerar” para recuperar a pessoa perdida, por tão insignificante que nos possa parecer. Mais uma vez, um contraste com a atitude elitista dos fariseus – e quem sabe, de muitos cristãos hoje!!!


Filho Pródigo – Por fim chegamos à parábola do “Filho Pródigo”, ou do “Pai que perdoa”, ou dos “Dois Irmãos”. Esta parábola pode ser lida sob o ponto de vista de cada um dos personagens: do filho perdido, do Pai ou do irmão mais velho.

 

Tradicional – O título tradicional implica uma leitura feita na ótica do “filho pródigo”. Assim, ressaltaria o processo de conversão – sentir que está numa situação perdida, decidir pedir perdão ou se reconciliar, ser aceito pelo Pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Outra possibilidade é de ler a história sob a ótica do pai. Assim, o pai representa o próprio Deus, que em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” da sua própria vida; depois não espera a volta do “pródigo”, mas, corre ao seu encontro – numa atitude pouco “digna” de um patriarca oriental idoso – preocupado mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e se alegrando com a volta de quem estava “morto”!


Leitura diferente – O contexto do capítulo quinze, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura diferente – sob a ótica do irmão mais velho. Jesus conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e dos doutores da Lei, que o reprovam porque ele acolhera os pecadores! Então o filho mais velho é imagem dos fariseus – “gente boa”, fiel na observância da Lei, mas cujos corações estavam fechados, ao ponto de serem incapazes de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora observassem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a sua atitude contradizia claramente a atitude de Deus!

sábado, 3 de setembro de 2022

Quem busca Jesus sem a cruz encontrará a cruz sem Jesus

  


No Evangelho deste domingo (Lc 14, 25-33) Jesus faz um discurso para uma multidão usando palavras duras. Para a explicação deste texto, vamos recorrer ao texto do Pe. Cantalamessa (Pregador do Papa).

 Provocante – A passagem do Evangelho deste domingo é uma dessas que dão a tentação de se amenizar por parecer demasiado dura para os ouvidos: “Se alguém vem até mim e não odeia seu pai, sua mãe...”. Antes de tudo há algo a esclarecer: certamente o Evangelho é em certas ocasiões provocante, mas nunca contraditório. Pouco depois, no mesmo Evangelho de Lucas, Jesus recorda com a força o dever de honrar ao pai e a mãe (Lc 18, 20), e a propósito do marido e da mulher, diz que tem de ser uma só carne e que o homem não tem direito de separar o que Deus uniu. Então, como pode dizer-nos agora que há que odiar o pai e a mãe, a mulher, os filhos e os irmãos?

 Odiar – Deve-se ter em conta um fato. Em hebraico não há comparativo de superioridade ou de inferioridade (amar a alguém mais ou menos que a outra pessoa); simplifica e reduz todo o “amar” ou “odiar”. A frase “se alguém vem até mim e não odeia seu pai e sua mãe” deve ser entendida, portanto, neste sentido: “se alguém vem até mim sem preferir-me a seu pai e a sua mãe”. Para dar-se conta disto basta ler a mesma passagem do Evangelho de Mateus onde diz: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim” (Mt 10, 37).

 Rival – Seria totalmente equivocado pensar que este amor por Cristo está em competição com os diferentes amores humanos: pelos pais, o cônjuge, os filhos, os irmãos. Cristo não é um “rival no amor” de ninguém e não tem ciúmes de ninguém.

 Amores – O amor por Cristo não exclui os demais amores, mas que os guarda. E mais, nele todo amor genuíno encontra seu fundamento, seu apoio e a graça necessária para se vivido até o final. Este é o sentido da “graça de estado” que confere o sacramento do matrimônio aos cônjuges cristãos. Assegura que, em seu amor, serão apoiados e guiados pelo amor que Cristo teve por sua esposa, a Igreja.

 Amor – Jesus não faz ilusões a ninguém, mas tampouco desilude; pede tudo porque quer dar tudo; e mais, já o deu todo. Alguém poderia perguntar-se: mas como pode este homem, que viveu há vinte séculos em um lugar perdido do planeta pedir-nos este amor absoluto? A resposta, sem necessidade de remontar-nos muito longe, se encontra em sua vida terrena que conhecemos pela história: ele foi o primeiro a dar tudo pelo homem: “Cristo nos amou e se entregou por nós” (Ef 5, 2).

 Cruz – Nesta mesma passagem do Evangelho, Jesus nos recorda também qual é o teste e a prova do verdadeiro amor por ele: “carregar a própria cruz”. Carregar a própria cruz não significa buscar sofrimentos. Cristo tampouco se pôs a buscar sua cruz; em obediência à vontade do Pai, carregou-a sobre si quando os homens se lhe puseram em suas costas, transformando-a com seu amor obediente de instrumento de suplício em sinal de redenção e de glória. Jesus não veio para aumentar as cruzes humanas, mas para dar-lhes um sentido. Com razão, se disse que, “quem busca Jesus sem a cruz, encontrará a cruz sem Jesus”, ou seja, de todos os modos encontrará a cruz, mas sem a força para carregá-la.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Revolução social da humildade

  


No Evangelho deste domingo (Lc 14, 1.7-14) Jesus participa de um banquete na casa de um fariseu. Para a explicação deste texto, vamos recorrer ao texto do Pe. Cantalamessa (Pregador do Papa).

 Preconceito – O início do Evangelho deste domingo nos ajuda a corrigir um preconceito muito difundido. “Num sábado, Jesus entrou para comer na casa de um dos principais fariseus. Eles o observavam atentamente”. Ao se ler o Evangelho sob certo ponto de vista, os fariseus acabam se tornando o modelo de todos os vícios: hipocrisia, falsidade; os inimigos, por antonomásia, de Jesus. Semelhante ideia dos fariseus não é correta. Nem todos eram assim. Nicodemos, que vai ver Jesus de noite e que depois o defende ante o Sinédrio, era um fariseu (Jo 3,1;7). Também Saulo era fariseu antes da conversão, e era certamente uma pessoa sincera e zelosa, ainda que não estivesse bem iluminado. Outro fariseu era Gamaliel, que defendeu os apóstolos ante o Sinédrio (At 5,34).

 Fariseus – As relações de Jesus com os fariseus não foram só de conflito. Compartilhavam muitas vezes as mesmas convicções, como a fé na ressurreição dos mortos, no amor de Deus e no compromisso como primeiro e mais importante mandamento da lei. Alguns, como neste caso, inclusive o convidam para uma refeição em sua casa. Hoje se considera que, mais que os fariseus, quem queria a condenação de Jesus eram os saduceus, a quem pertencia a casta sacerdotal de Jerusalém. Por todos estes motivos, seria muito desejável deixar de utilizar o termo “fariseu” em sentido depreciativo.

 Durante a refeição – Naquele sábado, Jesus ofereceu dois ensinamentos importantes: um dirigido aos “convidados” e outro para o “anfitrião”. Ao dono da casa, Jesus disse (talvez diante dele ou só em presença de seus discípulos): “Quando deres um almoço ou um jantar, não convides seus amigos, nem seus irmãos, nem seus parentes, nem os vizinhos ricos...”. É o que o próprio Jesus fez, quando convidou ao grande banquete do Reino os pobres, os aleijados, os humildes, os famintos, os perseguidos (as categorias de pessoas mencionadas nas Bem-aventuranças).

 Banquete – Mas, nesta ocasião, meditemos sobre o que Jesus diz aos “convidados”. “Se te convidam a um banquete de bodas, não te coloques no primeiro lugar...”. Jesus não quer dar conselhos de boa educação. Nem sequer pretende encorajar o sutil cálculo de quem se põe em uma fila, com a escondida esperança de que o dono lhe peça que se aproxime. A parábola, nisso, pode dar espaço ao equívoco, se não se levar em consideração o banquete e o dono, dos quais Jesus está falando. O banquete é o universal do Reino e o dono é Deus.

 Modéstia – Jesus quer dizer: na vida, escolha o último lugar, procure contentar os demais mais que a você mesmo; seja modesto na hora de avaliar seus méritos, deixe que sejam os demais quem os reconheçam e não você (“ninguém é bom juiz em causa própria”) e, assim, já nesta vida, Deus lhe exaltará. Ele lhe exaltará com sua graça, fará você subir na hierarquia de Seus amigos e dos verdadeiros discípulos de Seu Filho, que é o que realmente importa.

 Humildade – Ele exaltará você também na estima dos demais. É um fato surpreendente, mas verdadeiro. Não só Deus “se inclina ante o humilde e rejeita o soberbo” (Sl 107,6); também o homem faz o mesmo, independentemente do fato de ser crente ou não. A modéstia, quando é sincera, não artificial, conquista, faz com que a pessoa seja amada, que sua companhia seja desejada, que sua opinião seja desejada. A verdadeira glória foge de quem a persegue.

 Sociedade – Vivemos em uma sociedade que tem grande necessidade de voltar a escutar esta mensagem evangélica sobre a humildade. Correr para ocupar os primeiros lugares, talvez pisoteando, sem escrúpulos, a cabeça dos demais, são características desprezadas por todos e, infelizmente, seguidas por todos. O Evangelho tem um impacto social, inclusive quando fala de humildade e modéstia.

 Vivência – Em todos os seus atos, seja modesto!

sábado, 20 de agosto de 2022

Como aconteceu a Assunção de Maria?

 


 Neste domingo a Igreja comemora a Assunção de Maria, conforme o dogma publicado pelo Papa Pio XII (1950): “A Virgem Imaculada, que fora preservada de toda a mancha de culpa original, terminando o curso da sua vida terrena, foi elevada à glória celeste em corpo e alma”.

 

Mistério – Os detalhes da morte, enterro e assunção da Virgem Maria são um dos maiores mistérios do Novo Testamento. A Igreja usa o texto da Carta de São Paulo (1Cor 15, 20-23) e do Apocalipse (Ap 11, 19; 12, 1), para fundamentar o dogma. Nenhuma descrição ou fato histórico é citado. Apresentamos aqui as descobertas mais recentes sobre o assunto:

 

Cronograma – Um cronograma aproximado da vida de Maria seria o seguinte: nasceu no ano 20 a.C., aproximadamente, filha de Ana e Joaquim. No final do ano 7 a.C. (com 13 anos) deu à luz Jesus, na cidade de Belém. Maria assistiu a crucificação e morte de Jesus em abril do ano 30 d.C., com 50 anos de idade. Segundo Hipólito de Tebas (autor bizantino do século VII), a Virgem Maria viveu onze anos após a morte de Jesus, morrendo no ano de 41 d.C. (com 61 anos de idade).

 

João Paulo II – Em catequese, no dia 9 de julho de 1997, o Papa João Paulo II disse que o primeiro testemunho de fé na assunção da Virgem Maria aparece nas histórias apócrifas, intituladas "Transitus Mariae", cujo núcleo original remonta aos séculos II e descreve a morte, o sepultamento, o túmulo e a ascensão de Maria aos Céus. Segundo a palavra do Pontífice este texto reflete uma intuição da fé do povo de Deus.

 

O texto – O autor do “Transitus Mariae” usa o pseudônimo de Melitão. Existiu um Melitão, Bispo de Sardes, no ano de 150, mas não deve ser o mesmo. O autor diz que escutou de São João apóstolo a seguinte história: Maria vivia em sua casa, quando recebeu a visita de um anjo anunciando que, em três dias, seria elevada aos céus. Então ela pediu ao anjo que gostaria que todos os apóstolos estivessem reunidos.

 

Morte – Três dias depois, Maria morreu na presença de todos os apóstolos. Pedro recebeu uma mensagem de Cristo: ele deveria tomar o corpo de Maria e levar à direita da cidade, até o oriente, onde encontraria um sepulcro novo. Ali deveria depositar o corpo de Maria e aguardar um novo aparecimento de Cristo.

 

Enterro – Os apóstolos assim fizeram: colocaram o corpo num caixão, saíram de Jerusalém, à direita da cidade, entraram no Vale de Josafat (ou vale do Cedron), no caminho para o Monte das Oliveiras, depositaram o corpo no sepulcro, fecharam com uma pedra e ficaram esperando.

 

Assunção – Cristo ressuscitado apareceu, saudando a todos: “A paz esteja convosco”. Pedro disse: “Senhor, se possível, parece justo que ressuscite do corpo de sua mãe e a conduza contigo ao Céu”.  Jesus disse: “Tu que não aceitasse a corrupção do pecado não sofrerás a corrupção do corpo no sepulcro”. E os anjos a levaram ao paraíso. Enquanto ela subia, Jesus falou aos apóstolos: “Do mesmo modo que estive com vocês até agora, estarei até o fim do mundo”. E desapareceu entre as nuvens junto com os anjos e Maria.

 

Impressionante descoberta – A arqueologia estudou durante anos os detalhes da pequena igreja existente no local descrito pelo texto “Transitus Mariae” sem nada encontrar. Em 1972, uma chuva torrencial alagou a igreja e exigiu a reconstrução do piso. Ao remover o piso, apareceu um grande porão, com uma câmara funerária do primeiro século. Todas as descrições do livro apócrifo estavam confirmadas.

 

QUER LER MAIS – Se você se interessou pelo assunto, nós podemos lhe oferecer a história completa do “Túmulo de Maria” escrita pelo teólogo católico Ariel Alvarez Valdes (17 pág. em castelhano) com fotos e desenhos do túmulo; a audiência de 9/7/97 do Papa João Paulo II “A Assunção de Maria, verdade de fé” (5 pág, em português); o texto completo do livro apócrifo “Transitus Mariae”, escrito no século II (16 pág. em castelhano). Solicite por E-mail.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Eu vim trazer a divisão à terra

  


Os “ditos” que o Evangelho de hoje (Lc 12,49-53) nos apresenta são dos textos mais obscuros e difíceis de interpretar de todo o Novo Testamento. Particular dificuldade oferece o versículo 49, formado com palavras estranhas ao vocabulário de Lucas. Para a explicação deste texto, vamos recorrer ao texto do Pe. Cantalamessa (Pregador do Papa).

 Provocação? – A passagem do Evangelho desse domingo contém algumas das palavras mais provocadoras pronunciadas por Jesus: “Pensais que eu vim trazer a paz à terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer a divisão. Pois daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: pai contra filho e filho contra pai; mãe contra filha e filha contra mãe; sogra contra nora e nora contra sogra”.

 Contradição? – E pensar que quem diz essas palavras é a mesma pessoa cujo nascimento foi saudado com as palavras: “Paz na terra aos homens”, e que durante sua vida havia proclamado: “Bem-aventurados os que trabalham pela paz”! A mesma pessoa que, no momento de sua prisão, ordenou a Pedro: “Coloque a espada na bainha!” (Mt 26, 52)! Como se explica esta contradição?

 É muito simples – Trata-se de ver qual é a paz e a unidade que Jesus veio trazer e qual é a paz e a unidade que veio suprimir. Ele veio trazer a paz e a unidade no bem, a que conduz à vida eterna, e veio tirar essa falsa paz e unidade que só serve para adormecer as consciências e levar à ruína.

 Divisão? – Não é que Jesus tenha vindo propositalmente para trazer a divisão e a guerra, mas de sua vinda resultará inevitavelmente divisão e contraste, porque Ele situa as pessoas ante a disjuntiva. E ante a necessidade de decidir-se, sabe-se que a liberdade humana reagirá de forma variada. Sua palavra e sua própria pessoa trarão à luz o que está mais oculto no profundo do coração humano. O ancião Simeão o havia predito ao tomar Jesus Menino nos braços: “Este está colocado para queda e elevação de muitos em Israel, e para ser sinal de contradição, a fim de que fiquem ao descoberto as intenções de muitos corações” (Lucas 2, 35).

 Espada – A primeira vítima dessa contradição, o primeiro em sofrer a “espada” que veio trazer à terra, será precisamente Ele, que neste choque perderá a vida. Depois d’Ele, a pessoa mais diretamente envolvida neste drama é Maria, sua Mãe, a quem, de fato, Simeão, naquela ocasião, disse: “Uma espada te transpassará a alma”.

 Dois tipos de paz – Jesus diz aos apóstolos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não é à maneira do mundo que eu a dou. Não se perturbe, nem se atemorize o vosso coração” (João 14, 27). Depois de ter destruído, com sua morte, a falsa paz e solidariedade do gênero humano no mal e no pecado, inaugura a nova paz e unidade que é fruto do Espírito. Esta é a paz que oferece aos apóstolos na tarde da Páscoa, dizendo: “Paz a vós!”.

 Família – Jesus diz que esta “divisão” pode ocorrer também dentro da família: entre pai e filho, mãe e filha, irmão e irmã, nora e sogra. E lamentavelmente sabemos que isso às vezes é certo e doloroso. A pessoa que descobriu o Senhor e quer segui-lo seriamente se encontra com frequência na difícil situação de ter de escolher: ou contentar aos de casa e descuidar Deus e as práticas religiosas, ou seguir estas e estar em contraste com os seus, que lhe jogam na cara cada minuto que dedica a Deus e às práticas de piedade.

 Carne e Espírito – Mas o choque chega também mais profundamente, dentro da própria pessoa, e se configura como luta entre a carne e o espírito, entre o clamor do egoísmo e dos sentidos e o da consciência. A divisão e o conflito começam dentro de nós. Paulo o explicou de forma maravilhosa: “A carne de fato tem desejos contrários ao Espírito e o Espírito tem desejos contrários à carne; estas coisas se opõem reciprocamente, de maneira que não fazeis o que gostaríeis”.

sábado, 6 de agosto de 2022

Vigiai e estai preparados

  


A Palavra de Deus que a liturgia deste domingo nos propõe convida-nos à vigilância: o verdadeiro discípulo não vive de braços cruzados, numa existência de comodismo e resignação, mas está sempre atento e disponível para acolher o Senhor, para escutar os seus apelos e para construir o “Reino”. O Evangelho das missas deste domingo começa com uma referência ao “verdadeiro tesouro” que os discípulos devem procurar e que não está nos bens deste mundo: trata-se do “Reino” e dos seus valores. A questão fundamental é: como descobrir e guardar esse “tesouro”? A resposta é dada em três “parábolas”, que apelam à vigilância.

 A primeira parábola convida a ter os rins cingidos e as lâmpadas acesas (o que parece aludir a Ex 12,11 e à noite da primeira Páscoa, celebrada de pé e “com os rins cingidos”, antes da viagem para a liberdade), como homens que esperam o senhor que volta da sua festa de casamento. Os que creem são, assim, convidados a estarem preparados para acolher a libertação que Jesus veio trazer e que os levará da terra da escravidão para a terra da liberdade; e são também convidados a acolherem “o noivo” (Jesus) que veio propor à “noiva” (a humanidade) a comunhão plena com Deus (a “nova aliança”, representada na teologia judaica através da imagem do casamento).

 A segunda parábola aponta para a incerteza da hora em que o Senhor virá. A imagem do ladrão que chega a qualquer hora, sem ser esperado, é uma imagem estranha para falar de Deus; mas é uma imagem sugestiva para mostrar que o discípulo fiel é aquele que está sempre preparado, a qualquer hora e em qualquer circunstância, para acolher o Senhor que vem.

 A terceira parábola parece dirigir-se aos responsáveis da comunidade, que devem permanecer fiéis às suas tarefas de animação e de serviço: se algum deles descuida de suas responsabilidades no serviço aos irmãos e usa as funções que lhe foram confiadas de forma negligente ou em benefício próprio, será castigado. A última afirmação (“a quem muito foi dado, muito será exigido, a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá – vers. 48b) é claramente dirigida aos responsáveis da comunidade; mas pode aplicar-se a todos os que receberam dons materiais ou espirituais.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Que pecado cometeram os habitantes de Sodoma?

 


 Na semana passada descrevemos o cataclismo que destruiu, por ordem divina, a cidade de Sodoma e outras cinco cidades do Mar Morto (conforme Gn 19). Trata-se de uma das punições mais terríveis relatadas na Bíblia (Gn 19,24-25). Mas, que pecado haviam cometido aqueles homens, para merecer tal condenação? Quais as atitudes, das pessoas de Sodoma e Gomorra, levaram Deus a condená-los?

 

Homossexualidade? – Costuma-se dizer, que o pecado dos sodomitas era a homossexualidade. Existe até, nas línguas modernas, uma série de palavras, como sodomia, sodomita, sodomizar, derivadas do nome da cidade. No entanto, se analisarmos o relato bíblico, vemos que esta é uma interpretação errada. O que era realmente a culpa os habitantes da cidade de Sodoma?

 

No Antigo Testamento – O primeiro a se lembrar dos pecados de Sodoma é o profeta Isaías, no século VIII a.C., que disse que os sodomitas praticavam um culto superficial, oprimiam os mais pobres (Is 1,10-17) e corrompiam os juízes (Is 3,9). No século VII a.C., Jeremias dá outra versão: dizia que o mal era o adultério, a mentira e a impenitência (Jr 23,14). No século VI a.C., Ezequiel afirma que os vícios dos sodomitas eram o orgulho, a gula e a preguiça (Ez 16,49-50). No século II a.C., o livro Eclesiástico identifica o vício com orgulho (Eclo 16,8). No século I a.C., o terceiro livro dos Macabeus afirma que o pecado sodomita era a arrogância (3Mac 2,5). Ou seja, em nenhum livro do Antigo Testamento, composto ao longo de vários séculos, é possível encontrar um único testemunho de que Sodoma praticava a homossexualidade.

 

Novo Testamento – O Novo Testamento também fala várias vezes do pecado de Sodoma: São Mateus (10,14-15; 11,23-24), São Lucas (10,12; 17,29), a Segunda Carta de Pedro (2,6-8), o Apocalipse (11,7-8). Mas ninguém especifica qual foi o pecado. Portanto, nenhum autor bíblico, quando fala do pecado de Sodoma, refere-se à homossexualidade. Isto é muito curioso, porque naquela época, as práticas homossexuais eram duramente condenadas e reprovadas em várias passagens bíblicas.

 

A mudança – No século II a.C., uma mudança na interpretação começou a ocorrer. Os judeus tiveram maior contato com as cidades de cultura grega, nas quais a homossexualidade não era apenas frequente, mas aceita socialmente. Para expressar com força o mal dessa prática, começaram a citar a história de Sodoma, como exemplo de rejeição divina para com ela. A primeira referência à nova interpretação encontra-se em um livro apócrifo judaico, do ano 50 a.C., chamado Testamento de Naphtali (4,1), no qual, pela primeira vez, identifica-se os sodomitas como homossexuais. A segunda menção é encontrada em outra obra judaica apócrifa, Livro dos Segredos de Enoque, do ano 50 d.C. Mais tarde, o historiador Flávio Josefo, em seu livro Antiguidades Judaicas, do ano 93 d.C., conta a mesma coisa e é o primeiro a usar a palavra "sodomia" para se referir, em geral, à prática homossexual.

 

Um pecado mais grave – Hoje, os estudiosos sustentam que o pecado dos sodomitas era a falta de hospitalidade. De fato, no mundo antigo, especialmente em Israel, uma das principais obrigações era oferecer hospedagem aos estrangeiros. Os profetas a tinham entre as principais virtudes (Is 58,7). Jó diz que sempre a praticou em sua vida (Jó 31,32). Era considerada uma ação tão nobre que até Deus a praticou (Sl 39,13). Sua observância era capaz de purificar qualquer pecado, como se vê na história da destruição de Jericó, em que Deus matou todos os seus habitantes, exceto uma prostituta, a quem ele protegeu, pois, poucos dias antes, havia hospedado dois hebreus em sua casa (Js 6,22-25). Por esta razão, quando os mensageiros divinos chegaram a Sodoma, Ló ofereceu-lhes hospedagem em sua casa, em conformidade com esta regra. Em vez disso, os sodomitas, sem qualquer solidariedade, preferiram humilhá-los, para mostrar seu desprezo pelos estrangeiros.

 

Jesus – Um último fato que corrobora essa interpretação é oferecido pelo próprio Jesus, quando envia seus discípulos para pregar de casa em casa. Ele lhes diz: “Se não vos receberem e não ouvirem vossas palavras, quando sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi até mesmo o pó de vossos pés. Em verdade vos digo: no dia do juízo haverá mais indulgência com Sodoma e Gomorra que com aquela cidade." Vemos que Jesus compara Sodoma com as cidades que não querem acomodar seus discípulos. Portanto, na época de Jesus, Sodoma era famosa por não ter sido hospitaleira.

 

Fico Curioso? – Se você gostou do assunto e quer ler mais, podemos lhe oferecer os textos citados: o apócrifo “Testamento de Naphtali” (6 pág. em português), o “Livro dos Segredos de Enoque” (30 pág. em português) as “Antiguidades Judaicas” do historiador “Flavio Josefo” (1.627 pág. em português). Solicite por E-mail.