sábado, 22 de julho de 2000

Os católicos adoram imagens? (Parte II)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 22/07/2000


Domingo passado vimos que entre os povos antigos era comum fazer uma estátua e considerá-la um deus real e vivo. Diante desta circunstância, Deus teve de dar um mandamento (Ex 20, 2-5) que impedisse a aparição de tantos deuses falsos e proibiu a fabricação de imagens que eram apresentadas como deuses, pois isso é idolatria.

Porém, o mesmo Deus que proibiu fazer imagens, em outras circunstâncias, pede para que elas sejam feitas. É isso que vamos ver hoje.

l Deus manda colocar imagens junto à Arca da Aliança.

A Arca da Aliança é o lugar central da religião do povo israelita no Antigo Testamento; ela representava a própria presença de Deus no meio do povo. Veja o que Deus pede a Moisés: "Nas duas extremidades da placa, faça dois querubins de ouro batido: cada um sairá do extremo da placa e a cobrirão com as asas estendidas para cima. Estarão diante um do outro... Aí me encontrarei com você; e, de cima da placa, do meio dos querubins que estão sobre a arca da aliança, direi a você tudo o que deve ordenar aos filhos de Israel" (Ex 25, 18-22). Observe-se um detalhe importante: Deus vai se manifestar ao povo ‘do meio dos querubins’, isto é, entre duas imagens feitas por mãos humanas.

l Deus manda fazer uma imagem de serpente.

Quando o povo estava no deserto, portando, longe dos povos que transformavam estátuas ou imagens em deuses (no caso o Egito), o próprio Deus mandou Moisés fazer uma imagem ou estátua de uma serpente de bronze para que todo aquele que ‘olhasse para ela’ fosse salvo das picadas de cobra.

"Moisés suplicou a Javé pelo povo. E Javé lhe respondeu: ‘Faça uma serpente venenosa e coloque-a sobre um poste: quem for mordido e olhar para ela ficará curado.’ Então Moisés fez uma serpente de bronze e a colocou no alto de um poste. Quando alguém era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado" (Nm 21, 7b-9).

Esse episódio da Serpente de Bronze ficou muito conhecido e sua fama chegou até o tempo de Jesus. O próprio Jesus demonstra conhecê-lo quando o menciona num diálogo que teve com Nicodemos. "Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, do mesmo modo é preciso que o Filho do Homem seja levantado. Assim, todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna" (Jo 3, 14-15).

l As imagens que existiam no templo construído por Salomão foram abençoadas por Deus.

A Bíblia nos relata que o rei Salomão construiu um templo majestoso em honra ao Deus de Israel. Ali, dentro do Templo, mandou erigir duas enormes estátuas de querubins, que de uma ponta a outra tinham 20 côvados, que correspondem a mais ou menos 10 metros (2 Cr 3, 10-11ss).

A Bíblia nos conta ainda, que Deus se agrada deste templo e demonstra isso no dia da sua inauguração (2 Cr 7, 1-3) e, ao aparecer a Salomão e manifestar seu agrado dizendo que escolheu e consagrou aquele templo com suas imagens, para que o povo vá e glorifique o nome do Deus Altíssimo (2 Cr 7, 12.16). Neste mesmo templo havia outras imagens, como é o caso das 12 estátuas de bois que serviam de base para o tanque de água que servia para a purificação dos sacrifícios que eram oferecidos a Deus. A descrição dessas estátuas podem ser encontradas em 2 Cr 4, 3-4; ou 1 Rs 7, 25ss. Logo, o templo abençoado e consagrado por Deus era um templo que tinha muitas imagens.

Fazer imagens, ter imagens em casa ou na Igreja não se constitui em idolatria nem é proibido por Deus. Quando a imagem é um instrumento que remete o nosso pensamento até Deus, Ele não só as aprova como pede que sejam feitas, como pudemos ver hoje.

sexta-feira, 21 de julho de 2000

A Igreja de Jesus Cristo - Parte 1

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 21/07/2001

Iniciaremos este mês uma série de artigos sobre a Igreja de Jesus Cristo, com o objetivo de esclarecer e ajudar todos aqueles que querem conhecer melhor a verdade de Cristo e de sua Igreja.

Origem

Deus, que é Pai e que é Amor, puríssimo Espírito, criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança. Em todo ser humano, portanto, há um vestígio, um traço desses atributos de Deus.

Fomos criados, pois, para a felicidade (Gn 2,8). Apenas uma condição foi imposta por Deus ao homem: a submissão do ser humano ao seu Criador e Senhor. (Gn 2, 16-17). O homem, porém, não se submeteu a Deus. Não obedeceu e rebelou-se. O orgulho e o egoísmo dos primeiros homens determinaram a queda e a rebelião contra Deus, gerando o pecado original. Como conseqüência, os primeiros homens foram afastados da intimidade com o Criador (Gn 3, 23), veio o isolamento, a tristeza, o suor, a morte. Caim matou seu irmão Abel (Gn 4,8). Aconteceram: o dilúvio, castigo de Deus pelas aberrações da humanidade (Gn 6, 5-22; 7, 1-24), a destruição pelo fogo de Sodoma e Gomorra (Gn 19, 23-25), a confusão na torre de Babel (Gn 11, 1-9), guerras, ódios, confusões, medos...

A falta de submissão a Deus Criador e Senhor gerou todas essas coisas e o afastamento da criatura de seu Criador.

Reconstrução

Apesar de tudo, Deus na sua infinita bondade e inteligência não abandonou a humanidade a si própria. Ao contrário, estendeu-lhe seu auxílio, fazendo com os homens diversas alianças, até que fosse selada a última, por meio do sangue de Jesus.

Promessas e Alianças de Deus no Antigo Testamento

  1. Enviar um Salvador: "Porei inimizade entre ti e a mulher, disse à serpente, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça (Gn 3,15). Da segunda Eva, Maria, nasce Jesus Cristo, o Filho de Deus.
  2. Aliança com Noé: "Ponho o meu arco-íris nas nuvens para que seja o sinal da aliança entre mim e a terra"(Gn 9, 12-13)
  3. Aliança com Abraão: "Farei de ti um grande povo, multiplicarei tua descendência como o pó da terra" (Gn 12, 13; 14, 16)
  4. Deus selou a antiga aliança com seu povo por meio de Moisés: "Moisés tomou do sangue, aspergiu com ele o povo e disse: Eis o sangue da aliança que o Senhor fez convosco, sob todas estas palavras" (Ex 24,8; Hb 9,20)

Todos estes pactos, foram apenas uma preparação para a única e eterna Aliança, selada com o sangue de Cristo. De fato, Deus através de Jeremias anunciou esta Nova Aliança: "Eis que virão dias, diz o Senhor, em que eu concluirei com a casa de israel e com a casa de Judá um pacto novo, não como o pacto que fiz com seus pais". (Jr 31, 31-34)

A Nova e Eterna Aliança de Deus com o novo povo

  1. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 14-17)
  2. "Em Cristo, pelo seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados" (Ef 1, 7).
  3. "Tomou depois o cálice, deu graças e o passou, dizendo: Bebei todos dele, porque isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, derramado por muitos em remissão dos pecados" (Mt 26, 26-28; Mc 14, 22-24).
  4. "O sangue da Aliança derramado por muitos..."

O Verbo é Jesus Cristo, o Filho de Deus, que se fez carne e derramou seu sangue para a nossa Redenção. É com este sangue que se assinou para sempre o tratado de amizade entre Deus e a nova humanidade, que nasceu lavada e batizada neste sangue divino. O sangue derramado por muitos deu origem a uma nova humanidade a um novo povo, o Povo de Deus, nele batizado e lavado. Este novo povo é a Igreja de Jesus Cristo.

Todo homem batizado é membro do novo Povo de Deus, a Igreja. Entre Deus e a Igreja há um pacto, uma aliança. Esta Aliança é eterna e infinita, pois foi assinada com o sangue de Jesus. Pense, você, cristão, o quanto vale e quanto custou ao Pai o sangue de seu Filho!

sábado, 15 de julho de 2000

Os católicos adoram imagens ? (Parte I)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 15/07/2000


Com muita freqüência somos questionados por outras denominações cristãs do porquê das imagens em nossas Igrejas. Alegam elas que Deus proibiu de fazê-las e quem as tem, torna-se idólatra porque ‘cultua as imagens’.

Primeiro deve ficar bem claro que católico nenhum é idólatra apenas porque vê nas imagens uma forma de expressão religiosa e, segundo, todo cristão deveria conhecer melhor a Bíblia para entender porque Deus proibiu que se fabricasse outros deuses (veja bem, a Bíblia fala em outros deuses e não imagens ou esculturas de santos).

Para entender corretamente este assunto, é preciso esquecer o presente e dar um mergulho no passado; sair do nosso século, mergulhar uns 3.000 anos atrás e entrar em outra época, outra moda, outro estilo e concepção de vida. Aí então será mais fácil entender o motivo da proibição de fazer imagens, pois naquela época os povos antigos fabricavam deuses.

E como alguém poderia fabricar um deus? Não é difícil entender.

Hoje nós acreditamos num único Deus criador de todas as coisas e que nos foi revelado por Jesus Cristo, mas, antigamente, há uns 3.000 anos atrás, não era assim. As pessoas achavam que cada povo provinha de um deus. E como num mesmo país havia, às vezes, vários povos, existiam também tantos deuses quanto povos existissem. Como tinham deuses diferentes queriam representá-los através de imagens e, desse modo, esses povos antigos fabricavam seus deuses.

Hoje, para nós, é até engraçado lembrarmos que aqueles povos fabricavam imagens e as proclamavam deuses. É uma mentalidade tão absurda que dificilmente podemos entender que possa ter havido gente assim.

Mas houve, a própria Bíblia relata, um momento de fraqueza do povo do Antigo Testamento quando pediram para Aarão que fizesse um deus para eles. ‘Quando o povo notou que Moisés estava demorando para descer da montanha, reuniu-se em torno de Aarão, e lhe disse: ‘Vamos! Faça para nós um deus que caminhe à nossa frente..." (Ex 32, 1 ss). Foi assim que surgiu a história do bezerro de ouro que é bastante conhecida nossa.

Portanto, se naquela época havia essa mentalidade absurda, Deus tinha razão de proibir a feitura de imagens: "Eu sou Javé seu Deus, que fiz você sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não tenha outros deuses diante de mim. Não faça para você ídolos, nenhuma representação daquilo que existe no céu e na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não se prostre diante desses deuses, nem sirva a eles, porque eu, Javé seu Deus, sou um Deus ciumento... (Ex 20, 2-5)

Mas é muito importante que fique bem claro que o erro não estava em fazer imagens ou estátuas, mas em reconhecê-las como sendo deuses.

(continua)

sábado, 8 de julho de 2000

Novamente os Irmãos de Jesus

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 08/07/2000





O Evangelho da missa de hoje volta a citar ‘os irmãos de Jesus’ (Mc 6,1-6). O assunto já foi discutido aqui nesta coluna, e concluímos que Tiago, José, Judas e Simão eram, na verdade, primos de Jesus, filhos de Maria e Cleofas. Surge, então, uma pergunta: quem eram estas 4 pessoas na Igreja primitiva ?


TIAGO, o íntegro – Uma das pessoas mais importantes da Igreja nascente, Tiago foi o primeiro Bispo de Jerusalém. Ele não deve ser confundido com o apóstolo Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João, morto por apedrejamento no ano de 44; quanto ao outro apóstolo Tiago, filho de Alfeu, alguns exegetas o identificam com o primo de Jesus, enquanto que outros negam serem a mesma pessoa. Quanto à autoria da Epístola de Tiago, embora toda a tradição a atribua ao ‘irmão do Senhor’, a maioria dos biblicistas modernos renunciam a essa identificação. Eusébio de Cesaréia, ao escrever a História da Igreja (início do século IV) assim descreveu Tiago, o ‘irmão de Jesus’: "Ele não bebia vinho nem qualquer comida animal; nunca se barbeou, nem se ungiu com óleo nem tomava banho. Só lhe foi permitido entrar no Lugar Santo do Templo, porque seu vestuário não era de lã, mas de linho. Ele entrava no Santuário só, e sempre se encontrava de joelhos pedindo perdão pelas pessoas, a ponto que seus joelhos ficaram calejados como os de camelos. Por causa de seu comportamento correto, ele foi chamado de Integro."

Tiago era conhecido por seus votos de pobreza, sendo apelidado de ‘o pobre’. Alguns autores atribuem a ele a fundação da comunidade dos Ebionitas (ebion = pobre), que aceitava Jesus como um Deus. Veja a atuação de Tiago na Igreja primitiva em Gl 1,19;2,9.12; At 12,17; 15, 13-21; 21, 18-25.


JOSÉ – Nada se conhece sobre José, primo de Jesus. Torna-se importante lembrar que, pela tradição judaica, os judeus nunca colocam em seus filhos o mesmo nome dos pais. Esta é mais uma razão para negar que ‘os irmãos de Jesus’ sejam filhos de José e Maria Santíssima.

JUDAS – Este terceiro ‘irmão do Senhor’ deve ser diferenciado de Judas Tadeu e Judas Escariotes, que foram apóstolos (confira em Mt 13,55 e Mc 6,3). Ele se apresenta como autor da Epístola de Judas, embora a maioria dos estudiosos tenham dúvidas sobre essa autoria, pela data de sua composição (ano 90). Judas e Tiago (primos de Jesus) se tornaram famosos na Igreja primitiva por seus ensinamentos, eram venerados e se divulgavam seus ditos.

SIMÃO – Também é desconhecido na história da Igreja. Não deve ser confundido com Simão Pedro, nem com Simão, o zelote, que eram apóstolos. Simão Pedro, filho de Jonas, era pescador (Mt 4,18), negou três vezes conhecer Jesus, recebeu as chaves do Reino dos Céus e foi o primeiro Papa da Igreja. Simão, o zelote, tinha este nome por ter pertencido ao grupo dos zelotes, que defendiam o nacionalismo religioso, opondo-se com violência à ocupação romana.

sábado, 1 de julho de 2000

São Pedro e São Paulo, apóstolos de Cristo

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 01/07/2000


Apóstolo significa "enviado", "mensageiro". Nos evangelhos o termo é reservado aos doze discípulos escolhidos por Jesus (Mc 3,13-19; Lc 6,13-16), para agir em seu nome (Mt 10,5-8.40). Os apóstolos são escolhidos por Deus para pregar o Evangelho (Rm 1,1; 2Cor 5,20), são a base da Igreja (Ef 2,20; Ap 21,14) e constituem o novo Israel de Deus, recordando as doze tribos (Gn 35,23-26; At 7,8; Mt 19,28; Lc 22,30).

Duas são as condições para ser apóstolo: ter participado na vida pública de Jesus e ser testemunha da ressurreição (At 1,21s; 2,32; Mt 28,19; Jo 20,21). Por isso, contemporâneos de Paulo negavam-lhe a categoria de apóstolo, pois não pertencia aos Doze, nem havia compartilhado da vida pública do Senhor (1Cor 9,1-2; 15,3-9; 2Cor 11,5; 11,13; 12,11-13). Mas Paulo responde que também viu o Ressuscitado, dele recebeu o Evangelho e a investidura no apostolado. Por isso, ele se considera apóstolo de Cristo (1Cor 1,1; 2Cor 1,1; Gl 1,1; Ef 1,1) distinguindo-se dos apóstolos (enviados) das igrejas (Fl 2,25; 4,3; 2Cor 8,23; Rm 16,7), ainda que não pertença aos Doze e não seja testemunha da ressurreição (1Cor 12,28; 15,7-11; Gl 1,15s).

Pedro aparece como o primeiro dos apóstolos (Lc 6,14; 12,41; 8,45; 9,32-33. Ele é a "rocha" e o portador das chaves da casa de Deus (Mt 16,17-18; Jo 1,41-42); é a primeira testemunha da ressurreição (At 1,15-20).


Paulo nasceu de pais judeus, em Tarso da Cilícia, pelo ano 10 de nossa era. Deles herdou os direitos de cidadão romano e uma educação segundo os princípios severos do farisaísmo, aperfeiçoados mais tarde na escola de Gamaliel, em Jerusalém. Este o introduziu nos conhecimentos mais profundos da Bíblia e da Lei. Desde a infância teve também boa formação helênica, no grande centro cultural de Tarso, rival de Alexandria e de Atenas. Conhecia bem o hebraico e o grego e chegou a usar dois nomes, um de sabor judaico (Saulo) e outro de sabor romano (Paulo). Esta foi a sua preparação humana, "desde o seio materno", para a futura missão de apóstolo dos pagãos. Entretanto, a evolução natural o levou a ser um perseguidor da Igreja de Cristo (At 9,1s; 22,4; Gl 1,13). Considerava blasfemo e louco o culto de um Deus crucificado. A seu ver a religião cristã marcava o fim de um sonho messiânico de submeter todas as nações ao domínio da Lei mosaica. Somente o Cristo Glorioso, que lhe aparece no caminho de Damasco, foi capaz de convencê-lo da realidade de tudo o que os cristãos perseguidos acreditavam.

Paulo recebeu, assim, diretamente do Ressuscitado a doutrina e a missão de pregá-la aos pagãos. Por isso se considerava "apóstolo, não da parte de homens nem por intermédio de algum homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos" (Gl 1,1).

Entre as epístolas paulinas distinguem-se as grandes epístolas, escritas durante a atividade missionária do apóstolo (Rm, 1-2Cor, Gl, 1-2Ts), as epístolas do cativeiro, escritas na prisão (Fl, Cl, Fm e Ef) e as cartas pastorais, referentes à disciplina comunitária (1-2Tm e Tt). A epístola aos Hebreus é hoje universalmente reconhecida como não-paulina. Pairam sérias dúvidas também quanto à autenticidade de 2Ts, Cl, Ef e das epístolas pastorais; mas isso não lhes diminui o valor como escritos inspirados.


Simão estava à beira do Lago da Galilea quando Jesus passou, olhou e disse: Desta hora em diante serás pescador de homens" (Lc 5,10). Vivendo ao lado de Jesus, vendo, ouvindo o que ele fazia e dizia, Pedro foi aprendendo sua missão: "Eu te digo que tu é Pedra e sobre esta pedra edificarei minha Igreja...", "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus." (Mt. 16-18).

Os evangelistas referem-se a Pedro em diversas circunstâncias como porta-voz dos apóstolos: após o discurso eucarístico na sinagoga de Carfanaum (Jo 6,68); quando Jesus perguntou aos discípulos quem julgavam que ele era (Mt 16,16); na predição de Jesus de seu sofrimento (Mt 26, 33); na tríplice negação de Pedro (Mt 26, 69-75); na missão do pastoreio (Jo 21, 15-19); na substituição de Judas por Matias (At 1, 15-26); em Pentecostes (AT 2, 14-36) e no Concílio dos Apóstolos (At 15, 7-11).

Pedro, após deixar Jerusalém, no ano 44, atuou como "apóstolo itinerante", fundando comunidades cristãs nas cidades onde existiam grandes comunidades judaicas, dirigia-as por algum tempo, depois designava outros dirigentes e seguia adiante. A mais antiga tradição comunitária de Roma considera Pedro o seu fundador.

Foi preso por ordem de Herodes em Jerusalém, mas foi libertado, por um anjo. Após perseguições, ficou preso durante uns 8 meses. Condenado à morte, como Jesus, foi açoitado e seria crucificado. Pediu para ser crucificado de cabeça para baixo porque se achava indigno de morrer como seu Mestre.

Pela tradição, no lugar do suplício de Pedro (ano 67) foi edificada a Basílica de São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos e o primeiro Papa.

No Brasil, São Pedro é o padroeiro dos pescadores.

sábado, 24 de junho de 2000

Ano 2000 – Ano Jubilar (Parte III)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 24/06/2000


'E Jesus disse a Pedro: 'Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu. '

(Mt 16,19)


O Poder da Igreja – A questão das indulgências já deu muito problema para a Igreja Católica. Desempenhou até um papel de relevo nos acontecimentos que acabaram desembocando na Reforma Protestante. Cabe então esclarecer alguns pontos. Poderíamos nos perguntar: Com que autoridade a Igreja Católica pode dizer que concebe indulgências plenas para o fiel? Será a Igreja Católica proprietária ou gerente da graça de Deus?

A resposta para essas perguntas estão na Bíblia e no bom senso. A graça, como a própria palavra indica, é de graça. Deus não é pessoa que se possa manipular ou comandar. Ele é livre mesmo diante da Igreja, que está a seu serviço. Então, perguntamos novamente, como a Igreja se atreve a declarar que o Senhor concederá indulgências a este ou aquele que cumprir determinadas condições? A Igreja faz como certos filhos que conhecem bem a mãe. Imagine um jovem que encontrasse um necessitado e dissesse: venha comigo que minha mãe vai arranjar alguma coisa para você comer e vestir.

Ao dizer isso, o jovem não está achando que manda na mãe. Ele a conhece, sabe em que circunstâncias o seu coração se comove e que tipo de recursos ela terá vontade de pôr em ação diante daquele caso. A garantia que ele dá ao desamparado não vem de um poder exercido sobre a mãe, vem da intimidade que gera confiança na abertura caridosa de alguém que o educou para ter compaixão dos necessitados. Por isso ele garante: pode vir, minha mãe vai atender você!

O Poder das Chaves – É dessa maneira que a Igreja põe em funcionamento o 'poder das chaves'. Jesus disse a seus discípulos: 'tudo o que ligares na terra será ligado no céu e tudo o que desligares na terra será desligado no céu' (Mt 16,19). Desse modo a Igreja está sendo este jovem que olha para o desamparo do mundo, imerso em pecados, e lhe diz indulgentemente em nome de Deus: 'convertam e creiam no Evangelho' (Mc 1,15), creiam no amor misericordioso do Pai que quer tirá-los das trevas e encaminhá-los à luz.

E ao mesmo tempo que Jesus concede autoridade a sua Igreja, Ele condena os peritos de cada época, quando, julgando-se auto-suficientes, conduzem o povo ao erro e às ideologias que são contrárias aos planos de Deus. 'Ai de vocês, especialistas em leis (leia-se hoje os 'peritos'), porque vocês se apoderaram da chave da Ciência. Vocês mesmos não entraram, e impediram os que queriam entrar' (no Reino de Deus) (Lc 11,52).

A Igreja Católica tem dois mil anos de história, recebeu as chaves da Igreja do próprio Jesus e por isso conhece bem o Pai (como o jovem da história conhecia bem sua mãe) e quer ser sempre fiel a Ele, tal qual o foi Jesus. Assim sendo, a Igreja Católica quer, com as indulgências concedidas nesse ano jubilar, abrir e fechar portas do jeito mesmo que Deus quer que elas sejam abertas e fechadas.

Não há indulgência sem atitudes concretas de amor - Ao oferecer aos fiéis a possibilidade de acolher as indulgências do Ano do Jubileu, a Igreja estabelece alguns requisitos. São gestos concretos que a pessoa deve realizar para se predispor ao recebimento do dom de Deus. Não são ritos mágicos, são sinais exteriores que precisam corresponder a firmes intenções e sentimentos internos. Não é qualquer viagem à Terra Santa que conta como peregrinação. Não é qualquer confissão de pecados que garante a absolvição oferecida no Sacramento da Reconciliação: sem arrependimento não há perdão.

Até mesmo o ato de caridade feito aos necessitados precisa brotar de uma genuína fraternidade. Quem estivesse pensando no socorro aos pobres como simples 'moeda de troca' com Deus estaria equivocado. Mais valeria a caridade desinteressada praticada por um ateu que não espera receber nada em troca no além. É por isso que São Paulo diz no famoso hino à caridade: 'Ainda que eu distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria' (1 Cor 13,3).

sábado, 17 de junho de 2000

Ano 2000 – Ano Jubilar (Parte II)

Coluna "Ser Católico" – Jornal da Cidade – 17/06/2000



O que é uma indulgência?

Em linguagem simples, indulgência é a misericórdia que vence o pecado. Mesmo na linguagem comum, fora da Igreja, indulgência significa a capacidade de perdoar, de 'passar por cima' do mal feito. Indulgente é quem teria direito de exigir reparação e prefere apagar o erro num ato de confiança e generosidade em relação àquele que errou.

Indulgência tem a ver com pecado, seja pessoal ou social. Precisamos de indulgências porque somos todos pecadores e vivemos num mundo marcado pelas feridas do pecado.



A indulgência deve ser entendida na relação com o pecado

Muitos preferem nem falar em pecado - como se fosse um assunto fora de moda. Infelizmente, na prática, não é um tema ultrapassado: o pecado, em suas muitas formas, nos agride diretamente. Também não é assunto particular que exija simplesmente um acerto privado entre o pecador e Deus.

Qualquer pecado espalha mal e sofrimento ao mundo, de alguma forma. Nesse sentido, o relato do primeiro pecado, no Gêneses, é exemplar. Pelo exemplo de Adão e Eva, pecar é se apossar de um 'fruto' proibido que destrói a harmonia da vida e transforma em sofrimento e perigo o que deveria ser paraíso. Cada novo pecado que praticamos, repete o processo que expulsa a humanidade do paraíso e deixa um rastro de conseqüências desastrosas, para o próprio pecador, para os que convivem com ele, para a humanidade que se torna menos humana na fraqueza de cada um de seus membros.



Por que a indulgência é proclamar um amor maior que o pecado?

O pecado pode ser perdoado por Deus, pelo irmão ofendido, pela Igreja, pela comunidade. Mas sempre ficam os vestígios do mal feito. A volta ao paraíso fica cada vez mais distante, a recuperação do bem se torna mais penosa. Nesse pano de fundo, proclamar uma Indulgência Plena é afirmar um amor capaz de ser maior do que o pecado: uma vontade restauradora de Deus que tudo cicatriza e recompõe.

Vamos falar um pouco das conseqüências do pecado, que são a razão de ser da indulgência. Pensemos, antes de tudo, num ato com que prejudicamos alguém, roubando algo que lhe pertencia ou até ferindo seu corpo. Mesmo se essa pessoa nos perdoar a ofensa, resta ainda a obrigação nossa de indenizá-la (devolver o que tiramos, pagar o tratamento médico que ele fez...). Se ela nos perdoar não só a ofensa, mas também tudo o que lhe devemos, podemos dizer que ela teve 'indulgência' para conosco. Deus, porém, não está querendo ser 'indenizado' depois de ter perdoado o pecado, a ofensa. Deus quer a nossa realização plena, a nossa felicidade. Mas o pecado não ofende apenas a Deus. Sempre deixa conseqüências negativas em nós e em nossos irmãos. A indulgência, então, é a garantia - pela intercessão da Igreja, da comunhão de todos os santos - de que Deus não somente perdoou tudo, mas nos convida a refazer nossa vida, a buscar a perfeição de nosso ser, a restabelecer plenamente a paz e o amor com todos os irmãos.



Indulgência não é um 'passaporte para o céu'

Por isso, é uma interpretação que ofende a Deus dizer (como às vezes foi dito, suscitando o escândalo dos bons cristãos...) que ganhar a indulgência é comprar o 'passaporte para o céu', o direito de entrar no paraíso. Ganhar a indulgência é comprometer-se a corresponder a graça de Deus e, com sua ajuda, procurar uma libertação total do pecado. Por isso, a indulgência exige gestos concretos que revelem a decisão firme do pecador em converter-se. Exclui qualquer atribuição mágica ao Sacramento da Penitência (Confissão) e à prática da indulgência. Exige, antes, mudança radical do modo de vida.