sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Adão e Eva existiram?


 
Segundo a Bíblia, Deus formou Adão, o primeiro homem, com o barro do chão. De sua costela fez Eva, sua mulher. E logo os colocou em meio a um paraíso fantástico. Ambos viviam nus sem se envergonharem e Deus, pelas tardes, costumava visitá-los e conversar com eles (Gênesis 2). 

Ciência – Esta história, que nos entusiasmava quando éramos crianças, nos coloca em sérias dificuldades agora que somos adultos. A Ciência moderna (Teoria da evolução das espécies e Teoria do Big-Bang) demonstrou que todo o universo vem se transformando. O homem não foi formado nem do barro nem de uma costela (e no princípio, não havia apenas um casal). O homem foi evoluindo a partir de seres inferiores (há 3 milhões de anos), desde o Australopitecus, passando pelo Homo erectus, o Homo habilis e o Homo sapiens, até chegar ao homem atual.  

Pergunta: Por que a Bíblia relata desta maneira a criação do homem e da mulher? Simplesmente porque se trata de uma parábola, de um relato imaginário que pretende deixar um ensinamento às pessoas. 

Catequese – O primeiro detalhe que chama a atenção é que o texto afirma que o homem foi criado do barro. Diz o Gênesis que no princípio, quando a terra era ainda um imenso deserto, “o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (2,7). 

Oleiro – A imagem de um Deus oleiro, de joelhos no chão amassando barro com suas mãos e soprando nas narinas de um boneco, pode nos parecer um pouco estranha. Entretanto, na mentalidade daquela época era uma homenagem para Deus. De todas as profissões conhecidas na sociedade de então, a mais digna, a mais grandiosa e perfeita era a de oleiro. Impressionava ver esse homem que, com um pouco de argila sem valor, era capaz de moldar e de criar com grande maestria preciosos objetos: baixelas, copos refinados e lindos utensílios. 

A maior criação – O autor do livro do Gênesis, sem pretender ensinar cientificamente como foi a origem do homem, posto que não o sabia, quis indicar algo mais profundo: que todo homem, quem quer que fosse, é uma obra direta e especialíssima de Deus. Não é mais um animal da criação, mas um ser superior, misterioso, sagrado e imensamente grande porque Deus em pessoa teve o trabalho de fazê-lo. 

Uma falha? Porém, de repente, o relato se detém. Algo parece haver saído mal. O próprio Deus pressente que não é muito bom o que fez: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Ele não tem ninguém com quem se relacionar. Ante esta circunstância, Deus busca corrigir a falha mediante uma nova intervenção. E da costela de Adão, forma uma mulher: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne: esta será chamada mulher, porque foi tomada do homem.” (Gn 2,21-23). 

Três ensinamentos deste relato – O primeiro: que a solidão do homem não é boa. Que não foi criado como um ser autônomo e autossuficiente, mas sim necessitado dos demais, de outras pessoas que o complementem em sua vida. O segundo ensinamento é que os animais não estão no mesmo nível do homem; que não têm sua mesma natureza; e, portanto, não estava bem que ele se relacionasse com os animais como fazia com as pessoas. O terceiro ensinamento pretende explicar que está bem para o homem deixar seu pai e sua mãe, para se unir a uma mulher. É o primeiro canto da Bíblia ao amor conjugal. 

Sono – Outro detalhe fascinante é o profundo sono que Deus fez cair sobre Adão antes de criar a mulher. Criar é o segredo de Deus. Só Deus o conhece e só Ele sabe fazer. O homem não pode presenciar o ato da criação de Deus. Por isso dorme quando Deus cria. Ao acordar, não sabe nada do que passou. A mulher recém-criada também não, pois quando se dá conta de que existe, já foi formada. 

Origem – A Bíblia não ensina como foi a origem real do homem e da mulher porque o escritor sagrado não sabia. Porém, como vimos, também não interessa contar “como” apareceu o homem sobre a terra, mas “de onde” apareceu. E sua resposta é: das mãos de Deus. O “como” os cientistas devem explicar. O “de onde” o responderá a Bíblia. E algo mais profundo: que todo homem, quem quer que seja, é uma obra direta e especialíssima de Deus.

sábado, 12 de outubro de 2013

As duas histórias da criação


Na semana passada vimos que a Bíblia (capítulos 1 e 2 do Gênesis) relata duas histórias criação do mundo. Ao analisar estas duas histórias, notamos várias contradições entre elas. 

As duas histórias – A primeira história (Gn 1) conta que, no começo dos tempos, tudo era caos e vazio, até que Deus resolveu pôr ordem nessa confusão. Criou a luz (manhãs e as noites), o firmamento, separou as águas da terra firme, criou as estrelas, sol, lua, plantas, aves, peixes e répteis. E, por último, formou o homem (sua imagem e semelhança). Quando vamos ao capítulo 2, parece que não aconteceu nada antes. Estamos outra vez diante do vazio total. Deus, novamente em cena, põe-se a trabalhar. Torna a criar o homem, modelando-o com o pó da terra. Cria as plantas, árvores e animais e, por fim, a mulher, de uma costela do homem. Vimos que as histórias são parábolas, relatos que pretendem deixar um ensinamento às pessoas. Mas, como se escreveram dois relatos tão diferentes? 

A primeira história – O primeiro relato a ser composto foi Gn 2, embora na Bíblia apareça em segundo lugar. Por isso tem um sabor tão primitivo, espontâneo, vívido. Durante muitos séculos foi o único relato sobre a origem do mundo que o povo de Israel tinha. Foi escrito dez séculos antes de Cristo, durante a época do rei Salomão, e seu autor era um excelente catequista que sabia pôr ao alcance do povo, em forma gráfica, as mais altas ideias religiosas. Com um estilo pitoresco e infantil, mas de uma profunda observação da psicologia humana, narra a formação do mundo, do homem e da mulher como uma parábola oriental, cheia de ingenuidade e frescor. 

As fontes – Para isso valeu-se de antigos mitos tirados dos povos vizinhos. De fato, as antigas civilizações assíria, babilônica e egípcia tinham composto suas próprias narrativas sobre a origem do cosmos, que hoje podemos conhecer graças às escavações arqueológicas realizadas no Oriente Médio. E torna-se surpreendente a semelhança entre estes relatos e o da Bíblia. Todos dependem de uma concepção cosmológica de um universo formado por três planos superpostos: os céus, com as águas superiores; a terra, com o homem e os animais; e o mar, com os peixes e as profundezas da terra. O autor de Gn 2 (javista) recolheu essas tradições populares de seu tempo e as utilizou para compor uma mensagem religiosa.  

A grande decepção – Quatro séculos depois de a primeira história ter sido composta, uma catástrofe veio alterar a vida e a fé do povo judaico. No ano de 587 a.C., o exército babilônico, comandado por Nabucodonosor, tomou Jerusalém e levou o povo como escravo para a Babilônia. E lá, na Babilônia, veio a grande surpresa. Os primeiros cativos começaram a chegar àquela capital e se depararam com uma cidade esplêndida, com enormes edifícios, magníficos palácios, torres com vários andares, aquedutos grandiosos, jardins suspensos, fortificações e templos luxuosos. Eles, que se sentiam orgulhosos de pertencer a uma nação bendita e engrandecida por Javé, na Judéia, não eram senão um povo modesto, com escassos recursos, diante da Babilônia. O templo de Jerusalém, construído com todo o luxo pelo grande rei Salomão e para a glória de Javé, que o escolhera para sua morada, não era senão um pálido reflexo do impressionante complexo cultural do “deus” Marduk, da “deusa” Sin e de seu “esposo” Ningal. Jerusalém, orgulho nacional, por quem todo israelita suspirava, era uma cidade apenas “considerável”, em comparação com Babilônia e suas muralhas, enquanto seu rei, ungido de Javé, nada podia fazer diante do poderoso monarca Nabucodonosor, “braço direito” do “deus” Marduk. 

A fé estava em perigo – Javé seria mais fraco que o deus dos babilônios? Não seria a hora de crer num deus que fora superior a Javé, que protegera com mais eficiência seus súditos, outorgando-lhes melhores favores que os magros benefícios obtidos suplicando ao Deus de Israel? Caíram, então, as ilusões num Deus que parecia não ter podido cumprir suas promessas. Os judeus começaram a passar em massa para a nova religião dos conquistadores, com a esperança de que um deus de tal envergadura melhoraria sua sorte e seu futuro. 

Uma nova catequese – Diante da situação em que vivia o decaído povo judeu, um grupo de sacerdotes começou a tomar consciência de que era preciso voltar a catequizar o povo. O velho relato da criação, que o povo tanto conhecia (Gn 2), já não servia mais. Tinha perdido sua força. Era preciso escrever um novo, onde se pudesse apresentar uma vigorosa ideia do Deus de Israel, poderoso, que expressasse supremacia, excelso entre as criaturas. Escrevem assim uma nova catequese (Gn 1), com um renovado ato de fé em Javé, o Deus de Israel. 

Um Deus atualizado – Cem anos depois, lá por 400 a.C., um último redator compôs o livro do Gênesis, recopiando velhas tradições. Resolveu, apesar das evidentes contradições, conservar os dois relatos da criação. Colocou como porta de entrada na Bíblia o relato dos sacerdotes. Não quis, porém, suprimir o antigo relato do autor javista e o colocou a seguir. Com isso, manifestava que, para ele, Gn 1 e Gn 2 relatavam, de maneira distinta, a mesma verdade revelada, tão rica, que não bastava um só relato para expressá-la.

sábado, 5 de outubro de 2013

O mundo foi criado duas vezes?


Quando nós lemos o início da Bíblia (capítulos 1 e 2 do Gênesis), ficamos admirados com as duas histórias criação do mundo. E ainda mais perplexos, com a maneira contraditória com que estas histórias são contadas. 

Primeira história – Quando éramos crianças, na catequese, ouvimos que, no começo dos tempos, tudo era caos e vazio, até que Deus resolveu pôr ordem nessa confusão. Iniciou criando a luz (Gn 1,3) e fazendo surgir as manhãs e as noites. Depois decidiu separar a terra e as águas, criando o firmamento. Quando viu que o solo era só uma mistura lamacenta, secou uma parte e deixou a outra molhada, e com isso apareceram os mares e a terra firme. Criou as estrelas, Sol, Lua, plantas, aves, peixes e répteis. E, por último, como coroação de tudo, formou o homem, o melhor de sua criação, a quem modelou conforme sua imagem e semelhança. Decidiu, então, descansar.  

Segunda história – Quando vamos ao capítulo 2, vem o espanto. Parece que não aconteceu nada antes. Estamos outra vez diante do vazio total, onde não há plantas, nem água, nem homens (Gn 2,5). Apresenta-se um Deus muito diferente do relato anterior. Em vez de ser solene e majestoso, adquire agora traços muito mais humanos. Torna a criar o homem, modelando-o com o pó da terra, sopra em suas narinas e assim lhe dá a vida (Gn 2,7). Detalha-se logo, pela segunda vez, a formação de plantas, árvores e animais. E para criar a mulher emprega agora um método diferente. Faz o homem dormir, extrai-lhe uma costela, preenche com carne o vazio que ficou e modela Eva. Depois a apresenta ao homem e a dá como sua companheira ideal para sempre. 

Contradições – Por acaso, no início dos tempos, houve duas criações? Inúmeras são as contradições entre os dois capítulos. Desde o começo chama a atenção a forma diferente de referir-se a Deus. Enquanto Gn 1 o designa com o nome hebraico de Elohim (Deus), Gn 2 o chama de Javé Deus. O Deus de Gn 2 é descrito com aparências mais humanas. Ele não cria, mas “faz” as coisas. Suas obras não vêm do nada, mas as fabrica sobre uma terra oca e árida. O Deus de Gn 1, ao contrário, não entra em contato com a criação, mas a faz surgir à distância, como se criasse tudo do nada. Assim, enquanto Deus em Gn 1 aparece em toda a sua grandiosidade (ao som de sua voz vão brotando as criaturas do Universo), em Gn 2, Deus é muito mais simples. Como se fosse um oleiro, modela e forma o homem (v. 7). Como um agricultor, semeia e planta as árvores do paraíso (v. 8). Como um cirurgião, opera o homem, extraindo-lhe a mulher (v. 21). Como um alfaiate, confecciona os primeiros vestidos para o casal, porque estavam nus (3,21). 

Mais divergências – Enquanto em Gn 1 Deus leva seis dias para criar o mundo e no sétimo descansa, em Gn 2 todo o trabalho da criação leva apenas um dia. Em Gn 2 Javé cria somente o homem e, dando-se conta de que está só e de que precisa de uma companheira adequada, oferece-lhe a mulher. Em Gn 1, pelo contrário, Deus faz existir desde o princípio, simultaneamente, o homem e a mulher, como casal. Enquanto em Gn 1 os seres vão surgindo em ordem progressiva, do menor ao maior, ou seja, primeiro as plantas, depois os animais e enfim os seres humanos, em Gn 2 cria-se primeiro o homem (v. 7), mais tarde as plantas (v. 9), os animais (v. 19), e finalmente a mulher (v. 22). Em Gn 1 a criação parte de um ambiente aquático, sendo a terra criada a partir deste ambiente; em Gn 2 tudo era um imenso deserto de terra seca e estéril (v. 5), pois não havia chuva alguma. 

Os autores – Os estudiosos chegaram à conclusão que as duas descrições da criação deveriam ter sido escritas por diferentes autores e em épocas distintas. Denominaram o primeiro como “sacerdotal”, porque atribuíram a um grupo de sacerdotes do século VI a.C. O segundo autor, situado no século X a.C., recebeu o nome de “javista”, porque prefere chamar a Deus com o nome de Javé. 

Ciência – Esta história, que nos entusiasmava quando éramos crianças, nos coloca em sérias dificuldades agora que somos adultos. A Ciência moderna (Teoria da evolução das espécies e Teoria do Big-bang) demonstrou que todo o universo vem se transformando. O homem não foi formado nem do barro nem de uma costela (no princípio não houve apenas um casal). O homem foi evoluindo a partir de seres inferiores (há 3 milhões de anos), até chegar ao homem atual.  

Duas criações? – O mundo não foi criado duas vezes. Existe apenas um mundo, que vem evoluindo há 13,5 bilhões de anos. Os textos do livro do Gênesis são parábolas, relatos imaginários que pretendem deixar um ensinamento às pessoas. Mas, como se escreveram dois relatos tão diferentes? Por que acabaram sendo ambos incluídos num mesmo livro da Bíblia? Na próxima semana vamos ver a origem destas histórias.

sábado, 28 de setembro de 2013

Riqueza é pecado?


Nas missas deste domingo será lido o Evangelho de Lucas (Lc 16,19-31), no qual Jesus conta a história do homem rico e do pobre Lázaro. Enquanto o rico vestia roupas finas e fazia banquetes diários, o pobre ficava no portão comendo o que caia da mesa. Quando morreram, o pobre foi colocado junto a Abraão e o rico passou a sofrer tormentos. Vamos desenvolver o tema. 

Conteúdo – O trecho do Evangelho mostra os ensinamentos de Jesus sobre as riquezas ou, melhor, sobre a questão fundamental da partilha dos bens como necessidade absoluta para os seus discípulos. Os destinatários do Evangelho de Lucas eram as comunidades urbanas das cidades gregas do Império Romano. A imagem da parábola é típica da sociedade urbana – tanto a de então como a de hoje! De um lado, o rico que esbanja dinheiro e comida em banquetes e futilidades, e do outro lado o pobre miserável, faminto e doente. Ambos vivem lado ao lado, sem que o rico tome conhecimento da existência e dos sofrimento dos pobres! Quantos exemplos disso existem hoje – lado ao lado com a maior opulência, a mais desumana miséria, e entre as duas situações uma barreira de cegueira e indiferença? 

Insensibilidade que condena – É importante para a nossa compreensão da parábola, ter claro em mente que os versículos 22 a 26 não dizem que o rico foi para o inferno por que ele fazia algo moralmente repreensível; e nem que Lázaro foi para o céu porque ele era "santo". Por isso, por mais inconveniente que possa soar numa sociedade como a nossa, dá para entender que este trecho condena o rico simplesmente por ser insensível numa sociedade de empobrecimento, e abençoa o pobre pelo simples fato de estar sofrendo a miséria numa sociedade que esbanja os bens necessários para a vida.  

Pecado – A riqueza torna-se pecado diante da situação desumana dos pobres, pois é a negação da partilha e da solidariedade! O rico foi condenado por que ele simplesmente se fechou diante do sofrimento alheio. E este fechamento é a negação de todo o ensinamento do Antigo e do Novo Testamentos. O simples fato de existir lado a lado o rico opulento e o Lázaro sofrido, é a condenação de uma sociedade pecaminosa que permite esta situação antievangélica. 

Palavra tão atual! – Não é por falta de conhecimento da Palavra de Deus que o mundo se acha na sua situação atual. Não é por desconhecimento do ensinamento de Jesus sobre a fraternidade e a solidariedade que temos uma sociedade excludente hoje no Brasil! Não é por falta de celebrações litúrgicas e sacramentais que há tanto sofrimento nas nossas ruas e bairros!  

“Cristianismo” refratário? – É simplesmente porque a sociedade opta por se organizar conforme critérios antievangélicos, e porque tantos cristãos reduzem o cristianismo a uma série de leis e doutrinas – muitas vezes não ultrapassando muito uma simples lista de "boas maneiras". Optamos por diluir as exigências do Evangelho para que possamos continuar com os "ricos" e os "Lázaros" de hoje, lado a lado, sem que estes incomodem aqueles! Sabemos o que a Bíblia diz, conhecemos muito bem o ensinamento de Jesus – e continuamos na construção de uma sociedade injusta, fundamentada sobre a idolatria do lucro, com a consequência automática do sofrimento e exclusão. 

Ai dos que não ouvem a Palavra... – O rico e o pobre continuam morando hoje em nossas cidades. Jesus hoje nos desafia para que optemos por uma outra forma de sociedade, onde todos terão acesso aos bens necessários para uma vida digna. Se não queremos ouvir o que nos diz a Palavra de Deus, se nós queremos continuar surdos diante do grito dos excluídos, então o nosso destino será também aquele do rico da história.

domingo, 22 de setembro de 2013

Com quem se casou Caim, o filho de Adão e Eva?


O primeiro homicida – Conta a Bíblia que, pouco tempo antes de serem expulsos do Paraíso, Adão e Eva tiveram dois filhos chamados Caim e Abel (Gn 4). O mais velho dedicava-se à agricultura e o mais novo era pastor. Eram muito religiosos e ofereciam os frutos de seus trabalhos a Deus: Caim, o produto do campo e Abel, as primícias do rebanho. Como Deus só se comprazia com a oferenda de Abel, Caim começou a alimentar o ódio contra seu irmão. Até que um dia convidou-o a ir ao campo e aí o atacou e o matou. 

Contradições do texto – O relato começa dizendo que Caim era lavrador e Abel pastor de ovelhas (Gn 4,2). Mas, se ambos são filhos dos primeiros homens, isso é impossível. Segundo a paleontologia, os primeiros seres humanos que surgiram sobre a terra, há dois milhões de anos, viviam da caça, da pesca e dos frutos naturais do solo. A domesticação de animais só apareceu 10.000 anos a.C. e a agricultura mais tarde ainda, uns 8.000 a.C. Como poderia Caim conhecer a agricultura e Abel ser pastor? Em Gn 4,4 conta-se que Abel oferecia a Deus as primícias do rebanho e a gordura dos animais. Mas a ordem de Deus para a oferta dos primogênitos dos rebanhos aconteceu séculos depois, a Moisés, no Monte Sinai (Ex 34,19). Como poderia Abel oferecer o que ainda não estava mandado? 

Mais contradições – Mais adiante, Caim convida seu irmão a ir para o campo com ele (Gn 4,8). Mas, por acaso, eles viviam na cidade, quando existiam apenas quatro pessoas no mundo? Depois de seu crime, Caim exclama: “Quem me encontrar, matar-me-á” (Gn 4,14). Quem poderia matá-lo, senão Adão ou Eva? Mas, talvez, o que mais assombre os leitores seja a leitura de Gn 4,17, onde se afirma que Caim se casou e sua mulher ficou grávida. De onde apareceu essa mulher? A única mulher que existia era Eva!  

A origem da história – Quando os hebreus se estabeleceram na Palestina (depois do êxodo do Egito) havia uma lenda sobre um antigo herói chamado Caim, fundador de uma famosa tribo beduína, chamada “cainita”, que habitava o deserto, ao sul de Israel. A história incluía também seu casamento e o nascimento de seu filho Henoc (Gn 4,17). A história não tinha nenhuma relação com Adão e Eva. 

O homicida Caim – Chamava a atenção dos hebreus o fato de os cainitas viverem em pleno deserto, isolados das terras cultivadas. Perguntavam então: por que os cainitas levam vida tão penosa e errante, longe da terra prometida e abençoada por Deus? Diziam que se tratava de um castigo de Deus, que os havia condenado a viver errantes por causa de algum delito cometido pelo seu fundador. Que tipo de delito? Não sabiam, mas, como os cainitas destruíam as terras cultivadas de suas tribos irmãs de raça, imaginaram que o delito de Caim era contra seu irmão. Com o tempo, foi acrescentada a história do irmão assassinado. Assim imaginaram a lenda da morte de Abel. 

O irmão que faltava – Assim foi que esta história entrou numa segunda etapa. Aquele legendário herói, chamado Caim, fundador dos cainitas, a tradição hebréia o converteu, pouco a pouco, num fratricida condenado por Deus a viver uma vida errante. 

Plágio em nome de Deus – Mais tarde, na época do rei Salomão, a história de Caim passou para uma terceira etapa. Quando foi escrito o livro do Gênesis, o autor se deu conta que a lenda oferecia muitas possibilidades. Caim se prestava perfeitamente para aprofundar a explicação da presença do mal no mundo. E, com alguns retoques, Caim se tornou filho de Adão e Eva (apesar das incoerências). Diante da angustiante pergunta sobre a razão do mal, o autor teria respondido com a história de Adão e Eva: porque o homem desobedeceu a Deus. Contudo, esse diagnóstico ainda era insatisfatório. Dizer que só quando o homem peca contra Deus é que se produz uma desordem no mundo, era dizer a metade. Com a história de Caim, pode completar seu ensinamento, dizendo que o mal também vai crescendo no mundo pelos delitos contra os demais homens. 

A ampliação de Jesus – A lenda de Caim fomentou o ensinamento do respeito ao irmão da mesma forma com que se respeitava a Deus. Os judeus, porém, consideravam irmão apenas os outros judeus, excluindo o resto das nações. Por isso Jesus, muitos séculos mais tarde, voltaria a atualizar este mesmo ensinamento: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como se ama a si mesmo. E quando lhe perguntaram quem era o próximo, ampliou a interpretação desta palavra e a estendeu a todos os homens com os quais nos encontramos nos caminhos da vida (Lc 10,25-37). Lá nos começos da pré-história bíblica, o relato de Caim ensina-nos que, para encontrar o equilíbrio da vida é necessário o respeito ao próximo e a Deus.

sábado, 14 de setembro de 2013

A Bíblia proíbe fazer imagens?


Na primeira leitura das missas deste domingo (Ex 32,7-11), o Senhor fala a Moisés que o povo se corrompeu, prostrando-se e oferecendo sacrifícios a um bezerro de metal. Deus realmente condena fazer imagens? Está proibido na Bíblia? 

O mandamento que falta – Se verificarmos a lista dos Dez Mandamentos contida em Êxodo 20, iremos ver que o segundo mandamento tem o seguinte texto “Não farás para ti ídolos, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, nem embaixo, na terra, nem do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles, nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento...” (Ex 20,4-5). 

Que dizia a Lei – Se continuamos lendo a Bíblia, isso parece confirmar-se: o Levítico ordena que não se façam ídolos, imagens, nem pedras esculpidas para ajoelhar-se diante delas (Lv 26,1); Deuteronômio (4, 16-18) alerta sobre o mesmo tema e isso era tão grave que se penalizava com uma maldição aquele que o fizesse (Dt 27,15). 

Ordens de Deus – No entanto, em várias passagens bíblicas do Antigo Testamento as imagens eram permitidas. Em alguns casos, Deus mesmo ordenou a construção de imagens sagradas: mandou fabricar a arca da aliança com um querubim de ouro de cada lado (Ex 25,18); o candelabro de sete braços, no interior da Tenda Sagrada, tinha gravadas flores de amendoeira (Ex 31,1-5). Gedeão fabricou uma figura de Javé, a quem os israelitas prestavam culto (Jz 8,24-27). Micas construiu uma efígie de prata de Javé e um santuário para prestar-lhe culto (Jz 18,31). Até o próprio rei Davi tinha imagens divinas em casa (1Sm 19,11-13). 

Um templo sem preconceitos – E que dizer do majestoso templo de Jerusalém, construído por Salomão? Pelas descrições bíblicas, parece que estava abarrotado de representações e esculturas (1Rs 6,23). O interior estava totalmente decorado com imagens de querubins, vegetais (1Rs 6,29) e doze magníficos touros de metal (1Rs 7,25). Os recipientes para as abluções litúrgicas estavam revestidos com imagens de leões, bois e querubins (1Rs 7,29). Tudo com o consentimento do próprio Deus. 

Nem uma só voz - E apesar daquele segundo mandamento, nunca encontramos na Bíblia um só profeta antigo que censure as imagens. Eles, que eram os sentinelas de Deus, que erguiam a voz diante de todo pecado do povo, que não permitiam o menor desvio, guardaram silêncio durante séculos. 

Plenitude dos tempos - Então chegou o tempo em que o próprio Deus, que se mantivera invisível, quis fazer-se imagem, para que todos pudessem contemplá-lo. E se, na antiga Aliança tinha se revelado ao povo sem imagem, na nova Aliança considerou ser imprescindível ter uma e ser visto. Por isso, quis achegar-se aos homens através de uma figura, a de Cristo, para que o ouvissem, o tocassem e o sentissem. 

Novo Testamento – São Paulo, que vivera durante algum tempo cumprindo a lei antiga, compreendeu muito bem isso, ao falar de “Cristo, a imagem de Deus” (2Cor 4,4). E, num belo hino, canta que Cristo é a imagem do Deus invisível (Cl 1,15). Falando, um dia, com o apóstolo Felipe, Jesus já o antecipara: “Quem me viu a mim, viu o Pai” (Jo 14,8). Portanto, se o próprio Deus quis deixar de permanecer oculto e fazer-se ver numa imagem, quem somos nós para proibir de representá-lo?  

E o Mandamento? – Como se vê, o mandamento (Ex 20, 4-5) sobre as imagens no Antigo Testamento tinha uma função pedagógica e, portanto, temporal. Assim entenderam os cristãos, desde tempos antigos: quando enumeravam os mandamentos, pulavam sempre o segundo, ao passo que desdobravam o último em dois para que continuassem sendo dez. As listas de mandamentos que nos chegaram escritas, do século IV, já não incluem a proibição das imagens. Por isso chama a atenção que as seitas modernas tentem conservá-la. 

Lutero – Os protestantes, quando se separaram da Igreja Católica, no século XVI, reagiram contra os excessos no culto das imagens e provocaram a destruição de muitas delas. No entanto, Lutero não foi tão intolerante. Ao contrário, reconheceu a importância que elas tinham. Numa carta, datada de 1528, escreveu: “Penso que, no que diz respeito às imagens, símbolos e vestes litúrgicas... e coisas semelhantes, deixe-se à livre escolha. Quem não quiser essas coisas, deixe-as de lado. Se bem que as imagens inspiradas na Bíblia ou em histórias edificantes, parecem-me ser muito úteis”. Lutero percebeu muito bem a essência da questão: não se trata de adorar uma imagem, mas sim de adorar a Deus. 

Quer ler mais – O artigo acima é baseado no texto “A Bíblia proíbe fazer imagens? de autoria do teólogo Ariel Álvares Valdés. Se você se interessou pelo assunto, podemos lhe enviar o texto original (10 páginas em português) e a carta de Martinho Lutero (2 páginas em português) sobre imagens, escrita em 1528. Também disponibilizamos o texto “Os católicos adoram imagens?”, de autoria do Pe. Milton Carraschi, publicado nesta coluna no ano 2000. Solicite por E-mail.

sábado, 7 de setembro de 2013

As condições para ser seguidor de Jesus


No Evangelho das missas deste domingo (Lc 14, 25-33) Jesus se dirige às multidões com palavras bastante duras: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. 

Caminho – Com estas palavras Ele traça as coordenadas do “caminho do discípulo”: é um caminho em que o “Reino” deve ter a primazia sobre as pessoas que amamos, sobre os nossos bens, sobre os nossos próprios interesses e esquemas pessoais. Quais são então, na perspectiva de Jesus, as exigências fundamentais para quem quer seguir o “caminho do discípulo” e chegar a sentar-se à mesa do “Reino”? Jesus põe três exigências, todas elas subordinadas ao tema da renúncia. 

A primeira – Exige o preferir Jesus à própria família.  A este propósito, Lucas põe na boca de Jesus uma expressão muito forte. Literalmente, podemos traduzir o verbo “misséô” como “odiar” (“quem não odeia o pai, a mãe… não pode ser meu discípulo”). À primeira vista, a leitura pode nos chocar! Pode até parecer que Jesus esteja ensinando algo que não condiz muito com os ensinamentos cristãos. Para ser discípulo, é preciso odiar alguém? Não. Segundo a maneira semita de falar (no caso de Jesus, ele falava o aramaico), “odiar” significa “pôr em segundo lugar algo porque, entretanto, apareceu na vida da pessoa um valor que ainda é mais importante”. É evidente que Jesus não está pedindo o ódio a ninguém, muito menos a esses a quem nos ligam laços de amor… Está, sim, exigindo que as relações familiares não nos impeçam de aderir ao “Reino”. Se for necessário escolher, a prioridade deve ser do “Reino”. 

A segunda – Exige a renúncia à própria vida. O discípulo de Jesus não pode viver fazendo opções egoístas, colocando em primeiro lugar os seus interesses, os seus esquemas, aquilo que é melhor para ele; mas tem de colocar a sua vida ao serviço do “Reino” e fazer da sua vida um dom de amor aos irmãos, se necessário até a morte. Foi esse, de fato, o caminho de Jesus e o discípulo é convidado a imitar o mestre. 

A terceira – Exige a renúncia aos bens. Jesus sabe que os bens podem facilmente transformar-se em deuses, tornando-se uma prioridade, escravizando o homem e levando-o a viver em função deles; assim sendo, que espaço fica para o “Reino”? Por outro lado, dar prioridade aos bens significa viver de forma egoísta, esquecendo as necessidades dos irmãos. Ora, viver na dinâmica do “Reino” implica viver no amor e deixar que a vida seja dirigida por uma lógica de amor e de partilha… Pode-se, então, viver no “Reino” sem renunciar aos bens?
 
Exigências – Com este rol de exigências, fica claro que a opção pelo “Reino” não é um caminho de facilidade e, por isso, talvez não seja um caminho que todos aceitem seguir. É por isso que Jesus recomenda que as implicações e as consequências da opção pelo “Reino” sejam bem pesadas. A parábola do homem que, antes de construir uma torre, pensa se tem com que terminar a construção e a parábola do rei que, antes de partir para a guerra, pensa se pode opor-se a outro rei com forças superiores, convidam os candidatos a discípulos a tomar consciência da sua força, da sua vontade, da sua decisão em corresponder aos desafios do Evangelho e em assumir, com radicalidade, as exigências do “Reino”.