sábado, 23 de outubro de 2021

JESUS CRISTO ERA SACERDOTE?

 

Na segunda leitura da missa deste domingo continuaremos a ler a Carta aos Hebreus. Nesta Carta, o tema mais enfatizado é a proclamação de Jesus como sacerdote, pois este reconhecimento era essencial para proclamar Jesus como o Messias, o Cristo ungido de Deus.


Messias – Nos primeiros séculos, uma das dificuldades do cristianismo era provar aos judeus que Jesus era o Messias, o Cristo esperado pelos judeus. Conforme o Antigo Testamento, este personagem deveria ter três características prometidas por Deus para o final dos tempos: um profeta, um rei e um sacerdote. Para Jesus ser o Messias, ele deveria ter as três qualidades.

 

Profeta, rei, sacerdote – A vinda de um profeta no final dos tempos foi comunicada por Deus a Moisés no livro do Deuteronômio (18,18): “Suscitarei um profeta como tu entre teus irmãos”. A promessa de um rei está no 2º Livro de Samuel (7,12), onde Deus diz a Davi: “Quando tu morreres eu mandarei um descendente teu e manterei o seu trono para sempre”. Finalmente, a promessa de um futuro sacerdote santo foi para Eli: “Mandarei um sacerdote fiel, que atue segundo a minha vontade” (1Sam 2, 35).

 

Jesus: Profeta e Rei – Cristo foi reconhecido como “profeta” (Mc 9,8), como “grande profeta” (Lc 7,16) e como “o profeta” (Jo 6,14). Também foi reconhecido como “rei” (Mt 21,9), como “o rei que vem em nome do Senhor” (Lc 19,38), como “o rei de Israel” (Jo 12,13).  O próprio Pedro reconhece Jesus como o profeta prometido (Hb 3,22) e como rei esperado (Hb 2,36).

 

Jesus Sacerdote – Porém jamais, em nenhuma ocasião, Jesus foi reconhecido como sacerdote. Isto por uma clara razão: para ser sacerdote ele deveria pertencer a tribo de Levi, e Jesus pertencia à tribo de Judá. Portanto, para os judeus, Jesus era um leigo. Explicando melhor: Quando os Hebreus chegaram à Terra Prometida, se dividiram em 12 tribos. Só poderiam ser sacerdotes os descendentes da tribo de Levi (chamados levitas). Jesus pertencia à tribo de Judá, portanto nunca poderia ser aceito como sacerdote.

 

Solução – Por volta do ano 80 d.C. apareceu na cidade de Roma um personagem de grande cultura e grande conhecimento da língua grega. Este autor, que para nós permanece anônimo, escreveu a Carta aos Hebreus, esclarecendo que Jesus poderia ser sacerdote. Na Carta ele desenvolve o seguinte raciocínio: interpretando o Salmo 110 (vers. 4), em que Deus diz “tu és sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedec”, ele afirma que Deus criou uma nova ordem de sacerdotes, distinta da ordem dos levitas. Jesus Cristo desceu dos céus para ser o sumo sacerdote desta nova ordem.

 

Quem era? – Melquisedec é proclamado como “rei de Salém” e “sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14). Foi ao encontro de Abrão, abençoou-o, entregando-lhe pão e vinho. Trata-se de um personagem estranho, pois o texto não indica as suas origens nem a sua ordem sacerdotal.

 

Nova ordem – Portanto Cristo é o primeiro sacerdote, protagonista e iniciador de uma nova ordem de sacerdotes. Pela interpretação do Salmo (110, 4) e da Carta aos Hebreus a Igreja Católica proclama Jesus como “sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedec”.

 

VOCÊ GOSTOU DO ASSUNTO E QUER SABER MAIS? Se você se interessou pelo assunto, podemos lhe oferecer um texto de 12 páginas (em espanhol), escrito pelo teólogo Ariel Valdés, com detalhes sobre o assunto. Solicite por E-mail.

sábado, 16 de outubro de 2021

A ambição pelo poder

  


Evangelho – No Evangelho deste domingo (Mc 10,35-45), Jesus é procurado pelos apóstolos Tiago e João (filhos de Zebedeu) que lhe pedem uma posição de destaque no Reino de Deus: “Deixai-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!" (v. 37). Jesus responde que não depende dele conceder o lugar à direita ou à esquerda; estes lugares pertencem àqueles a quem foi reservado. Os outros dez apóstolos, ao ouvirem o pedido, se revoltam contra Tiago e João.

 Situação – No esquema do evangelho de Marcos, o texto situa-se quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a sua missão. Pela terceira vez, ele tem dado aos seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre a sua paixão de morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo (v.33).

 Cegos – De novo, a afirmação deixa mais do que claro o que significa ser o Messias de Deus. Mas, não surte efeito: os discípulos, cegos pela ideologia dominante, são incapazes de entender o sentido da vida de Jesus e, por conseguinte, o sentido de ser discípulo dele. Como Pedro, depois do primeiro anúncio e todos os Doze, depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir o ensinamento de Jesus numa tentativa de impor seus próprios interesses.

 O poder – Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar a sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse na sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos, que Mateus, relatando a mesma historia, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido! (Mt 20,20). A queixa de Deus no Antigo Testamento, de que o seu povo era um povo “cabeça dura”, se atualiza nos Doze!!

Os outros – Mas não podemos pensar que só os dois filhos de Zebedeu sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João” (v. 41). Porque ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder!! O vírus de dominação é mais do que contagioso!

 Servir – Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com os seus seguidores. Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade dos seus discípulos: “Não deve ser assim entre vós: Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos” (v. 43-44). Deixa bem claro o motivo – não por causa de uma humildade qualquer, mas porque ele nos deu o exemplo: “porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (v.45). Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática do que ele!

Hoje – O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente o contraste feito por Jesus entre os seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Ninguém pode se achar imune diante desta tentação, pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstra que “entre vocês não deve ser assim”.

sábado, 2 de outubro de 2021

Judeus usam a ‘pegadinha’ do divórcio

 

O texto do Evangelho das missas deste domingo (Mc 10,2-16) acontece durante a última viagem de Jesus a Jerusalém. Estamos em fevereiro do ano 30. Em pouco mais de um mês, Jesus será preso, condenado e crucificado. Alguns fariseus, tentando obter uma prova para condenar Jesus, perguntam: “Um homem pode mandar a sua esposa embora?”

 Fariseus – Neste trecho do Evangelho de Marcos, os fariseus se encontram com Jesus e tentam colocá-lo à prova com a pergunta: “Pode um homem repudiar a sua mulher?” (Mc 10, 2). Cabe lembrar que Jesus e seus discípulos estavam em território da Peréia (transjordânico), governado por Herodes Antipas. Foi nessa mesma região que João Batista foi preso e degolado, por denunciar o divórcio ilegal e o casamento ilícito de Herodes Antipas com sua cunhada Herodiades. Os fariseus instigavam Jesus a ter a mesma atitude de João, pensando que com isso Ele teria o mesmo destino. O que os fariseus queriam era que Jesus se tornasse intolerável política e religiosamente.

 Judaísmo – No judaísmo, duas correntes de opiniões se contrapunham: para uma delas (escola de Hillel, mais liberal), era lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo (até se “o feijão queimasse”), e a decisão do marido era soberana, conforme o seu julgamento ou vontade; para a outra (escola de Shammai, mais conservadora), ao contrário, era preciso um motivo grave, previsto pela Lei.

 Resposta – Os fariseus submeteram esta questão a Jesus, esperando que adotasse uma postura a favor de uma ou outra tese. Mas, receberam uma resposta que não esperavam: “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés escreveu esse mandamento.  Mas, desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe, e os dois serão uma só carne. Portanto, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar”.

 Moisés – A lei de Moisés sobre o repúdio é vista por Cristo como algo não desejado, mas tolerado por Deus por causa da dureza de coração e da imaturidade humana. Jesus não critica Moisés pela concessão feita; reconhece que, nesta matéria, o legislador humano não pode deixar de levar em conta a realidade. Mas, volta a propor a todos o ideal originário da união indissolúvel entre o homem e a mulher (uma só carne) que, ao menos para seus discípulos, deverá ser a única forma possível de matrimônio.

sábado, 25 de setembro de 2021

MATEUS: O COBRADOR DE IMPOSTOS

  


No dia 21 de setembro, a Igreja comemora São Mateus, Evangelista, também chamado de Levi e apóstolo de Jesus.

 Impostos – No Império Romano, os impostos eram cobrados em todas as províncias, pois era necessário pagar as contas do imperador e manter o Império. Basicamente, dois tipos de impostos eram cobrados: sobre as propriedades (terras e prédios), arrecadado do povo em recenseamentos e o imposto sobre a circulação de mercadorias, arrecadado em pedágios.

 Cobradores – Para coletar os impostos das províncias, o Império Romano dispunha pessoas nativas de cada lugar encarregadas de recolher as taxas de impostos que o povo devia pagar ao Imperador. Elas eram chamadas de coletores de impostos ou publicanos. Na época de Jesus, esse era um dos trabalhos mais indignos de serem feitos. Afinal, um judeu que cobrasse impostos de seu próprio povo para ajudar o Império Romano era visto como o mais sujo entre a população.

 Terceirização – Os cobradores de impostos auferiam lucros cobrando um imposto mais alto do que a lei permitia. Os coletores licenciados pelo Império contratavam oficiais de menor categoria, chamados de publicanos, para efetuar o verdadeiro trabalho de coletar. Os publicanos recebiam seus próprios salários cobrando uma fração a mais do que seu empregador exigia. Os Evangelhos citam Zaqueu como chefe dos coletores (Lc 19,2) e o apóstolo Mateus como publicano (Mc 2,13-14).

 Pedágio – O discípulo Mateus era um desses publicanos; ele coletava pedágio na estrada entre Damasco e Aco; sua tenda estava localizada fora da cidade de Cafarnaum, o que lhe dava a oportunidade de, também, cobrar impostos dos pescadores. Normalmente um publicano cobrava 5% do preço da compra de artigos normais de comércio, e até 12,5% sobre artigos de luxo. Mateus cobrava impostos também dos pescadores que trabalhavam no mar da Galiléia e dos barqueiros que traziam suas mercadorias das cidades situadas no outro lado do lago.

 Impuro – Os judeus consideravam impuro o dinheiro dos cobradores de impostos, por isso nunca pediam troco. Para agravar a situação, os judeus eram proibidos por lei divina de tocarem as moedas do Império Romano, pois traziam a esfinge do imperador. Por consequência, os cobradores de impostos, que as manuseavam com frequência, eram considerados pecadores públicos, impuros e mal vistos. Não era permitido aos publicanos prestar depoimento no tribunal, e não podiam pagar o dízimo de seu dinheiro ao Templo. Os fariseus, muito ciosos da sua santidade, mudavam de passeio público, quando viam um publicano, na rua, vir ao seu encontro. Eles evitavam até que a sombra do publicano passasse sobre eles. Eram, portanto, gente desclassificada (apesar de rica), impura, considerada amaldiçoada por Deus e, portanto, completamente à margem da salvação.

 Um Publicano Apóstolo? – Vejam a situação extraordinária criada por Jesus: Ele não só chama um publicano para o seu grupo de discípulos, como também aceita sentar-se à mesa com ele (estabelecendo, assim, laços de familiaridade, de fraternidade, de comunhão). O comportamento de Jesus não é só ofensivo à moral e aos bons costumes, mas uma verdadeira provocação. Jesus reúne num mesmo grupo várias classes sociais: pescadores (Pedro, Tiago, João, André), nacionalistas (Simão), publicanos, etc.

 Mateus – O relato da vocação de Mateus é semelhante ao chamamento de outros apóstolos (Mt 4,18-22): são homens que estão trabalhando, a quem Jesus chama e que, deixando tudo, seguem Jesus. No entanto, um dado novo em relação a outros relatos de vocação: Jesus demonstra que, no “Reino”, há lugar para todos, mesmo para aqueles que o mundo considera desclassificados e marginais. Deus tem uma proposta de salvação para apresentar a todos os homens, sem exceção; e essa proposta não distingue entre bons e maus: é uma proposta que se destina a todos aqueles que estiverem interessados em acolhê-la.

sábado, 18 de setembro de 2021

JESUS X NIETZSCHE

  


No Evangelho deste domingo (Marcos 9, 30-37), Jesus termina a sua viagem pela Galiléia e chega a Cafarnaum. Estamos em agosto do ano 29. Jesus estava chegando de uma longa viagem de vários meses: saiu da região das cidades de Tiro e Sidom, atravessou a Fenícia, passou próximo da cidade de Cesaréia de Felipe e, finalmente, chegou a Cafarnaum.

 Primeiro e último – Sabendo o que os discípulos haviam discutido durante a viagem, Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: "Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!" Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: "Quem acolher, em meu nome, uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher está acolhendo não a mim, mas àquele que me enviou".

 Uma questão – Será que, com estas palavras, Jesus condena o desejo de sobressair, de fazer grandes coisas na vida, de dar o melhor de si, e privilegia, ao contrário, a apatia, o espírito de abandono, os negligentes?

 Nietzsche – Assim pensava o filósofo Nietzsche (Friedrich Nietzsche, filósofo alemão que viveu entre 1844 e 1900), que se sentiu no dever de combater ferozmente o cristianismo por ter (em sua opinião) introduzido, no mundo, o “câncer” da humildade e da renúncia. Em sua obra “Assim falou Zaratustra”, ele opõe a este valor evangélico o da “vontade de poder”, encarnado pelo “super-homem”, o homem da “grande saúde”, que quer levantar-se, não se abaixar.

 Ser o primeiro – Pode ser que os cristãos, às vezes, tenham interpretado mal o pensamento de Jesus e tenham dado ocasião a este mal-entendido. Mas, certamente, não é isso o que o Evangelho quer nos dizer. “Se alguém quiser ser o primeiro...” indica que é possível querer ser o primeiro, não está proibido, não é pecado. Jesus não só não proíbe o desejo de querer ser o primeiro, mas, o estimula.

 Ser o último – Só que revela uma via nova e diferente para realizá-lo: não à custa dos outros, mas a favor dos outros. De fato, acrescenta: “... seja o último de todos e o servidor de todos”. Mas, quais são os frutos de uma ou outra forma de sobressair? A ânsia de poder conduz a uma situação na qual a pessoa se impõe e os outros servem; e a pessoa é “feliz”, enquanto os outros são infelizes; só se sente vencedor com todos os outros derrotados e se domina, com os outros dominados.

 Guerras? – Sabemos os resultados alcançados com o “ideal do super-homem” alardeado por Hitler. Aliás, não se trata só do nazismo: quase todos os males da humanidade provêm dessa raiz. Na segunda leitura deste domingo, Tiago propõe a angustiosa e perene pergunta: “De onde procedem as guerras?”. Jesus, no Evangelho, nos dá a resposta: do desejo de dominar! Domínio de um povo sobre outro, de uma raça sobre outra, de um partido sobre os outros, de um sexo sobre o outro, de uma religião sobre a outra...

 Serviço – No serviço, ao contrário, todos se beneficiam da grandeza das pessoas. Quem é grande no serviço, se torna grande e torna os outros grandes também; mais que elevar-se acima dos outros, eleva os demais consigo. É o caso de Madre Teresa de Calcutá, Raoul Follereau e todos os que diariamente servem à causa dos pobres e dos feridos das guerras, frequentemente arriscando sua própria vida.

 QUER LER MAIS – Se você gostou do assunto e que saber mais, podemos lhe oferecer o livro “Assim falou Zaratustra” (351 pág. em português), escrito por Nietzsche em 1883. Solicite por E-mail.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

A FÉ SEM OBRAS É MORTA

Nas missas deste domingo será lida a Carta de Tiago (Tg 2,14-18), na qual o autor discorre sobre fé e obras. No versículo 17, o autor escreve: “a fé sem obras está completamente morta”. Esta é uma das questões que motivou a Reforma Protestante. A salvação se dá somente pela fé ou pela fé mais as obras? Sou salvo apenas por crer em Jesus ou tenho que crer em Jesus e fazer certas coisas?

 

A Carta de Tiago – Trata-se de uma carta enviada aos cristãos de origem judaica, dispersos no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina – como a Síria, o Egipto ou a Ásia Menor. O objetivo fundamental do autor é exortar os crentes para que não percam os valores cristãos autênticos, herdados do judaísmo através dos ensinamentos de Cristo.

 

A Fé – Segundo o autor do texto, a fé se expressa, não através de ritos formais ou de palavras ocas, mas através de ações concretas em favor do homem (Tg 2,14-26). No geral, este capítulo convida os crentes a assumirem uma fé operativa, que se traduza num compromisso social e comunitário.

 

Paulo X Tiago (1º round) – A questão da fé somente ou fé mais as obras se faz delicada, por causa de algumas passagens bíblicas de difícil interpretação. Comparando-se a Carta de São Paulo aos Romanos (Rom 3,28 e 5,1) e aos Gálatas (Gal 3,28) com a Carta de Tiago (Tg 2,17), notamos uma diferença conceitual: enquanto Paulo garante que “é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras”, Tiago afirma que “a fé sem obras não serve para nada”.

 

Paulo X Tiago (2º round) e a Reforma de Lutero – A questão existente entre a fé e as obras foi objeto de muitas discussões, sobretudo a partir do séc. XVI. A afirmação de Paulo, na Carta aos Romanos, foi usada por Lutero para fundamentar a sua teologia da salvação pela fé: a salvação não depende das ações do homem, mas é um dom gratuito e imerecido que Deus, na sua infinita misericórdia, oferece ao homem.

 

Paulo X Tiago (3º round) – Este aparente problema é resolvido quando se examina o que diz Tiago: nega a crença de que a pessoa possa ter fé sem produzir quaisquer boas obras (Tg 2,17-18). Tiago está enfatizando o argumento de que a fé genuína em Cristo produzirá uma vida transformada e boas obras (Tg 2,20-26). O que o autor quer dizer é que a fé tem de traduzir-se em ações concretas de compromisso com o mundo e com os homens. Se isso não acontecer, essa fé é apenas uma declaração de boas intenções, mas que não passa de uma farsa sem valor e sem conteúdo.

 

Adesão – A adesão a Jesus e ao seu projeto significa que o homem está disposto a acolher essa vida nova e plena que Deus, gratuitamente e sem condições, lhe oferece (salvação). Essa vida, interiorizada e assumida, tem de transparecer em gestos de amor, de solidariedade, de fraternidade, de serviço, de partilha, de perdão. A vivência da fé tem, portanto, de se traduzir na vida do dia a dia, especialmente na forma como se vive a relação com esses irmãos com quem cruzamos nos caminhos do mundo. Se isso não acontece, quer dizer que a fé é uma mentira.

 

Gestos concretos – Os bonitos discursos que fazemos, os conselhos muito sábios que damos, as teorias bem elaboradas que apresentamos, as reflexões muito piedosas que impingimos, não passam de belas palavras que podem não significar nada. Quando um irmão tem fome ou não tem o que vestir ou está sofrendo, é preciso ir ao seu encontro e manifestar-lhe, com gestos concretos, o nosso amor, a nossa solidariedade, a nossa fraternidade. A nossa religião tem de manifestar-se na vida e tem de transparecer nos nossos gestos.

 

Quer ler mais – Se você quer ler mais detalhes sobre a Reforma Protestante de Lutero, podemos lhe oferecer dois textos: “As 95 teses de Lutero” e “As Linhas doutrinárias de Lutero”. Solicite por E-mail.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

"Efatá." Abre-te!

 


O acontecimento relatado por Marcos 7, 31-37, que veremos neste domingo, acontece em junho do ano 29, quando Jesus está na região da Fenícia, entre as cidades de Tiro e Sidon. As duas cidades existem até hoje e distam 30 quilômetros entre si. Na época de Jesus, eram cidades muito ricas e formavam uma região totalmente pagã.

 Viagem – Jesus viajou desta região para o mar da Galiléia e chegou à região da Decápole. Durante a viagem, lhe trouxeram um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse as mãos. Jesus colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e, com a saliva, tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que quer dizer "Abre-te!" Imediatamente, seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade.  Jesus recomendou que não contassem a ninguém, mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. Muito impressionados, diziam: "Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.

 Milagre – Mais uma vez, estamos diante de um milagre de Jesus, que manifesta o poder de Deus que age nele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas. Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros – uma pessoa sofrendo (neste caso de surdez e incapacidade de falar corretamente), a compaixão da parte de Jesus, que o leva a atender o pedido de uma cura, a cura em si, a proibição de espalhar a notícia (o "Segredo Messiânico), e a incapacidade das testemunhas de guardar o segredo.

 Identidade – A violação da proibição, por parte da multidão, traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus, dando a impressão de que ele é muito mais do que um simples curador! As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante dele (7,37) são tiradas de uma seção apocalíptica de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz presente.

 Segredo Messiânico – O que é isso? Provavelmente, faz parte da insistência de Marcos, de que Jesus é mais do que um milagreiro, e que a sua verdadeira identidade só se revelará na sua Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá, e não diante dos milagres, que Jesus é proclamado "Filho de Deus" por um homem – o oficial que exclamou a pé da Cruz, vendo como Jesus havia expirado. Para Marcos, uma fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus por motivos errôneos e duvidosos. Para corrigir essa tendência na sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus com o título messiânico "Filho de Deus" ao pé da Cruz, onde não há lugar para dúvidas.

 Hoje – Podemos ver um sentido mais simbólico para os nossos dias na cura relatada – o de abrir os ouvidos e soltar as línguas: o sistema hegemônico de hoje e os meios de comunicação, frequentemente atrelados e coniventes, procuram tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos sofridos. Fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões, escondendo-a ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos noticiários de televisão.

 Oprimidos – Também as forças dominantes, cada vez mais, deixam os excluídos sem voz: na nossa sociedade consumista, só pode ter voz ativa quem produz e consome. Diante da surdez e mudez físicas, Jesus cura! O evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem ajudar as pessoas, para que ouçam o grito dos oprimidos e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem foi tirada.

 Igreja – Jesus fez bem todas as coisas – fez os surdos ouvirem e os mudos falarem! Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais – que possamos ajudar a devolver, aos ensurdecidos pela ideologia dominante, a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores; e, aos os sem-voz, a recuperar a voz ativa, nas decisões das igrejas e da sociedade em geral.